terça-feira, 6 de março de 2012

Santa Ângela da Cruz

Nascimento e infância

Maria de los Angeles Guerrero González nasceu nos arredores de Sevilha, em 30 de janeiro de 1846, sendo batizada três dias depois. Seus piedosos pais, Francisco Guerrero e Josefa González, trabalhavam como empregados no convento da Santíssima Trindade, cozinhando, costurando e lavando a roupa dos frades.

A família Guerrero também era responsável pelo cuidado de um dos altares da igreja paroquial, que seus filhos consideravam um prolongamento de sua própria casa. Desde os 3 ou 4 anos, Angelita — como era chamada nossa pequenina santa — costumava passar horas ajoelhada diante da imagem da Santíssima Virgem da Saúde, conversando com Nossa Senhora e chamando-a de Mãe. Gostava também de passear pelos altares laterais, atirando beijos às imagens dos santos.

Quase não foi à escola. Aprendeu a ler, escrevia com letra vacilante e muitos erros ortográficos, mas sabia com perfeição o Catecismo. Um dia, ouviu seu pai pedir à esposa algumas moedas de “um quarto”, que circulavam na época. Em sua cândida inocência, Angelita disse ao pai, com toda segurança:

— O quarto? Honrar pai e mãe! — referindo-se ao quarto Mandamento da Lei de Deus.

Os pais sorriram, achando graça naquela menina que levava tão a sério os assuntos religiosos. Por causa disso, fez a Primeira Comunhão com oito anos de idade, fato pouco comum naqueles tempos. Mais tarde ela comentará, em seus escritos, que recebeu Jesus Eucaristia com muita compenetração e recolhimento.

Sempre muito limpa, aprendeu da mãe a máxima: “Onde há limpeza, a pobreza nunca se degenera em miséria”. E fez questão de manter este princípio na Companhia da Cruz, que fundou anos depois.

O ofício de sapateira

Aos 12 anos, começou a ajudar no orçamento da casa, aprendendo o ofício de sapateira no ateliê da Sra. Antonia Maldonado. Esta era mestra na confecção de sapatos delicados, e as damas da sociedade encomendavam ali botas altas e ajustadas, polainas de cetim com broches e outros calçados da moda daquele tempo. Cumprindo sempre suas obrigações com presteza e alegria, Angelita aprendeu logo o ofício.

Antonia Maldonado era muito religiosa e cuidava de suas funcionárias como irmã mais velha ou até mesmo como mãe. O ateliê tinha um ambiente sério, de silêncio e trabalho constante. No fim da tarde, reuniam-se todas numa sala que servia de capela, onde rezavam juntas o Rosário.

Em poucos meses Angelita tornou-se o centro das atenções no ateliê, por sua competência, simpatia e bondade. Dona Antonia afirmava que ali estava o futuro da menina, pois esta tinha as mãos feitas para executar obras artesanais primorosas.

Com o passar do tempo, aprimorou-se o espírito religioso da menina. Já adolescente, sem nenhuma pretensão de ter sucesso ou ascender na sociedade, Angelita levava intensa vida de oração e fazia penitências impressionantes. Dormia sobre uma tábua, tendo uma pedra por travesseiro. Às sextas-feiras, jejuava em honra das dores de Cristo, e aos sábados em honra a Nossa Senhora. Assim preparava Deus aquela alma, simples e eleita, para os rigores da Companhia que ela haveria de fundar mais tarde.

Dirigida por um virtuoso confessor

Antonia Maldonado sempre se confessava com o Pe. Torres Padilla, que tinha fama de santidade em Sevilha, no qual ela depositava total confiança. Certa manhã, ao alvorecer, correu a boa senhora a contar-lhe algo extraordinário que havia acontecido em seu ateliê, na tarde anterior.

Estavam todas rezando o Rosário, como de costume, após o trabalho. De repente, todas perceberam que Angelita, ajoelhada, estava suspensa no ar, em êxtase, e dela saía um raio de luz. Atônitas, interromperam a oração e observaram a menina, que tinha os olhos fechados e um sorriso nos lábios. Sem nada dizer, saíram, deixando Angelita em seus arroubos sobrenaturais. Tudo durou exatamente uma hora. Quando esta voltou ao ateliê, apenas queixou-se de que a deixaram dormindo...


O sacerdote quis conhecer essa mocinha de 16 anos, alma escolhida de Deus, e passou a ser seu confessor e guia espiritual, conduzindo-a nas trilhas de sua singular vocação.

Freira sem convento

Sob a orientação de seu confessor, Angelita decidiu ser religiosa. Ninguém se espantou com esta decisão, vendo nela apenas o desabrochar de uma vocação que se foi formando à vista de todos.

Já com 19 anos, procurou as Carmelitas Descalças de Sevilha, com a recomendação do Pe. Torres, pois sentia-se atraída pela vida contemplativa. Mas a superiora, vendo-a de porte pequeno e saúde débil, julgou que ela não suportaria os rigores da regra e não quis recebê-la como postulante.

Quatro anos mais tarde tentou outra congregação, desta vez de vida ativa, as Filhas da Caridade. Entrou como postulante no Hospital Central, onde as religiosas se dedicavam a cuidar dos enfermos. Começou a ter sérios problemas de saúde, mas as freiras, reconhecendo a virtude daquela postulante, quiseram assim mesmo dar-lhe o hábito de noviça. Decorridas apenas algumas semanas de noviciado, agravou-se seu estado. Foi para Cuenca e depois Valencia, na esperança de ser favorecida pela mudança de clima. Mas, nada a fazendo melhorar, não havia outra saída senão voltar para casa.

Retornou ao trabalho no ateliê. Mas levava uma vida austera de religiosa. Sua vocação era autêntica. Em 1873, fez votos, em particular, tornando-se uma freira sem convento. A Divina Providência estava reservando-lhe uma nova fundação, como uma nova estrela no firmamento das ordens religiosas da Santa Igreja.

Nasce uma nova instituição

Com a orientação do Pe. Torres, Angelita escrevia seus pensamentos mais íntimos, seus desejos e o que levava na alma como fundamento da instituição à qual ela queria pertencer. Foi, assim, elaborando as regras e explicitando o carisma que trazia em seu espírito. Estava nascendo a Companhia da Cruz, da qual ela seria a fundadora.

Seu amor a Jesus Crucificado fazia com que ela desejasse viver crucificada com Ele, numa cruz que estivesse “em frente e bem perto” de seu Amado. Em seu primeiro escrito, assim manifesta esse desejo: “Nosso Senhor levantado numa cruz, no Calvário. Outra cruz da mesma altura. Mas não à direita nem à esquerda, e sim em frente e bem perto. Ao ver meu Senhor crucificado, desejava com todas as veras de meu coração imitá-Lo. Sabia que deveria crucificar-me naquela cruz que estava em frente a meu Senhor, com toda a igualdade que é possível a uma criatura.”

As virtudes que ela mais amava eram a pobreza, o desprendimento das coisas terrenas e a humildade. Fez-se pobre com os pobres. Para ajudar os mais necessitados, desapegou-se de tudo que fosse material. Pôs em prática uma regra quase mais rigorosa que a própria regra carmelita, e foi de uma humildade exímia, reconhecendo sua pequenez em tudo.

Adotou o nome de Ângela da Cruz, para se lembrar de que estava cravada junto a Cristo no Calvário, “em frente e bem perto”...

Queria ela construir um Calvário. Em vez de camas, tábuas para servir de colchão e travesseiro. Comida escassa. Muita oração e doação completa aos enfermos e necessitados. Uma devoção extremada ao Santíssimo Sacramento e a Maria Santíssima eram os pilares da vida sobrenatural de cada irmã que ali quisesse se crucificar. Deveriam viver da completa confiança na Divina Providência.

Reunindo a si três jovens corajosas, começou sua Companhia em um pequeno quarto alugado. Aos poucos, outras se lhes juntaram, foi preciso conseguir uma casa. Sempre num ambiente de limpeza e saudável alegria, estas novas religiosas recolhiam meninas órfãs e as sustentavam, pedindo esmolas. Com uma mão recebiam e com a outra distribuíam.

Andavam sempre em duplas, fazia parte da regra, e, como uma patrulha silenciosa, percorriam os bairros mais pobres, entrando nas casas dos enfermos, limpando tudo, cozinhando, lavando e vestindo com roupas limpas e decentes aqueles infelizes, e, sobretudo, dando-lhes assistência espiritual.

Cresceu a Companhia da Cruz. Faleceu o Pe. Torres e outros sacerdotes ajudaram a Madre Ângela, como passou a ser conhecida em toda Sevilha. Muitas lutas teve que enfrentar. Quase desistiu da Fundação. Por fim, o decreto de aprovação da Companhia foi assinado pelo Papa São Pio X, em 1904.

A glória dos altares

Deixando uma plêiade de filhas espirituais espalhadas pela Europa e América, valentes como ela, Madre Ângela faleceu em 2 de março de 1932, após nove meses de penosa enfermidade. Durante três dias, Sevilha inteira passou diante de seu cadáver, venerando aquela que considerava sua mãe. A Câmara Municipal reuniu-se para homenageá-la, colocando seu nome em uma rua da cidade.

O corpo de Santa Ângela se conserva incorrupto na capela da Casa-Mãe. E até hoje pode-se ver caminhando em duplas por Sevilha a silenciosa patrulha de filhas suas, com o hábito original, idealizado por ela, buscando enfermos a quem ajudar, crucificando-se com Jesus, “em frente e bem perto”.

Santa Ângela da Cruz, elevada à honra dos altares — portanto, já “em frente e bem perto” de Jesus no Céu — deixa-nos uma mensagem, pelas palavras do Papa, na homilia da Missa de sua canonização: “Suas obras, que admiramos e pelas quais damos graças a Deus, não se devem às suas forças ou à sabedoria humana, mas à ação misteriosa do Espírito Santo que suscitou uma adesão inquebrantável a Cristo crucificado e ressuscitado e o propósito de imitá-Lo. Queridos fiéis católicos, deixai-vos interpelar por estes maravilhosos exemplos!”

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