segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

São Vicente Ferrer

Certa ocasião, quando São Vicente Ferrer entrava em Barcelona — uma das maiores e mais ilustres cidades de seu tempo —, fizeram-lhe uma recepção tão extraordinária que de todas as janelas pendiam tapeçarias em sua honra, o povo o aclamava e ele caminhava debaixo de um pálio, cujas varas eram carregadas pelos principais da cidade. Então, alguém lhe perguntou, baixinho, ao ouvido:
— Irmão Vicente, e a vaidade?
— Esvoaça do lado de fora, mas não entra — respondeu ele.
A resposta de um orgulhoso seria: “Nem sinto tentação.”
E um pusilânime diria: “Pobre de mim, estou inundado de vaidade.”
Este Santo deu a resposta certa: Como homem, posso e estou sendo tentado. Porém, a tentação esvoaça do lado de fora, mas, pela graça de Deus, ela não entra.
De fato, neste vale de lágrimas é normal sermos tentados. A tentação tempera a alma. Quem diz “não” para o demônio sai mais forte, mais pertencente a Nossa Senhora. O servo bom e fiel que foi provado e venceu manifesta a sua fidelidade, faz render na luta os seus talentos, colhe louros e os entrega à sua Senhora.
Somos soldados da Igreja Militante e devemos nos entusiasmar com isso.

Plinio Corrêa de Oliveira – Extraído de conferência de 16/1/1970

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

São João Batista


Muito nos falam os Evangelhos da pessoa ascética do Batista, com suas vestes evocativas dos antigos profetas de Israel e sua austeridade de vida. Chegaram os judeus a pensar que estavam diante do Messias esperado.
Entretanto, a história deste varão tão singular, cuja pregação marca o fim do Antigo Testamento e dá início ao Novo, é desconhecida para muitos. Falemos um pouco sobre ela.
Nascimento anunciado por um Anjo
"Nos tempos de Herodes, rei da Judeia, houve um sacerdote por nome Zacarias, da classe de Abias" (Lc 1, 5). Sua mulher, de estirpe sacerdotal, chamava-se Isabel. Eram ambos de idade avançada e não haviam recebido a principal bênção de todo lar hebreu: uma descendência. Justos e tementes a Deus, aceitavam sem poder consolar-se esta dura prova.
Estando de serviço no Templo, oferecendo o incenso no altar dos perfumes, Zacarias sentia palpitar seu coração na esperança da iminente chegada do Messias quando viu à sua direita um Anjo do Senhor, radiante de glória.
"Não temas, pois tua oração foi ouvida: Isabel, tua mulher, dar-te-á um filho, e chamá-lo-ás João", disse o celeste mensageiro. E acrescentou: "Ele será grande diante do Senhor" e "irá adiante de Deus com o espírito e poder de Elias" (Lc 1, 13.15.17). Entretanto, por ter duvidado da promessa por um instante, ficou mudo.
São Lucas nos transmite a seguir a Anunciação do Anjo à Virgem Maria e a visita desta a Isabel, pondo em contato a Mãe do Messias com a mãe do Precursor. Ao ouvir a saudação de Maria, Isabel sentiu o nascituro "saltar de alegria" em seu seio (cf. Lc 1, 26-45). O Precursor reconhecera o Messias e começou logo a exercer sua função de arauto.
Ao nascimento seguia-se a circuncisão, o rito de admissão do filho varão no povo de Deus. A esta se associava a imposição do nome, a qual era uma como que inscrição do recém-nascido no catálogo dos filhos de Israel. Os parentes e vizinhos queriam dar ao Batista o nome de seu pai, Zacarias, mas Isabel interveio sem vacilar: "Ele se chamará João". Replicaram eles que na família não havia ninguém com este nome. Consultado, Zacarias escreveu numa tabuinha: "João é o seu nome". Logo recuperou a fala, que havia perdido por ter duvidado da palavra do Anjo (cf. Lc 1, 58-63).
Sempre generoso com seus servidores, Deus não só o curou da mudez, mas também o encheu do Espírito Santo e o elevou às alturas do profetismo, colocando em seus lábios o belíssimo cântico do Benedictus: "Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e resgatou o seu povo, e suscitou-nos um poderoso Salvador, na casa de Davi, seu servo" (Lc 1, 68-69). Por fim, fixando os olhos no filho, profetizou ­trêmulo de emoção: "E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e Lhe prepararás o caminho" (Lc 1, 76).

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Santa Escolástica

Quando Nosso Senhor veio ao mundo, trouxe-nos um mandamento novo: "Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros"(Jo 13,34). Este amor levado às últimas consequências propiciou-nos a Redenção. E um relacionamento humano regrado e bem conduzido deve seguir o exemplo do Divino Mestre. O verdadeiro amor ao próximo é aquele que se nutre por outrem por amor a Deus e que tem o Criador como centro, visando a santidade daqueles que se amam. Já ensinava Santo Agostinho que só existem dois amores: ou se ama a si mesmo até o esquecimento de Deus, ou se ama a Deus até o esquecimento de si mesmo.
Assim foi Santa Escolástica, alma inocente e cheia de amor a Deus, de quem pouco se conhece, mas que, abrindo-se à sua graça, adquiriu excepcional força de alma e logrou chegar à honra dos altares. Sua história está intimamente ligada à aquele que por desígnios da Providência nasceu com ela para a vida, o grande São Bento, seu irmão gêmeo e pai do monacato ocidental, a quem amou com todo o seu coração.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Santa Juliana Falconieri


Pressa é uma palavra que a cada dia está mais presente na vida de todos. Quanto mais se acelera o ritmo de vida, menos se tem tempo para fazer as coisas. Ver pessoas apressadas é o comum em nosso cotidiano. Tem-se pressa para chegar ao trabalho, pressa para retornar a casa, pressa para não faltar a um compromisso, pressa, pressa, pressa… Sem dúvida, sempre atrás dos interesses pessoais!
Pressa é o que se encontra também na vida de uma dama oriunda de ilustre família da república florentina: Juliana Falconieri. No entanto, desta vez, os interesses são outros…
Uma nobre e piedosa família de Florença
Naqueles idos anos do século XIII, Florença tornara-se uma das maiores maravilhas da Itália, pela beleza de sua arquitetura, o rico comércio nela desenvolvido e o valor dos tecidos, pinturas e demais obras de arte ali produzidas.
Tais maravilhas, porém, não conseguiam satisfazer os anseios de sete prósperos comerciantes da cidade, que buscavam um tesouro muito mais precioso. Para obtê-lo, decidiram dedicar-se ao serviço da mais alta das soberanas: Maria Santíssima. E tanto os uniu e elevou este sublime exercício que, deixando na penumbra seus respectivos nomes de família, passaram eles para a História como os Sete Santos Fundadores da Ordem dos Servos de Maria, os servitas.
Caríssimo Falconieri, pai de Juliana, conhecia-os de perto, pois um deles era seu irmão Aleixo. Abastado e bem-sucedido, aquele não era indiferente à exemplar piedade deste. Passou Caríssimo por um estado de conversão e teve escrúpulos de haver sido desonesto em algum de seus negócios, pelo que, como eventual reparação, deu muitas esmolas. Financiou também a construção de uma igreja em louvor de Nossa Senhora da Anunciação, em cujo interior haveriam de repousar seus restos, sob o epitáfio: “Sepulcro do próvido varão, o senhor Caríssimo de Falconieri, que para remédio de sua alma fez alicerçar, edificar e concluir esta Igreja em louvor de Deus e da Bem-Aventurada e gloriosa Virgem”.
A atitude modelar do aristocrata florentino marcou de forma decisiva outro membro desta abençoada família: a própria filha, que lhe fora concedida pela Providência em 1270, quando ele e sua esposa estavam já em idade avançada.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

São Crispim de Viterbo


“Exultai no Senhor, ó justos” (Sl 32, 1); “Felizes aqueles cuja vida é pura, e seguem a Lei do Senhor” (Sl 118, 1). Estes e muitos outros ensinamentos dos Salmos poderiam ser citados, para mostrar o quanto a virtude e a verdadeira alegria andam sempre de mãos dadas.
O íntimo relacionamento entre ambas aparece especialmente visível no Santo cuja vida contemplaremos aqui: São Crispim de Viterbo. Com propriedade realçou São João Paulo II em sua homilia, ao canonizar este irmão leigo capuchinho do século XVII: “O primeiro aspecto de santidade que desejo fazer notar em São Crispim é o da alegria”.1
Consagrado desde criança a sua “Mãe e Senhora”
Ele veio ao mundo a 13 de novembro de 1668, em Viterbo, cidade então pertencente aos Estados Pontifícios, e dois dias depois foi batizado na Igreja de São João Batista, recebendo o nome do avô: Pedro. Seus pais, Ubaldo e Marzia Fioretti, eram de condição humilde, porém muito respeitados por sua conduta digna e piedosa.
Sendo Pedro ainda muito criança, o pai veio falecer, mas não sem antes confiar ao seu irmão Francisco a formação do pequeno. Marzia, por seu lado, empenhava-se em dar-lhe esmerada educação religiosa e moral.
Quando contava cinco anos de idade, ela o levou em peregrinação ao Santuário de Santa Maria della Quercia, a fim de consagrá-lo a Nossa Senhora. Lá chegando, ambos se ajoelharam diante da bela imagem e a mãe disse ao filho: “Estás vendo? Esta é a tua Mãe, e eu agora te entrego a Ela. Procura amá-La sempre de todo o coração e honrá-La como tua Senhora”.2 Tais palavras calaram tão fundo na alma do menino que, até o fim da vida, jamais deixou de dirigir-se à Virgem Santíssima sem chamá-la de “Mãe e Senhora”.
Melhor um santo magro, que um pecador forte
Desde a mais terna infância, comenta um de seus biógrafos, Pedro manifestou ter um temperamento extremamente dócil e agradável, acompanhado por uma alegria contagiante, qualidades estas que “demonstravam as mais vantajosas predisposições para avançar nas vias da virtude e pressagiavam sua futura santidade”.3

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

São Martinho I

Varão de espírito nobre, muito inteligente e culto, São Martinho I foi sujeito a uma das maiores humilhações a que um Papa tenha sido exposto, desde o começo da história do Pontificado. 
Vejamos os comentários que Plinio Corrêa de Oliveira:
Vamos analisar uma nota biográfica referente a São Martinho, Papa e mártir.
Condenado à morte por defender a verdade
São Martinho I sucedeu a Teodoro, no ano 649.
A alma do novo Papa deveria ser grande para suplantar as grandes dificuldades do momento. Para salvar especialmente as Igrejas do Oriente, devia anatematizar a heresia monotelista. E foi o que fez o novo Papa.
Imediatamente, por ordem do Imperador Constante II, foi preso numa emboscada e transportado num navio para o Oriente. Sofreu horrivelmente durante a viagem. Ao chegar a Constantinopla estava em extremo grau de debilidade; mesmo assim, manietado, arrastaram-no ao tribunal, chamaram testemunhas falsas que depuseram contra o Pontífice acusando-o de traidor e herético. Depois de condená-lo, carregaram-no para junto das cavalariças imperiais, onde se reunia incontável multidão.
São Martinho foi alçado a um terraço para que Constante pudesse vê-lo da sacada de seu palácio; depois o juiz que havia presidido o tribunal aproximou-se do ancião mofando:
— Viste como Deus te livrou de nossas mãos, eras contra o imperador. Deus te abandonou.
Em seguida ordenou aos soldados que rasgassem as vestes do Papa e lhe arrancassem os calçados. Entregando-o ao prefeito, recomendou-lhe que o fizesse em pedaços.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

BEATA ELISABETH CANORI MORA


Beatificada por João Paulo II em 24/4/1994. Um retrato no-la mostra aos 22 anos, como uma muito distinta jovem senhora. Filha de uma boa família romana, ela foi educada no recolhimento de um convento. Voltando a Roma com 17 anos, foi logo introduzida na sociedade. Lá, como ela mesma o diz, “esquecida de Deus” e “prisioneira dos nadas do mundo”, ela cedeu a “sua tendência de bem vestir-se, de procurar a boa sociedade, a querer ser uma mulher importante”. Ela se casou com a idade de 22 anos com um jurista de bela aparência, Christofero Mora, também abastado e de boa família romana. Ela deu à luz quatro filhas; duas das quais morreram depois do parto.
Entretanto, o matrimônio “não foi feliz”: seu marido tomou cedo uma concubina e tornou-se um perdulário que cada vez mais negligenciava a mulher e as filhas. Aos 27 anos, Elisabeth teve uma crise. Uma doença do estômago a leva aos bordos da sepultura; ela recebe a Unção dos Enfermos. Esta provação, diz ela, “levou-a a abandonar “os nadas” deste mundo. Em oração implorei sem descanso misericórdia e perdão. Eu esperava unicamente nos méritos de Jesus. Eu me ofereci inteiramente a Ele. Eu Lhe consagrei toda minha pessoa para a vida e para a morte...”
Ela se restabeleceu. Deus não é mais esquecido ou degradado como coisa colateral, mas o centro de sua vida. “Deus pôs novamente minha vida inteiramente em ordem, eu me ofereci a ele para seu santo serviço”. Ela pode dizer “Tu me venceste, santo Amor; Tu venceste a dureza de meu amor-próprio”.
Na presença de Deus ela formou o propósito de “praticar a mansidão e nunca ficar aborrecida pelas ofensas do próximo — não desejar o que serve meu interesse pessoal, mas em todos os instantes da vida cumprir a santa vontade de Deus —, de praticar as virtudes da castidade, da pobreza, da obediência, da humildade, da mortificação e da penitência”.
No amor de Jesus Cristo ela permanece fiel a seu marido; ela não se deixa separar dele também internamente: “A mulher com a qual ele se casou, lhe pertencerá para sempre e com ela sua família e sua casa. As portas da casa estão sempre abertas...” Ela reza e se sacrifica por ele; ela educa suas filhas nesse sentido. Entretanto, ela não dá seu consentimento à relação adúltera que ele quer fazê-la aceitar. Irritado com isso, ele reage com brutais maus tratos, com caçoadas e desprezo pela sua religiosidade. Ela, contudo, profetiza: “Depois de minha morte, tu voltarás a Deus e O honrarás”. No amor de Jesus Cristo ela está também livre de inveja e de ódio pela amante de seu marido; ela reza ao Senhor para que “ela possa encontrar no Céu a amada de meu marido”. Ela vende todos seus bens para poder pagar um tratamento a seu esposo e para preservá lo da prisão por dívidas. Finalmente, trabalha como costureira para sustentar a família.
Como sua conhecida, a bem aventurada Ana Maria Taigi, ela se torna Terciária da Ordem dos Trinitários e se dedica aos pobres e aos doentes e às famílias em necessidade. Misticamente favorecida, tem visões sobre o futuro da Igreja, rezando e se sacrificando pelos interesses desta.
Por ordem de seu confessor, ela relata por escrito a história de sua alma e suas experiências espirituais; são 1.160 páginas manuscritas.
Elisabeth morre a 5 de fevereiro de 1825 nos braços de sua filha Luciana. Ela ainda recomenda a suas filhas: “Não esqueçais o respeito e a consideração que deveis a vosso pai”. Depois de sua morte, Christoforo Mora se converte; e morre como sacerdote dos Franciscanos Conventuais.
Fontes:
Der Fels, junho de 1994 (tradução).
AAS 20 (1928) 111. — Antoni Pagani, “Biografia della Ven. Elisabeth Canori Mora”; Roma 1911.

Traduzido para o alemão e publicado sob o título “Die Visionariu Rom”, Theresia Verlag, CH 6423 Suwies   Suíça