sábado, 24 de setembro de 2016

São Patrício

Envolta na bruma atlântica e revestida de um verdor inebriante, a Irlanda, nação-ilha situada ao norte da Europa, é comparada a "uma esmeralda encastoada no mar".
Se desvendamos sua história na aurora do século V, nos deparamos com um país separado por léguas de distância dos demais. Fazia parte dos últimos rincões da terra conhecida de então. As invasões bárbaras não a atingiram, mas também não conhecera a civilização romana. Sua escassa população vivia em aglomerados fortificados de choças, espalhados ao longo de suas costas, rios e lagos. Os bosques serviam de refúgio aos druidas, sacerdotes pagãos que dominavam o povo com suas magias.
Nada indicava que esta remota região do Velho Continente poderia se converter em berço da vanguarda de um impulso monástico e missionário, que tanto benefício traria à Igreja. Sem embargo, na encruzilhada histórica subsequente à queda do Império Romano, a Irlanda desempenhou, segundo eminentes historiadores, o papel de "líder da cultura do Ocidente".
Como se deu tão surpreendente transformação?

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Santa Marciana

Continuação do post anterior.
Argumento apologético para os séculos vindouros
Alguém dirá: “Dr. Plinio, então o senhor assinala dois pontos: milagres para converter os povos do Mediterrâneo, o perfume da Doutrina Católica e a beleza simbólica desses acontecimentos para atrair as almas a essa Doutrina. Mas por que essa santa, em vez de morrer dilacerada por um touro, não foi protegida por Deus até o fim? E o Criador não deu ordens para o touro liquidar com o governador romano? Não teria sido uma coisa muito mais bonita ver o touro, o leão, o leopardo de repente pularem, como um cavalo alado, por cima da tribuna do governador romano, matá-lo e depois fazer uma chacina e implantar ali o domínio dos católicos? Não seria então, muito antes de Constantino, uma espécie de revanche católica que nos daria as glórias da vitória? Para que tanta gente que morre praticamente sem resistir, tantos milagres que não dão numa vitória que só Constantino veio alcançar?”
Uma pessoa, com muito fundamento, muita razão, muito bom senso, dias atrás me fez essa pergunta. Eu estava apressado, não dei a resposta, mas a dou agora: Uma das provas de que Nosso Senhor Jesus Cristo existiu e de que os fatos narrados pelo Evangelho, são verdadeiros — provas válidas para os homens de hoje, de quinhentos anos atrás, para os homens até o fim do mundo, está precisamente no testemunho dos mártires. Não se tratava apenas de vencer, mas de dar um argumento apologético para os Séculos vindouros. Qual era esse argumento apologético? Os fatos narrados no Evangelho se deram na presença de muitíssima gente. Por sua vez, as testemunhas desses fatos, ou os filhos delas, foram dispersas por todo o Império Romano, pela pressão de Tito à nação judaica. Os inimigos acérrimos dos católicos poderiam alegar que os fatos narrados pelo Evangelho eram falsos, dizendo: fale com esse, com aquele, com aquele outro; eles dirão que isso não existiu, que esses fatos não são verdadeiros.
Havia judeus por todo o Império Romano De mais a mais, muitos deles que ali viviam já não eram propriamente procedentes da Judeia, mas chamados da diáspora, que se tinham dispersado antes de Jesus Cristo. Esses judeus viajavam frequentemente a Jerusalém, o ponto de atração de interesse máximo para eles, e se inteiram das coisas que lá aconteciam.
Todos eles poderiam ter desmentido o Evangelho o que deveria criar nas pessoas que ouvissem os Apóstolos, ou seus seguidores uma dúvida.
Entretanto, os judeus não desmentiam fatos públicos notoríssimos, e isso confirmava os cristãos na Fé. Estes estavam tão certos de que aqueles fatos eram verdadeiros que, como Marciana, deixavamse estrangular, eram as testemunhas vivas da veracidade da narração do Evangelho.
Isso levou um escritor não católico, Pascal, a dizer uma coisa muito verdadeira: “Eu creio no que contam testemunhas que se deixam estrangular.” E é verdade. Essas testemunhas, para provarem que a Religião Católica é verdadeira, se deixavam estrangular. Nenhuma prova melhor da veracidade da coisa do que a estrangulação.
O testemunho dos mártires prova a veracidade do Evangelho
Então, durante muitos séculos e até hoje, uma das melhores provas de que a Religião Católica é verdadeira e de que os fatos narrados no Evangelho são verdadeiros, é o testemunho dos mártires por toda a extensão do Império Romano. Assim, se compreende que a Providência dava a esses homens o apelo para uma forma de heroísmo que correspondia aos desígnios d’Ela naquele tempo e que não era liquidar e vencer, mas aguentar e morrer. Se eles tivessem vencido, dir-se-ia: uma seita venceu. E não se teria um argumento inteiramente seguro. Dessa forma, ficou a prova: milhões e milhões tiveram tanta certeza que eles se deixavam matar. Quer dizer, a prova do sangue foi dada exuberantemente e todas as gerações vindouras creram por causa deles. E é por causa disso que a Providência não os convidou a uma cruzada contra os pagãos, mas, pelo contrário, a essa forma de reação cujo sentido profundo hoje se percebe, e naquele tempo não se percebia.
Fica, então, patente o milagre da Providência Se Ela deu a Santa Marciana a força para derrubar o ídolo, não lhe concederia energias para ir até a tribuna do representante do imperador, do procônsul para esbofeteá-lo jogá-lo no chão, apunhalá-lo, liquidá-lo? É evidente que sim. Para Deus nada impossível. Mas que prova seria para nós a vida de Marciana, se ela tivesse ficado proconsulesa depois? Que prova seria para os séculos futuros? Nenhuma. Era preciso que houvesse dois milagres: primeiro, da resistência contra todos os obstáculos; e depois, em determinado momento, um obstáculo que vem e a respeito do qual Deus não dá mais resistência.
Então, volto a dizer, existem três operações sobre a opinião pública: ela vai e quebra o ídolo; há a provado milagre e a prova do martírio. Essas provas são tão boas que duram até nossos dias.

Plinio Correia de Oliveira – Extraído de conferência de 18/2/1972

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Santa Paulina

Conheça a vida de Santa Paulina. Na sua Congregação era conhecida como Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus. Seu modo de vida levou-a de um inverno momentâneo para a primavera sem fim; ela caminhou na noite para chegar à eterna luz; as humilhações lhe conduziram à glória. 



quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Santo Antônio Maria Claret


Ao contemplarmos o olhar de Santo Antônio Maria Claret, não é difícil perceber, ao lado de muita firmeza, uma bondade e uma doçura incontestáveis. É um homem movido por um alto senso do dever, fundado nas mais altas concepções religiosas e metafísicas. Esse varão está profundamente persuadido de que a posição por ele tomada é a certa, a Religião que ele professa e ensina é a verdadeira, de que ele é um ministro de Deus, e prega a doutrina imutável e eterna da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.
Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 9/10/1987

sábado, 3 de setembro de 2016

Santa Marciana

  Comentários de Plinio Correa de Oliveira sobre Santa Marciana, virgem e mártir, cujos dados biográficos foram tirados da obra do Abbé Ferrier: La grande fleur de la vie des Saintes.
Ó meu Divino Mestre, vou feliz para ‘Vós!”
     Em Rouzucourt, pequena cidade da Mauritânia, Argélia de hoje, vivia, em fins do século III, uma jovem chamada Marciana, tão piedosa quanto bela, que consagrou muito cedo sua virgindade a Deus e deixou tudo para viver numa cela perto da cidade romana.
     Ora, um dia, a virgem, inspirada sem dúvida pela voz do Senhor, saiu de sua cela e veio se misturar à multidão que circulava na cidade agitada por uma viva emoção, porque corriam os dias sangrentos da perseguição desencadeada no mundo inteiro pelo ímpio Diocleciano.
     Marciana, chegando pela porta Tipásia, viu colocada numa praça uma estátua de mármore da deusa Diana. Aos pés da deusa corriam águas límpidas num tanque também de mármore.
     A intrépida virgem não pode suportar a visão do ídolo impuro. E tendo primeiro lhe quebrado a cabeça, fez depois o ídolo em mil pedaços. Uma multidão furiosa se lançou sobre ela e a maltratou horrivelmente. Depois a arrastaram ao pretório, perante o juiz imperial.
     A altiva cristã riu-se dos deuses de pedra e de madeira e gloriou-se de adorar o Deus vivo e O exaltou no templo com voz eloquente. O juiz pagão irritou-se e entregou-a aos gladiadores para que servisse de joguete a infames ultrajes. A virgem permaneceu serena e sem medo. Durante três horas, com efeito, Deus a defendeu no meio desses brutos, atacados de terror e imobilidade. Pela oração da angélica mártir, um deles se converteu a Jesus Cristo.
     O tirano, confuso, redobrou seu ódio ímpio, e não podendo desonrar a virgem cristã, condenou-a a ser estraçalhada por animais ferozes. Marciana, quando chegou a hora, caminhou para a arena como para uma alegre festa, bendizendo a Jesus Cristo. Amarraram-na ao local do suplício e contra ela foi lançado um leão furioso que logo se atirou sobre a vítima, ficou de pé e colocou suas garras sobre seu peito. Depois, afastou-se bruscamente e não a tocou mais.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

São Gregório de Narek

Dentro dos muros de um mosteiro, nas misteriosas terras orientais da Armênia antiga, escolheu este monge a melhor parte: aprendeu a conversar, no tempo, com o Senhor das Alturas, para gozar de seu convívio na eternidade.
Existe algum nexo entre o homem contemporâneo, cercado de avançados meios de comunicação, e um monge armênio do século X, vivendo em estrito recolhimento num mosteiro perto do Lago de Van - hoje pertencente à Turquia -, rodeado de montanhas quase sempre nevadas? O que há de tão original e profundo no pensamento de São Gregório de Narek para ter sido declarado Doutor da Igreja?
Decerto perguntas como estas terão passado pela mente de quem leu a notícia divulgada há um ano pela Sala de Imprensa da Santa Sé.1 Vamos juntos tentar descobrir a resposta.
O ser humano precisa se comunicar
Todos nós temos um desejo muito forte de nos comunicar com os demais. O homem é um "animal político", na definição de Aristóteles; segundo São Tomás, um "animal social".3 Isto se explica pelo fato de termos nascido todos com uma ­particularidade denominada por Cícero "instinto de sociabilidade".4
Paradigmática é a historia de Helen Keller, famosa norte-americana que ficou cega e surda antes de completar dois anos de idade, devido a uma grave enfermidade. Desprovida dos principais sentidos, vivia ela como que apartada do mundo. Depois de aprender, ainda criança, com sua preceptora, Anne Sullivan, a se comunicar por meio do tato, conseguiu aos poucos desenvolver um universo de potencialidades latentes em sua alma e acabou por tornar-se educadora, escritora, conferencista e advogada.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A última Missa do Padre Miguel

 A escritora polonesa Maria Winovska, em seu livro Maranatá, conta este caso, que ela garante ser autêntico:
O irmão porteiro do Mosteiro da Cartucha avisou o Superior: - Está na sala de visitas um homem que pede a admissão na nossa Ordem para fazer penitência. Tenha cuidado, Padre. Parece-me um bandido da pior espécie.
-Veremos, irmão. As aparências, por vezes, enganam-nos. Dizendo isto, caminhou para a sala de visitas. Ao vê-lo, o recém-chegado, que se chamava Bogdan Grelha, levantou-se desajeitadamente, e balbuciou por entre dentes:
- Bom dia!
- Sente-se - disse amavelmente o Superior - e declare o que quer.    
- Ele venceu-me - suspirou o homem - e eu me vi forçado a dirigir-me para este convento a fim de começar uma vida de penitência.
- Quem é que o venceu?- indagou o Superior.
- O Padre Miguel. O Sr. o conhece?
- Claro que o conheço, ou antes, conhecia.
O Padre Miguel tinha sido condenado à morte. Antes da execução que tardou um mês, o Padre Superior fez todo o possível por visitá-lo e acompanhá-lo nos últimos dias. Mas todas as tentativas tropeçaram na recusa categórica: “Proibida a entrada ao Clero”.
- Eu fui o seu carcereiro - continuou Grelha - durante as três semanas que precederam a sua morte. Às minhas ordens estavam os condenados à pena capital.
- Deixou-lhe algum recado para mim? - perguntou com ansiedade o Superior.
- Sim. Na véspera da execução pediu-me que viesse falar com o senhor e lhe contasse sucedido. Por isso aqui estou.
No espírito do Padre Superior surgiu uma dúvida: diante de quem estaria? De um espião? De um intrujão? Desde a instalação do regime comunista na Polônia, todos os sacerdotes andavam espiados e perseguidos. Por isso o Padre atreveu-se:
- E quem me garante que você não está a tecer-me uma armadilha?
- Estou lhe falando a verdade. O Padre Miguel, na véspera da morte, disse-me: Bogdan Grelha, se o Padre Bruno, agora Superior do convento, não te quiser acreditar, lembra-lhe a nossa conversa e o juramento que fizemos no topo de uma ameixoeira, quando tínhamos apenas 11 anos. 
O Padre Superior ficou abalado com a recordação dessa conversa que tinha um segredo absoluto entre ele e o falecido sacerdote. O homem não era, um mentiroso. Por isso declarou:  
- Continue.
- Como ele estava quando mo entregaram para o matar! A camisa colara-se-lhe à pele, tanto era o sangue que nela havia. Mas aquele condenado não perdia a calma, o que me causava admiração, porque muitos outros chegavam a desesperar. Não é assim tão fácil ser carcereiro dos condenados à morte: Lançam altos gritos, batem uns nos outros, amaldiçoam, desesperam... Mas ele, nada disso! E como o insultavam! Aconteceu-me ver-lhe as costas e peito: era como se não fosse homem, mas pele de zebra, de tal modo o tinham esfacelado. Aquele sacerdote não me tratava como inimigo. Uma vez, à noite, depois da distribuição da sopa, entrei na sua cela e foi aí que tudo começou... Perguntei-lhe à queima roupa:
- Porque me sorris, assim? Não sabes que daqui a dez dias vamos te enforcar?
- Isso não é desgraça; uma desgraça é estar na inimizade com Deus - respondeu ele.
 - Então ri-te do teu Deus - exclamei, sarcástico. Ele não vai sair do Seu lugar para te salvar.
- Que necessidade tem de o fazer? Ele mesmo deixou-se voluntariamente pregar na Cruz para nos salvar.
- Salvar? Isso são conversas de freiras, mas não de homens como tu e como eu, embora sejas sacerdote. E por isso mesmo que te prenderam. Quanto a mim, é outra coisa. Olha para as minhas mãos. Sabes tu quanto sangue já passou por elas? Matei muitos homens. Perdi mesmo a conta. E, por isso, não será nunca para mim essa tua maldita Cruz.
- Precisamente para ti -  respondeu o Padre Miguel. O Senhor morreu também por ti.
O Padre Superior ouvia impressionado, mas mais comovido ainda se mostrava Bogdan Grelha, que continuou o seu relato:
- Ao ouvir tais coisas, até pensei que ele não estaria bom da cabeça. No outro dia, depois da sopa, perguntei-lhe: Ouve lá, Padre! Foi por brincadeira que ontem me disseste aquelas tolices?
- Que tolices? -  perguntou.
- Essa coisa do teu Deus e da Sua Cruz. É que eu me rio de tudo isso.
- Mas Deus não Se ri de ti - afirmou ele - Deus ama-te.
- Ainda mais essa! Deus amar-me a mim? Olha que eu sou um monstro. E contei-lhe a minha desgraçada vida, toda a minha horrível vida... Éramos 11 na família. Meu pai era pedreiro. Certo dia, desmaiou e caiu dos andaimes. Levantaram apenas um saco de ossos. Minha mãe começou, então, a ganhar a vida lavando roupa. Tinha eu seis anos. Lembro-me de que, à noite, as suas mãos estavam inchadas de tanto esfregar. Não tinha tempo para se ocupar de nós. Vivíamos na rua. Minhas irmãs, aos 15 anos, meteram-se na má vida, e eu aprendi a roubar. Tinha 16 anos, quando a minha mãe morreu. Realmente sofreu muito, coitadinha! Pouco antes do falecimento disse-me:
- Bogdan, meu filho, não andes mais com esses gatunos. Felizmente faleceu antes que me prendessem. Com tal profissão vai-se longe. É um desporto. Eu não roubava por fome: roubava por roubar, como mais tarde, matava por matar. Dava-me verdadeiro prazer ver as minhas mãos a escorrer sangue.
- Mas isso é verdade? - inquiriu o Superior.
- Sim, continuou Grelha. Eu contei todos os meus crimes ao Padre Miguel. A velha que asfixiei, a criança que me beijava as mãos, estas mãos, e me suplicava: tenha piedade de mim! Mas eu não tive e acabei com ela. Depois veio a guerra. Vida desordenada. Estive em Ivov, na cadeia. Os bolchevistas libertaram-me e vivíamos juntos como camaradas. Foi então que eles me propuseram um novo trabalho.“Eles prenderam-te a ti, agora prende-os tu a eles”. A cadeia precisava de especialistas como eu, para matar os condenados. Pagavam-me bem. Todas as vezes que me mandavam um condenado à morte dizia comigo mesmo: “Mais um a menos!”. Até o dia em que me encontrei com esse sacerdote condenado, que tanto me comoveu. Contei-lhe toda a história da minha triste vida. Isso levou-me algumas noites, mas ele escutava sempre com paciência. Uma vez à noite perguntou-me:
- É tudo, meu filho? - Repare como me chamou: “meu filho!”. Aquele santo sacerdote, continuou:
- O Sangue de Cristo pode lavar tudo. Queres que te dê a absolvição de todos os teus pecados? Eu ofereço a minha vida por ti.
- Isto é que eu nunca poderia ter esperado. A princípio até sorri. Mas depois desfiz-me em lágrimas. Pela primeira vez, depois de longos anos, começou a despertar em mim o aborrecimento do mal e o desejo de mudar de vida. Pensava comigo mesmo: mas será isto verdade? O Sangue de Cristo poderá lavar a minha alma? Os meus crimes terão perdão?... Comecei a passar longas horas à noite conversando com ele, que me falava da fé, do amor de Deus, do arrependimento dos pecados, da penitência e da confissão. Em pequeno, tinha aprendido a catequese. Mas há quantos anos! Fiquei impressionado com tudo, desejando pôr termo à minha vida criminosa. Na véspera da sua morte chamou-me:
- Bogdan, não poderias arranjar-me um pouco de vinho e pão ázimo, pão de natal? (pão sem fermento usado na Polônia na festa do Natal). Queria tanto celebrar a minha última Missa!
- Para lhe fazer a vontade, fui a uma loja. Comprei uma garrafinha de vinho branco e uma vizinha deu-me um pedaço de pão de Natal. Levei-lhe tudo. Antes da Missa deu-me a absolvição dos pecados e beijou-me. Perguntei-lhe:
- Como podes tu beijar um desgraçado como eu?
- Se eu não sou como tu - respondeu ele - o mérito não é meu; protegeu-me a graça de Deus. Tanto eu como tu fomos salvos pela Sua infinita misericórdia.
- Foi isso que me disse, palavra por palavra. Nunca me esquecerei dessa noite, a última que ele passou no mundo e em que celebrou pela última vez. Um copo de alumínio serviu de cálice e depois... depois...(nesse momento Bogdan escondeu a cara) e depois deu-me a comunhão, a mim, pobre pecador!
O seus soluços interromperam o seu relato. A custo continuou:
- Deu-me o endereço deste convento e o nome do seu Superior. Mandou-me contar-lhe tudo e pôr em prática o que o senhor me dissesse. Mas eu tinha vergonha de vir, enquanto estivesse naquele emprego miserável. Logo depois da morte do Padre, pedi demissão. Eles não me queriam deixar ir porque, na verdade, eu era um especialista na matéria. Mas o médico atestou que os meus nervos não podiam aguentar mais. Deixaram-me partir. Agora aqui estou. Diga-me o que devo fazer. Queria ficar neste convento para fazer penitência pelos meus pecados.
O Padre Superior fechou os olhos e ficou calado por uns momentos. Por fim disse:
- Meu filho, recebo-te como um dom, graças ao testamento do meu antigo companheiro, o santo Padre Miguel, mártir da fé. Mas fixa bem na memória: A tua vida passada ficou lavada pelo Sangue de Cristo. Proíbo-te de falar dela, exceto na confissão ou diante da imagem de Jesus crucificado. Proíbo-te mesmo de pensar nela a não ser que tal pensamento encha o teu coração de gratidão pela grandíssima misericórdia que Jesus te demonstrou”.
Esta comovedora história vem descrita na revista “Cruzada” de Abril de 1985, donde transcrevemos com a devida vênia.
Por aqui se vê o trabalho da graça divina que é capaz, por um lado, de perdoar ao maior pecador; por outro lado, demonstra a ação da mesma graça naqueles que os altos desígnios de Deus chamam à glória do martírio por amor da fé.
Fonte: Jornal “Missionário do Sofrimento”, Setembro-Outubro de 1985, n. 110,  Porto - Portugal.