sexta-feira, 26 de agosto de 2016

São Gregório de Narek

Dentro dos muros de um mosteiro, nas misteriosas terras orientais da Armênia antiga, escolheu este monge a melhor parte: aprendeu a conversar, no tempo, com o Senhor das Alturas, para gozar de seu convívio na eternidade.
Existe algum nexo entre o homem contemporâneo, cercado de avançados meios de comunicação, e um monge armênio do século X, vivendo em estrito recolhimento num mosteiro perto do Lago de Van - hoje pertencente à Turquia -, rodeado de montanhas quase sempre nevadas? O que há de tão original e profundo no pensamento de São Gregório de Narek para ter sido declarado Doutor da Igreja?
Decerto perguntas como estas terão passado pela mente de quem leu a notícia divulgada há um ano pela Sala de Imprensa da Santa Sé.1 Vamos juntos tentar descobrir a resposta.
O ser humano precisa se comunicar
Todos nós temos um desejo muito forte de nos comunicar com os demais. O homem é um "animal político", na definição de Aristóteles; segundo São Tomás, um "animal social".3 Isto se explica pelo fato de termos nascido todos com uma ­particularidade denominada por Cícero "instinto de sociabilidade".4
Paradigmática é a historia de Helen Keller, famosa norte-americana que ficou cega e surda antes de completar dois anos de idade, devido a uma grave enfermidade. Desprovida dos principais sentidos, vivia ela como que apartada do mundo. Depois de aprender, ainda criança, com sua preceptora, Anne Sullivan, a se comunicar por meio do tato, conseguiu aos poucos desenvolver um universo de potencialidades latentes em sua alma e acabou por tornar-se educadora, escritora, conferencista e advogada.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A última Missa do Padre Miguel

 A escritora polonesa Maria Winovska, em seu livro Maranatá, conta este caso, que ela garante ser autêntico:
O irmão porteiro do Mosteiro da Cartucha avisou o Superior: - Está na sala de visitas um homem que pede a admissão na nossa Ordem para fazer penitência. Tenha cuidado, Padre. Parece-me um bandido da pior espécie.
-Veremos, irmão. As aparências, por vezes, enganam-nos. Dizendo isto, caminhou para a sala de visitas. Ao vê-lo, o recém-chegado, que se chamava Bogdan Grelha, levantou-se desajeitadamente, e balbuciou por entre dentes:
- Bom dia!
- Sente-se - disse amavelmente o Superior - e declare o que quer.    
- Ele venceu-me - suspirou o homem - e eu me vi forçado a dirigir-me para este convento a fim de começar uma vida de penitência.
- Quem é que o venceu?- indagou o Superior.
- O Padre Miguel. O Sr. o conhece?
- Claro que o conheço, ou antes, conhecia.
O Padre Miguel tinha sido condenado à morte. Antes da execução que tardou um mês, o Padre Superior fez todo o possível por visitá-lo e acompanhá-lo nos últimos dias. Mas todas as tentativas tropeçaram na recusa categórica: “Proibida a entrada ao Clero”.
- Eu fui o seu carcereiro - continuou Grelha - durante as três semanas que precederam a sua morte. Às minhas ordens estavam os condenados à pena capital.
- Deixou-lhe algum recado para mim? - perguntou com ansiedade o Superior.
- Sim. Na véspera da execução pediu-me que viesse falar com o senhor e lhe contasse sucedido. Por isso aqui estou.
No espírito do Padre Superior surgiu uma dúvida: diante de quem estaria? De um espião? De um intrujão? Desde a instalação do regime comunista na Polônia, todos os sacerdotes andavam espiados e perseguidos. Por isso o Padre atreveu-se:
- E quem me garante que você não está a tecer-me uma armadilha?
- Estou lhe falando a verdade. O Padre Miguel, na véspera da morte, disse-me: Bogdan Grelha, se o Padre Bruno, agora Superior do convento, não te quiser acreditar, lembra-lhe a nossa conversa e o juramento que fizemos no topo de uma ameixoeira, quando tínhamos apenas 11 anos. 
O Padre Superior ficou abalado com a recordação dessa conversa que tinha um segredo absoluto entre ele e o falecido sacerdote. O homem não era, um mentiroso. Por isso declarou:  
- Continue.
- Como ele estava quando mo entregaram para o matar! A camisa colara-se-lhe à pele, tanto era o sangue que nela havia. Mas aquele condenado não perdia a calma, o que me causava admiração, porque muitos outros chegavam a desesperar. Não é assim tão fácil ser carcereiro dos condenados à morte: Lançam altos gritos, batem uns nos outros, amaldiçoam, desesperam... Mas ele, nada disso! E como o insultavam! Aconteceu-me ver-lhe as costas e peito: era como se não fosse homem, mas pele de zebra, de tal modo o tinham esfacelado. Aquele sacerdote não me tratava como inimigo. Uma vez, à noite, depois da distribuição da sopa, entrei na sua cela e foi aí que tudo começou... Perguntei-lhe à queima roupa:
- Porque me sorris, assim? Não sabes que daqui a dez dias vamos te enforcar?
- Isso não é desgraça; uma desgraça é estar na inimizade com Deus - respondeu ele.
 - Então ri-te do teu Deus - exclamei, sarcástico. Ele não vai sair do Seu lugar para te salvar.
- Que necessidade tem de o fazer? Ele mesmo deixou-se voluntariamente pregar na Cruz para nos salvar.
- Salvar? Isso são conversas de freiras, mas não de homens como tu e como eu, embora sejas sacerdote. E por isso mesmo que te prenderam. Quanto a mim, é outra coisa. Olha para as minhas mãos. Sabes tu quanto sangue já passou por elas? Matei muitos homens. Perdi mesmo a conta. E, por isso, não será nunca para mim essa tua maldita Cruz.
- Precisamente para ti -  respondeu o Padre Miguel. O Senhor morreu também por ti.
O Padre Superior ouvia impressionado, mas mais comovido ainda se mostrava Bogdan Grelha, que continuou o seu relato:
- Ao ouvir tais coisas, até pensei que ele não estaria bom da cabeça. No outro dia, depois da sopa, perguntei-lhe: Ouve lá, Padre! Foi por brincadeira que ontem me disseste aquelas tolices?
- Que tolices? -  perguntou.
- Essa coisa do teu Deus e da Sua Cruz. É que eu me rio de tudo isso.
- Mas Deus não Se ri de ti - afirmou ele - Deus ama-te.
- Ainda mais essa! Deus amar-me a mim? Olha que eu sou um monstro. E contei-lhe a minha desgraçada vida, toda a minha horrível vida... Éramos 11 na família. Meu pai era pedreiro. Certo dia, desmaiou e caiu dos andaimes. Levantaram apenas um saco de ossos. Minha mãe começou, então, a ganhar a vida lavando roupa. Tinha eu seis anos. Lembro-me de que, à noite, as suas mãos estavam inchadas de tanto esfregar. Não tinha tempo para se ocupar de nós. Vivíamos na rua. Minhas irmãs, aos 15 anos, meteram-se na má vida, e eu aprendi a roubar. Tinha 16 anos, quando a minha mãe morreu. Realmente sofreu muito, coitadinha! Pouco antes do falecimento disse-me:
- Bogdan, meu filho, não andes mais com esses gatunos. Felizmente faleceu antes que me prendessem. Com tal profissão vai-se longe. É um desporto. Eu não roubava por fome: roubava por roubar, como mais tarde, matava por matar. Dava-me verdadeiro prazer ver as minhas mãos a escorrer sangue.
- Mas isso é verdade? - inquiriu o Superior.
- Sim, continuou Grelha. Eu contei todos os meus crimes ao Padre Miguel. A velha que asfixiei, a criança que me beijava as mãos, estas mãos, e me suplicava: tenha piedade de mim! Mas eu não tive e acabei com ela. Depois veio a guerra. Vida desordenada. Estive em Ivov, na cadeia. Os bolchevistas libertaram-me e vivíamos juntos como camaradas. Foi então que eles me propuseram um novo trabalho.“Eles prenderam-te a ti, agora prende-os tu a eles”. A cadeia precisava de especialistas como eu, para matar os condenados. Pagavam-me bem. Todas as vezes que me mandavam um condenado à morte dizia comigo mesmo: “Mais um a menos!”. Até o dia em que me encontrei com esse sacerdote condenado, que tanto me comoveu. Contei-lhe toda a história da minha triste vida. Isso levou-me algumas noites, mas ele escutava sempre com paciência. Uma vez à noite perguntou-me:
- É tudo, meu filho? - Repare como me chamou: “meu filho!”. Aquele santo sacerdote, continuou:
- O Sangue de Cristo pode lavar tudo. Queres que te dê a absolvição de todos os teus pecados? Eu ofereço a minha vida por ti.
- Isto é que eu nunca poderia ter esperado. A princípio até sorri. Mas depois desfiz-me em lágrimas. Pela primeira vez, depois de longos anos, começou a despertar em mim o aborrecimento do mal e o desejo de mudar de vida. Pensava comigo mesmo: mas será isto verdade? O Sangue de Cristo poderá lavar a minha alma? Os meus crimes terão perdão?... Comecei a passar longas horas à noite conversando com ele, que me falava da fé, do amor de Deus, do arrependimento dos pecados, da penitência e da confissão. Em pequeno, tinha aprendido a catequese. Mas há quantos anos! Fiquei impressionado com tudo, desejando pôr termo à minha vida criminosa. Na véspera da sua morte chamou-me:
- Bogdan, não poderias arranjar-me um pouco de vinho e pão ázimo, pão de natal? (pão sem fermento usado na Polônia na festa do Natal). Queria tanto celebrar a minha última Missa!
- Para lhe fazer a vontade, fui a uma loja. Comprei uma garrafinha de vinho branco e uma vizinha deu-me um pedaço de pão de Natal. Levei-lhe tudo. Antes da Missa deu-me a absolvição dos pecados e beijou-me. Perguntei-lhe:
- Como podes tu beijar um desgraçado como eu?
- Se eu não sou como tu - respondeu ele - o mérito não é meu; protegeu-me a graça de Deus. Tanto eu como tu fomos salvos pela Sua infinita misericórdia.
- Foi isso que me disse, palavra por palavra. Nunca me esquecerei dessa noite, a última que ele passou no mundo e em que celebrou pela última vez. Um copo de alumínio serviu de cálice e depois... depois...(nesse momento Bogdan escondeu a cara) e depois deu-me a comunhão, a mim, pobre pecador!
O seus soluços interromperam o seu relato. A custo continuou:
- Deu-me o endereço deste convento e o nome do seu Superior. Mandou-me contar-lhe tudo e pôr em prática o que o senhor me dissesse. Mas eu tinha vergonha de vir, enquanto estivesse naquele emprego miserável. Logo depois da morte do Padre, pedi demissão. Eles não me queriam deixar ir porque, na verdade, eu era um especialista na matéria. Mas o médico atestou que os meus nervos não podiam aguentar mais. Deixaram-me partir. Agora aqui estou. Diga-me o que devo fazer. Queria ficar neste convento para fazer penitência pelos meus pecados.
O Padre Superior fechou os olhos e ficou calado por uns momentos. Por fim disse:
- Meu filho, recebo-te como um dom, graças ao testamento do meu antigo companheiro, o santo Padre Miguel, mártir da fé. Mas fixa bem na memória: A tua vida passada ficou lavada pelo Sangue de Cristo. Proíbo-te de falar dela, exceto na confissão ou diante da imagem de Jesus crucificado. Proíbo-te mesmo de pensar nela a não ser que tal pensamento encha o teu coração de gratidão pela grandíssima misericórdia que Jesus te demonstrou”.
Esta comovedora história vem descrita na revista “Cruzada” de Abril de 1985, donde transcrevemos com a devida vênia.
Por aqui se vê o trabalho da graça divina que é capaz, por um lado, de perdoar ao maior pecador; por outro lado, demonstra a ação da mesma graça naqueles que os altos desígnios de Deus chamam à glória do martírio por amor da fé.
Fonte: Jornal “Missionário do Sofrimento”, Setembro-Outubro de 1985, n. 110,  Porto - Portugal.


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

São Tomás de Aquino

Nos últimos dias de sua vida, estando hospedado em uma Cartuxa, São Tomás de Aquino fez um comentário ao “Cântico dos Cânticos”, Livro da Bíblia que canta o amor divino.
Ele, que era o Anjo das Escolas, morreu ensinando a perfeição do amor de Deus a esses religiosos, almas puríssimas, todas feitas para o amor de Deus, cuja função não é tanto de meditar sobre a ciência quanto sobre a caridade, suscitadas para se separarem de tudo no mundo e viverem apenas pensando no divino amor.
Que bela cena: as últimas palavras de São Tomás de Aquino engrandecendo o amor de Deus, e aqueles monges reverentes, bebendo aquelas palavras como se cada um sorvesse uma gota descida do Céu!
Assim se fechou, no extremo da contemplação e do isolamento de todas as coisas do mundo, a vida desse grande Doutor da Igreja.

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 6/3/1967

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Santa Maria Madalena e Santa Marta

Santa Maria Madalena tinha um tal amor por Nosso Senhor Jesus Cristo, mas um tal amor, um amor tão exclusivo, que há aquele episódio famoso do Evangelho em que Nosso Senhor vai visitar Santa Maria Madalena, Santa Marta e São Lázaro. Santa Marta estava pondo as coisas em ordem dentro da casa para receber bem Nosso Senhor, então estava pondo isto aqui, fazendo uma limpeza lá, não sei mais quanto, e Santa Maria Madalena deixou-a completamente abandonada com os afazeres da casa e ficou com Nosso Senhor, encantada com Nosso Senhor.
Até que, em certo momento, Santa Marta passa por Santa Maria Madalena e diz:
- Mas como é? E os afazeres todos? Você não vem me ajudar a pôr as coisas em ordem?
Nosso Senhor é quem responde por Santa Maria Madalena, porque ela fica meio sem resposta, e diz a ela:
- Marta, Maria escolheu a melhor parte.
Todos nós temos trabalhos a fazer. Mas, prestem atenção, não está dito por Nosso Senhor de que a outra parte era desprezível. Ele não diz: "Marta, você está fazendo um serviço inútil e Maria está fazendo aquilo que deve". Nosso Senhor é muito justo na palavra dEle, Ele diz: "Maria escolheu a melhor parte".
Portanto, a parte que não era melhor, Maria deixou. Mas o ideal seria que Maria, fazendo aquilo que não era o melhor, porque era necessário, tivesse escolhido a melhor parte. E o ideal seria que Marta, fazendo o que estava fazendo, não rejeitasse a melhor parte. As duas coisas.
Porque Nosso Senhor quando diz "Maria escolheu a melhor parte", Ele faz uma censura para as duas: "Marta, você deveria fazer o que está fazendo, mas prestando atenção na parte melhor. Maria, você deveria estar prestando atenção na parte melhor, mas fazer o que Marta faz".

Portanto, cada um de nós deve fazer o serviço de Marta com o espírito de Maria.
Mons João Clá Dias - Extraído de conferência 24/10/97  linguagem oral, sem revisão do autor.

terça-feira, 26 de julho de 2016

A espera de São Joaquim e Santa Ana

Segundo a tradição, Santa Ana concebeu Nossa Senhora de São Joaquim quando já era muito velha, fora da idade de ter filhos. Quando eles já tinham passado a época em que esperavam ter filhos.
Para cada judeu era muito importante ter filho, porque era possível que o filho de qualquer judeu fosse o Messias, e a finalidade deles não era só por ter filhos, mas era ter filhos dos quais um pudesse ser o Messias. Eles que desejavam tanto a vinda do Messias, deveriam legitimamente desejar que nascesse deles.
Provavelmente ─ isso acrescento eu ─ eles receberam comunicações de ordem mística ordinária ou extraordinária, de que o Messias nasceria deles. E os anos passam, os anos passam, os anos passam, a promessa lá está, a promessa lá está, a promessa lá está, e não vem, não vem, não vem!
O martírio da espera pode ser pior que o do campo de batalha
Eu acho que um martírio desses pode ser pior do que o martírio no campo de batalha! Porque o que é o escoar dos dias, e dos dias, e dos dias, e a coisa não vem, a coisa não vem, a coisa não vem ─ é uma coisa do outro mundo!
Bem, afinal, surpresa! Santa Ana comunica ao esposo que ela tinha concebido uma criança. Bem, então é o Messias! Há uma promessa de que o Messias nasceria deles! Então é o Messias. Nasce... é uma Menina!
Podem calcular o que isso representa? Então, todas aquelas promessas são vãs? Toda aquela esperança é vã? Não se pode admitir isso. Mas Deus levar as coisas a este ponto, de fazer nascer uma menina, depois de uma tão longa promessa? Parece quase uma brincadeira, da qual a santidade dEle é incapaz! Então, como explicar isso?
A menina se desenvolve, e é uma torrente de maravilhas! É uma menina como eles nunca imaginaram! Digna filha de uma tal espera. Mas, para ter como descendente o Messias, era preciso ser por via masculina. Não se computava, para o Messias, a descendência por via feminina. Então, se essa menina única, incomparável, casa-se, o filho dEla não será o Messias descendente de São Joaquim e de Santa Ana.
Estão vendo a complicação da coisa. Bem, vamos adiante. A coisa toca mais para frente. A menina visivelmente tocada pela graça, comunica aos pais que é desejo de Deus que ela seja sempre virgem. E eles veem na menina que esse é o desejo de Deus. Não podem duvidar. Mas, então, o quê? Uma promessa, uma longa espera, uma aparente realização ─ um bolsão que fecha a realização: o próprio Deus chama essa menina a ser sempre virgem.
Logo, a promessa no que é que fica? Deus parece ter prometido e ter retirado. Vamos esperar, vamos esperar, vamos esperar.
Bem, vai mais para frente o assunto. Em certo momento apresenta-se São José para casar com Ela. Parente dEla, ambos eram da Casa de David, sumamente puro, digno, composto, homem simples... São Joaquim e Santa Ana não eram riquíssimos, mas bem abastados. São José, pelo contrário, pobre, era um mero carpinteiro. Não é o que o mundo chama de um casamento brilhante. Ele se apresenta para casar, mas ele sabe que ele também tem uma promessa de ser, ele mesmo, sempre virgem. E que Deus pediu a ele. Em certo momento Deus diz a ele: case, sem deixar de ser virgem! E diz a Nossa Senhora: - Case com esse homem, e não deixe de ser virgem!
Mas quando São José recebe a comunicação que ele deve casar-se, a esperança da virgindade no que é que fica? Será que ele faltou em alguma coisa, e Deus já não quer como lírio dele entre os homens?
Até eles se entenderem sobre esse assunto, e os dois compreenderem que misteriosamente a Providência quer que ambos fiquem virgens, até isso, que complicação, que problema! E, com certeza, Nossa Senhora contava tudo para Santa Ana e São Joaquim: isto está assim, aquilo está assado, etc., etc.
Afinal, casam-se. Está muito bem, a virgindade respeitada por ambos, um lar pequeno mas perfumado por todas as virtudes possíveis!
Os paradoxos: S. José deve se casar com Nossa senhora, apesar das respectivas promessas de virgindade
José deve se casar com Nossa senhora, apesar das respectivas promessas de virgindade
Em certo momento São José percebe o que ele jamais na vida cria ter percebido: Nossa Senhora está com uma criança. Não sei se percebem que espera é essa, cheia de ziguezagues, cada uma mais terrível do que a outra!
Bom, pela lei judaica, se Ela prevaricasse, ele tinha obrigação de mandá-la embora de casa. Mas ele sabia que Ela não podia prevaricar. Ele a conhecia, sabia: esta alma não faz isso! Como é isso? Nossa Senhora vê o sofrimento de São José, e percebe que Ela não pode dizer a São José uma palavra. Se Ela falasse do Angelus, se Ela explicasse, o mistério estaria terminado e concluído, o problema do Messias estaria altamente resolvido.
Mas não é assim. E então São José resolve ausentar-se. Pergunta a Deus, não recebe nenhuma comunicação, fica num mistério cada vez mais pesado. Percebe que o processo da gestação vai para frente, e que ele não pode assistir a essa gestação. Inocente contra toda a evidência! Mas, é um mistério...
 O mistério se desvanece, um anjo conta a S. José
Podem imaginar o alívio dele quando, em sonho, um anjo conta para ele! No dia seguinte, quando ele amanhece, Nossa Senhora que talvez tenha passado a noite em claro, o vê, e o vê sereno, tranquilo, contente, ser para com Ela mais reverente do que tudo. Porque ele compreende que a Esposa dele é um tabernáculo onde o próprio Espírito Santo deu origem ao Filho de Deus, e que ali está o Messias, esperado das nações, esperado da Casa de David, esperado de São Joaquim e de Santa Ana, esperado dele! E que ali se realizou de modo super maravilhoso o que nunca se poderia imaginar. Mas as promessas não falham!
Como são os caminhos de Deus: quanto mais se espera, mais altíssimo será o que vem!
Plinio Correa de Oliveira - Extraído de uma conversa em 1988, sem revisão do autor.


quinta-feira, 21 de julho de 2016

Beato Manuel González García

De joelhos ante aquele monte de farrapos, a fé do Beato Manuel via através daquela velha portinha um Jesus tão calado, tão paciente, tão menosprezado, tão bom, que o fitava suplicante...
A Igreja comemorou há pouco o acontecimento mais esplendoroso da História, que a dividiu em um antes e um depois: o Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Para junto de Deus feito Homem acorreram pastores e Reis, e a eles nos unimos também nós, a cada ano, quando ao redor do Presépio rezamos e cantamos para adorar o Menino Jesus.
Ora, se a vinda de Jesus no Natal nos faz sentir tanto gáudio, com maior razão deveríamos vibrar de entusiasmo ao aproximarmo-nos de um sacrário, onde está o mesmo Jesus, real e verdadeiramente presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, sob as Espécies Eucarísticas.
Por isso Deus não deixa de suscitar ao longo dos tempos almas fervorosas que O adorem no tabernáculo, assim como Ele chamou outrora os pastores e os Magos a Belém. Entre estas almas especialmente devotas da Divina Eucaristia cabe destacar uma, cuja vida hoje nos ocupa: Dom Manuel González García, o "Bispo do Sacrário Abandonado".
Chamado ao sacerdócio desde a infância

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Santo Antão

Em sua mocidade, Santo Antão era muito rico. Quando tinha 18 anos, seus pais morreram, tendo ele herdado enorme fortuna. Certo dia, ele caminhava para uma igreja, meditando sobre a vantagem de se despojar dos bens terrenos a fim de seguir mais de perto a Nosso Senhor. Ao entrar no templo, encontrou o sacerdote fazendo um sermão sobre o moço rico do Evangelho, o qual recusou o chamado de Nosso Senhor por não querer abandonar tudo quanto possuía.
Diante disso, Santo Antão tomou a seguinte resolução: “Eu serei o moço rico que vai dizer sim para Cristo; o convite d’Ele não ficará sem uma resposta afirmativa; darei o que o outro não deu.” E entregou tudo, foi para o deserto e tornou-se um gigante do eremitismo antigo.

 Plinio Corrêa de Oliveira – Extraído de conferência de 7/3/1970