sexta-feira, 30 de novembro de 2018

São Lourenço, mártir


A história do martírio de São Lourenço, segundo Santo Antonino.
Corria a segunda metade do século III, – no qual a Igreja conhecera um pequeno intervalo nas cruéis perseguições que sofria – , quando São Xisto, Papa, indo à Espanha, encontrou ali dois jovens de santos costumes: São Lourenço e São Vicente. Levou-os consigo para a cidade de Roma, onde São Lourenço ficou com São Xisto, que o fez seu diácono, e São Vicente voltou para a Espanha, e na cidade de Valência foi coroado de glorioso martírio.
Neste tempo havia se convertido à Fé o imperador Filipe e seu filho de mesmo nome, e determinava exaltar a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Este foi o primeiro imperador dos romanos que recebeu perfeitamente a fé de Cristo; mas não pôde fazer o que desejava a favor da Igreja, porque foi morto à traição, como logo se dirá. E porque depois o imperador Constantino Magno, ter sido o primeiro que dilatou a fé por todo o império romano, por isso se diz ser o primeiro que dos Imperadores creu no Senhor, ainda que antes dele tenham Filipe e seu filho recebido o batismo.

No tempo deste imperador Filipe, se cumpriu o ano milésimo da fundação de Roma, em cujo dia os romanos fizeram grande festa. Tinha Filipe na sua corte a Décio, general muito esforçado, e começando a Gália (França) a rebelar-se contra o Império Romano, Filipe o mandou lá, para que a subjugasse. Indo Décio à Gália, reduziu tudo à sua vontade e voltou a Roma vitorioso. O imperador, querendo honrá-lo, saiu a recebê-lo na cidade de Verona, mas Décio vendo a honra que lhe fazia o Imperador, desvaneceu-se com soberba, e começou a desejar o Império e a tratar como mataria a Filipe.
Estando o imperador dormindo em sua tenda, entrou Décio secretamente e o matou, vencendo com dinheiro e promessas à gente que acompanhava o falecido imperador, e se foi para Roma com grande pressa. Sabendo do caso, Filipe, o menor, e informado que Décio vinha para Roma, tremeu, e decidiu encomendar os seus tesouros a São Xisto, Papa e a São Lourenço, rogando-lhes que se ele fosse morto, os distribuíssem pelas Igrejas e pelos pobres, e logo se ocultou. E por esta causa, esses tesouros que São Lourenço repartiu, se chamam “tesouros da Igreja”.
Saíram os senadores a receber Décio, e o confirmaram no Império. Querendo demonstrar grande zelo do culto dos deuses e do bem dos romanos, começou a perseguir cruelmente aos cristãos, a quem matava com toda a impiedade. Nesta perseguição morreram muitos mil mártires, e entre eles Filipe, o menor.
Décio quis reaver os tesouros que Filipe havia dado à Igreja, e por isso foi preso o Papa São Xisto. Por meio de ameaças, Décio queria que São Xisto entregasse os tesouros e negasse a fé de Cristo. São Lourenço, ao ver que levavam preso ao Papa, foi atrás dele, gritando:
— Pai! Aonde ides sem o vosso filho? Aonde ides, sacerdote santo, sem o diácono? Por que vos desgostastes de mim? Porventura não me achastes fiel ministro em todas as vossas coisas?
Respondeu o Papa São Xisto:
— Não te desamparo filho, mas piores batalhas te estão reservadas pela Fé de Cristo, porque eu assim como velho, recebo a pena desta peleja, e a ti, como jovem forte e valente, te espera triunfo mais alto e glorioso, para vencer o tirano, e depois de alguns dias me seguirás, porque convém que haja um intervalo entre o sacerdote e o diácono.
Dito isto deu-lhe a chave dos tesouros para que os repartisse pelas Igrejas e pelos pobres. Buscou São Lourenço com diligência, de dia e de noite, todos os cristãos pobres que pôde achar, e distribuiu os tesouros segundo a necessidade de cada um. Chegou à casa de uma viúva de nome Ciriaca, que tinha nela muitos cristãos escondidos, e era muito atormentada de dores de cabeça, e pondo-lhe o Santo as mãos sobre ela, logo ficou sã. A todos que ali estavam deu muitas esmolas. Nessa mesma noite chegou à casa de um cristão, e achando ali um que era cego, fez-lhe o sinal da cruz sobre os olhos do homem e este logo sarou.
Enquanto estas coisas se passavam, São Xisto foi apresentado ao Imperador Décio. São Xisto tendo-se negado a entregar os tesouros que Décio pedia foi enviado para o templo de Marte para que lá sacrificasse ao deus da guerra. Recusou-se terminantemente e por isso foi condenado a ser degolado.
Sendo levado São Xisto para o local de seu suplício, São Lourenço incitado pelo Espírito Santo, começou a bradar atrás dele, dizendo:
— Não me desampares, Santo Padre, porque já distribui os tesouros que me destes!
Os soldados, ouvindo aquele jovem dizer “os tesouros que me destes”, prenderam a São Lourenço, e o levaram a Décio. São Xisto e mais outros dois mártires, Agapito e Felicíssimo foram degolados.
Estando São Lourenço diante de Décio, perguntou-lhe pelos tesouros da Igreja, mas São Lourenço não lhe respondeu coisa alguma, e Décio o mandou entregar a Valeriano, e que soubesse dele onde tinham escondidos os tesouros, e que se não quisesse sacrificar aos deuses, o matasse com diversos tormentos.
Entregou Valeriano, São Lourenço, a Hipólito, carcereiro, o qual o meteu no cárcere com outros muitos. Estava preso entre eles um pagão chamado Lucilo, que de muito chorar havia perdido as vistas. São Lourenço ao vê-lo, disse:
— Crê em Jesus Cristo, e logo sararás!
Respondeu ele:
— Eu creio em Cristo e renego os ídolos.
Instruiu-o São Lourenço acerca das coisas da Fé e o batizou, e logo foi são, e disse:
— Louvado seja Jesus Cristo, Deus Eterno, que me curou por intercessão de seu servo Lourenço!
Sabendo-se na cidade que São Lourenço devolvera a vista a Lucilo, muitos cegos vinham pedir-lhe que os curasse e pondo-lhe o Santo as mãos nos olhos logo começavam a ver.
Hipólito, espantado diante de tantos prodígios, disse a São Lourenço:
— Vamos Lourenço, mostre-me os tesouros que tens escondido, não contarei para ninguém e te darei liberdade...
Respondeu São Lourenço, com muita piedade:
— Ó Hipólito, se tu cresses em Jesus Cristo, eu te mostraria os tesouros, e alcançarias a vida eterna.
— Se fazes o que dizes, eu farei o que me aconselhas - disse Hipólito, tocado por uma graça de conversão.
E ensinando-o na fé, ele também recebeu o batismo com toda a família.
Mandou Valeriano a Hipólito que lhe levasse São Lourenço, o que sabendo isto, disse:
— Vamos juntos lá, que já se nos preparam a coroa de glória!
Chegando à casa de Valeriano disse ele a São Lourenço:
— Lourenço, dê-nos logo os tesouros que tens da Igreja!
Respondeu o Santo:
— Dá-me um espaço de três ou quatro dias, e vos trarei até aqui.
Concedeu nisto Valeriano, e ficou Hipólito por fiador. Foi então São Lourenço, e naqueles três dias, ajuntou quantos pobres pode achar, e os levou ao palácio do imperador, e em alta voz disse a Décio e a Valeriano:
— Estes são os tesouros eternos, que nunca faltam, antes, sempre crescem: e os tesouros que pedes, as mãos dos pobres os levarão aos tesouros do Céus.
Enfurecido, Décio o mandou açoitar e o Santo disse:
— Dou graças a Deus, porque é servido de me juntar aos seus servos. Miserável de ti, que com os demônios serás atormentado!
Ouvindo isto, Décio se enfureceu ainda mais, e o mandou açoitar cruelmente uma segunda vez, e o Santo levantando a voz tornou a dizer:
— Conhece, ó mísero, que agora alcanço os tesouros do Céu, e por isso não temo os teus tormentos.
Disse Décio aos algozes:
— Tomai outras varas para o açoitar!!!
Disse São Lourenço:
— Ó mal-aventurado, estas delícias e convite sempre foram desejadas por mim.
— Ah, ainda brincas comigo! Vamos lá, jovem! Se te glorias desses sofrimentos, dize-me aonde estão escondidos os teus companheiros cristãos, para que juntamente contigo se alegrem!
São Lourenço, olhando com firmeza, respondeu:
— Nada te direi, pois não és digno de vê-los!
Irado e humilhado com a resposta de São Lourenço, Décio tornou a mandar açoitá-lo por maior espaço de tempo. Sentindo que suas forças o abandonavam, o Santo orou ao Senhor, dizendo:
— Senhor Jesus... recebei... o meu espírito!
Veio então do Céu uma voz a qual todos que ali estavam a puderam ouvir:
— Ainda te está reservada maior batalha de tormentos por Cristo!
Ouvindo isto, Décio, meio assustado, disse:
— Cidadãos de Roma! Ouviram isto! Os demônios falam com este sacrílego, que despreza os deuses e desobedece as ordens dos príncipes. Redobrai os tormentos e acabai logo com a sua arrogância!!!
Tomaram o Santo e o estenderam sobre uma grade de ferro, onde foi açoitado com azorragues feitos à maneira de escorpiões, mas o Santo, sem afrouxar de sua constância, sorriu, - apesar das muitas dores - e deu muitas graças a Deus.
Um oficial do exército, chamado Romano, que estava presente quando açoitavam a São Lourenço, converteu-se à fé, e bradou dizendo:
— Vejo um formoso jovem diante de ti, que com uma toalha está limpando os teus membros, e isto me move a pedir-te pelo Deus que te dá tantas forças e que não te desampara!
Décio, louco de raiva, gritava:
— Esse maldito nos está vencendo por meio de suas artes mágicas!
E enquanto se estabelecia tremenda confusão de gritos e de ordens de prisão, Romano correu até São Lourenço com um vaso de água, e pediu para ser batizado pelo Santo. Vendo isto, Décio e alguns soldados tentaram impedi-lo, mas já era tarde, e a Igreja acabava de admitir em suas fileiras um valoroso soldado. Preso pelos guardas, Décio mandou que fosse açoitado. No momento em que recebia os golpes o destemido oficial bradava:
— Eu sou cristão! Eu sou cristão!
Recebeu ali mesmo a sentença de morte e conduziram-no para ser degolado fora dos muros da cidade, junto à porta, chamada Salaria, a 9 de agosto. Naquela mesma noite, mandou Décio trazer perante si a São Lourenço, e que lhe mostrassem todos os tormentos pelos quais teria de passar, e lhe disse:
— Sacrifica aos deuses... Caso contrário, durante toda esta noite nós te atormentaremos.
O jovem São Lourenço respondeu olhando para o Céu, com a certeza de quem estava vendo o invisível:
— A minha noite não tem escuridão, pois toda ela é cheia de claridade!
Ouvindo isto, o tirano o mandou ferir na boca, mas o Santo com grande ânimo disse:
— Graças vos dou, Senhor Jesus Cristo... porque livrais das penas e dores eternas aos que em Vós confiam!
— Chega! - gritou Décio - morte a esse desgraçado!
Trouxeram, então, um leito de ferro, ao modo de grelha, e estenderam nela São Lourenço. Os algozes colocaram muitas brasas debaixo, e assim começar a assar as carnes daquele santo homem. E como se faz a um animal morto que se quer comer, apertavam-no com forquilhas de ferro.
Dirigindo-se São Lourenço a Valeriano, disse-lhe com muita gravidade:
— Conhece, miserável, a grandeza do poder de meu Senhor: Ele sabe que não neguei o seu Santo Nome quando fui acusado, e que o confessei sendo perguntado, e que agora assado o estou louvando! Estas brasas não me dão tormento, mas sim refrigério, e para ti, miserável, estão reservados eternos tormentos no inferno.
As palavras de São Lourenço cravaram-se como setas incandescentes no coração e na mente de Valeriano, que empalidecendo, não sabia o que dizer.
Todos os que presenciavam a cena se admiravam do ânimo com que São Lourenço sofria aquele tormento. Depois de alguns momentos de silêncio, durante os quais São Lourenço mexia silenciosamente os seus lábios, levantou o Santo os olhos para Décio, e disse-lhe:
— Mal-aventurado Décio, já está assada a parte de trás, vira-me da outra, come e farta-te! Meus olhos já começam a ver o que há dias desejavam!
E erguendo suas vistas para o Céu, disse:
— Graças vos dou, Senhor Jesus Cristo, porque permitistes que eu fosse digno de entrar em vossa casa!
E dito isto, expirou.
Um grave silêncio se fez sentir, quebrado apenas pelo crepitar das poucas chamas que saiam das brasas e pelos suspiros de angustia de Décio e de Valeriano. Levantando-se os dois tiranos retiraram-se derrotados e humilhados, deixando o corpo queimado sobre as grelhas.
Na manhã do dia seguinte tomaram os cristãos o corpo do Santo mártir e o enterraram honradamente. Seu martírio deu-se no dia 10 de agosto do ano 261.
São Lourenço é um dos santos mártires que com maior solenidade se celebra em todo o mundo, assim pela excelência e grandeza de seu martírio, como por ser padroeiro da cidade de Roma. Este Santo era natural de Huesca, filho de Orêncio e Paciência, que foram Santos, e como tais são celebrados naquela cidade.

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