sábado, 24 de setembro de 2011

São Pio de Pietrelcina

Esse santo moderno arrebatou multidões, fez incontáveis milagres e foi duramente incompreendido.
Esse é um dos homens extraordinários que Deus envia à terra de vez em quando, para a conversão dos homens”, disse ao Papa Bento XV um Bispo do Uruguai, logo após visitar o Pe. Pio. Com estas palavras, o Prelado soube dar à figura do frade capuchinho sua inteira dimensão: é uma das visitas que Deus faz à Humanidade em determinadas épocas, para indicar-lhe o caminho da salvação.
Com sua imensa popularidade e seus assombrosos dons sobrenaturais, São Pio de Pietrelcina foi, acima de tudo, uma alma crucificada, oferecida como vítima voluntária pelo mundo, escondida em um permanente colóquio com o Senhor. É dessas íntimas profundidades que emerge a força pela qual ele chegou a identificar-se por inteiro com Nosso Senhor. Os estigmas da Paixão são o selo exterior dessa união mística entre o Criador e sua criatura.
Aos cinco anos, recebeu a vocação
Francisco Forgione de Nunzio nasceu em 25 de maio de 1887, em Pietrelcina, pequeno povoado vizinho de Benevento, no sul da Itália. Seus pais, Grazio e Maria Giusepa, levaram-no à pia batismal no dia seguinte, na igreja de Santa Maria dos Anjos, onde fez depois sua Primeira Comunhão, aos 12 anos.
Era tido por um menino retraído porque raras vezes brincava com os demais. Quando lhe pediam explicações a este respeito, respondia que “eles blasfemavam”. Seus silêncios correspondiam a precoces mas profundas meditações, a momentos de oração entremeados da prática de austeridades as quais já apontavam para a vocação que desde os 5 anos ele percebia claramente: ser capuchinho.
Em Janeiro de 1903, com 16 anos, entrou como noviço na Ordem dos Frades Menores em Morcone. Terminado o ano de noviciado, emitiu os votos simples, e em Janeiro de 1907 fez a profissão solene.
Com as frequentes mudanças de convento durante os estudos necessários para a ordenação, seu precário estado de saúde piorou a ponto de ser-lhe necessário voltar para a casa paterna, por ordem de seus superiores, para convalescença. Mesmo assim, não abandonou a vida regular de oração e meditação, unido em espírito a seus irmãos de hábito que permaneciam no mosteiro.
Em Janeiro de 1910, pediu para ser ordenado sacerdote prematuramente, pois temia morrer a qualquer momento. Em agosto desse ano recebeu a ordenação na capela do Arcebispo de Benevento. Teve de voltar em seguida para a casa da família, onde permaneceu até 1916.
Dom de “ler as almas”
Em setembro desse ano, seus superiores notaram uma pequena melhora em seu estado de saúde e decidiram mandá-lo para o convento de Santa Maria das Graças, situado em San Giovanni Rotondo. Foi uma alegria para ele poder dedicar-se à vida de comunidade e seguir a regra dos capuchinhos.
O dia 25 de maio de 1917 merece especial registro em sua longa e santa vida. Ele completava 30 anos. Enquanto rezava no coro da igreja, foi agraciado com os estigmas da crucifixão de Jesus, os quais permaneceram nele por mais de 50 anos.
No convento, começou exercendo a função de diretor espiritual e mestre dos noviços. Além desse encargo, confessava os habitantes do povoado que frequentavam a igreja conventual. Foram estes que, pouco a pouco, notaram as características especiais do novo padre: suas Missas às vezes duravam três horas, pois com frequência entrava em êxtase, e os conselhos que ele dava no confessionário revelavam alguém que “lia as almas”.
Certa vez chegou uma jovem de Florença, muito atribulada, pois um familiar próximo tivera a desgraça de cometer suicídio, jogando-se no Rio Arno. Já havia ouvido falar do padre de San Giovanni, e depois da Missa dirigiu-se à sacristia para falar com ele. Apenas este viu a moça, inteiramente desconhecida dele, disse-lhe com doçura:
— Da ponte ao rio demora alguns segundos...
A jovem, surpresa e chorando, só pôde responder:
— Obrigada, padre.
Fatos maravilhosos como esse se repetiam todos os dias. Chegavam incrédulos que saíam arrependidos de sua falta de Fé. Pessoas tomadas de desespero recuperavam a confiança e a paz de alma. Enfermos retornavam curados a seus lares.
“É preciso amar a Igreja, mesmo quando ela pune”
Seu grande instrumento de apostolado era o sacramento da Confissão. Certa vez alguém lhe perguntou:
— O que é a Confissão, padre?
— A Confissão é o banho da alma, meus filhos. É preciso lavá-la pelo menos a cada oito dias.
O Pe. Pio tinha também o dom da bilocação, ou seja, o de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Assim o narra o General Luigi Cardona, o qual, ao receber uma foto do Santo, recordou: “Este! Este é o frade que, sem autorização, sem ser anunciado, sem ser visto por ninguém, entrou em meu escritório naquela noite em que eu tinha tomado a decisão de suicidar-me e estava com o revólver já carregado em minhas mãos. Foi ele quem me dissuadiu de fazer isso, e quando me viu já convencido e arrependido, desapareceu tal como havia chegado”.
Em vista dos estigmas e da popularidade que ele ia alcançando, o superior do convento julgou conveniente enviar ao Vaticano um relato ilustrado por fotografias. Em resposta, a Santa Sé, como medida de prudência, solicitou-lhe proibir o Pe. Pio de celebrar Missa em público e de atender confissões.
Como reagiu ele? Como só um santo sabe fazê-lo. Um de seus companheiros relata: “Ao receber a notícia, deixou entrever umas lágrimas e um gesto de profunda dor. Retirou-se para a tribuna do coro e ficou rezando até meia-noite aos pés do crucifixo. Logo ele próprio diria: ‘A igreja é uma mãe à qual é preciso amar, e mais ainda quando nos pune... Por muito grande que seja a prova à qual o Senhor nos quer submeter, nunca jamais percam o ânimo; corram com filial abandono aos braços de Cristo’.”
Posteriormente, o Papa Pio XII revogou as proibições, e deu seu pontifício apoio às actividades apostólicas desse digno filho de São Francisco.
A companhia do Anjo da Guarda
Um traço revelador do privilegiado contato dele com o mundo sobrenatural é a estreita relação que manteve durante toda a vida com seu Anjo da Guarda, ao qual ele chamava de “o amigo de minha infância”. Era seu melhor confidente e conselheiro. Quando ele ainda era menino, um de seus professores decidiu pôr à prova a veracidade dessa magnífica intimidade. Para tanto, escreveu-lhe várias cartas em francês e grego, línguas que o Pe. Pio então não conhecia. Ao receber as respostas, exclamou estupefato:
— Como podes saber o conteúdo, já que do grego não conheces sequer o alfabeto?
— Meu Anjo da Guarda me explica tudo.
Graças a um amigo como esse, junto ao auxílio sobrenatural de Jesus e Maria, o Santo pôde ir acrisolando sua alma nos numerosos sofrimentos físicos e morais que nunca lhe faltaram.
Casa de Alívio do Sofrimento
Não contente com sua inteira dedicação ao bem das almas, o Pe. Pio projectou a construção de um hospital para remediar também os padecimentos corporais. Sabendo que o sofrimento do corpo acarreta o da alma, tinha ele por objetivo fundar uma instituição de caridade na qual os espíritos e os corpos encontrassem alívio para mais facilmente se aproximarem de Deus. Graças ao entusiasmo comunicado por ele a seus filhos espirituais, as obras deixaram de ser mero projeto tão logo acabou a guerra na Europa.
A época não era boa para arrojos em empreendimentos de alto custo... Mas a fama de santidade do fundador atraía as doações. Assim, os recursos financeiros chegavam sempre justamente a tempo, deixando desconcertados os que baseavam seus cálculos apenas nas cautelas humanas.
O grande hospital foi inaugurado em maio de 1956. Entre os mais de 30 mil fiéis presentes, destacavam-se numerosas autoridades civis e eclesiásticas. A obra, fruto dos contínuos padecimentos do Pe. Pio, foi por este baptizada com o nome de Casa Sollievo della Sofferenza (Casa de Alívio do Sofrimento).
Milagre para o futuro Papa
Entre os incontáveis devotos do Pe. Pio contava-se certo sacerdote polonês que em 1947, quando estudava em Roma, tinha ido confessar-se com ele. Chamava-se Karol Wojtyla. Quinze anos mais tarde, quando participava das primeiras sessões do Concílio Vaticano II como Vigário Capitular de Cracóvia, escreveu uma carta ao frade capuchinho, pedindo orações por uma colaboradora sua, a Dra. Wanda Poltawska, mãe de quatro filhos e atingida por um câncer de garganta que demandava uma cirurgia considerada já como inútil.
Dez dias depois o Pe. Pio recebeu nova missiva do futuro Papa, desta vez de agradecimento, pois a mulher se vira curada subitamente, antes da cirurgia, causando estupor aos médicos que dela tratavam. Ambas as cartas figuram no processo de canonização do frade estigmatizado.
No final, a glorificação
As humilhações, contrariedades e sofrimentos pontilharam toda a vida de São Pio de Pietrelcina, ressaltando sua condição de vítima propiciatória, e, no correr do tempo, não fizeram mais do que conferir-lhe uma inefável semelhança com a Vítima por excelência, Nosso Senhor Jesus Cristo. Até o fim, continuou ele suas atividades de apostolado, de modo especial o atendimento de confissões, guiando para Jesus e Maria todas as almas que dele se aproximavam.
Com o passar dos anos, cresciam as manifestações de fervor popular em torno da venerável pessoa desse já ancião e fatigado filho de São Francisco. E a Santa Sé foi lhe dando mostras cada vez mais expressivas de confiança e benevolência.
Em setembro de 1968, entre a interminável afluência de peregrinos e de personalidades de todo o mundo, o Pe. Pio recebeu o chamado para a eternidade. No dia 22, domingo, celebrou sua última Missa. Pouco depois, renovou sua profissão religiosa e sua consagração ao Senhor.
Nas primeiras horas de 23 de setembro, tendo recebido os sacramentos, São Pio de Pietrelcina entregou a Deus sua virtuosa alma. Segurava em suas mãos o santo Rosário, devoção que ele jamais deixou de cultivar.
Uma incalculável multidão de fiéis desfilou durante quatro dias diante de seus restos mortais. Em 16 de junho de 2002, o Vigário de Cristo o elevou à glória dos altares.

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