quinta-feira, 21 de junho de 2012

São Luís Gonzaga

São Luís Gonzaga (1568-1591) foi o filho mais velho de Fernando, Marquês de Castiglione. Unido à sua piedade precoce podia-se perceber o borbulhar belicoso do sangue ancestral. Assim o Marquês deu-lhe uma pequena armadura, elmo, espadinha e um pequeno arcabuz de verdade. E o levou ao acampamento de Casal-Major, onde deveria passar em revista as tropas que levava consigo para a guerra do rei espanhol contra Túnis.
Luís gostava de estar junto aos tercios espanhóis — das mais famosas tropas de infantaria então existentes — imitando seu passo marcial. Mas muitas vezes repetia seu jargão e as palavras às vezes inconvenientes de alguns deles. Seu tutor chamou-lhe a atenção, dizendo-lhe que aquela não era a linguagem de lábios limpos. Embora o menino de cinco anos não entendesse seu sentido, chorou amargamente essa involuntária falta, que acusará sempre como uma das mais graves de sua vida. E disse que a partir desse episódio teve início sua “conversão”!
Comentários do Prof. Plinio Correa de Oliveira
Um trecho da vida de São Luís retirado do Daurignac.
“No momento da partida, tendo chegado para o corpo de arma do exército comandado por D. Ferrante de Gonzaga, pai de São Luís, Luís foi mandado a Castiglione. D. Francesco del Turco subiu na carruagem do jovem príncipe. Os gentis-homens do séquito o acompanhavam a cavalo. Quando se ficou próximo ao campo raso, o governador disse a seu aluno, no tom solene e respeitoso com que lhe falava sempre: Monsenhor, há vários dias tenho uma observação importante para fazer a Vossa Senhoria. Eu quis esperar que ela tivesse deixado Casals, a fim de não estar disposto a renová-la.
- O que fiz por acaso? perguntou a criança, emocionada.
Resposta: Eis o que foi. Vossa Senhoria, durante toda a vossa estadia em Casals viveu no campo (esta era a vontade do príncipe, pai dele). Mas Vossa Senhoria trouxe palavras e expressões inconvenientes, que um príncipe do seu sangue jamais deve permitir a si próprio e que ele até deve ignorar, porque seria motivo de viva dor para a princesa sua mãe, se ela surpreendesse isto nos lábios de seu filho.
- Mas, caríssimo amigo (observe-se que São Luís de Gonzaga tinha quatro anos), eu não sei o que é. O que disse eu de mau? E o menino começou a chorar. O preceptor lembrou então a seu aluno as palavras das quais a inocente criança não tinha compreendido nem o sentido nem o inconveniente.
- Isso jamais me acontecerá uma segunda vez, meu bom amigo, respondeu São Luís, todo desolado de sua falta. Eu vos prometo de pensar nesse assunto sempre.
Ele foi fiel à sua promessa. Essa falta, toda de ignorância, São Luís de Gonzaga jamais a esqueceu. Ele a considerava como a mais lamentável que jamais tivesse feito em toda a sua vida, e confessava mais tarde que a lembrança que conservava dessa falta o humilhava profundamente”.
Parece-me que devo fazer um resumo dos acontecimentos. São Luís de Gonzaga tinha sangue espanhol, mas era filho de um príncipe semi-soberano da Itália, da casa de Castiglione, que tinha ligações de parentesco com as maiores casas soberanas da Europa, inclusive com a casa D’Áustria, a mais importante de todas elas. Tinha quatro anos de idade e  um pouco antes dessa idade era já colocado em ambientes militares.
Isso parece um excesso, mas, pelo contrário, é uma coisa esplêndida. É porque as crianças são colocadas no jardim de infância desde pequenas, que acabam numa espécie de infância a vida inteira. Quando se quer que a criança mature, não se a coloca em jardim de infância, mas em jardim de homem. Tenho a impressão de que essas molezas de jardim de infância têm uma certa cumplicidade nos problemas de falta de estrutura das gerações atuais.
 Maturar é o próprio da criança. Em vez de colocá-la em estágio superior, onde ela procure acelerar sua busca de um estado mais alto, faz-se, ao contrário, uma educação para comprimir. A criança fica infantil durante um longo tempo, e quando acaba isto é educada junto com as meninas: a co-educação. É o risco de dar um elemento híbrido, nem adulto nem infantil e de espírito nem másculo nem efeminado.
São Luís, portanto, não foi mandado para o jardim de infância, mas para o exército. Ora, os senhores sabem que nem sempre a linguagem dos ambientes militares é a mais pura e elevada possível. E o menino aprendeu umas tantas palavras peculiares ao palavreado militar, que não faziam parte da linguagem da casa de família e que tinham um sentido obsceno, imoral.
Aí vem o preceptor, — os senhores vêem como o menino viaja, como viajava um príncipe nessa ocasião; ia numa carruagem com seu preceptor e tinha um séquito de gentis-homens, que o acompanhavam a cavalo, — e só depois de ter deixado a cidade onde ele contraíra esse mau hábito, já em pleno campo, que falou com ele.
Vejam a gravidade que o preceptor atribuía à coisa. Os espíritos mais superficiais achariam essa gravidade exagerada. Ele disse que um príncipe de sangue jamais deveria aprender tais palavras e, que um príncipe de tal categoria, sequer deveria conhecer o seu sentido. São Luís perguntou o que era, ficou muito entristecido, etc.
Dir-se-á que esse preceptor foi imprudente: a criança, não sabendo o que era, não fizera mal nenhum. Pelo contrário, ele revelou uma visão profunda das coisas: a palavra é tal que, mesmo quando a pessoa não sabe o que quer dizer, algum mal essa palavra faz. Por exemplo: uma pessoa que tem o hábito de soltar uma exclamação blásfema. Será inútil corrigi-la? De modo nenhum: a palavra intrinsecamente tem um sentido mau e os lábios de um filho de Nossa Senhora não devem sujar-se pronunciando palavras obscenas.
E agora a humildade de São Luís: a humildade é a verdade e a verdade o leva a considerar seu pecado tão grave que foi o mais grave de sua vida. E aí transparece uma inocência, uma santidade, que é uma coisa de cegar.

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