quinta-feira, 13 de setembro de 2012

São Miguel Garicoïts

 Um Santo acrisolado pela obediência
O sonho de sua vida era dar à Igreja um esquadrão de sacerdotes bem preparados e dispostos a aceitar qualquer missão, sobretudo as mais difíceis, as que fossem recusadas pelos outros.
 Os anos da Revolução Francesa foram de acirrada perseguição à Igreja. Os padres “refratários” — aqueles que, por fidelidade ao Papa, se recusaram a aceitar a Constituição Civil do Clero — viram-se reduzidos à condição de criminosos, obrigados a fugir ou a exercer na clandestinidade seu ministério sacerdotal. Milhares deram a vida por Cristo, decapitados na guilhotina, mortos por afogamento ou vítimas da fome e das doenças, encarcerados em infectas prisões.
Nessa situação, os sacerdotes fiéis contaram com o auxílio de católicos leigos que não hesitavam em expor a própria vida para acolher em seus lares os ministros de Deus que permaneceram na França para desempenhar sua missão de salvar almas, ou guiar pelas trilhas das montanhas aqueles que fugiam para algum país vizinho.
Os pais de São Miguel Garicoïts — Arnaldo e Graciana — estavam entre esses anônimos heróis da Fé. Esse jovem casal de camponeses de Ibarre, vilarejo francês situado a poucos quilômetros da fronteira espanhola, não temia esconder em sua humilde granja os sacerdotes perseguidos e dar-lhes todo tipo de ajuda. E Deus recompensou sua generosidade, dando-lhe por filho um grande Santo.
Semente de Santo ou... de bandido
Nascido a 15 de abril de 1797, Miguel só pôde ser batizado seis meses depois, devido às dificuldades causadas pela perseguição religiosa. Seu temperamento fogoso fez-se sentir já nessa ocasião, pois quando o padre lhe derramou na cabeça a água batismal, agarrou com suas mãozinhas a folha do ritual e a rasgou!
Alguns pequenos episódios bastam para revelar seu caráter determinado e impetuoso. Aos quatro anos, atirou uma pedra numa vizinha, em vingança porque ela ofendera sua mãe. Aos cinco, furtou as brilhantes agulhas de um mascate. Em certa ocasião, viu seu irmão menor comendo uma maçã e arrebatou-a de suas mãos; e quando o pequeno lhe perguntou se gostaria que alguém lhe fizesse o mesmo... encheu-se de remorso e jogou fora a fruta. Ação bem mais grave: aos onze anos, capitaneou uma revolta para vingar-se do mestre-escola, que castigava com excessivo rigor seus infantis alunos; mas, no momento decisivo, os demais revoltosos fugiram, deixando-o sozinho diante do “inimigo” que o interpelava, e ao qual respondeu com franqueza:
— Sim, professor, nossa intenção era surrá-lo. Mas... peço-lhe perdão.
Assim era ele: alegre, ardente, resoluto, franco, teimoso e disposto a assumir a responsabilidade por seus atos. Tinha estofo para tornar-se um grande Santo ou... um grande bandido.
Mamãe Garicoïts percebia isso e, não querendo ter um filho criminoso, corrigia-o com firmeza. Mostravalhe às vezes o intenso fogo da lareira, perguntando:
— Está vendo este fogo? Fique sabendo que o do inferno é muito mais terrível... e para lá vão os meninos que cometem pecado mortal!
Para incutir-lhe o espírito de obediência e submissão à vontade de Deus, incitava-o a dizer sempre ao Senhor: “Huna ni!” (“Eis-me aqui”, no dialeto basco), a resposta dada pelo jovem Samuel, ao ser chamado por Deus (I Sm 3, 4). Reconhecerá ele mais tarde, cheio de gratidão: “Sem minha mãe, acho que teria me tornado um bandido. Depois de Deus, devo a ela o que sou”.1
Vou comungar e serei sacerdote!
A graça suscitava na grande alma sacerdotal e eucarística de Miguel o desejo de receber o quanto antes a Sagrada Comunhão. Nas Missas dominicais, ele observava atentamente os gestos e atitudes do padre, e depois brincava de celebrar Missa. Certo dia, queimou a mesa de madeira de sua casa, ao deixar derreter até o fim os tocos de vela de parafina que usava como círios do seu improvisado altar...
A família Garicoïts era pobre, e Miguel — o mais velho dos cinco filhos — precisava dar sua colaboração para o sustento da casa. Inicialmente, pastoreava o pequeno rebanho familiar. Depois seu pai arranjou-lhe um emprego de pastor na granja de uma família abastada de Oneix, cidade vizinha de Ibarre. Ali trabalhou dos onze aos quatorze anos e frequentava com muito proveito as aulas de gramática e de Catecismo, a ponto de ser cognominado de “Doutorzinho”. Apesar disso, o pároco não o admitia à Primeira Comunhão.
Mas Deus decidiu abrir as portas fechadas pelos homens. Numa tarde, voltava ele do campo, com seu rebanho, e um só pensamento lhe ocupava a mente: receber a Hóstia Consagrada. De repente, como São Paulo no caminho de Damasco, viu-se cercado por uma luz intensa, e recebeu uma revelação que encheu sua alma de paz e alegria: vou comungar e serei sacerdote! Essa, ele a denominou de “êxtase de Oneix”. Sem demora, vai à procura do pároco e lhe conta em detalhes a graça que acabara de receber. Este reconhece no fato uma clara manifestação da vontade de Deus, e diz ao jovem pastor.
— Miguel, vou inscrever já seu nome para a próxima Primeira Eucaristia! Prepare-se bem e tome todo cuidado para não ofender o Deus que você vai receber. Foi assim que, por fim, aos 14 anos, fez sua Primeira Comunhão, na festa da Santíssima Trindade.
Rumo ao sacerdócio
O primeiro obstáculo a enfrentar em sua trajetória rumo ao sacerdócio foi o seu pai, que o queria ocupando-se da pequena granja familiar e, ademais, não podia custear-lhe os estudos. Porém, sua avó materna, com determinação basca, soube convencer o genro e levou Miguel para Oneix, onde pediu ajuda a um padre que se escondera inúmeras vezes na casa dos Garicoïts, durante a perseguição revolucionária. Este deu-lhe moradia e arranjou-lhe uma vaga no colégio de Saint Palais.
Começou a escalada dos estudos. O jovem camponês trabalhava de dia, para compensar a falta de recursos, e estudava à noite. Como sabia apenas o idioma basco, teve dura luta para aprender francês e latim. Em três anos, porém, já estava preparado para os estudos superiores. Assim, transferiu-se para Bayonne em 1814. Prestava serviços no Palácio Episcopal, onde se hospedava, e em pouco tempo conquistou a simpatia de todos, à força de mansidão, dignidade e dedicação.
Aluno brilhante, estudou Filosofia no seminário de Aire-sur-Adour e Teologia no de Dax. O reitor deste logo notou o valor do jovem, entre centenas de estudantes, e comentou: “Se não me engano, ainda ouviremos falar muito deste rapaz”.2 O testemunho de seus companheiros deixa claro que já entreviam nele a santidade: “Miguel não é um santo para ser feito: é um santo feito e acabado”— dizia um. “Para todos nós, Miguel era nosso São Luís Gonzaga!” — exclamava outro.3
O Bispo de Bayonne, futuro Cardeal d’Astros, conferiu-lhe a tão ansiada ordenação presbiteral em 20 de dezembro de 1823. São Miguel Garicoïts iniciava aos 26 anos de idade sua providencial missão.
Um homem providencial
Um mês após sua ordenação, o Bispo o nomeou vigário cooperador de Cambo, cidade de certa importância, próxima a Bayonne. Era uma situação muito delicada, pois o pároco, já idoso e paralítico, perdera o contato com seus paroquianos, deixando-os entregues às ideias da época.
Como homem providencial, padre Miguel levou adiante uma pastoral muito parecida com a do Santo Cura d’Ars, seu contemporâneo: leão no púlpito, manso e compreensivo no confessionário. Instituiu uma Cruzada Eucarística para contrabalançar a fria influência do jansenismo, deu um caráter solene aos atos litúrgicos, esmerava-se nas aulas de Catecismo, visitava os doentes, era incansável apóstolo da devoção ao Sagrado Coração de Jesus.
Os resultados não se fizeram esperar: em dezoito meses a paróquia estava totalmente transformada. O próprio prefeito da cidade, que se destacava por suas ideias voltairianas e atitudes anticlericais, converteu-se em bom cristão. Fruto mais precioso ainda, os jovens se entusiasmaram e começaram a surgir vocações sacerdotais e religiosas.
No seminário de Bétharram
Santuário de Notre Dame de Bétharram
A voz da obediência mudou os rumos da vida do jovem sacerdote: o Bispo o enviou para o seminário de Bétharram, como professor de Filosofia. Essa nomeação interrompia uma atividade evangelizadora que estava produzindo excelentes resultados... A perplexidade não impediu padre Miguel de responder com seu inalterável espírito de obediência: “Eis-me aqui!”.
O próprio Bispo explicou-lhe depois o motivo dessa transferência inesperada. Ele havia observado, e apreciado, o zelo empreendedor aliado à delicadeza de alma com a qual o jovem vigário soube agir sem ferir em nada a autoridade do pároco ancião e inativo. Ora, ele o queria em Bétharram para uma missão idêntica. O reitor do seminário, sacerdote venerável e carregado de méritos, estava entretanto em idade muito avançada e não tinha mais condição alguma de dirigir essa fundamental instituição diocesana.
— Padre Miguel — disse o Prelado —, o senhor reergueu a paróquia de Cambo sem arranhar o prestígio do respeitável pároco. Faça o mesmo em Bétharram. O velho Padre Superior continuará no cargo, mas de fato é ao senhor que confio o seminário, com a incumbência de pôr ordem na casa e formar santos presbíteros.
Assim, em 1825 o Santo assumiu suas novas funções, certo de estar cumprindo a vontade de Deus.
Um homem inatacável
Até então, Bétharram era para ele apenas como uma terra abençoada, onde existia um santuário famoso, no qual a Santíssima Virgem distribuía suas graças e maternais favores. Nesse local, segundo narra uma antiga tradição, uma moça caiu no Rio Gave e estava se afogando. Recorreu então a Nossa Senhora e logo viu ao alcance de sua mão um galho ao qual se agarrou, salvando a vida. Como testemunho de sua gratidão, ela colocou nas mãos da imagem de sua Protetora um ramo de ouro, chamando-o de “bétharram” — “belo ramo”, no dialeto local.
Ali, esperava-o um novo desafio. O seminário estava entregue a todo tipo de desordens e relaxamento. Sua fama era de ser refúgio para “qualquer batina”... Os seminaristas levavam a vida como queriam, e até abusavam do vinho que o empregado da casa lhes vendia.
Foi necessário ao padre Miguel muito tato e firmeza para restaurar a disciplina e implantar um regime de vida adequado à formação dos futuros sacerdotes. Uma vez mais, sua “pastoral dos Sacramentos” produziu os frutos esperados: a Confissão e a Eucaristia reconduziram ao bom caminho quase todos os transviados. Os que não quiseram se emendar, deixaram o seminário. Mas não sem testemunhar que “o padre Garicoïts não era atacado, porque era inatacável”.4
Faleceu o velho reitor, e o padre Miguel foi nomeado para o cargo. Mas, algum tempo depois, o Bispo decidiu transferir o seminário para Bayonne, pois o perigo das perseguições já havia amainado. Nova perplexidade: uma vez mais, sua ação apostólica era interrompida quando estava produzindo bons frutos... Segundo ele próprio disse, ficou em Bétharram como “superior das quatro paredes de um vasto edifício”.5 Sua resposta, porém, foi a mesma de sempre: “Eis que venho, ó Deus, fazer a Vossa vontade” (Hb 10, 7). Aceitando sem entender, ele dava mais glória a Deus!
Nasce uma nova Congregação
E Ele tem os seus caminhos. Por essas vias, Ele o preparava para a sua grande missão. Em sua aparente inutilidade, o fogoso sacerdote meditou mais profundamente sobre a triste situação daquilo que sobrara do clero francês, após a onda devastadora da Revolução: reduzido em número e, pior ainda, desorientado e sem o devido preparo.
Nasceu assim em seu coração o desejo de fundar uma instituição eclesiástica nova, que congregasse sacerdotes desapegados de tudo, com “uma dedicação de obediência absoluta, simplicidade perfeita, mansidão inalterável! Esses sacerdotes seriam uma verdadeira patrulha móvel de soldados de elite, prontos a correr ao primeiro sinal dos chefes, para onde fossem chamados, até, e sobretudo, para os ministérios mais difíceis, recusados por outros”.6
E que sempre tivessem presente que é “maldito aquele que faz com negligência a obra do Senhor!” (Jr 48, 10). Com a certeza de ser essa a vontade de Deus, reuniu em torno de si dezessete sacerdotes que responderam a seu apelo missionário e com eles fundou, na pobreza absoluta, a Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus de Bétharram. Em 1835, todos fizeram em suas mãos os votos de pobreza e obediência, além de renovar o de castidade, e o escolheram para Superior do novo Instituto.
São Miguel visava compor uns estatutos que dessem à sua Congregação — com o selo da aprovação romana — a solidez e estabilidade das regras canônicas, bem como a liberdade de movimentos indispensável às atividades apostólicas. Mas estes foram redigidos pelo novo Bispo diocesano e não eram o que pretendia o santo fundador...
Foi essa a maior prova de obediência de sua vida! Aceitando esta aparente contradição permitida pela Providência, não enfrentou a autoridade legítima, não recorreu a Roma e adotou as constituições de seu Bispo, completamente insuficientes para seu desejo de perfeição. Mas confiante que “a letra mata e o Espírito vivifica” (II Cor, 3, 6), soube incutir em seus filhos esse espírito de prontidão, fazendo-os religiosos de corpo inteiro, dispostos a qualquer desafio apostólico.
Seus ansiados estatutos só foram aprovados depois de sua morte, numa vitória da obediência.
Até o fim dizendo: “Eis-me aqui, Senhor!”
Durante trinta anos, dirigiu com sabedoria a nova Congregação. Percorria vilas e aldeias, evangelizando a juventude, os operários e os trabalhadores agrícolas. Enquanto os Bétharramistas se espalhavam pelas dioceses francesas, formava-se em torno de seu Fundador um halo de santidade e de estima. Seu confessionário estava sempre assediado por pessoas vindas de todas as partes. A todos acolhia com bondade, paciência e firmeza, procurando incutir-lhes o amor à Cruz e à Santíssima Virgem.
Bispos e outras personalidades importantes acorriam a Bétharram para consultá-lo. Por expressa solicitação do Bispo de Tarbes, ele teve dois encontros com Santa Bernadette Soubirous, a fim de verificar a autenticidade dos fatos ocorridos em Lourdes. Essas duas entrevistas com a jovem vidente reforçaram sua convicção pessoal de que indubitavelmente a Virgem Maria aparecera na Gruta de Massabielle.
Nos últimos dez anos de sua existência, dolorosas enfermidades vieram aumentar os seus sofrimentos. E quando, por fim, sentiu que Deus o chamava para junto de Si, deu-Lhe a resposta que caracterizou toda a sua vida: “Eis-me aqui, Senhor”.
Na madrugada da festa da Ascensão de 1863, dia 14 de maio, após receber todos os sacramentos, entregou sua alma a Deus, pronunciando o primeiro versículo do Salmo 50: “Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam” — Tende piedade de mim, ó Deus, segundo Vossa grande misericórdia.
Os padres de Bétharram eram, nessa ocasião, cerca de cem, atuando nas dioceses francesas. Atualmente, exercem suas atividades evangelizaras, sobretudo no sul da América Latina: Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.
Pio XII canonizou-o em 6 de julho de 1947.
1BRUNOT, SCJ, Pe. Amédée. Miguel Garicoïts: o santo do “eis-me aqui”. Bayonne: I.M.E., s/d., p. 9.
2Idem, p.23.
3ALCORTA, SCJ, Pe. Julián. San Miguel Garicoïts. In: ECHEVERRÍA, L.; LLORCA, B. e BETES, J. (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2004, vol. 5, p. 308.
4BRUNOT, SCJ, Op. cit., p. 31.
5ALCORTA, SCJ, Op. cit., p. 309.
6BRUNOT, SCJ, Op. cit., p. 43.

Nenhum comentário: