sábado, 29 de dezembro de 2012

Santo Hermano, o amigo do Menino-Deus

Em plena Idade Média — a era das grandes batalhas travadas em defesa da Fé — pode-se contemplar uma alma repleta de respeito pelo sobrenatural ao lado de uma ternura e candura ímpares: Santo Hermano, o amigo do Menino-Deus!
 Embora pareça paradoxal, há um princípio de ordem pelo qual uma virtude, quando integramente observada, atrai a si a prática de outra, muitas vezes oposta e simétrica à primeira. Como no-lo demonstra a Idade Média — que sob diversos aspectos, fora um período de combatividade, de luta, e de seriedade —, apesar de ser a era da  piedade, nutrida de grande respeito,  adoração, e humílima veneração ao  divino e ao religioso, não obstante,  foi também a idade da ternura e da  candura. 
Aparentemente contraditórios, esses aspectos são, em realidade, apenas opostos, e demonstram a riqueza da alma medieval enquanto observante da Lei de Deus.    
Em meio à era das grandes batalhas,  duramente  travadas  em  defesa da Fé, pode-se entrever uma vida modelar, cheia de ternura e graça,  que  prenunciava  de  modo  maravilhoso a Pequena Via idealizada  por Santa Teresinha do Menino Jesus, pois esta via de santificação seria  mais compreensível para os horizontes do homem medieval, do que para  as espiritualidades posteriores, enregeladas pela Renascença e pelo processo revolucionário então nascente.  
Amigo e companheiro do Menino-Deus
A vida de um humílimo sacerdote premonstratense — o qual brilhou intensamente por sua virtude, delicadeza e ternura — foi expressão encantadora da espiritualidade medieval. Trata-se de Santo Hermano José. Seus traços biográficos foram retirados da “Vida de Santos” de Englebert, como também de “Na Luz Perpétua” de Lehmann: 
“Este bem-aventurado foi não somente um dos maiores devotos de Nossa Senhora, como um dos grandes contemplativos medievais.” É necessário, para bem compreender sua vida, considerar que ele fora grande escritor, redigindo obras de Teologia, além de outros tratados, e, portanto, um homem de alta cultura. Todavia, sua vida sobrenatural iniciou-se quando era apenas menino. 
“Nasceu em Colônia, em ano desconhecido, no século XII, de uma rica família que empobrecera.”
Nasceu, portanto, no apogeu da Idade Média, assemelhando-se com o Menino Jesus, que era de uma grande família que empobrecera.
“Desde muito criança, procurava os altares da Santíssima Virgem e com Ela conversava longo tempo.”
Certamente numa igrejinha do campo, ou na própria Catedral de Colônia, o pequeno Hermano, no altar de Nossa Senhora, aos pés da imagem, conversava por longo tempo com Ela. Este fato faz sentir uma atmosfera delicadíssima da biografia dele.
“Sua simplicidade era encantadora. Certa ocasião, trouxe uma maçã e pediu à Mãe de Deus que a aceitasse; a imagem da Virgem moveu-se e estendeu a mão para receber a oferta.”
Para a Europa, a maçã é uma fruta banal, como a laranja para as nossas terras. Por isso mesmo vê-se a inocência dele, ante a grande bondade de Nossa Senhora. Por simples e comum que seja a oferta, é oferecida por um filho, e Ela toma aquele gesto cheia de encanto e amor. 
“Outra ocasião, ao chegar à igreja, viu a Rainha do Céu em meio a grande esplendor, tendo a seu lado São João, que brincava com o Menino Jesus. Hermano ficou contemplando a cena, quando a Virgem o chamou. Rapidamente ele subiu os degraus do presbitério, mas a grade fechada impediu sua passagem. ‘Não posso subir – disse a Maria Santíssima –; a porta está fechada e não há escada para eu trepar por cima da grade.’ Maria ensinou-lhe, então, a fazer do gradil escada e subir. Penetrando assim no coro, recebeu licença para brincar com o Menino-Deus.”
Era por certo São João Batista que brincava com o Menino Jesus, do qual ele era parente.
Não seria difícil imaginar a bondade da Rainha do Céu indicando ao pequeno Hermano: coloque os pés aqui, segure ali, e então desça pelo outro lado. E por ser inocente, ele tomava com inteira naturalidade tudo o que se passava, sendo nada menos que companheiro do Menino Jesus e de São João Batista! Todos estes fatos fazem sentir de algum modo o sabor da Pequena Via.   
Por que andas descalço?
“Num dia de inverno, dirigiu-se descalço à igreja, e enquanto rezava no altar da Virgem, esta lhe perguntou: ‘Hermano, por que andas descalço neste frio?’ E a resposta de Hermano: ‘Porque não tenho calçado.’ A Virgem, então, deu-lhe a quantia necessária para comprar sapato.”
Até a estes aspectos chegava a preocupação e a ternura de Nossa Senhora, para que ele não andasse descalço. Todos estes tocantes fatos da vida de Santo Hermano José prestam-se perfeitamente para a pintura das inocentes iluminuras medievais.
“Toda a vida desse santo foi assim povoada de visões e êxtases. Aos 12 anos entrou para a Ordem dos premonstratenses de Steinfeld.”
Pode-se entrever a familiaridade contínua com o sobrenatural que o marcou por toda a vida.
Homem preso a Deus
“Ordenado sacerdote, foi encarregado de dirigir alguns conventos de religiosas, para as quais escreveu diversos tratados de piedade e um comentário do Cântico dos Cânticos.”
Quão valiosas deverão ser essas meditações sobre o Cântico dos Cânticos, comentadas por um homem de tão grande alma. Entretanto, não raras vezes, são estes livros repletos de preciosidades que inexplicavelmente desaparecem aos olhos dos homens, sendo descobertos apenas por uma longínqua posteridade. 
“Compôs vários hinos, sendo de sua autoria o mais antigo hino ao Coração de Jesus: ‘Summus Regis, cor aveto!’. Sua vida foi de ininterrupta penitência, atacado de tentações e doenças. Sofria de contínuas enxaquecas que só cessavam quando subia os degraus do altar para celebrar, mas que redobravam de violência quando se aproximavam as solenidades litúrgicas. Jogando com as palavras, ele dizia a propósito: ‘Festae sunt mihi infestae’ – as festas são para mim nefastas. Seu pensamento estava sempre tão preso a Deus, diz seu biógrafo, que lhe era indiferente o curso do mundo. No entanto, seu coração era como um hospital geral, onde, a começar pelos aflitos e confrades, todos os homens encontravam terno acolhimento e seguro refúgio.”
A melodia desses hinos compostos por ele deve ser de grande beleza e piedade, e a letra, de riqueza sobrenatural.
Tal a vida, tal a morte
“Morreu Hermano, que adotara o nome de José por permissão especial da Virgem, em 1241. Seu corpo foi, mais tarde, encontrado intacto.”
Há coisa mais bela que, anos após a morte de alguém, abrir-se o caixão e encontrá-lo intacto? Pois bem, lá estava Santo Hermano revestido de seu hábito premonstratense, reclinado no caixão, com ar de quem ainda está compondo seu último hino ou  tendo sua última visão. 
Seria altamente repousante conhecer este santo e com ele poder conversar. E aproximando-se de joelhos pedir: “Por favor, poderia contar-nos como foram as suas visões?”
Ele, então, recolhido e luminoso responde: “Com quanto gosto!  Qual delas quer?” 
Certamente não conseguiríamos encerrar o diálogo antes de, maravilhados, conhecermos todos aqueles tocantes encontros dele com a Santíssima Virgem e seu Divino Filho. 
Pode-se compreender, através desta cogitação, o que será o convívio celeste, pois haverá inumeráveis almas como a de Hermano. E figurativamente, ao passar pela primeira “esquina” do Paraíso Celeste, deparando com um ancião de muitos dias, perguntar: 
— Quem sois vós? 
— Sou Hermano. 
E sentando-se em uma nuvem, ou em uma pedra preciosa diante de um rio, onde cantam os pássaros, ele calmamente descreve toda  a sua vida.  
Se houvesse tempo no Céu, se lá houvesse minutos, o quanto não  se daria para ver, por apenas um  minuto, o sorriso e contemplar a  santidade de Santo Hermano! 
Em meio às coisas horrorosas, disformes e incongruentes do mundo hodierno, Santo Hermano passa diante  de nós como um anjo em meio às chamas do Purgatório. Lendo a sua vida é  possível... é possível pensar: “Afinal, um  consolo: um dia irei ao Céu. E lá encontrarei Santo Hermano.” 
Aqui fica um orvalho de esperança do Céu, enquanto tem de se batalhar na fornalha de nossos dias. 

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