sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

São Leandro, Bispo de Sevilha

Sem o auxílio da graça, o homem é incapaz de obter êxito em seu apostolado; porém, amparado por ela, consegue o inimaginável. Disto nos dá um belo exemplo São Leandro de Sevilha, o qual extirpou a heresia que havia quase dois séculos grassava na Espanha.

Os grandes movimentos da História, em geral, são impulsionados por homens a quem Deus concede uma grandiosa missão, comunicando-lhes seu espírito e sua força. Um destes homens foi São Leandro de Sevilha. Convertendo os godos e salvando uma nação inteira do jugo dos arianos, ele bem pode ser considerado um dos fundadores da Idade Média.

Acompanhemos com especial veneração sua ficha biográfica1:

São Leandro nasceu em Cartagena, Espanha. Seus pais pertenciam à alta nobreza, e sua família estava repleta de santos. Um de seus irmãos, Santo Isidoro, sucedeu-o no trono episcopal de Sevilha; o outro, São Fulgêncio, foi Bispo de Cartagena. Sua irmã, Santa Florentina, tornou-se religiosa.

Quando era jovem ainda, São Leandro retirou-se para um mosteiro, tornando-se perfeito modelo de ciência e piedade. Seus méritos o levaram à Sé Episcopal de Sevilha, onde não diminuíram em nada as austeridades que praticava.

Quando Leandro foi nomeado bispo, parte do território espanhol estava dominada pelos visigodos arianos havia cento e setenta anos. Entregando-se imediatamente ao combate da heresia, o novo Bispo rezava e implorava o auxílio de Deus. O sucesso coroou seu zelo, e em pouco tempo a heresia já contava com menos adeptos.

Entretanto, Leovigildo, então rei dos visigodos, e também ariano, irritado com a atividade de São Leandro, e principalmente com a conversão de seu filho primogênito, condenou o santo ao exílio e o filho à morte.

Seu segundo filho, Recaredo, que vindo a ser um fervoroso católico, ao herdar o trono conseguiu a conversão de todos os seus súditos.

São Leandro dedicou-se a manter o fervor dos fiéis e foi a alma de dois grandes concílios: o de Sevilha e o de Toledo, os quais condenaram o arianismo.

Homem de ação, Leandro a todos inspirava o amor à prece, especialmente aos religiosos. Escreveu instruções admiráveis à sua irmã sobre o exercício da oração e o desprezo do mundo. Reformou a liturgia na Espanha.

Afligido por numerosas enfermidades, o apóstolo dos visigodos faleceu em 596.

A ação do Espírito Santo e a pujança da santidade

A ficha é riquíssima de aspectos passíveis de comentário. O primeiro deles é o florescimento de santos numa mesma família da alta nobreza espanhola: Santo Isidoro de Sevilha — um dos maiores santos da história da Espanha —, São Fulgêncio, Santa Florentina e São Leandro.

Vemos que beleza há na conjunção de tantos santos numa mesma estirpe. Com isso, Deus faz sentir a importância do fenômeno “estirpe” na formação dos santos e na realização dos planos da Providência.

Por outro lado, observamos a pujança de santidade existente naquela época. Trata-se de um dos mais belos fenômenos da História, onde inúmeros santos inauguraram o Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo durante a Idade Média; fenômeno não atribuível a nenhum homem, a nenhuma Ordem religiosa, mas diretamente oriundo da ação do Espírito Santo.

De fato, a não ser por um verdadeiro sopro universal do Divino Espírito Santo, não seria possível o surgimento de tantas almas santas ao mesmo tempo.

Em pleno domínio dos bárbaros arianos…

Ao ser eleito Bispo de Sevilha, São Leandro encontrou-se diante do seguinte problema: havia cento e setenta anos, bárbaros hereges exerciam uma função dominadora na Espanha.

Ao contrário do que muitos pensam, a maior parte dos bárbaros não era pagã, mas sim ariana. Quando invadiram o Império Romano, muitas tribos bárbaras já haviam sido visitadas, em suas respectivas regiões, por um Bispo ariano chamado Úlfilas 2, o qual as perverteu para o arianismo.

Desta maneira, enquanto descendentes dos antigos cidadãos do Império Romano, os católicos eram os vencidos, os pobres, estavam por baixo e gemiam sob o jugo dos arianos, os quais, por sua vez, constituíam o povo novo, forte e vencedor.

…a Providência suscita São Leandro de Sevilha

São Leandro recebeu, então, da parte de Deus, a missão de derrubar o domínio ariano. De que maneira ele o fez?

Em primeiro lugar, chorando diante de Deus e pedindo, por meio de Nossa Senhora, os auxílios necessários para a tarefa que deveria realizar de modo admirável. Cônscio da incapacidade humana perante as tarefas apostólicas, São Leandro sabia que o homem não é senão um instrumento de Deus e de Nossa Senhora, os verdadeiros realizadores do apostolado. Assim, as conversões deram-se em número colossal e o poder ariano foi diminuindo graças às suas pregações.

Aspectos fugazes, porém importantes, se desvendam na vida de São Leandro, uma das maiores figuras da hagiografia e da história espanhola.  

Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferências de 26/2/1964 e 27/2/1967

1) Butler, Alban. Lives of the Saints - With Reflections for Every Day in the Year.
2) Educado no Catolicismo, Úlfilas aderiu ao arianismo por ocasião de uma viagem a Constantinopla, onde Eusébio o sagrou bispo. Tendo voltado para o grêmio dos godos, dedicou-se à conversão de seus irmãos de raça à fé ariana.

Pelo apostolado de São Leandro começa a história católica da Espanha

Em 567 subiu ao trono de Toledo um homem de grande energia: Leovigildo. Tratava-se de um soberano faustoso, que em matéria de religião mantinha-se ariano fanático.

No ano de 580, Leovigildo, ingenuamente, convida os seus súditos católicos a aderir à fé ariana, e enfeita a sua proposta com tantas promessas vantajosas e aparentemente substanciais que alguns se deixam iludir. Mas esta política encontrou pela frente a clarividência de um monge notável: São Leandro, o futuro Arcebispo de Sevilha.

Sob a influência de São Leandro, Hermenegildo, filho primogênito de Rei, abjurara o arianismo, o que lhe valeu as maiores violências por parte de seu pai. Mas, num abrir e fechar de olhos, agrupou-se em torno de Hermenegildo um verdadeiro partido, constituído por todos os católicos que estavam cansados das perseguições arianas, pelos Bispos e, sobretudo, por São Leandro. Não demorou a formar-se uma autêntica coligação contra Leovigildo. O Rei intimou o filho a regressar à fé ariana e, perante a sua recusa, rebentou a guerra.

Refugiado na Andaluzia, o jovem chefe católico organiza a resistência, enquanto São Leandro embarca para o Oriente a fim de pedir o auxílio do Imperador. Mas Hermenegildo, embora plenamente consciente do direito que lhe assiste, sofre por ter de lutar contra o próprio pai. Então, a pedido de seu irmão Recaredo, aceita encontrar-se com o Rei para entrar em negociações. Leovigildo abraça-o e declara que está tudo perdoado. Mas, de repente, a um sinal do Rei, os guardas prendem o Príncipe, despojam-no das suas vestes e lançam-no na masmorra.

Começa então uma “paixão” digna dos antigos mártires. Em vão, enviam ao Príncipe bispos e teólogos arianos para convencê-lo a voltar ao credo de seu pai; nada o faz ceder. Durante longos meses sofre o cativeiro, os maus tratos e — ainda mais — a privação da Sagrada Eucaristia. Por fim, louco de cólera, Leovigildo dá a ordem fatal para decapitar Hermenegildo na prisão.

Mas é verdadeiramente o caso de repetir a célebre frase de Tertuliano: “O sangue dos mártires é semente de cristãos”. Não se passara ainda um ano da morte de Santo Hermenegildo, e já em maio de 586 Leovigildo morria no seu palácio de Toledo, sucedendo-lhe o seu filho Recaredo.

O novo Rei deu uma reviravolta completa em toda a política: os Bispos católicos foram chamados do exílio e São Leandro, nomeado Arcebispo de Sevilha, foi recebido na corte com as mais delicadas atenções. Começava a história católica da Espanha.

(Rops, Daniel. A Igreja dos tempos bárbaros. Cap. IV. São Paulo: Quadrante, 1991. p. 211-212.)

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