quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

São Nicéforo de Antioquia

Como nós perdoamos...
No tempo em que o ímpio Valeriano assolava a Igreja de Cristo, destacou-se um ativo sacerdote de nome Saprício. Seu operoso zelo havia atraído a si um jovem leigo chamado Nicéforo, o qual, no decurso do tempo, tornou-se um valioso e indispensável auxiliar. Certo dia eles se desentenderam...
 Terrível e inesperado, como o estrépito de um trovão numa manhã clara e sem nuvens, ressoou por todo o Império Romano o anúncio da nova perseguição aos cristãos, decretada por Valeriano.
À sangrenta e implacável perseguição desencadeada pelo falecido imperador Décio — que havia sonhado com ressuscitar o velho e desacreditado culto pagão — seguirase um período de paz e tranquilidade para a Igreja. Desde sua ascensão ao trono, em 253, Valeriano dera mostras de simpatia e até benevolência para com aquela religião que crescia sem cessar e cujos seguidores enfrentavam os tormentos e a morte com uma valentia desconcertante.
Entretanto, transcorridos quatro anos, essa benignidade subitamente cedeu lugar ao ódio, e em 257 um tirânico decreto foi promulgado contra a Santa Igreja de Deus: todos os bispos, presbíteros e diáconos deviam sacrificar aos ídolos, sob pena de desterro, e as reuniões para celebrar o culto cristão eram proibidas sob pena de morte.
Em consequência, incontáveis prelados e sacerdotes foram deportados para as minas de metal ou de sal, nas quais — acorrentados junto com criminosos, escravos revoltados ou prisioneiros de guerra — deveriam trabalhar sem repouso, em condições verdadeiramente indescritíveis, até o esgotamento final.
Esses horrores não foram senão o primeiro relâmpago de uma furiosa tempestade.
Rios de sangue cristão inundaram o Império Romano
No ano seguinte, 258, um novo edito agravou e estendeu a todas as províncias do Império o incêndio da perseguição: os bispos e presbíteros que não sacrificassem aos ídolos deveriam ser executados imediatamente; pelo mesmo “crime”, os senadores, nobres e cidadãos ilustres seriam condenados à morte, e todos os seus bens confiscados.
Tudo parecia disposto pela impiedade para fazer sucumbir definitivamente a única Religião verdadeira.
Rios de sangue cristão inundaram o vasto Império Romano. O Papa Sisto II subiu ao Céu graças ao ferro dos carrascos. Poucos dias depois, seu valoroso diácono Lourenço morreu queimado numa grelha. Um jovem acólito, chamado Tarcísio, sacrificou sua vida em defesa do Santíssimo Sacramento. Frutuoso, Bispo de Tarragona, foi queimado vivo junto com seus dois diáconos. No norte da África, 153 fiéis foram precipitados num forno de cal e passaram para a História com o qualificativo de massa candida (a massa branca). Cipriano, o grande Bispo de Cartago, venerado pelos cristãos e odiado pelos pagãos por seu espírito combativo, exclamou ao ouvir a sentença de morte: “Graças a Deus!” e entregou resolutamente sua augusta cabeça ao gládio do verdugo.
O paganismo, cego e moribundo, embriagava-se com o sangue dos discípulos d’Aquele que havia proclamado: “Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33).
“Perdoa-me, padre, pelo amor do Senhor!”
Nesse período em que o ímpio Valeriano assolava a Igreja de Cristo, destacou-se, numa paróquia de Antioquia, um ativo sacerdote de nome Saprício. Seu operoso zelo havia atraído a si um jovem leigo chamado Nicéforo, o qual, no decurso do tempo, tornou-se um valioso e indispensável auxiliar no arriscado labor apostólico que Saprício desenvolvia em meio à perseguição.
Por motivos que a tradição não transmitiu nem a História registrou, certo dia eles se desentenderam, e uma profunda inimizade os separou de tal modo que os dois evitavam encontrar-se numa mesma rua.
Não durou pouco tempo esta desedificante situação. Mas Nicéforo, arrependido de sua conduta mais digna de um pagão do que de um discípulo de Cristo, recorreu a alguns amigos de Saprício, por meio dos quais lhe enviou um pedido de clemência. Este, porém, ferido em seu amor próprio, negou-se a perdoar. Nicéforo renovou repetidas vezes a manifestação de seu arrependimento e o pedido de reconciliação. Saprício, entretanto, permaneceu inflexível em sua atitude de recusa, e negava-se mesmo a receber qualquer mensageiro do amigo de outrora.
Desconsolado, Nicéforo apresentou-se na casa de Saprício e lançou-se aos seus pés, exclamando:
— Perdoa-me, padre, pelo amor do Senhor!
Mas aquele que, como sacerdote, deveria ser um exemplo de benevolência e despretensão, permaneceu insensível e obstinado em seu rancor.
Frio e silencioso desdém
Perdurava esta lamentável inimizade, quando a polícia imperial deteve Saprício e o conduziu ao tribunal. Depois de confessar ser sacerdote de Cristo e negar-se a adorar os ídolos, ele sofreu cruéis suplícios e, por fim, recebeu a sentença irrecorrível: seria degolado imediatamente.
A pena capital, segundo o costume da época, era aplicada fora das muralhas da cidade. E para lá foi levado o réu, exausto e cambaleante pelos tormentos padecidos.
Chegaram aos ouvidos de Nicéforo os ecos desses dramáticos acontecimentos. Ele dirigiu-se pressuroso ao encontro do cortejo que conduzia o sentenciado e lançou-se aos seus pés, suplicando uma vez mais:
— Mártir de Cristo, perdoa-me as ofensas que contra ti cometi!
Mas os lábios de Saprício não se abriram. Um frio e silencioso desdém foi sua única resposta.
Nicéforo, no entanto, não desistiu. Adiantou-se por um atalho e, antes da saída da cidade, suplicou novamente em alta voz:
— Mártir de Cristo, eu te rogo, perdoa-me e esquece as ofensas que por humana fraqueza te fiz. Eis que em breve receberás de Cristo a coroa da vitória por haver confessado o nome do Senhor!
Nem um olhar sequer dignava-se Saprício conceder a seu antigo e dedicado auxiliar, de modo que os próprios algozes comentavam entre risos: “Nunca vimos homem tão néscio! Pede perdão a um condenado à morte...” Ao ouvir isto, Nicéforo respondeu com energia: “Não sabeis o que peço ao confessor de Cristo, mas Deus o sabe”.
Coração empedernido pelo orgulho
O orgulho, paixão dinâmica e insaciável que Saprício, sem dúvida, não havia contido adequadamente ao longo de sua vida, o impedia agora, às portas da eternidade, de pôr em prática as palavras do Redentor: “Se estás para fazer tua oferta diante do altar e te lembrares aí que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa tua oferta diante do altar, vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e depois vem fazer tua oferta” (Mt 5, 23-24).
Como poderia esse homem, que negava o perdão a quem o implorava com humildade, receber de Deus as graças extraordinárias indispensáveis para fazer o supremo holocausto?
Chegados, por fim, ao lugar do suplício, Nicéforo tentou mais uma vez comover aquele coração empedernido:
— Está escrito: “Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á!”
Tudo foi em vão. Saprício parecia ignorar o que sucedia ao seu redor.
Por não perdoar ao próximo...
— Ajoelha-te e põe logo a cabeça sobre o cepo, para ser cortada — ordenou o carrasco.
— Por quê? — indagou Saprício.
— Porque, por amor a um homem supliciado na cruz, não queres sacrificar aos deuses e desprezas o edito do imperador — respondeu o comandante da milícia.
Cumpriram-se então as palavras eternas do Divino Mestre: Não sereis perdoados “se cada um não perdoar do íntimo de seu coração ao seu irmão” (Mt 18, 35).
O Senhor, Juiz perfeitíssimo, não derramou naquele coração dominado pelo orgulho as graças místicas e eficazes, sem as quais ele não teria forças para enfrentar a morte por amor a Deus e à sua Lei. Abandonado, assim, às suas próprias e humanas forças, aquele presbítero incapaz de perdoar disse ao verdugo que já levantava a espada:
— Não me firas! Sacrificarei aos deuses, como ordena o imperador.
A voz de Nicéforo rasgou o silêncio de estupefação que dominou durante alguns instantes todos os presentes:
— Não, irmão, não apostates, negando a Nosso Senhor Jesus Cristo! Não desfaleças! Não percas a coroa celestial que para ti já está preparada!
Mas Saprício, que não havia amado e perdoado o próximo a quem via, renegava agora o Deus a quem não via (cf. 1 Jo 4, 20). Cego pela soberba, fechou diante de si as portas do Céu.
Foi dada a outro a coroa
Enquanto o novo Iscariotes era posto em liberdade e desaparecia rapidamente no meio da multidão ainda atônita, Nicéforo começou a bradar:
— Eu sou cristão! Creio no Nome de Jesus Cristo a quem esse negou! Descarregai sobre mim o golpe da espada!
Contudo, ninguém se atrevia a executá-lo sem uma ordem formal. E todos estavam admirados com a valentia desse discípulo de Cristo que se entregava voluntariamente à morte e não cessava de clamar:
— Sou cristão e não sacrifico aos vossos deuses!
Um dos soldados foi enviado a toda pressa ao palácio do governador para narrar-lhe o sucedido. Pouco depois, retornou com a sentença, acolhida com júbilo por Nicéforo: “Se não sacrifica aos deuses, segundo os editos imperiais, seja morto pela espada”.
Rolou então por terra a cabeça daquele arauto da fé, enquanto sua alma, perdoada e santificada, voava para o Céu, inundada do amor infinito de Nosso Senhor Jesus Cristo.
A Igreja atravessou triunfante o furacão
Valeriano recebeu, já nesta terra, justa punição por seu ódio e crueldade. Numa batalha contra os persas, no ano de 260, caiu prisioneiro de seus inimigos. Abandonado até pelo seu próprio filho, Galieno, foi executado depois de sofrer incontáveis humilhações.
E a Igreja atravessou incólume e triunfante o furacão de maldade desencadeado por esse tirano. A santa intrepidez de milhares de homens, mulheres e crianças que haviam seguido o Mestre Divino até o alto do Calvário despertava um entusiasmo crescente e arrastava multidões cada vez maiores para a verdadeira fé. Deste modo, os golpes dos carrascos não produziram outro resultado que o de multiplicar o número dos cristãos.
A Santa Igreja Católica Apostólica e Romana, rocha inabalável, ressurgia como Cristo do sepulcro, mais forte, esplendorosa e gloriosa. E ressurgirá sempre, depois de cada nova investida das portas do inferno contra ela. E até o fim do mundo, ao longo dos séculos, os povos poderão contemplar o cumprimento desta infalível afirmação proferida um dia, por lábios divinos, na cidade de Jerusalém: “Todo o que cair sobre essa Pedra, será quebrado; e aquele sobre quem ela cair, será esmagado” (Lc 20, 18).

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