sábado, 26 de outubro de 2013

Anchieta,o Apóstolo do Brasil

Dedicou sua vida a pregar o Evangelho em terras longínquas e desconhecidas para o mundo da época. Deus o recompensou com força de alma admirável, e concedeu-lhe o dom dos milagres.


Quem não gostaria de encontrar-se com o Divino Salvador, numa rua de Jerusalém ou em alguma estrada da Palestina, para vê-Lo realizar um de seus esplendorosos milagres? Ressuscitar um morto, curar um leproso, restituir a vista a um cego!
Os habitantes do Brasil, nas primeiras décadas de nossa História, puderam presenciar várias dessas maravilhas, realizadas por um angélico missionário, o Bem-aventurado José de Anchieta.
Nascido em 19 de março de 1534, na Ilha de Tenerife, Arquipélago das Canárias, de nobre família espanhola, Anchieta foi ainda muito jovem enviado a fazer seus estudos na célebre Universidade de Coimbra.
Sentiu-se logo atraído pela Companhia de Jesus, na qual foi recebido em 1º de maio de 1551. Os médicos acharam conveniente para sua saúde que ele viesse experimentar o clima e os ares de nossa Pátria. Assim, partiu ele em 8 de maio de 1553, em companhia do segundo Governador Geral da Colônia, Dom Duarte da Costa. Em janeiro de 1554, fundou a aldeia de São Paulo de Piratininga, que logo se tornou foco de intensas atividades apostólicas e é hoje uma das maiores cidades do mundo.
Seus biógrafos são unânimes em acentuar duas virtudes que marcaram profundamente a alma e o apostolado desse jovem missionário: uma ardente devoção ao Santíssimo Sacramento e um terníssimo amor à Imaculada Conceição. A essas duas altas virtudes, somava-se um particular amor ao Papa, tão característico dos filhos espirituais de Santo Inácio de Loyola.
Santidade e dom dos milagres
O apostolado de Anchieta em nosso País foi marcado por uma atitude heroica diante dos sofrimentos. A fome o atormentava com frequência, os perigos e a morte o ameaçavam a cada passo. Contudo, a Sagrada Eucaristia era a fonte de sua constante alegria em meio a essas provações e privações.
A santidade que resplandecia em seu rosto tocava os corações dos selvagens habitantes destas terras. Atraídos pela fama de suas excepcionais virtudes, os indígenas acorriam numerosos para ouvir suas pregações. Falando-lhes em seu próprio idioma, ensinava-lhes com eloquência os mistérios da Fé.
Além disto, Deus concedeu-lhe em abundância o dom dos milagres, para tocar as almas dos índios e atraí-los a sua Santa Igreja.
A cura de um índio aleijado
Estando na aldeia de Reritiba, na Capitania do Espírito Santo, recebeu a visita de inúmeras famílias indígenas convertidas ao Cristianismo. Acolheu-as paternalmente, falou-lhes da vida eterna, das belezas indizíveis do céu, dos horrores do inferno. Maravilhados, os selvagens ouviam-no de pé. Notou, porém, que um deles estava desajeitadamente sentado, e quis saber o motivo.
Informaram-lhe que aquele pobre homem nascera tão aleijado, que andava rastejando como um réptil. Comovido, o bondoso jesuíta estendeu-lhe seu bastão, ordenando em tom categórico: “Põe-te de pé! Deus te deu os olhos para contemplar o céu e não para fixar a terra, como fazem os animais”. O aleijado tomou o bastão e pôs-se a andar desembaraçadamente. Com espanto para todos, logo largou o bastão e começou a correr pelos campos, ágil como uma lebre, e com a alegria proveniente da graça que purificou sua alma. Pois o santo missionário usava o dom dos milagres sobretudo para curar as almas.
Diogo: o índio ressuscitado
Ainda mais admirável é este outro milagre, atestado sob juramento por inúmeras testemunhas, no processo de beatificação desse varão de Deus. Em casa de Domingos Dias, nobre português que vivia em Santos, trabalhava um velho e dedicado índio. Catequizado há muitos anos pelos primeiros portugueses que chegaram àquela aldeia, deles recebeu o nome de Diogo. Durante décadas viveu exemplarmente, obedecendo de modo exímio aos dez Mandamentos da Lei de Deus. Contudo, não fora batizado. Tendo falecido, estava já o cadáver preparado para o sepultamento. Grande foi a surpresa dos presentes, quando viram o defunto abrir os olhos e pedir que lhe desatassem a mortalha.
Tragam-me o Padre Anchieta. Preciso ser batizado por ele — disse com voz clara e imperativa.
Responderam-lhe que o religioso estava em São Vicente.
Não, ele já se encontra em Santos e sabe que devo receber de suas mãos o santo Batismo — redarguiu Diogo.
Maravilhas da misericórdia divina! Mal terminara de dizer isso, chegou Anchieta e lhe deu ordem de, para a maior glória de Deus, contar o que lhe sucedera.
Ao passar desta para a outra vida — relatou o ressuscitado — ouvi uma voz que me dizia ser impossível entrar no Céu, sem antes ser recebido na Santa Igreja de Deus. Embora tivesse vivido sempre de acordo com os Mandamentos, nunca me falaram do Batismo. Ordenou-me então o Senhor que voltasse a este mundo, para ser batizado pelo Padre Anchieta. Peço-lhe, pois, com insistência que me batize, para que assim possa entrar no Céu.
Anchieta atendeu-o com aquela bondade que a todos encantava. E o velho índio entregou sua alma ao Criador, ante os olhares comovidos e maravilhados dos que o cercavam.
Mais tarde, aquele a quem se chamou “o São Francisco Xavier do Brasil”, declarou a propósito deste milagroso fato: “Ainda que eu não tivesse feito outra coisa senão abrir as portas do Paraíso para esse afortunado índio, daria por muito bem empregada minha vinda a estas terras, com todos os sofrimentos que aqui padeci”.
O Cantor da Imaculada
Os índios tamoios do Rio de Janeiro ameaçavam perigosamente os habitantes de São Vicente. Com ferocidade, assaltavam-nos de noite e de dia. Ninguém se sentia seguro. Nóbrega e Anchieta, com admirável heroísmo, partiram dessa aldeia para as praias de Iperoig, na esperança de conseguir a paz com os selvagens. Depois de dois meses de inúteis esforços, viu-se Nóbrega obrigado a retornar a São Vicente. Corria o mês de julho de 1563. Anchieta ficou como refém entre os indígenas, na esperança de acalmá-los com sua mansidão.
Vivendo sozinho entre selvagens, temia ele que sua castidade fosse manchada, e passava boa parte da noite entre orações e duras penitências, implorando à Virgem Puríssima que o amparasse. Com esta intenção, fez a promessa de escrever em versos a vida da Imaculada Virgem e Mãe do Redentor.
Foi então que escreveu, em uma praia da atual Ubatuba, seu maravilhoso poema De Beata Virgine Dei Matre Maria (Sobre a Bem-Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus).
Admirável prodígio da graça! Sem papel, sem tinta nem pena, traçava ele na branca areia da praia os versos e gravava-os na memória.
Os próprios selvagens declararam ter visto inúmeras vezes uma ave com penas de cores maravilhosas, que pousava ora nos ombros, ora na cabeça, ora nas mãos desse cantor de Maria Imaculada. Delicado presente da Mãe de Deus, para consolar aquela inocente alma, voluntariamente exilada entre feras humanas, qual novo Daniel entre os leões.
E a Consoladora dos Aflitos lhe gravou na alma a certeza inabalável de que não morreria sem antes terminar aquele poema. De volta a São Vicente, conseguiu Anchieta transpor da memória para o papel os cinco mil versos que compusera na praia.
Sentado no fundo do Rio
Em 1570 partiu Anchieta da aldeia de São Paulo de Piratininga, com a esperança de tocar os corações de dois homens brancos que haviam se embrenhado nas selvas para agitar os índios e lançá-los contra os portugueses. Em companhia de outro jesuíta, o Pe. Vicente Rodrigues, e de alguns poucos indígenas, viajava ele numa frágil canoa. Estavam já próximos de seu destino, quando se viram de repente diante de uma cachoeira. Tão absortos iam os dois sacerdotes na recitação do breviário, que não se deram conta do grande risco que corriam. Em poucos minutos a embarcação se desfez em pedaços e seus tripulantes foram lançados ao rio.
Exímios nadadores, os índios livraram-se facilmente do perigo. Com certa dificuldade, salvou-se também o Padre Vicente Rodrigues. Mas Anchieta não sabia nadar.
Um índio chamado Araguaçu, grande admirador do santo jesuíta, lançou-se novamente ao rio, à sua procura. Meia hora depois, retornou à margem, trazendo consigo o precioso tesouro: o Pe. Anchieta, totalmente enxuto. Araguaçu o encontrara sentado no fundo do rio, rezando serenamente o breviário.
Algum tempo depois, o Pe. Pedro Leitão pediu-lhe que explicasse o fato de não ter morrido afogado. Com muita candura respondeu ele:
Eu não me dei conta quando a canoa virou, porque estava rezando as horas de Nossa Senhora da Conceição. E assim, sentado como estava, me fui ao fundo e continuei com a mesma reza, sem que a água me fizesse mal.
Morte santa e serena
Anchieta passou seus últimos anos na Capitania do Espírito Santo. A 9 de junho de 1597, no colégio jesuíta de Reritiba, faleceu serenamente, pronunciando os dulcíssimos nomes de Jesus e de Maria.
Homens, mulheres e crianças acorreram aos milhares para despedir-se aos prantos. Transportado aos ombros pelos índios, seu corpo foi sepultado em Vitória, na igreja de São Tiago.
O bispo do Rio de Janeiro, Dom Bartolomeu Simões Pereira, que oficiou as exéquias, proclamou-o nesta ocasião o “Apóstolo do Brasil”.
Peçamos a tão poderoso intercessor a graça de que o Brasil realize plenamente a sublime missão para a qual Deus o destinou.
Poema de Anchieta

Antes de lançar com sua palavra
os mundos pelo espaço,
antes de estender a terra imensa,
já Deus te concebera em sua mente eterna
e te destinara para sua Mãe
na glória da virgindade.
Qual serias então aos olhos do divino Pai,
quando surgiu no universo o turbilhão dos mundos?
Ainda as ondas do mar sem limites
não rojavam pelas praias,
nem deslizava o rio em curvas caprichosas;
ainda do tremedal fecundo as fontes não brotavam,
nem assentavam sobre as moles gigantescas
os picos alcantilados:
e já te concebia em sua mente o Pai supremo,
que tu havias de conceber em teu seio, como a filho,
para purificar o mundo inteiro
das hediondas máculas
e ser eficaz medicina às minhas chagas. (...)
Toda bela de alvura e luz,
não houve sombra em ti, doce noiva de Deus!
Jamais se estampou em teu peito a mancha do crime;
nódoa alguma, por mínima que fosse,
empanou jamais tua beleza.
Ó formosura sem par...”
Primeiros versos do poema De Beata Virgine Dei Matre Maria, escrito por Anchieta nas areias de Ubatuba

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