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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Santa Luísa de Marillac

“No dia de São Sebastião, estando eu nos Mártires, senti-me instada pelo desejo de me dar a Deus para fazer em toda a minha vida sua santíssima vontade”1, declarou Santa Luísa de Marillac.
Esta mãe de uma plêiade de filhas espirituais legou-lhes a herança da docilidade incondicional à vontade do Pai, para seguir os passos de Cristo na dedicação de toda a sua existência a percorrer cidades e aldeias fazendo o bem aos corpos e às almas dos mais necessitados: “As pessoas da Caridade têm esta felicidade de terem esta relação com Nosso Senhor, de estarem como Ele, ora num lugar, ora noutro para assistência do próximo”.2
Assim foi esta santa cofundadora, com São Vicente de Paulo, do Instituto das Filhas da Caridade, o qual desde o século XVII age como um braço beneficente da Igreja, socorrendo pobres, enfermos e crianças, e entrou no século XXI com mais de 24.500 irmãs, disseminadas por cerca de 90 países.3
Desde cedo conheceu a vontade de Deus
Nasceu Luísa em Paris, no seio de boa estirpe francesa, a 12 de agosto de 1591. Sua família de linhagem nobre era profundamente cristã. O nome Marillac está ligado, na França, a prelados, abades, sacerdotes, abadessas e religiosas.
Tinha poucos dias de vida quando faleceu sua mãe. Aos 15 anos, morreu também o pai, Luís de Marillac, senhor de Ferrière e de Villiers. Começou então para a jovem uma série de provas e sofrimentos com os quais a Providência quis uni-la a Si: “Bem cedo me fez Deus conhecer sua vontade, que eu fosse para Ele pela cruz. Desde o meu nascimento e em todo o tempo, quase nunca me deixou sem ocasião de sofrer”.4
Não obstante, recebeu esmerada educação: aprendeu literatura, filosofia e latim. Dotada de notável senso artístico, agradava-lhe pintar imagens e quadros. É digno de nota um que pintou, já adulta, e é hoje guardado como relíquia na casa-mãe das Filhas da Caridade: “Nosso Senhor Jesus Cristo em pé, de tamanho quase natural, com o coração radiante sobre o peito, estendendo suas mãos trespassadas, [...] e com expressão de bondade”.5 Causa admiração saber que o Divino Modelo apareceu exatamente assim a Santa Margarida Maria Alacoque, cerca de 50 anos depois!...
É a representação d’Aquele a quem ela adorava no coração e para onde convergiam todas as operações de sua alma: “Tendo lido o Evangelho do bom semeador, e não reconhecendo em mim alguma boa terra, desejei semear no Coração de Jesus todas as produções de minha alma e as ações de meu corpo, para que, tendo o crescimento de seus méritos, eu não opere mais senão por Ele e n’Ele”.6
A perda do pai mostrou-lhe a fragilidade das coisas mundanas. Acolhida pelo tio Miguel de Marillac, Conselheiro do Parlamento Real, católico fervoroso e benemérito de várias congregações religiosas, quis ingressar num convento de monjas capuchinhas. No entanto, por causa de sua compleição fraca e saúde delicada, foi dissuadida desse intento pelo confessor, Frei Honorato de Champagny, o qual já lhe discernia outros caminhos: “Minha filha, creio que são outros os desígnios de Deus”.7
Uma graça mística lhe prognostica o futuro
Impedida de fazer-se religiosa, em 1613 casou-se com Antônio Le Gras, secretário da rainha Maria de Médicis, homem piedoso e de conduta irrepreensível. Dessa união nasceu-lhe um filho: Miguel, objeto de seu amor extremoso.

Luísa vivia na corte como esposa e mãe exemplar, mulher prudente, humilde, firme e abnegada. Nunca abandonou a Comunhão frequente, pouco comum naqueles tempos influenciados pelo jansenismo. Um de seus diretores foi Dom Francisco de Sales, amigo íntimo do tio Miguel. Após o falecimento do santo Bispo de Genebra, recebeu a sábia orientação do Bispo de Belley, Dom João Pedro Le Camus.
O ano de 1623 trouxe-lhe grandes provações. Por um lado, sentia sua alma inundada pelo intenso desejo de entregar-se mais ao serviço de Deus e do próximo. De outro lado, contudo, tal anelo parecia-lhe incompatível com suas obrigações de esposa e mãe. Somando-se a essa perplexidade, outras inquietações lhe assediavam o espírito: receava estar por demais apegada a seu diretor espiritual e assaltavam-lhe até mesmo dúvidas de fé.
A festa de Pentecostes veio devolver-lhe a paz de alma e descortinar-lhe, finalmente, o véu de seu futuro e de sua vocação. Eis como ela narra a graça recebida quando assistia à Missa na Igreja de São Nicolau dos Campos: “Num instante, uma voz interior me comunicou [...] que logo chegaria um tempo no qual me encontraria em condições de fazer voto de pobreza, castidade e obediência, em companhia de pessoas que também o fariam. Compreendi que me encontraria num lugar onde poderia socorrer o próximo; mas não entendia como isso poderia se realizar, porque via ali pessoas que entravam e saíam. Quanto ao diretor, que eu ficasse tranquila, pois Deus me daria um”.8 Sentiu ela nesse momento a certeza de que quem lhe mostrava isso era o próprio Deus e, portanto, não havia motivo algum para duvidar.
Era a antevisão do Instituto de vida ativa que ela iria fundar, formado por “pessoas que entravam e saíam”, importante novidade para a época, como veremos adiante.
O encontro com São Vicente de Paulo
Por desígnio da Providência, o Bispo Le Camus não pôde ir a Paris no inverno seguinte, e encaminhou sua dirigida a um sacerdote amigo: São Vicente de Paulo.
Havia este fundado a Congregação da Missão, de sacerdotes dedicados à evangelização da pobre e necessitada gente do campo. Padre Vicente não gostava de dirigir senhoras da nobreza, mas abria algumas exceções. Assim — a pedido de outro grande amigo, São Francisco de Sales, fundador da Ordem da Visitação —, aceitara o encargo de orientar as Visitandinas de Paris, cuja superiora era Santa Joana de Chantal. O santo Bispo declarou que lhe confiara a direção de suas filhas espirituais por não conhecer sacerdote mais digno.
A partir do primeiro encontro, não se pode falar de Santa Luísa de Marillac sem referir-se a São Vicente de Paulo.
Depois de muitos sofrimentos, de fato o senhor Le Gras faleceu cristãmente nos braços da esposa, em 21 de dezembro de 1625. A jovem senhora, viúva aos 34 anos, podia agora consagrar-se por inteiro ao serviço de Deus e do próximo. Abandonou a vida de sociedade e pôs-se nas sábias mãos de São Vicente.
Nos primeiros quatro anos passados sob a orientação do santo diretor, procurou ele adestrar sua têmpera para as ousadias que a esperavam, segundo um tríplice princípio: “Amar a Deus com a força de nossos braços e o suor de nossa fronte; ver Jesus Cristo no próximo, amando e servindo a Nosso Senhor em cada um, e cada um em Nosso Senhor; e não adiantar-se à Divina Providência, esperando com calma sua voz de mando”.9
União respeitosa e profunda entre dois santos
Por obra da graça, formou-se entre ela e São Vicente de Paulo um entrelaçamento de almas indissolúvel. Sempre afáveis e vigilantes, os dois intercambiavam visitas e cartas, até à ancianidade, legando à História um perfume da verdadeira amizade fundada no amor a Deus. A correspondência entre ambos mostra o mútuo afeto e respeito com que se tratavam. Ela, humilde e com veneração filial; ele, simples, afetuoso, sobretudo religioso e grave, deixando entrever a cada passo “a sua alma de sacerdote, o seu coração de pai, e o seu zelo de santo”.10
Uma das preocupações de Luísa era o filho. Seu afeto excedia os limites do amor maternal e deixava transparecer certo apego humano. O jovem Miguel, depois da morte do pai, ficara privado também do convívio materno e não se amoldou inteiramente à vida no seminário onde fora internado para completar sua educação. Além disso, alguns problemas na política francesa comprometeram a família Marillac, por sua influência e presença na corte. Tais circunstâncias afetaram o comportamento do rapaz, trazendo não poucas apreensões à mãe.
Com mão firme e paternal, São Vicente de Paulo veio em socorro de ambos. Admoestava a mãe pelos excessos de amor, e esta aceitava com inteira docilidade as advertências. “Oh, que alegria ser filho de Deus! Pois este Senhor ama os seus com um afeto ainda maior que o da senhora para com seu filho, apesar deste amor ser tão grande que não vi coisa igual em nenhuma outra mãe”.11 Com relação ao filho, soube compreendê-lo, e o acolheu em sua própria comunidade. E por não ter ele vocação sacerdotal, amparou-o até que se estabelecesse nas vias do matrimônio.
Surge uma nova concepção de vida religiosa
Dando curso a seu apostolado junto aos camponeses, São Vicente fundava, nas localidades onde pregava missões, uma pequena associação intitulada “Caridade”, levada adiante por senhoras abastadas da região. Conhecidas como as “damas da Caridade”, dispunham-se elas a prestar assistência constante aos necessitados, sobretudo aos enfermos.
Não obstante, sem conexão direta com o seu fundador, tais associações logo se viam envolvidas com dificuldades não pequenas: ocorriam abusos, disputas pela autoridade, desvios de verbas e auxílios, rixas pessoais, etc. Faltava alguém que, com jeito e firmeza, pudesse visitar cada uma dessas “Caridades”, para manter a ordem e a harmonia.
Era a luz da Providência abrindo a trilha da vocação de Luísa. Foi ela a visitadora de São Vicente. E com o toque feminino da mulher forte da Escritura (cf. Pr 31, 10-31), ordenava e dava corpo aos frutos apostólicos dos incansáveis sacerdotes da Missão.
Além disso, outra necessidade mais premente se fazia sentir: as “damas da Caridade” não se sujeitavam aos trabalhos mais penosos, como o cuidado direto e pessoal dos enfermos. Era urgente arregimentar pessoas dedicadas e dispostas a qualquer humilhação, que fossem as “servas da Caridade”. São Vicente encontrou tal disposição em muitas jovens que conhecera em suas andanças, e as encaminhou para Santa Luísa, a fim de serem formadas de acordo com seu espírito. As jovens desta pequena comunidade nascente logo passaram a ser chamadas de “irmãs da Caridade”.
Surgia assim uma nova congregação, a Companhia das Filhas da Caridade. O instinto materno dessas jovens religiosas se debruçaria sobre os enfermos e carentes, por amor a Deus. Seriam virgens e mães dos pobres e necessitados, inicialmente no campo, mas logo também nas cidades, inclusive Paris. Atendiam nos hospitais, procuravam os doentes em suas casas, recolhiam em orfanatos crianças abandonadas. Não tardou a serem solicitadas para exercer suas beneméritas atividades em situação de risco, como lugares devastados por sangrentos combates, onde socorriam os feridos e moribundos.
Dispostas a todos os sacrifícios, tinham elas consciência de não serem religiosas segundo os moldes do tempo, ou seja, não pertenciam a um Instituto de freiras enclausuradas. São Vicente deixa-lhes bem claro este ponto: “Vós não sois religiosas”. Porém, empenha-se em confirmá-las na sua singular vocação: “Eu vos certifico não conhecer religiosas mais úteis à Igreja que as Irmãs da Caridade, em razão do serviço que prestam ao próximo”.12
Claro, não podiam elas negligenciar a contemplação, no sentido de uma vida de piedade vigorosa, fundamento de seu apostolado: fazer tudo por amor a Deus, vendo Nosso Senhor em cada pobre e doente, dentro da obediência a uma regra bem definida. Mas a nova Instituição une a este espírito a vida ativa, profunda inovação para o tempo: “As Filhas da Caridade terão por convento um hospital, por cela um quarto de aluguel, por claustro as ruas da cidade ou as salas das casas de saúde, por termo a obediência, por freio o temor de Deus, por véu a santa modéstia”.13
Obediência incondicional ao fundador
É impossível, em tão curtas linhas, narrar o imenso bem feito por esses dois santos. Lutas, dificuldades e provas não faltaram, tanto materiais como espirituais; entretanto, eram elas enfrentadas com coragem e lucidez, na certeza do cumprimento da vontade do Pai.
Fiel a toda prova, Santa Luísa de Marillac conduzia o novo Instituto na obediência incondicional a seu fundador. Dada a união entre suas almas, sabia estar a vontade de Deus na vontade dele. Ele, por sua vez, com intenso discernimento, sabia distinguir as jovens que tinham verdadeira vocação, e ajudava a santa na formação das inúmeras filhas, cujo número só aumentava. Juntos elaboraram as regras e deram forma canônica à Congregação, a qual foi aprovada pelo Arcebispo de Paris em 1655, após 30 anos de árduo apostolado.
Movido por seu zelo paternal, e acedendo aos desejos de Santa Luísa, São Vicente empenhava-se em consolidar a obra recém-nascida. Fazia isso, sobretudo, através de uma série de conferências cheias de fogo e entusiasmo, nas quais ele incentivava suas filhas espirituais nas vias da santidade, de acordo com o carisma da fundação: “Humilhai-vos muito, minhas caras Irmãs, e trabalhai por vos tornardes perfeitas e fazer-vos santas”14 — insistia ele.
Luísa foi das primeiras a anotar e guardar cuidadosamente as palavras de seu pai e fundador. Entre anotações de conferências e cartas, acabou constituindo três volumes, num total de 1500 páginas. Essa coleção manuscrita, intitulada Máximas e Avisos, está, ainda hoje, guardada nos arquivos da Companhia. Todo este tesouro compõe o “mais autêntico e puro depósito da doutrina e do espírito”15 que deve animar as Filhas da Caridade de todos os tempos.
“Vá na frente, logo tornarei a vê-la no Céu”
Santa Luísa de Marillac preservou intacta sua inocência batismal. O testemunho de São Vicente a este respeito é inquestionável: “Que vi nela desde 38 anos que a conheço? Vieram-me à lembrança alguns pequenos mosquitos de imperfeição, mas pecado grave nunca! Nunca!”.16 Pois bem, a essa alma inocente pediu Cristo Jesus o sofrimento derradeiro: privar-se do convívio com o venerado fundador. Ficou ela seriamente enferma e já não podia visitá-lo; este, por sua vez, já com 85 anos, tampouco se levantava da cama ou escrevia. Maior sacrifício seria impossível pedir-lhe. Um recado dele foi o último contato entre ambos: “A senhora vá na frente, logo tornarei a vê-la no Céu”.17
Após receber todos os Sacramentos, entregou sua alma a Deus no dia 15 de março de 1660, aos 68 anos. De fato, seis meses depois, São Vicente foi encontrá-la na eternidade. Seu corpo encontra-se sepultado na capela da casa-mãe da Congregação, na Rue du Bac, em Paris, onde Nossa Senhora, chancelando essa obra tão amada por seu Divino Filho, apareceu em 1830 a uma de suas filhas, Santa Catarina Labouré, para dali derramar torrentes de graças sobre o mundo inteiro, por meio da Medalha Milagrosa. 
1BOAVIDA, CM, Luiz Gonzaga. Vida da Venerável Luísa de Marillac. Fundadora do Instituto das Irmãs da Caridade. Rio de Janeiro: Besnard Frères, 1915, p.410.
2SÃO VICENTE DE PAULO. Carta a Santa Luísa de Marillac, apud BOAVIDA, op. cit., p.216.
3Cf. SÁNCHEZ ALISEDA, Casimiro. Santa Luísa de Marillac. In: ECHEVERRÍA, Lamberto de, LLORCA, Bernardino, REPETTO BETES, José Luís. (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2003, v.III, p.275.
4BOAVIDA, op. cit., p.3-4.
5Cf. idem, p.70
6Idem, p.411.
7SÁNCHEZ ALISEDA, op. cit. p.270.
8HERRERA, CM, José; PARDO, CM, Veremundo. San Vicente de Paúl. Biografía y selección de escritos. 2.ed. Madrid: BAC, 1955, p.136.
9CASTRO, CM, Jerónimo Pedreira de. Vida de Santa Luísa de Marillac, apud HERRERA; PARDO, op. cit., p.137.
10BOAVIDA, op. cit., p.413.
11SÁNCHEZ ALISEDA, op. cit., p.270.
12BOAVIDA, op. cit., p.376377.
13PADRE ROHRBACHER. Vida dos santos. São Paulo: Américas, 1959, v.V, p.54.
14BOAVIDA, op. cit., p.299.
15Idem, p.298.
16Idem, p.409.
17SÁNCHEZ ALISEDA, op. cit., p.274.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Um milagre na vida de dois jovens beneditinos

Muitos fatos nas vidas dos Santos, contados na sua singeleza, têm um sabor de historietas encantadoras, mas, no fundo, possuem altíssimo significado, e nos falam da confiança invencível.
Ilustra muito bem essa verdade o episódio ocorrido na vida de São Mauro e São Plácido, dois jovens discípulos de São Bento, narrado por São Gregório Magno. Conta-nos este que São Plácido, o mais novo deles, estava se afogando nas águas de um rio. Vendo o religioso em perigo, São Bento ordenou que São Mauro o fosse resgatar. Este não hesitou um instante e, obedecendo à ordem do Superior, lançou seu escapulário nas águas e andou sobre ele, como sobre um tapete. Chegou até São Plácido, o tirou do rio e os dois retornaram andando na superfície líquida, de volta para junto de São Bento.
Muitos dirão: “Milagre da obediência!”

Sem dúvida. Entretanto, também a confiança tem seu prêmio próprio. Ela é uma forma de obediência. É uma espécie de pressentimento interior, nascido de uma ação da graça, que nos faz sentir com inteira certeza que algo desejado pelos melhores lados de nossa alma se realizará. Essa é a definição da confiança.
Plinio Correa de Oliveira

sábado, 15 de fevereiro de 2014

São Francisco de Sales

A infância de um menino inocente
Primogênito do Barão de Boisy, nasceu Francisco em 1567 no castelo de Sales, na Sabóia, naquele tempo um país independente que abarcava territórios hoje pertencentes à França, Itália e Suíça. Sua mãe, Dona Francisca de Boisy, senhora muito virtuosa, soube incutir-lhe desde a mais tenra infância o amor a Jesus e Maria. Quiçá também dela tenha recebido a salutar influência que lhe permitiu adquirir uma das virtudes que mais o caracterizaram: nunca perder a calma, nunca inquietar-se, ter inteiramente a alma nas mãos.
Sua mãe ensinava-lhe o catecismo e narrava-lhe belos exemplos da vida dos santos. Isto fez nascer na alma do pequeno Francisco o desejo da santidade e o zelo pelas coisas de Deus.
Desde criança sempre foi muito ativo e cheio de vida. Um fato pitoresco de sua infância denota seu caráter combativo, mas irascível. Bem pequeno ainda, ouvira falar dos calvinistas que haviam dominado a Suíça e boa parte da França. Um dia, soube que um desses hereges estava de visita no castelo de seus pais. Como não podia entrar na sala para protestar, pegou um pedaço de pau e, cheio de indignação, entrou no galinheiro e lançando-se contra as galinhas a pauladas gritava: “Fora com os hereges! Não queremos hereges!” As pobres galinhas fugiam cacarejando ante seu inesperado atacante. Foram salvas pelos criados que conseguiram tirar o menino dali a tempo.
Francisco chegará a ter um gênio tão doce e bondoso que fez São Vicente de Paulo exclamar, quando teve a oportunidade de conviver com ele: “Ó meu Deus, se Francisco de Sales é tão amável, como sereis Vós?”
As batalhas da juventude
Na juventude nasceu-lhe um grande desejo de consagrar-se inteiramente a Deus. Mas seu pai tinha outros planos. Foi mandado a Paris para estudar no colégio dos jesuítas, onde conheceu o bom Pe. Déage, que foi seu diretor espiritual. Mais tarde mudou-se para Pádua a fim de estudar Direito Civil, como queria seu pai, e Direito Canônico, como desejava o ardor religioso de seu coração. Também praticava esgrima, equitação e frequentava bailes.
Viver na graça de Deus naqueles ambientes não era nada fácil, mas Francisco soube fugir das ocasiões perigosas e de toda amizade que pudesse ofender a Deus. Na Universidade, alguns estudantes perversos, para humilhá-lo por ser tão piedoso, atacaram-no. Francisco, que era perito na arte da esgrima, tirou sua espada e derrotou a todos. Vendo-os desarmados e impotentes, retirou-se, dizendo: “E agradeçam a Deus em quem creio, pois é por isso que não lhes faço mal”.
Quando, devido ao seu temperamento, o “sangue lhe subia” ante humilhações e burlas, ele se continha de tal maneira que muitos pensavam que nunca se encolerizava. O demônio, vendo ser impossível vencê-lo com as tentações mais comuns, atacou-o com violência num ponto muito sensível e difícil: a terrível tentação do desespero da salvação.
Tinha 20 anos quando isso aconteceu.
Conhecera a doutrina de Calvino sobre a predestinação, e não conseguia tirar da cabeça a ideia fixa de que ia se condenar. Perdeu o apetite e o sono. Sempre dizia a Nosso Senhor que, se por sua infinita justiça o condenasse ao inferno, concedesse-lhe a graça de continuar amando-O nesse lugar de tormentos. Essa oração lhe devolvia a paz de alma em parte, mas a tentação sempre voltava. O remédio definitivo veio quando, entrando numa igreja em Paris e ajoelhando-se diante de uma imagem da Santíssima Virgem, rezou a conhecidíssima oração de São Bernardo: “Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria...” Ao terminar, os pensamentos de tristeza e desespero o abandonaram para sempre e veio-lhe a segurança de que “Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo. 3, 17).
A vida religiosa e a conquista dos calvinistas
De volta à casa paterna, aos 24 anos, recusou um casamento brilhante e um posto no Senado do Reino. Embora contra a vontade de seu pai, assumiu o cargo de deão da Catedral de Chambéry — por influência de seu tio, Luís de Sales, cônego da Catedral de Genebra, que obteve tal nomeação do Papa — e pouco tempo depois foi ordenado sacerdote.
Pregou em Annecy e outras cidades. Embora dotado de grande cultura, suas práticas eram simples, atraindo enormemente todos os que o ouviam.
Mas sua dura batalha começou quando se ofereceu para reconquistar Chablais, na costa sul do lago de Genebra. Esta região estava totalmente dominada pelos calvinistas, cujo exército não deixava os habitantes católicos viverem em paz.
Em 14 de setembro de 1594, dia da exaltação da Santa Cruz, com a autorização do bispo Cláudio de Granier, partiu Francisco de Sales a pé para a grande missão. Provações não lhe faltaram. Muitas vezes teve de dormir ao relento. Em uma ocasião refugiou-se no alto de uma árvore durante toda a noite para escapar ao risco de ser devorado pelos lobos. Na manhã seguinte, foi salvo por um casal de camponeses calvinistas que adquiriram grande simpatia por ele. Posteriormente esses camponeses se converteram, dando início à grande transformação religiosa da região. A cada noite, São Francisco e seus companheiros católicos passavam de casa em casa, jogando debaixo das portas folhetos escritos à mão, nos quais eram refutados os falsos argumentos da heresia calvinista. Esse fato lhe valeu o título de patrono dos escritores e jornalistas católicos. Esses escritos foram posteriormente reunidos e publicados sob o nome de Controvérsias.
Poucos anos mais tarde, depois de duras lutas e perseguições, Chablais se converteu totalmente, e o Pe. Francisco foi nomeado bispo coadjutor de Genebra. Para receber a sagração episcopal, dirigiu-se a Roma, onde o próprio Papa Clemente VIII o interrogou sobre 35 pontos difíceis de Teologia, em presença do Colégio cardinalício. “Ninguém dos que examinamos mereceu nossa aprovação de maneira tão completa!” — exclamou o Papa ao descer de seu trono para abraçá-lo.
Bispo príncipe de Genebra
Com a morte de D. Garnier, São Francisco de Sales assumiu o cargo vacante. A generosidade e a caridade, a humildade e a clemência do santo eram inesgotáveis. Em seu trato com as almas foi sempre bondoso, sem cair na debilidade; sabia ser firme quando necessário.
Fundou a Ordem da Visitação com sua dirigida espiritual, Santa Joana de Chantal, em 1604. Entre as obras por ele escritas destacam-se o Tratado do Amor de Deus, que lhe valeu o título de Doutor da Igreja, e Introdução à vida devota — Filotéia, nascida das anotações enviadas à sua prima, Senhora de Chamoisy.
A medida de amar a Deus
“A medida de amar a Deus consiste em amá-Lo sem medida.”Este ensinamento de São Francisco de Sales talvez possa resumir toda a sua existência, pois ele não foi senão um exemplo vivo de tudo o que ensinava.
Estando ele ainda vivo, havia já pessoas devotas que guardavam como relíquias os objetos por ele usados.
Vítima de uma paralisia, perdeu a palavra e algo da sua lucidez, porém, recuperou-as em breve tempo. Os esforços médicos feitos para salvá-lo de nada adiantaram. Em seu leito repetia: “Pus toda a minha esperança no Senhor; Ele escutou minha súplica e me tirou do fosso da miséria e do pântano da iniqüidade.”
Faleceu aos 56 anos de idade, na festa dos Santos Inocentes, em 28 de dezembro de 1622. Seu fígado, devido ao constante esforço para controlar seus ímpetos de cólera, havia-se transformado em pedra. Seu corpo foi encontrado incorrupto 10 anos após seu falecimento.
Ele soube viver inteiramente o conselho de Nosso Senhor no Evangelho: “ Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para vossas almas” (Mt. 11, 29).
São João Bosco de tal modo o admirou que o escolheu para patrono da sua congregação. E Santa Joana de Chantal dele dizia: “Era uma imagem viva do Filho de Deus, porque verdadeiramente a ordem e a economia dessa santa alma era toda sobrenatural e divina.”


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Apóstolo da Eucaristia

São Pedro Julião Eymard
 “É preciso fazer Jesus Eucarístico sair de Seu retiro para pôr-Se de novo à testa da sociedade cristã que há de dirigir e salvar. É preciso construir-Lhe um palácio, um trono, rodeá-Lo de uma corte de fiéis servidores, de uma família de amigos, de um povo de adoradores”. Eis a grande missão de São Pedro Julião Eymard.
Na igreja da pequena cidade francesa de La Mure d’Isère, próxima de Grenoble, estava um menino de cinco anos, sentado numa pequena escada atrás do altar, com o corpo inclinado e a fronte quase encostada no sacrário. Foi ali que o encontrou sua irmã, depois de tê-lo procurado aflita por todo o povoado.
— O que faz você aqui? — perguntou ao vê-lo.
— Ora — respondeu ele com candura —, apenas converso com Jesus.
— Mas, por que desse modo tão singular?!
— Porque assim O escuto melhor!
Ainda não sabia este prematuro devoto do Santíssimo Sacramento a grande missão que a Providência lhe tinha reservado e quão cheia de lutas, mas também de glórias, seria a vida que o aguardava. Sua precoce atração por Cristo Hóstia não era senão uma incipiente preparação para ela.1
 “Peço-Vos a graça de ser sacerdote”
Filho de Julião Eymard e Maria Madalena Pelorse, Pedro veio ao mundo em 4 de fevereiro de 1811. Sua família estava reduzida aos pais e a uma meia-irmã, Mariana — filha das primeiras núpcias de seu pai —, doze anos mais velha; os outros filhos do casal haviam falecido em tenra idade e um pereceu nos exércitos de Napoleão.
Na igreja paroquial da cidade havia o piedoso costume da bênção com o Santíssimo Sacramento, depois da Missa diária. Sua mãe não faltava a esta um dia sequer e oferecia devotamente o filho a Jesus nessa hora. Assim, a presença de Cristo no ostensório e no sacrário lhe foi familiar desde muito cedo.
Seu pai se estabelecera em La Mure d’Isère com uma pequena indústria de azeite de nozes. O jovem Pedro o ajudava, entregando aos clientes o produto. Mas sentia-se tão atraído por Jesus no tabernáculo que, passando pela igreja, sempre ia fazer-Lhe uma visita. E quando a irmã voltava do Sagrado Banquete, procurava ficar bem junto dela, para sentir a presença eucarística em sua alma.
Aos doze anos de idade, finalmente deu-se o momento tão esperado de sua Primeira Comunhão. Quantas graças recebeu naquele dia! Uma delas foi a de sentir na alma o chamado ao sacerdócio. Mas quando falou ao pai do seu firme desejo de seguir essa vocação, recebeu como resposta uma categórica negativa. A mãe, do seu lado, calava e rezava, sem perder as esperanças de ver o filho junto ao altar.
Inteligente e de caráter resoluto, o jovem Pedro continuou a ajudar o pai nas lides da indústria caseira, mas pôs-se a estudar latim, às escondidas. Aos dezesseis anos, obteve dele licença para prosseguir esses estudos, primeiramente em La Mure e depois em Grenoble. Foi nessa cidade que recebeu a notícia do repentino falecimento da mãe. Entre lágrimas, pôs-se aos pés de uma imagem de Nossa Senhora, rogando-Lhe: “Por favor, a partir de agora sede minha única Mãe! Mas antes de tudo, peço-Vos a graça de chegar um dia a ser sacerdote”.2 Esse amor à Santíssima Virgem não fez senão aumentar até o fim de sua vida.
Foi apenas depois de completar dezoito anos, não sem muitas dificuldades, mesmo contando com ajuda do padre José Guibert — nessa época jovem sacerdote dos Missionários Oblatos de Maria Imaculada e mais tarde Cardeal e Arcebispo de Paris —, que conseguiu convencer o pai de permitir seu ingresso no noviciado dessa Congregação, em Marselha. Pela primeira vez, dava passos firmes rumo ao cumprimento de sua vocação.
Pároco e religioso
Entretanto, quando tudo parecia conduzi-lo à realização da grande aspiração de sua vida, uma grave enfermidade o obrigou a voltar para casa, deixando-o à beira da morte. Ao ser-lhe levado o Viático, pediu a Jesus Sacramentado que lhe concedesse a graça de recuperar a saúde para poder ser sacerdote e celebrar pelo menos uma Missa.
Sua prece foi atendida. Curou-se e ingressou no Seminário Maior de Grenoble, sendo apresentado ao reitor pelo próprio fundador dos Oblatos de Maria, Santo Eugênio de Mazenod, na época Bispo de Marselha. Em 20 de julho de 1834, festa de Santo Elias, recebia a ordenação sacerdotal, aos 23 anos de idade.
Durante os primeiros cinco anos de ministério, foi coadjutor em Chatte e depois pároco em Monteynard.
Como autêntico pastor, tinha por meta santificar-se e santificar “suas ovelhas”, seguindo os métodos de outro santo pároco, o Cura d’Ars, do qual era grande amigo: diariamente rezava o Ofício Divino na igreja e depois saía para o átrio a fim de conversar com os fiéis. Dotado de um forte carisma para atrair, instruía e animava a todos, obtendo notáveis conversões.
Contudo, a vida de pároco não o satisfazia inteiramente: desejava ser religioso. Apesar dos protestos de sua grei e das lágrimas de sua irmã Mariana, obteve autorização do ordinário para deixar o cargo e entrou em 1839 no noviciado dos Padres Maristas, em Lyon.3
Os membros desse Instituto, fundado três anos antes pelo padre Jean Claude Colin, receberam por missão evangelizar os povos do Pacífico e, em consequência, padre Pedro Julião preparava-se para ser enviado como apóstolo à longínqua Oceania. Outros, porém, eram os desígnios para ele reservados: foi nomeado diretor espiritual do Colégio Marista de Belley, superior provincial, visitador apostólico e, mais tarde, diretor da Ordem Terceira de Maria, em Lyon.
Nessa cidade, exerceu um intenso apostolado, sobretudo com encarcerados, enfermos e operários. Enfrentou com destemor os ventos do século XIX, impregnado de utilitarismo, bafejado por um anticlericalismo obstinado que procurava relegar ao segundo plano, ou mesmo ao desprezo, a Religião e os valores sobrenaturais. Aquele jovem sacerdote cheio de zelo pela causa de Deus notava o quanto a sociedade de sua época se afastava de Cristo e de Sua Igreja, e ardia em desejo de fazer algo para reverter essa situação.
A grande missão de sua vida
Com tudo isso, a Providência ia aos poucos preparando-o para a realização da grande missão de sua vida. Duas insignes graças o levaram definitivamente a entregar-se a ela.
Portando a custódia com o Santíssimo Sacramento durante uma procissão em 1845, sentiu-se pervadido por uma grande força e pediu a Deus que lhe desse o zelo apostólico de São Paulo, para difundir como ele o nome de Jesus Cristo.
Mais decisiva, porém, foi a graça recebida em 1851, quando rezava diante da imagem da Virgem Santíssima, no santuário mariano de Fourvière. Em certo momento, ouviu com clareza no fundo da alma a voz de Nossa Senhora, que lhe expunha a necessidade de haver uma congregação religiosa destinada a honrar de modo especial a Sagrada Eucaristia, e apontava esta devoção como meio de solucionar os intricados problemas nos quais imergia o mundo, renovar a vida cristã e promover a autêntica formação de sacerdotes e leigos.
Assim, quem o impeliu nas sendas de sua missão eucarística foi Aquela que, mais tarde, ele passou a venerar sob o título de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, modelo dos adoradores.
Padre Pedro Julião deixou registradas algumas das cogitações que nessa época enchiam sua alma de apóstolo: “Tenho refletido amiúde sobre os remédios para esta indiferença universal, que se apodera de tantos católicos de maneira assombrosa, e só encontro um: a Eucaristia, o amor a Jesus Eucarístico. A perda da fé provém da perda do amor”.4
Algum tempo depois, acrescentou: “É preciso pôr-se imediatamente à obra, salvar as almas com a Eucaristia, despertar a França e a Europa, submersas no sono da indiferença, porque não conhecem o dom de Deus, Jesus, o Emanuel da Eucaristia. É preciso espalhar esta centelha do amor nas almas tíbias que se julgam piedosas e não o são, porque não fixaram o centro de suas vidas em Jesus no tabernáculo”.5
“Nós não pregamos senão a Jesus Cristo, e Jesus Cristo Sacramentado”, dizia ele, parafraseando a célebre afirmação de São Paulo (cf. I Cor 1, 23).
Nasce a Congregação dos Sacramentinos
Disposto a “pôr-se imediatamente à obra”, expôs ao Superior Geral dos Padres Maristas seu desejo de fundar uma nova congregação. Este examinou com vagar o projeto e o dispensou dos seus votos de religioso, dando-lhe assim plena liberdade para agir. Logo depois, porém, julgou melhor submeter o caso ao Arcebispo de Paris, Dom Marie-Dominique-Auguste Sibour.
Apresentou-se, pois, no Palácio Arquiepiscopal o padre Pedro Julião, acompanhado de seu primeiro discípulo, o Conde Raimundo de Cuers, excapitão de fragata, que receberia mais tarde a ordenação sacerdotal na nova Congregação. Explicou a Dom Sibour seu plano de fundar uma instituição religiosa contemplativa de adoradores do Santíssimo Sacramento e ao mesmo tempo de vida ativa, com uma frente de apostolado voltada, sobretudo, para a classe operária, ocupando-se em incrementar a devoção à Sagrada Eucaristia, preparar adultos para a Primeira Comunhão e outras atividades correlatas. O Arcebispo se entusiasmou com a ideia, declarando ser essa a obra que faltava na Arquidiocese de Paris. Nasceu assim a Congregação do Santíssimo Sacramento, em 13 de maio de 1856.
Em seu primeiro encontro com o Beato Pio IX, a 20 de dezembro de 1858, este foi ainda mais caloroso e categórico que o Arcebispo de Paris: “Estou convencido de que sua obra vem de Deus e a Igreja dela necessita” 6 — afirmou. Cinco anos mais tarde, em 1863, o mesmo Pontífice enviou-lhe um Breve Laudatório, aprovando oficialmente o novo Instituto.
Os sofrimentos consolidam a obra
A comunidade inicial — formada por apenas três membros: padre Pedro Julião, padre Cuers e padre Champion — instalou-se numa casa posta à sua disposição pelo próprio Dom Sibour. Na festa dos Reis Magos de 1857, expôs-se pela primeira vez o Santíssimo Sacramento na Capela. Um ano depois, foi conseguida a segunda casa no subúrbio de Saint-Jacques, a qual ficou conhecida pelo nome de Capela dos Milagres, por causa de todas as graças ali derramadas ao longo de nove anos.
A obra desenvolvia-se com lentidão, enfrentando dificuldades de toda ordem. O Santíssimo Sacramento devia permanecer exposto perpetuamente, mas os adoradores inscritos logo davam sinais de cansaço, sobretudo diante da dificuldade da vigília noturna, e houve algumas deserções. O próprio padre Cuers pediu a Roma a supressão dos votos para fundar outro instituto. Também não lhe faltaram as provações decorrentes das calúnias e incompreensões.
Diante de tudo isso, dizia ele com grande espírito sobrenatural: “Tenho medo de que cessem as provações”.7 Assim, não foi apenas a dor física — das penitências voluntárias e das enfermidades — que purificou sua alma e a sua fundação, mas também o sofrimento moral.
Fecundidade da Adoração
Apesar disso, as vocações continuavam chegando, graças, sobretudo, aos sermões cheios de entusiasmo eucarístico do fundador, que os preparava diante do tabernáculo. Não em vão, afirmava o padre Eymard, uma hora aos pés de Jesus Sacramentado vale mais do que uma manhã inteira de estudos em livros.
Como São Paulo, era o amor de Cristo que o impelia a pregar. Ardia em seu coração o enorme desejo de incendiar o mundo com o fogo d’Aquele que está presente em cada sacrário. Era preciso tirá-Lo dali, expô-Lo, prestar-Lhe adoração, reconhecendo ser Ele o único capaz de sanar todos os problemas, tanto dos indivíduos quanto da sociedade.
Em seu desejo de levar as almas à Sagrada Eucaristia, fundou também a Congregação das Servas do Santíssimo Sacramento, contemplativas dedicadas à Adoração Perpétua, e uma espécie de Ordem Terceira, à qual deu o nome de Agregação do Santíssimo Sacramento.
Inspirador dos Congressos Eucarísticos
“É preciso fazer Jesus Eucarístico sair de seu retiro para pôr-Se de novo à testa da sociedade cristã que há de dirigir e salvar. É preciso construir-Lhe um palácio, um trono, rodeá-Lo de uma corte de fiéis servidores, de uma família de amigos, de um povo de adoradores”.8 Eis a grande missão de São Pedro Julião.
Os Congressos Eucarísticos surgiram como fruto deste poderoso anelo. Foram eles uma iniciativa pioneira da Srta. Emilia Tamisier, uma jovem que ingressara na Congregação das Servas do Santíssimo Sacramento e lá permanecera quatro anos, sob o nome de Irmã Emiliana. Depois, com a bênção do santo fundador, saiu do convento para ser no mundo uma missionária itinerante da Eucaristia.
Assim, em 1881, inspirada por seu mestre e vencendo numerosos obstáculos, organizava ela o primeiro Congresso Eucarístico da História, que se realizou em Lille, sob o tema A Eucaristia salva o mundo e contou com especial bênção do Papa Leão XIII. Para sua efetivação, recebeu ajuda dos Padres Sacramentinos, de diversos Bispos e numerosas personalidades leigas. A partir daí, multiplicaram-se congressos semelhantes, não só regionais, mas também nacionais e internacionais. Uma instituição que tomou vulto e perdura até nossos dias.
Ocaso de uma vida santa
Extenuado por suas intensas atividades, emagrecido e com dificuldades de se alimentar, o padre Eymard recebeu estritas ordens médicas de repouso. Na segunda quinzena de julho de 1868, dirigiu-se a La Mure, onde podia contar com os cuidados da irmã. Em caminho, celebrou sua última Missa em Grenoble, na capela consagrada à Adoração Perpétua.
Poucos dias depois, os médicos diagnosticaram uma hemorragia cerebral. Sua última confissão foi feita por sinais, pois já não conseguia falar. No dia 1º de agosto, recebeu a Unção dos Enfermos, e o padre Chanuet, sacramentino, celebrou a Missa no seu próprio quarto, ministrando-lhe a Sagrada Comunhão. Era a derradeira!
— Morreu um santo! — exclamavam os habitantes da pequena cidade.
Antes de completar-se um ano de seu falecimento, beneficiou com vários milagres os fiéis que rezavam ante sua sepultura.
Quase cem anos depois, no dia seguinte do término da primeira sessão do Concílio Vaticano II, 9 de dezembro de 1962, João XXIII o elevou à honra dos altares em presença de 1.500 padres conciliares. Passados mais trinta e três anos, era inscrito no Calendário Romano e apresentado à Igreja Universal com o título de “Apóstolo da Eucaristia”.
1 Recordando este fato, mais tarde, João XXIII diria as seguintes palavras: “Aquele menino de cinco anos, que encontraram no altar com a fronte apoiada no sacrário, é o mesmo que, tempos depois, chegaria a fundar a Sociedade dos Sacerdotes do Santíssimo Sacramento, assim como a das Servas do Santíssimo Sacramento, irradiando em inumeráveis legiões de sacerdotes-adoradores seu amor e sua ternura para com Cristo vivo na Eucaristia” (Homilia de Canonização dos santos: Pedro Julião Eymard, Antonio Maria Pucci, Francisco Maria da Camporrosso, 9/12/1962).
2 BEAUCHEF, OSB, Antoine Marie. Carta espiritual - sobre São Pedro Julião Eymard. In: Abbaye Saint Joseph de Clairval à Flavigny: http:// www.clairval.com/index.
3 Instituto afim e inspirador dos Irmãos Maristas, fundados por São Marcelino Champagnat.
4 Carta de 22 de outubro de 1851, apud PEDRETTI, SSS, Antonio. El fundador. In: Página Europea de los Religiosos Sacramentinos: http:// es.ssseu.net.
5 Carta de 11 de fevereiro de 1852, apud PEDRETTI, op. cit.
6 BEAUCHEF, op. cit.
7 BAIGORRI, SSS, Luis. San Pedro Julián Eymard. In: ECHEVERRÍA, L., LLORCA, B., BETES, J. (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2005, v.VII, p.55.
8 EYMARD, SSS, São Pedro Julião. Obras Eucarísticas. Madrid: Ediciones Eucaristia, 1963, p.XX.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

São Cláudio de La Colombière

Servo fiel e amigo perfeito do Sagrado Coração

No ano de 1675, um novo superior foi designado para a casa dos jesuítas em Paray-le-Monial. Sendo ele confessor extraordinário das vizinhas freiras da Visitação, foi estar com a superiora, Madre de Saumaise, a fim de se pôr à disposição do mosteiro. Esta lhe apresentou toda a comunidade e, enquanto o sacerdote dirigia às religiosas breves palavras de incentivo à prática da virtude heroica, uma delas, Irmã Margarida Maria Alacoque, ouviu uma voz interior lhe dizendo:
Eis quem te envio!
Fazia poucos anos que pertencia a freira à Congregação e havia sido beneficiada pelo Sagrado Coração de Jesus com numerosas visões e revelações. Naquele momento, porém, passava ela pelo drama da dúvida. Seus superiores e algumas autoridades eclesiásticas a consideravam “uma visionária”, levando-a a se perguntar se não estaria sendo vítima da ilusão ou enganada pelo demônio.  
O Divino Mestre fizera-lhe, então, uma promessa: “Eu te mandarei meu fiel servo e amigo perfeito”.1 Tratava-se do padre Cláudio de La Colombière, que Jesus enviava naquele momento à Irmã Margarida, para confirmar-lhe “em seus caminhos e para torná-lo participante de grandes graças do seu Sagrado Coração”.2
Formação em colégios da Companhia
Da infância do padre de La Colombière, pouco se conhece. Nasceu a 2 de fevereiro de 1641, na aldeia de Saint Symphorien, mas aos nove anos mudou-se com a família para Vienne, onde os beneditinos de Saint Andrés-le-Bas lançaram em sua alma as primeiras sementes de sua ardorosa devoção à Sagrada Eucaristia e lhe ministraram a Primeira Comunhão.
Pouco depois de ter chegado à cidade, começou a estudar gramática com os padres jesuítas e, três anos depois, mudou-se para Lyon, a fim de cursar Humanidades, no colégio da Companhia. Foi também nessa cidade, na qual morou por cinco anos, que começou a tomar contato com a obra do grande Francisco de Sales, através das Irmãs da Visitação de Bellecour, em cujo convento falecera o santo fundador.
Cumpridos já dezessete anos, enquanto passava alguns dias de férias na casa dos pais, Cláudio decidiu tornar-se jesuíta. De temperamento reservado, um pouco tímido e muito afetuoso, custou-lhe separar-se da família. Mas o fez de bom grado e por completo, compreendendo consistir a verdadeira felicidade na entrega a Deus por um amor exclusivo.
Mais tarde afirmaria: “Jesus Cristo prometeu cem por um, e posso dizer que nunca fiz nada sem ter recebido, não cem por um, mas mil vezes mais do que havia abandonado”.3
Do noviciado ao sacerdócio
Corria o ano de 1658, quando Cláudio ingressou no Noviciado de Avignon. Ali se alternaram provas e alegrias, períodos de aridez com outros marcados por uma luz transbordante. Dois anos depois, proferiu os primeiros votos e, havendo concluído o curso de Filosofia, dedicou-se ao magistério no colégio da Companhia, conforme determinavam as regras, antes de prosseguir os estudos para o sacerdócio.
Por sua grande capacidade intelectual, estro literário e modo de fazer os sermões, o Superior Geral decidiu enviá-lo, em 1666, para estudar Teologia no Colégio de Clermont, em Paris. Ali se revelou exímio orador e excelente professor de retórica. Seu valor acadêmico e o exemplo ilibado de vida religiosa valeram-lhe o cargo de preceptor dos filhos de Colbert, o célebre Ministro do Tesouro de Luis XIV. Teve, assim, de frequentar os ambientes da corte, fazendo neles muitos amigos e dando mostras de grande talento, fino trato e elevada educação, além de se destacar pela firmeza de princípios e exímia virtude.
A Terceira Provação
Em 6 de abril de 1669, Cláudio recebeu as sagradas ordens e cinco anos depois chegou para ele o tempo chamado por Santo Inácio de “Escola do Afeto”.
A sabedoria do fundador bem via quanto os largos anos de estudo, magistério e apostolado podiam ser para seus filhos espirituais motivo de diminuição do fervor inicial, contaminado por aspirações mundanas, quando não por sentimentos de vanglória pelos êxitos obtidos. Por isso, estabeleceu que cada jesuíta passasse por este novo período de noviciado, também chamado de Terceira Provação, antes de fazer a profissão solene. Nesse tempo, sob a orientação paternal de um instrutor, o religioso fazia um balanço de sua vida, visando desapegar-se de toda preocupação humana para deixar-se levar inteiramente pela luz divina.
A Casa São José, em Lyon, foi o lugar onde o padre Cláudio atravessou esse período, durante o qual fez um voto particular de cumprimento exímio das regras do Instituto, “sem reservas”, dispondo-se a aceitar com alegria as determinações da Santa Obediência e romper de uma vez por todas as cadeias do amor-próprio. Ao mesmo tempo consolidou-se em sua alma a confiança — também sem reservas — na misericórdia divina, sem a qual ser-lhe-ia impossível manter-se fiel aos propósitos feitos em prol da própria santificação e da dos outros.
Esse tempo de solidão e recolhimento fê-lo também desapegar-se de todos os relacionamentos humanos, aos quais era extremamente sensível, para ter Nosso Senhor como único e verdadeiro amigo: “Meu Jesus [...] tenho certeza de ser amado, se vos amo. [...] Por mais miserável que eu seja, não me tirará vossa amizade nenhum indivíduo mais nobre que eu, nem mais culto ou mais santo”.4
Antes mesmo de concluir o tempo regulamentar, foi admitido aos votos solenes, feitos quando completava 34 anos, em 2 de fevereiro de 1675. Logo em seguida, recebeu o encargo de superior da casa dos jesuítas em Paray-le-Monial. Sua alma estava com a têmpera ideal para empreender a grande missão que o aguardava.
Três corações unidos para sempre
O padre de La Colombière não sabia o que encontraria nessa pequena cidade, mas seus superiores, inteirando-se das visões de Santa Margarida Maria Alacoque e das polêmicas que haviam gerado, o escolheram exatamente por causa do seu equilíbrio de alma. Padre Cláudio era perfeitamente capaz de sustentar os bons critérios frente às controvérsias criadas, dentro e fora do convento.
De fato, sem se importar com as críticas e juízos desfavoráveis, logo viu a mão de Deus nas visões de Irmã Margarida Maria e a tranquilizou e apoiou, recebendo, como recompensa, recados e favores do Divino Mestre.
Um deles ocorreu, certa vez, durante a Missa celebrada para a comunidade, quando a religiosa viu, na hora da Comunhão, o Sagrado Coração de Jesus como uma fornalha ardente e dois outros corações abismando-se n’Ele: o do padre de La Colombière e o seu próprio, enquanto ouvia estas palavras: “É assim que meu puro amor une esses três corações para sempre. Esta união destina-se à glória de meu Sagrado Coração. Quero que descubras seus tesouros, ele fará conhecer seu preço e utilidade. Para tanto, sejais como irmão e irmã, partilhando igualmente os bens espirituais”.5
Apressou-se ela em transmitir o fato ao sacerdote e depois relatou sua reação. “As mostras de humildade e as ações de graças com que ele recebeu essa comunicação e várias outras coisas que lhe transmiti da parte de meu soberano Senhor e que lhe diziam respeito, comoveram-me e foram-me mais proveitosas que todos os sermões que eu poderia ouvir”.6
Apostolado da confiança e do reafervoramento
No curto período de dezoito meses de sua permanência em Paray-le-Monial, quiçá tenha feito o padre de La Colombière mais pelas almas que em todos os anos anteriores de sua vida.
O jansenismo, então em pleno auge na França, minava nos corações a confiança na bondade de Nosso Senhor e de sua Mãe Santíssima, e afastava os fiéis dos Sacramentos, sobretudo da Sagrada Comunhão.
O apostolado feito por São Cláudio em suas cartas, pregações e direções espirituais ia justamente no sentido contrário: promovia a confiança em Maria e a devoção ao Santíssimo Sacramento. Atraiu assim muitas ovelhas desgarradas, trazendo-as de volta ao redil do Salvador.
Fundou uma Congregação Mariana para nobres e burgueses, na qual agrupou os cavalheiros católicos da cidade, bem como reorganizou a dos alunos do colégio da Companhia. Reestruturou o hospital dos peregrinos e indigentes, e pregou missões nos povoados vizinhos, com grandíssimos frutos de reafervoramento.
“Eis o Coração que tanto amou os homens”
Mas sua máxima missão foi participar, por desígnio do próprio Jesus, na chamada “Grande Revelação” feita a Santa Margarida Maria, em um dia da Oitava de Corpus Christi de 1675, quando rezava diante do Santíssimo Sacramento: a difusão da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, bem como a instituição de sua festa e da consagração reparadora.
Assim transcreveu a santa as célebres palavras proferidas por Nosso Senhor, enquanto lhe mostrava seu Divino Coração: “Eis o Coração que tanto amou os homens, que não poupou nada até esgotar-Se e consumir-Se, para manifestar-lhes seu amor. E como reconhecimento, não recebo da maior parte deles senão ingratidões, desprezos, irreverências, sacrilégios, friezas que têm para comigo neste Sacramento de amor. E é ainda mais repugnante, porque são corações a Mim consagrados”.7  
Em seguida, pediu-lhe o Senhor que a primeira sexta-feira após a Oitava de Corpus Christi fosse consagrada como festa especial para honrar seu Coração, com um ato público de desagravo e comunhões reparadoras. Acrescentou a promessa formal de conceder copiosos favores espirituais para quem praticasse tal devoção.
A religiosa alegou sua indignidade e incapacidade de realizar a missão, e recebeu esta resposta: “Dirige-te a meu servo Cláudio e dize-lhe, de minha parte, que faça todo o possível para estabelecer esta devoção e dar esse gosto a meu Divino Coração; que não desanime diante das dificuldades que encontrará, pois estas não faltarão, mas ele deve saber que é todo poderoso quem desconfia de si mesmo para confiar unicamente em Mim”.8
Assim, na sexta-feira seguinte, São Cláudio, Santa Margarida e a comunidade da Visitação de Paray-le-Monial celebraram, pela primeira vez, a Festa do Sagrado Coração de Jesus, consagrando-se inteiramente a Ele.
Missão junto à Duquesa de York
Quando estava no auge de suas atividades em Paray-le-Monial, o padre de La Colombière recebeu ordem de partir para Londres, como capelão da Duquesa de York, Maria de Módena, que era católica fervorosa e só consentira em se casar com o Duque, irmão de Carlos II, após ser autorizada pelo governo inglês a ter sempre um sacerdote junto a ela.
Por meio da santa vidente, o Coração de Jesus recomendou a São Cláudio algumas atitudes a serem observadas em sua nova missão: não se assustar com a investida dos infernos contra seu carisma para atrair as almas, mas confiar inteiramente na bondade de Deus, pois seria Ele seu sustentáculo; usar de doçura e compaixão para com os pecadores; ter o cuidado de nunca separar o bem de sua fonte.9
Sua partida foi muito dolorosa para Santa Margarida, valendo-lhe uma censura de Nosso Senhor: “Não te basto Eu, que sou teu princípio e teu fim?”.10
De sua parte, São Cláudio permaneceu fiel ao voto e aos propósitos feitos no período da Terceira Provação, mantendo-se, “sem reservas”, afastado da vida da Corte. Sendo capelão da Duquesa de York, vivia no palácio Saint James, mas fazia-o num regime de profundo recolhimento e grandes mortificações. Preocupava-se apenas em propagar a devoção à Sagrada Eucaristia e ao Sagrado Coração de Jesus, apesar das dificuldades criadas pela hostilidade contra a Igreja.
Acabou, entretanto, por converter famílias inteiras e atrair para a vida consagrada muitos membros da aristocracia londrina. Alguns destes os encaminhou para instituições religiosas na França; outros, os reuniu na própria Londres, num mosteiro clandestino, por ele fundado, próximo da Catedral de São Paulo.
Foi por essa época que Titus Oates acusou injustamente os jesuítas e outros membros da Igreja de estarem tramando o assassinato de Carlos II, a fim de substituí-lo por seu irmão, o Duque de York, convertido ao catolicismo. Embora o próprio rei considerasse absurda essa denúncia, ela deu origem a violentas perseguições contra os católicos, injustamente acusados de terem participado no chamado “complô papista”.
A pretexto de tais acontecimentos, São Cláudio foi denunciado e encarcerado pelo crime de proselitismo religioso. Cumpria-se, assim, a premonição que tivera quatro anos antes, quando se havia visto “coberto de ferros e correntes, e arrastado a uma prisão, acusado, condenado por ter pregado Cristo crucificado”.11
As péssimas condições da enxovia onde foi lançado terminaram de minar sua saúde, já debilitada por uma tuberculose incipiente. Ali teria morrido em pouco tempo, se não tivesse sido libertado por força de uma intervenção de Luís XIV.
Consumação do holocausto
Chegou de volta à França em meados de 1679, quase sem forças. Depois de recuperar um pouco a saúde, dirigiu-se para o Colégio da Santíssima Trindade, em Lyon, onde outrora fizera seus primeiros estudos, para assumir o cargo de diretor espiritual dos alunos de Filosofia. Ali, embora fisicamente muito desgastado, não deixava de propagar a devoção ao Divino Coração, defendendo-a contra os inúmeros ataques e incompreensões de que era objeto.
No inverno de 1681, retornou a Paray-le-Monial, cujo clima parecia resultar-lhe um pouco mais benéfico. À vista, porém, do intenso frio daquela rigorosa estação, pensou-se em trasladá-lo para Vienne, onde ficaria os cuidados de seu irmão, arcediago daquela Diocese. Mas o superior da casa mandou-lhe permanecer, após ter recebido São Cláudio um bilhete de Santa Margarida, com este recado do seu Divino Amigo: “Ele me disse que quer o sacrifício de sua vida aqui”.12
O holocausto não tardaria muito em ser consumado. Em 15 de fevereiro de 1682, com apenas 41 anos de idade, Cláudio de La Colombière foi encontrar-se com Aquele de quem fora servo fiel e amigo perfeito nesta Terra. Algumas horas depois dos funerais, Irmã Margarida, cujo coração permanecia unido ao seu, no Sagrado Coração de Jesus, pôde fazer esta recomendação: “Deixem já de afligir-se; invoquem-no com toda confiança porque ele pode socorrer-nos”.13
Contudo, a grande missão de São Cláudio só se realizaria plenamente muitos anos depois, em 8 de maio de 1928, quando Pio XI elevou à suprema categoria litúrgica a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, por meio da encíclica Miserentissimus redemptor.
Um ano mais tarde, Cláudio de La Colombière seria beatificado pelo mesmo Papa. E coube a João Paulo II, em 31 de maio de 1992, a honra de incluir no catálogo dos santos o nome deste sacerdote jesuíta, tão amado pelo Divino Coração de Jesus. 

1 DUFOUR, Gérard. Na Escola do Coração de Jesus com Cláudio de La Colombière. São Paulo: Loyola, 2000, p.7.
2 SANTA MARGARIDA MARIA ALACOQUE. Autobiografia. São Paulo: Loyola, 1985, p.59.
3 SÃO CLÁUDIO DE LA COLOMBIÈRE. Oeuvres, II, 99, apud GUITTON, SJ, Jorge. El Beato Cláudio La Colombière: su medio y su tiempo. Bilbao: El Mensajero del Corazón de Jesús, 1956, p.26.
4 SÃO CLÁUDIO DE LA COLOMBIÈRE. Reflexões cristãs, Oeuvres, V, 429, apud GUITTON, op. cit., p.121.
5 DUFOUR, op. cit., p.14-15.
6 SANTA MARGARIDA MARIA ALACOQUE, op. cit., p.61.
7 SANTA MARGARIDA MARIA ALACOQUE, Ouevres complètes, VI, 118 s, apud GUITTON, op. cit., p.156.
8 Idem, p.157.
9 Cf. DUFOUR, op. cit., p.19.
10 SANTA MARGARIDA MARIA ALACOQUE, Autobiografia, op. cit., p.68.
11 GUITTON, op. cit., p.116.
12 DUFOUR, op. cit., p.20.

13 ECHEVERRÍA, Lamberto de. San Cláudio de La Colombière. In: ECHEVERRÍA, L., LLORCA, B., BETES, J. (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2003, v.II, p.340.