quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

São José

 Dr. Plinio Correa de Oliveira  analisa as razões pelas quais São José pode e deve ser cultuado enquanto nobre, e louva a lógica, levada até o heroísmo, do Patrono da Santa Igreja.
O texto que pretendo comentar é tirado do capítulo VII do livro “Suma dos dons de São José”, do Padre Isidoro de Isolano, dominicano do século XVI, um dos primeiros teólogos católicos a atacar Lutero. É de longe o mais importante Doutor da Teologia sobre São José. Esta ficha parece conter dados muito interessantes a respeito deste Santo e o espírito da Contra-Revolução.
Carpinteiro e príncipe da Casa de Davi
Não está muito conforme com os mistérios das Sagradas Letras essa nobreza de sangue tão louvada em São José.
Aqui o autor cuida de São José enquanto nobre de sangue. Ele era, ao mesmo tempo, trabalhador manual, carpinteiro e, como tal, pertencente — ao menos do ponto de vista econômico — à camada mais modesta da sociedade. Mas, de outro lado, descendia do Rei Davi e de toda uma linhagem de reis de Israel.
A Casa de Davi decaiu e, com o tempo, perdeu o trono e afastou-se do poder. Seus membros continuaram a morar em Israel, mas essa Casa era cada vez menos influente, menos poderosa e menos rica. A tal ponto que quando, afinal, da raça de Davi nasceu Aquele que, na intenção de Deus, era a razão de ser da raça, Nosso Senhor Jesus Cristo — a esperança e a alegria de todo o povo, e que deveria ser um filho de Davi —, a Casa de Davi estava no auge de sua decadência.

E São José era um trabalhador manual, um mero carpinteiro. É bem verdade que, nessas sociedades muito rudimentares, as classes sociais e econômicas não se diferenciam de um modo absolutamente tão nítido quanto nas sociedades mais desenvolvidas; e nem sempre é um sinal de muita decadência econômica o fato de a pessoa ter pertencido a uma grande família e passar a exercer um trabalho manual.
Conheço zonas do interior do Brasil, por exemplo, em que das grandes famílias do lugar há gente que é, por exemplo, chauffeur de praça, carregador da estação, ou algo análogo, mas que se casa com ramos mais ricos da família e, depois, ascende novamente na escala social.
Portanto, essa situação de São José não queria dizer necessariamente tanta prostração quanto seria a de um descendente de reis que chegasse a ser, hoje em dia, trabalhador manual. Mas ao menos se pode afirmar que era, na ordem econômica das coisas, o mínimo que uma pessoa pode ser.
Então, São José pode e deve ser cultuado enquanto operário, mas também enquanto príncipe da Casa de Davi. É por essa razão que, falando a respeito dele, o Papa Leão XIII, um dos Pontífices que mais inculcaram a devoção a São José, disse taxativamente que este Santo deve ser cultuado não só como modelo do príncipe, mas também como o modelo, o ânimo, o estímulo de todos aqueles que pertencessem a grandes linhagens decadentes; para que essas pessoas compreendam como, pela virtude, pela fidelidade a Deus, podem erguer-se ao mais alto grau da santidade e realizar esplendidamente os desígnios da Providência sobre elas.
Argumentação tomista
O Padre Isidoro de Isolano está analisando, precisamente nesse capítulo, São José enquanto aristocrata. Então, escreve ele:
São José foi eleito para conhecer a verdade do Verbo de Deus. São Paulo disse: “Não há, entre vós, muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres. Antes escolheu Deus a estultice do mundo para confundir os sábios, e a fraqueza para confundir os fortes” (1Cor 1, 27). Logo, não se deve louvar a nobreza de São José, escolhido por Deus.
Percebe-se que o autor adota o método de São Tomás de Aquino. Ao tratar desse tema, o Doutor Angélico perguntaria, por exemplo: “Deve ser São José louvado também enquanto nobre?”
Então ele daria, em primeiro lugar, as razões pelas quais parece que não deve. Citaria um, dois, três argumentos negativos. Depois apresentaria os argumentos positivos, como quem faz um cálculo de conta corrente: tem o débito e depois o crédito. Por fim, tira a conclusão: Se tais são os argumentos pró e tais os contra, como responder? Então ele refuta os argumentos da tese que ele quer refutar, faz alguma grande citação em abono da ideia dele — sobretudo citações da Sagrada Escritura — e depois tira a conclusão. É o método lógico perfeito.
Nota-se, então, que o Padre Isidoro adota esse mesmo processo. Começa por dar os motivos pelos quais não se deve louvar a nobreza de São José. E aqui está uma razão tirada de São Paulo que, dirigindo-se aos primeiros católicos, diz: “Entre vós não há muitos que sejam cultos, nem nobres, nem poderosos de acordo com o mundo. Mas desde que sirvam a Deus, isso basta.” Então, daí se tira um argumento contra a nobreza, a cultura, o poder, que são coisas sem importância e não devem ser louvadas. É o primeiro argumento, que depois ele vai rebater. E continua:
Isso mesmo se confirma com a autoridade da Glosa sobre essas palavras do Apóstolo: “O Deus humilde veio a buscar os humildes e não os poderosos, entre os quais são considerados os nobres pelos mortais.”
Esgrima da inteligência
No século XVI os nobres eram considerados poderosos. Na reviravolta das coisas de hoje, um diretor de sindicato é, o mais das vezes, mais poderoso do que um duque. Então, ele diz: “Se é verdade que Nosso Senhor Jesus Cristo, ao encarnar-Se, não veio procurar os poderosos — os nobres, portanto —, não há importância em ser nobre. Logo, não se deve louvar São José enquanto nobre.”
E passa adiante:
A humildade de Deus foi extrema na Encarnação. Mais humilhação era escolher um pai putativo pobre do que um nobre. Logo, não deve elevar-se a nobreza de São José.
A argumentação está muito bem desenvolvida. Nosso Senhor Jesus Cristo veio para Se humilhar. Por isso escolheu um pobre como pai putativo, isto é, a quem se atribui a paternidade, mas que não era o verdadeiro pai. Então, não tem importância que esse pobre seja nobre. Nosso Senhor também não olhou para isso, mas apenas para o lado da pobreza. Portanto, ser nobre não vale nada.
Continua o autor:
A nobreza não parece ser outra coisa senão a antiguidade das riquezas, como disse Aristóteles. E José, pobre até o ponto de ter que exercer o ofício de carpinteiro para ganhar o pão de cada dia, não podia gabar-se de ser nobre.
O argumento também é interessante. Diz ele que, segundo Aristóteles, a verdadeira nobreza é ter uma fortuna muito antiga. Quem tem uma fortuna que passou por várias gerações, esse ficou nobre. Ora, São José não tinha nenhuma fortuna e, portanto, já não era nobre. Logo, não era o caso de louvar a nobreza dele.
Esses argumentos parecem-me muito bem feitos, o autor sabia objetar bem. Deve fazer parte da destreza do nosso espírito que apreciemos esse florete da argumentação, gostemos de ver argumentos feitos ainda que sejam contra nossas teses para, depois, dar a nossa resposta. É como uma esgrima. Muito mais alta e mais bela do que a esgrima da espada é a esgrima da inteligência. Aqui estão quatro estocadas bem desferidas contra nós.
Vamos ver, agora, como o nosso bom padre responde a essas estocadas.
Descendente de rei, de sacerdote e de profeta
Para solucionar essa dificuldade, tenha-se em conta que a nobreza humana pode considerar-se em sua causa, em sua essência e em sua ação.
Está muito bem lançado! Para responder, começar por ver o que é a nobreza, para depois desencaixar daí os argumentos contrários. E, para saber o que é a nobreza, ela deve ser considerada em sua causa, em sua essência e em suas ações, ou seja, no que a causou, no que ela é e no que ela causa. Está perfeito. Não falta nada!
Considerando-a em sua causa, é a nobreza de origem, no que foi singularíssimo São José, pois tem sua origem numa tríplice dignidade: corporal, espiritual e celeste. Ou seja, uma dignidade real, sacerdotal e profética, que é celestial, pois predizer o futuro é só de Deus. Davi foi rei, Abraão foi patriarca, Natã, profeta, e os três foram antepassados de São José.
Ao analisar a causa da nobreza de São José, o Padre Isidoro explica que ele descende de varões dignos a três títulos diferentes: segundo o corpo, por ser descendente de rei; conforme o espírito, por descender de estirpe sacerdotal; segundo as coisas sobrenaturais, porque era descendente de profeta.
Ora, descender de rei, de profeta e de sacerdote confere a mais alta nobreza que uma pessoa possa ter. É esplendidamente bem argumentado.
Que relação há entre rei e corpo? O rei é o chefe do Estado. O Estado cuida, entre os homens, daquilo que diz respeito ao corpo.
O sacerdote faz para a alma o que o Estado realiza para o corpo. Ele cuida das coisas da alma, do espírito.
O profeta é o representante de Deus, o porta-voz da palavra do Altíssimo. Sobretudo quando se trata do profetismo oficial, de um homem mandado por Deus e cuja missão era garantida com milagres, e que falava oficialmente em nome do Criador, como o embaixador fala oficialmente em nome de seu rei. Evidentemente isso é uma altíssima situação, uma altíssima missão.
São José tinha, portanto, as três causas mais altas de nobreza, representativas de três aspectos da vida do homem: o aspecto material, o espiritual e a representação de Deus. É muito bem tratado, superiormente inteligente.

Vejamos agora o que ele diz sobre a essência.
Continua no próximo post

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