domingo, 19 de junho de 2016

São Vicente de Paulo

Madame, se não fosse por esta Confissão eu me teria condenado! — exclamou o moribundo, causando um estremecimento de surpresa na condessa de Gondi.
Mulher piedosa e de espírito generoso, ela aproveitava a temporada da família nas terras da Picardia, ao norte da França, para visitar os moradores de suas propriedades, em Folleville, levando-lhes auxílio material e espiritual. Acompanhava-a o padre Vicente de Paulo, seu capelão particular. Naquele dia — um dos primeiros do ano de 1617 —, a presença do sacerdote havia sido solicitada na aldeia de Gannes, a fim de assistir a um pobre enfermo. Depois de atendê-lo por um bom tempo, o religioso fizera entrar no quarto os que aguardavam fora, entre os quais a ilustre benfeitora. Foi então que o doente quis revelar-lhe, diante de todos, o triste estado de alma em que vivera durante anos a fio, confessando-se tibiamente e sendo atormentado pelos remorsos, a ponto de perder a esperança de salvar-se. Só agora, graças à exortação firme e bondosa do confessor, voltara a encontrar a paz de consciência e a confiança na misericórdia de Deus.
A nobre dama logo compreendeu a realidade revelada por este testemunho, e expôs ao padre suas preocupações: se tal era a situação daquele honrado camponês, qual não deveria ser a dos outros habitantes da região? Assim como em outras partes do país, ali se podia apalpar a miséria espiritual dos filhos do campo, a maioria deles abandonados à mercê de pastores pouco zelosos e mal instruídos. Havia, inclusive, presbíteros que não sabiam celebrar a Missa, improvisando cada qual seu próprio cerimonial litúrgico, e muitos que ignoravam a fórmula da absolvição. Urgia tomar providências para socorrer o rebanho e, sobretudo, formar aqueles que deveriam guiá-lo e servir-lhe de exemplo. Como remediar necessidades tão profundas? O padre Vicente permaneceu pensativo...
Instado pela condessa, alguns dias depois ele subiu ao púlpito da igreja de Folleville e pregou ao povo, mostrando a importância e utilidade da Confissão geral, incentivando os fiéis a se beneficiarem dela.

Obteve excelentes resultados, como ele próprio narrou: “Deus olhou com olhos tão benignos a confiança e a fé ardente desta senhora — pois o número e a enormidade de meus pecados teriam atrapalhado o fruto desta ação —, que deu sua bênção a meu discurso, ficando esta boa gente tão tocada que todos acorreram para fazer sua Confissão geral”.1 Com o auxílio dos jesuítas da Diocese de Amiens, ele dedicou-se a confessar e catequizar a população local e, terminada a tarefa, dirigiu-se às aldeias vizinhas, procedendo de igual maneira e alcançando sucesso semelhante. Deste modo, enquanto desbravava aquelas zonas rurais em busca das ovelhas desgarradas, o humilde padre Vicente, então com 36 anos de idade, lançava as primeiras sementes de sua obra-mestra: a Congregação da Missão, cujos membros — conhecidos como Lazaristas, por terem se reunido no antigo leprosário de Saint-Lazare, em Paris — estenderiam “o reino do Divino Mestre até os lugares em que sua glória estava como que sepultada e sua vinha ociosa e sem frutos por falta de operários”.2
Ao definir a finalidade deste instituto, o fundador, em seu desejo de imitar Nosso Senhor Jesus Cristo, deixou consignados três pontos que bem podem sintetizar a gloriosa epopeia vicentina: “primeiro, trabalhar na própria perfeição, fazendo o possível para praticar as virtudes que este Soberano Mestre Se dignou nos ensinar com sua palavra e exemplo; segundo, pregar o Evangelho aos pobres, particularmente aos camponeses; terceiro, ajudar os eclesiásticos a adquirir a ciência e as virtudes necessárias a seu estado”.3
Um Santo caridoso...
Ao contemplarmos estes breves traços biográficos de São Vicente de Paulo, podemos nos perguntar onde se encaixa em tal contexto a concepção de certas obras de arte que o apresentam sorridente e acolhedor, carregando ao colo uma criancinha adormecida e dirigindo um olhar compassivo ao pequenino que se abriga sob seu manto... Não é difícil encontrarmos uma explicação para isso se compararmos sua vida a uma pedra lapidada. Quem a analisa de perto, constata que tais imagens refletem uma faceta — decerto das mais belas — de sua riquíssima personalidade; contudo, nota também haver nela muitos outros lados, menos conhecidos, e que são igualmente dignos de serem admirados pelos fiéis.
No concernente ao aspecto representado nas imagens piedosas, nunca se dirá o suficiente para louvar este varão, que bem merece o título de pai de todos os sofredores. Graças a ele, em pleno século XVII o perfume da caridade cristã se irradiou por toda a França e depois pelo mundo inteiro, suscitando a generosidade de ricos e poderosos em favor das classes mais modestas. Crianças abandonadas, doentes, idosos, insanos, jovens desencaminhados, prisioneiros, escravos, vítimas da guerra, entre outros, compõem o multitudinário cortejo de desventurados sobre os quais pousou a mão protetora de São Vicente.
Não foram os dons naturais nem a preparação acadêmica — de que ele, aliás, dispunha em abundância — o segredo da eficácia de suas atividades apostólicas, mas sim o amor a Deus, única fonte do verdadeiro amor ao próximo. Suas obras nasceram sob o signo desta virtude, ao seu calor se consolidaram e se expandiram pelo orbe, mostrando que a solução dos problemas sociais começa por colocar Deus no centro dos corações. As iniciativas vicentinas são timbradas por este nobre ideal, como se comprova pelas seguintes palavras: “Meu dever é amar o meu próximo como imagem de Deus e como objeto de seu amor, e fazer todo o possível para que os homens, por sua vez, amem a seu Criador, o qual reconhece e tem por irmãos aqueles que salvou; e diligenciar que com mútua caridade se amem entre si por amor a Deus, quem tanto os amou que por eles entregou à morte seu próprio Filho”.4
Segundo este mesmo espírito, São Vicente modelou o Instituto das Filhas da Caridade, fundado por ele e Santa Luísa de Marillac. Numa de suas conferências às jovens religiosas, expôs de modo inquestionável qual deveria ser a prioridade no trato dos doentes: “O propósito de Nosso Senhor ao fundar vossa Companhia não foi o de cuidardes apenas do corpo, porque nunca faltariam pessoas para fazer isto; sua intenção foi que cuidásseis da alma dos pobres enfermos [...]. Um turco e um idólatra podem assisti-los igualmente no que tange ao corpo, e Nosso Senhor não teria instituído uma Companhia apenas para tal, pois a própria natureza obriga a isto. Todavia, não se pode dizer o mesmo [do cuidado] da alma; nem todos podem exercê-lo, e por isso Deus vos escolheu, sobretudo, para que lhes ensineis as coisas necessárias à sua salvação. Considerai bem isto e dizei: ‘Tenho cuidado dos pobres só no que toca ao corporal? Se só me preocupei em dar-lhes alimento, remédios e outras coisas relativas ao corpo, não cumpri com meu dever’”.5
E esta é a nota inclusive para os trabalhos das Confrarias da Caridade — associações paroquiais femininas, masculinas ou mistas, formadas sob sua orientação e impulso —, como se lê no regulamento da Confraria de Joigny: “A Associação da Caridade é instituída para honrar Nosso Senhor Jesus Cristo, seu patrono, e sua Santíssima Mãe; para prover as necessidades dos pobres, tanto os sadios quanto os enfermos; fazer com que sejam catequizados e frequentem os Sacramentos; alimentá-los e tratar dos doentes; ajudar a ter uma boa morte os que se encontrarem nesse transe, e a tomar a resolução de nunca mais ofender a Deus os que forem curados”.6
...e combativo
Além da batalha travada contra a miséria, nosso Santo esteve à frente de uma luta de maior transcendência que teve por palco a França de meados do século XVII, quando as obras vicentinas encontravam-se num auge de fecundidade e expansão. Não se tratava de um inimigo ostensivo; pelo contrário, era tão sutil que nem sequer se declarava como tal: o jansenismo. E foi então que reluziu de modo especial a combatividade, outra faceta de sua alma adamantina.
Diante dos ventos gélidos da má doutrina, a fidelidade de São Vicente à Igreja manifestou-se não só numa vigorosa rejeição, quando os jansenistas quiseram enredá-lo em suas falácias, mas também em sua hábil atuação como defensor da Fé, à maneira dos Padres antigos. Ocupando privilegiada posição no Conselho de Consciência da rainha regente, Ana d’Áustria, vigiava as brechas por onde a heresia pretendia infiltrar-se, impedia que se conferissem dignidades aos seus semeadores e tomava medidas para afastá-los dos púlpitos. Valendo-se da grande influência que exercia sobre diversos setores eclesiásticos, reuniu e manejou as forças católicas para fazer triunfar a verdade, e orientou pessoalmente os três doutores católicos enviados pelo clero francês a Roma, para pedir ao Papa Inocêncio X a condenação da nefasta heresia.
Quando, afinal, a sentença pontifícia foi publicada na Bula Cum occasione, de 31 de maio de 1653, o Santo comemorou a vitória com a despretensão dos autênticos heróis, confessando que “embora Deus lhe tivesse dado a graça de distinguir o erro da verdade antes mesmo da definição da Santa Sé Apostólica, não experimentara nenhum sentimento de vã complacência por ter o juízo em conformidade com o da Igreja, reconhecendo que isto era puro efeito da misericórdia de Deus, a quem devia dar toda a glória”.7
Foi este, aliás, o fundamento sobre o qual o Altíssimo edificou o monumental castelo das virtudes de São Vicente: a humildade. Como veremos a seguir, nele se cumpriu à perfeição o conselho dado aos missionários: “Deus não tolera o vazio; por isso, quando nos despojarmos de nós mesmos, Ele nos encherá de Si”.8
Uma longa preparação
Tão grande missão não fora fruto de algum entusiasmo superficial e passageiro, senão de um vasto caminho preparatório, percorrido pelo Santo com toda fidelidade.
Vicente de Paulo nasceu em 24 de abril de 1581, na pequenina aldeia de Pouy, localizada nas Landes, sul da França. Não obstante, o sangue que lhe corria nas veias era espanhol. Tanto do lado paterno quanto do materno, sua família provinha de Tamarite de Litera, cidade da província de Huesca, em Aragão. Se o nascimento em terras gálicas constituiu uma credencial de peso para a realização de sua vocação, permitindo-lhe atuar com inteira liberdade em todas as esferas da sociedade francesa, a origem aragonesa foi elemento não menos importante, pois dela herdou o caráter decidido e pertinaz com o qual levou adiante os ousados empreendimentos que Deus lhe destinara realizar.
Sua infância transcorreu sem maiores sobressaltos, na pacata rotina de conduzir aos pastos o rebanho da família. Nunca perdia oportunidade de ajudar os pobres com os quais se deparava no percurso diário, dando-lhes tudo quanto podia. O pai via isto com bons olhos, e não demorou muito a perceber que o menino era chamado a algum ofício mais elevado que o pastoreio. Embora mesclada com interesses humanos, a decisão paterna foi certeira, quando encaminhou o filho à carreira eclesiástica.
O jovem Vicente foi ordenado sacerdote em 23 de setembro de 1600, antes de completar 20 anos. Isto se explica pela falta de estrutura da época — que ele, mais tarde, se empenhará em corrigir. À maneira de tantos outros clérigos contemporâneos seus, almejava trabalhar pela Igreja e salvar as almas; porém, aspirava também a cargos e a benefícios particulares, exercendo assim seu ministério durante quase uma década.
Entretanto, o Senhor o queria para Si e, a fim de purificá-lo, enviou-lhe uma dolorosa provação. Durante três ou quatro anos, padeceu atroz noite escura do espírito, pois havia se oferecido a Deus para sofrer no lugar de um teólogo as tentações contra a fé que este lhe confidenciara.
Finalmente soou a hora da Providência: quando, movido pela graça, o padre Vicente tomou a resolução de entregar-se ao serviço dos pobres, por amor a Jesus Cristo, as trevas interiores se dissiparam e ele sentiu sua alma cheia de luz. Foi este o marco inaugural de sua gloriosa trajetória como apóstolo da caridade.
Obedecendo às determinações de seu diretor espiritual — o padre Pierre de Bérulle, fundador do Oratório, na França —, São Vicente renunciou ao honroso cargo de capelão da rainha Margarida de Valois e tornou-se pároco do povoado de Clichy, nas cercanias de Paris. Era 12 de maio de 1612. Pouco depois, Bérulle o designou preceptor dos filhos de Felipe Manuel de Gondi, general das galeras e lugar-tenente real, cuja esposa era Margarida de Silly, senhora de Folleville. E foi transitando pelos castelos e terras desta nobre dama que o padre Vicente conheceu de perto a messe à qual devia dedicar sua vida, e sem delongas nela fez render seus melhores talentos, como pudemos contemplar no início destas breves linhas.
Marcado pela pura e autêntica caridade
Depois de uma longa e fecunda existência marcada pela mais pura e autêntica caridade, São Vicente de Paulo entregou sua bela alma a Deus no dia 27 de setembro de 1660. Ao dar a última bênção a seus filhos espirituais, dissera-lhes: “Deus vos abençoe; qui cœpit opus ipse perficiet — Levará a bom termo esta obra Aquele que a começou”.9
Até o fim dos tempos, seu exemplo de santidade lembrará ao mundo o quanto “a verdadeira caridade não é o sentimento que tem sua origem nas afeições naturais, transitórias e caprichosas dos homens uns pelos outros, mas sim o amor que, saído do mais profundo do coração humano, se eleva a Deus, e de lá, em veio límpido e cristalino, desce, como do alto de uma montanha, sobre todas as criaturas”.10
1 SÃO VICENTE DE PAULO. Conferência, apud HERRERA, CM, José; PARDO, CM, Veremundo (Org.). San Vicente de Paul. Biografía y selección de escritos. 2.ed. Madrid: BAC, 1955, p.99.
2 HERRERA; PARDO, op. cit., p.202.
3 SÃO VICENTE DE PAULO. Reglas de la Congregación de la Misión. § 1, apud HERRERA; PARDO, op. cit., p.800.
4 SÃO VICENTE DE PAULO. Conferência, apud HERRERA; PARDO, op. cit., p.654-655.
5 SÃO VICENTE DE PAULO, apud HERRERA; PARDO, op. cit., p.884.
6 SÃO VICENTE DE PAULO. Regulamento da Caridade mista de Joigny. In: HERRERA; PARDO, op. cit., p.687.
7 HERRERA; PARDO, op. cit., p.572.
8 SÃO VICENTE DE PAULO. Aos missionários. In: HERRERA; PARDO, op. cit., p.797.
9 SÃO VICENTE DE PAULO, apud HERRERA; PARDO, op. cit., p.608.

10 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A verdadeira caridade. In: O Legionário. São Paulo. Ano V. N.76 (8 mar., 1931); p.3.
Revista Arautos set 2015

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