quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A última Missa do Padre Miguel

 A escritora polonesa Maria Winovska, em seu livro Maranatá, conta este caso, que ela garante ser autêntico:
O irmão porteiro do Mosteiro da Cartucha avisou o Superior: - Está na sala de visitas um homem que pede a admissão na nossa Ordem para fazer penitência. Tenha cuidado, Padre. Parece-me um bandido da pior espécie.
-Veremos, irmão. As aparências, por vezes, enganam-nos. Dizendo isto, caminhou para a sala de visitas. Ao vê-lo, o recém-chegado, que se chamava Bogdan Grelha, levantou-se desajeitadamente, e balbuciou por entre dentes:
- Bom dia!
- Sente-se - disse amavelmente o Superior - e declare o que quer.    
- Ele venceu-me - suspirou o homem - e eu me vi forçado a dirigir-me para este convento a fim de começar uma vida de penitência.
- Quem é que o venceu?- indagou o Superior.
- O Padre Miguel. O Sr. o conhece?
- Claro que o conheço, ou antes, conhecia.
O Padre Miguel tinha sido condenado à morte. Antes da execução que tardou um mês, o Padre Superior fez todo o possível por visitá-lo e acompanhá-lo nos últimos dias. Mas todas as tentativas tropeçaram na recusa categórica: “Proibida a entrada ao Clero”.
- Eu fui o seu carcereiro - continuou Grelha - durante as três semanas que precederam a sua morte. Às minhas ordens estavam os condenados à pena capital.
- Deixou-lhe algum recado para mim? - perguntou com ansiedade o Superior.
- Sim. Na véspera da execução pediu-me que viesse falar com o senhor e lhe contasse sucedido. Por isso aqui estou.
No espírito do Padre Superior surgiu uma dúvida: diante de quem estaria? De um espião? De um intrujão? Desde a instalação do regime comunista na Polônia, todos os sacerdotes andavam espiados e perseguidos. Por isso o Padre atreveu-se:
- E quem me garante que você não está a tecer-me uma armadilha?
- Estou lhe falando a verdade. O Padre Miguel, na véspera da morte, disse-me: Bogdan Grelha, se o Padre Bruno, agora Superior do convento, não te quiser acreditar, lembra-lhe a nossa conversa e o juramento que fizemos no topo de uma ameixoeira, quando tínhamos apenas 11 anos. 
O Padre Superior ficou abalado com a recordação dessa conversa que tinha um segredo absoluto entre ele e o falecido sacerdote. O homem não era, um mentiroso. Por isso declarou:  
- Continue.
- Como ele estava quando mo entregaram para o matar! A camisa colara-se-lhe à pele, tanto era o sangue que nela havia. Mas aquele condenado não perdia a calma, o que me causava admiração, porque muitos outros chegavam a desesperar. Não é assim tão fácil ser carcereiro dos condenados à morte: Lançam altos gritos, batem uns nos outros, amaldiçoam, desesperam... Mas ele, nada disso! E como o insultavam! Aconteceu-me ver-lhe as costas e peito: era como se não fosse homem, mas pele de zebra, de tal modo o tinham esfacelado. Aquele sacerdote não me tratava como inimigo. Uma vez, à noite, depois da distribuição da sopa, entrei na sua cela e foi aí que tudo começou... Perguntei-lhe à queima roupa:
- Porque me sorris, assim? Não sabes que daqui a dez dias vamos te enforcar?
- Isso não é desgraça; uma desgraça é estar na inimizade com Deus - respondeu ele.
 - Então ri-te do teu Deus - exclamei, sarcástico. Ele não vai sair do Seu lugar para te salvar.
- Que necessidade tem de o fazer? Ele mesmo deixou-se voluntariamente pregar na Cruz para nos salvar.
- Salvar? Isso são conversas de freiras, mas não de homens como tu e como eu, embora sejas sacerdote. E por isso mesmo que te prenderam. Quanto a mim, é outra coisa. Olha para as minhas mãos. Sabes tu quanto sangue já passou por elas? Matei muitos homens. Perdi mesmo a conta. E, por isso, não será nunca para mim essa tua maldita Cruz.
- Precisamente para ti -  respondeu o Padre Miguel. O Senhor morreu também por ti.
O Padre Superior ouvia impressionado, mas mais comovido ainda se mostrava Bogdan Grelha, que continuou o seu relato:
- Ao ouvir tais coisas, até pensei que ele não estaria bom da cabeça. No outro dia, depois da sopa, perguntei-lhe: Ouve lá, Padre! Foi por brincadeira que ontem me disseste aquelas tolices?
- Que tolices? -  perguntou.
- Essa coisa do teu Deus e da Sua Cruz. É que eu me rio de tudo isso.
- Mas Deus não Se ri de ti - afirmou ele - Deus ama-te.
- Ainda mais essa! Deus amar-me a mim? Olha que eu sou um monstro. E contei-lhe a minha desgraçada vida, toda a minha horrível vida... Éramos 11 na família. Meu pai era pedreiro. Certo dia, desmaiou e caiu dos andaimes. Levantaram apenas um saco de ossos. Minha mãe começou, então, a ganhar a vida lavando roupa. Tinha eu seis anos. Lembro-me de que, à noite, as suas mãos estavam inchadas de tanto esfregar. Não tinha tempo para se ocupar de nós. Vivíamos na rua. Minhas irmãs, aos 15 anos, meteram-se na má vida, e eu aprendi a roubar. Tinha 16 anos, quando a minha mãe morreu. Realmente sofreu muito, coitadinha! Pouco antes do falecimento disse-me:
- Bogdan, meu filho, não andes mais com esses gatunos. Felizmente faleceu antes que me prendessem. Com tal profissão vai-se longe. É um desporto. Eu não roubava por fome: roubava por roubar, como mais tarde, matava por matar. Dava-me verdadeiro prazer ver as minhas mãos a escorrer sangue.
- Mas isso é verdade? - inquiriu o Superior.
- Sim, continuou Grelha. Eu contei todos os meus crimes ao Padre Miguel. A velha que asfixiei, a criança que me beijava as mãos, estas mãos, e me suplicava: tenha piedade de mim! Mas eu não tive e acabei com ela. Depois veio a guerra. Vida desordenada. Estive em Ivov, na cadeia. Os bolchevistas libertaram-me e vivíamos juntos como camaradas. Foi então que eles me propuseram um novo trabalho.“Eles prenderam-te a ti, agora prende-os tu a eles”. A cadeia precisava de especialistas como eu, para matar os condenados. Pagavam-me bem. Todas as vezes que me mandavam um condenado à morte dizia comigo mesmo: “Mais um a menos!”. Até o dia em que me encontrei com esse sacerdote condenado, que tanto me comoveu. Contei-lhe toda a história da minha triste vida. Isso levou-me algumas noites, mas ele escutava sempre com paciência. Uma vez à noite perguntou-me:
- É tudo, meu filho? - Repare como me chamou: “meu filho!”. Aquele santo sacerdote, continuou:
- O Sangue de Cristo pode lavar tudo. Queres que te dê a absolvição de todos os teus pecados? Eu ofereço a minha vida por ti.
- Isto é que eu nunca poderia ter esperado. A princípio até sorri. Mas depois desfiz-me em lágrimas. Pela primeira vez, depois de longos anos, começou a despertar em mim o aborrecimento do mal e o desejo de mudar de vida. Pensava comigo mesmo: mas será isto verdade? O Sangue de Cristo poderá lavar a minha alma? Os meus crimes terão perdão?... Comecei a passar longas horas à noite conversando com ele, que me falava da fé, do amor de Deus, do arrependimento dos pecados, da penitência e da confissão. Em pequeno, tinha aprendido a catequese. Mas há quantos anos! Fiquei impressionado com tudo, desejando pôr termo à minha vida criminosa. Na véspera da sua morte chamou-me:
- Bogdan, não poderias arranjar-me um pouco de vinho e pão ázimo, pão de natal? (pão sem fermento usado na Polônia na festa do Natal). Queria tanto celebrar a minha última Missa!
- Para lhe fazer a vontade, fui a uma loja. Comprei uma garrafinha de vinho branco e uma vizinha deu-me um pedaço de pão de Natal. Levei-lhe tudo. Antes da Missa deu-me a absolvição dos pecados e beijou-me. Perguntei-lhe:
- Como podes tu beijar um desgraçado como eu?
- Se eu não sou como tu - respondeu ele - o mérito não é meu; protegeu-me a graça de Deus. Tanto eu como tu fomos salvos pela Sua infinita misericórdia.
- Foi isso que me disse, palavra por palavra. Nunca me esquecerei dessa noite, a última que ele passou no mundo e em que celebrou pela última vez. Um copo de alumínio serviu de cálice e depois... depois...(nesse momento Bogdan escondeu a cara) e depois deu-me a comunhão, a mim, pobre pecador!
O seus soluços interromperam o seu relato. A custo continuou:
- Deu-me o endereço deste convento e o nome do seu Superior. Mandou-me contar-lhe tudo e pôr em prática o que o senhor me dissesse. Mas eu tinha vergonha de vir, enquanto estivesse naquele emprego miserável. Logo depois da morte do Padre, pedi demissão. Eles não me queriam deixar ir porque, na verdade, eu era um especialista na matéria. Mas o médico atestou que os meus nervos não podiam aguentar mais. Deixaram-me partir. Agora aqui estou. Diga-me o que devo fazer. Queria ficar neste convento para fazer penitência pelos meus pecados.
O Padre Superior fechou os olhos e ficou calado por uns momentos. Por fim disse:
- Meu filho, recebo-te como um dom, graças ao testamento do meu antigo companheiro, o santo Padre Miguel, mártir da fé. Mas fixa bem na memória: A tua vida passada ficou lavada pelo Sangue de Cristo. Proíbo-te de falar dela, exceto na confissão ou diante da imagem de Jesus crucificado. Proíbo-te mesmo de pensar nela a não ser que tal pensamento encha o teu coração de gratidão pela grandíssima misericórdia que Jesus te demonstrou”.
Esta comovedora história vem descrita na revista “Cruzada” de Abril de 1985, donde transcrevemos com a devida vênia.
Por aqui se vê o trabalho da graça divina que é capaz, por um lado, de perdoar ao maior pecador; por outro lado, demonstra a ação da mesma graça naqueles que os altos desígnios de Deus chamam à glória do martírio por amor da fé.
Fonte: Jornal “Missionário do Sofrimento”, Setembro-Outubro de 1985, n. 110,  Porto - Portugal.


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