Páginas

Mostrando postagens com marcador Lucilia Correa de Oliveira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lucilia Correa de Oliveira. Mostrar todas as postagens

sábado, 29 de setembro de 2012

São Patrício

 No dia dezessete de março, comemora-­se a festa de São Patrício.
No livro de Hello1, “A fisionomia dos santos”, há alguns dados biográficos magníficos a respeito da figura dele.
São Patrício é, sem dúvida alguma, um dos santos de vida mais extraordinária que se conhece. Aos doze anos foi raptado por piratas e levado para a Irlanda.”
Vale lembrar que quem era rapta­do por piratas tornava­-se escravo.
Ali foi feito pastor, recebendo o dom da oração. Ajoelhava-se no meio do campo e rezava, cercado por seus animais.”
Esmeralda encastoada no mar
A grama da Irlanda é extraordinariamente verde e cobre grande parte do país. Por isso, os poetas antigos diziam que a Irlanda era como uma esmeralda encastoada no mar, ao norte da Europa.
Imaginemos a bonita cena: São Patrício, pequeno, mas já com fisionomia de santo, pastorzinho pobre e humilde, rezando sobre a relva esplendidamente verde da Irlanda, e os animais fazendo círculo em torno dele, para protegê-lo ou a contemplá-lo. Cenas semelhantes eram comuns na hagiografia da Idade Média, constituindo fioretti2, servindo para iluminuras, vitrais de catedral, etc. A história e a fantasia nelas se reúnem para a realização de um aspecto magnífico do poder da oração, bem como da candura, da inocência, quando fortalecida por carismas vindos de Deus.
“Depois de seis anos, ele sai dessa região, fazendo várias viagens cheias de peripécias, mas se tornou novamente escravo.”
Depois de seis anos dessa forma pastoril tão encantadora, ele consegue fugir, mas se torna escravo de novo.
“Enfim, chegou ao mosteiro de São Martinho de Tours. E como sempre sentira que sua vocação estava na Irlanda, partiu para evangelizá-la. Mas tal era a via estranha pela qual Patrício era conduzido que, apesar de seus desejos, de sua santidade, de seu zelo e do chamamento sobrenatural por ele recebido, fracassou completamente. Foi tratado como inimigo.”
Provação dos santos
Vemos como Deus prova os seus santos, fazendo com que caminhem por uma série de lados, sem conseguirem o objetivo que o próprio Deus tem em vista. Em determinado momento, esse objetivo lhes vem às mãos.
Compreendemos, assim, que nosso Movimento sofra dificuldades, como é natural que em nosso apostolado tenhamos revezes. Os santos progridem assim. Os não­-santos progridem rapidamente nas suas obras de pseudoapostolado; o verdadeiro apostolado somente é feito por quem é santo ou, pelo menos, tende para a santidade e a admira com todas as veras de sua alma.
“Ainda não chegara a hora, a Irlanda não estava pronta. Patrício volta à Gália onde passa três anos sob a direção de São Germano de Auxerre. Depois se retira para a solidão da ilha de Arles.”
Quanto esse homem viaja e quantas curvas tem sua vida antes de voltar para a Irlanda! Ele vai para a Gália, onde aprende com um santo as vias da vida espiritual, torna­-se eremita, depois se distancia ainda mais da Ir­landa porque se dirige para Roma...
“...onde o Papa São Celestino lhe dá a bênção apostólica. E ele retoma então o caminho da Irlanda, aí aportando em 432. Logo dirigiu-se à assembleia geral dos guerreiros da Hibérnia.”
Hibérnia era o antigo nome da Irlanda.
Pregou a Fé com destemor
Imaginemos como seria bonita, em meio à natureza suave da Irlanda, uma assembleia geral de guerreiros para deliberar a respeito das coisas da nação. Os guerreiros eram os nobres que compareciam a essas assembleias revestidos de suas armas. E quando havia dificuldades nas votações, brigavam entre si utilizando essas armas. Era regime de barbárie. Às assembleias comparecia também o colégio dos druidas, sacerdotes pagãos da Gália e da Irlanda, que pertenciam, então, à mesma raça.
Ali se apresentou São Patrício, que atacou de frente o centro religioso e político da nação. Perante todos os seus inimigos agrupados, pregou ele a Fé. Que destemor! Nada de meias medidas, de panos quentes, de recuos; ele era um santo e tinha o poder dos santos. “
A partir desse momento, as maravilhas se sucederam com rapidez. Houve conversões de famílias reais inteiras.”
Anjos no Céu se inclinam para ouvir os bardos da Terra
Naturalmente, “famílias reais” significam federações de tribos. Não podemos pensar, por exemplo, em princesas como as filhas de Luís XV pintadas por Nattier, mas em nossa Paraguaçu 3: as “princesas reais” de então eram umas Paraguaçus louras, mas autênticas Paraguaçus.
Enfim, devemos imaginar a selvageria dessas hordas e São Patrício dizendo-lhes todas as verdades. Ele desperta admiração; os guerreiros começam a ficar pensativos, depois contritos, as mulheres a mudar de atitude. Famílias reais inteiras são batizadas, seguidas das respectivas tribos. Que cena linda!
 “A Irlanda se transforma rapidamente na ilha dos santos. Naquela terra onde outrora fora escravo, Patrício anda agora como conquistador triunfante. Reis, povos e também poetas vêm a ele.”
A Irlanda é uma das mais antigas pátrias da poesia.
A cítara, uma pequena harpa, com a qual cantavam os bardos irlandeses e do País de Gales, faz parte da bandeira da Irlanda. O maior cantor que houve na Irlanda tornou-­se cristão.
“O Homero da Hibérnia inclinou os velhos heróis ante o estandarte do Deus desconhecido. Então, diz um velho autor, os cantos dos bardos ficaram tão belos, com a conversão lucraram tanto em sua beleza, que os Anjos de Deus se inclinavam na beira do Céu para escutá-los.”
Como é linda essa ideia de os bardos cantando na Terra; e no Céu, aberto como se fosse uma clarabóia, revoadas de Anjos ouvindo aquelas vozes. Isso tem uma indiscutível poesia, com um aroma e uma força de atração verdadeiramente extraordinários.
Como bem disse certa vez Montalembert4, a Idade Média foi a “doce primavera da Fé”. Tudo isso se parece com a primavera: é uma energia que surge, com todo o dinamismo para crescer, vencendo todos os obstáculos, iluminando tudo como o sol nascente, ou como uma boa estação do ano que vai entrando.
Como é diferente o dinamismo desse apostolado com a situação que hoje vemos!
Ameaça a um chefe pirata
“Entretanto, as invasões dos piratas desolavam a Irlanda. Patrício escreveu a Corotido, chefe da quadrilha.”
Esses piratas vinham da Dina­marca, da Noruega e da Suécia — quão mudadas daquele tempo para cá! — e eram chamados reis do mar. Nações inteiras, em naus — com proas monumentais, velas bonitas — singravam com rapidez os mares e desciam em hordas pelas praias, devastando os povos, as plantações. Então, para um tal Corotido, ou Corótido — não sei como se pronuncia — nosso santo escreveu o seguinte:
“Patrício, pecador ignorante, mas coroado Bispo de Hibérnia...”
Quão linda a ideia de que o bispo é coroado como um rei!
“... refugiado entre as nações bárbaras por causa de seu amor a Deus, escrevo de próprio punho estas letras para serem transmitidas aos soldados do tirano.
“A misericórdia divina que eu amo não me obriga a agir assim, para defender aqueles mesmos que não há muito me fizeram cativo e trucidaram os servos e as servas de meu pai?”
Quer dizer, ele enfrentou perigos e mostrou os desígnios de misericór­dia da Providência.
Ele prediz que a realeza de seus inimigos será menos estável que a nuvem e a fumaça.
“Em presença de Deus e dos seus santos — acrescenta Patrício — atesto que o futuro será tal qual eu previ.”
Ele, portanto, os ameaça dizendo que não adianta atacar, porque vão perder o que estavam querendo conquistar.
“Alguns meses depois, Corotido, acometido de alucinação mental, morria no desespero.”
Podemos imaginar o desespero de Corotido, matando pessoas e depois se golpeando a si mesmo, porque ficara louco. Era o resultado da maldição de São Patrício.
“Os inimigos de Patrício caíam mortos, os amigos ressuscitavam. Os túmulos pareciam um domínio sobre o qual ele tinha direito.”
Assim se converte um povo! Se pudéssemos imitar São Patrício, co­mo tudo seria mais simples! Não precisaríamos nem de burocracia, nem de máquinas. Bastaria irmos à sepultura de Dom Vital e de outras pessoas virtuosas para ressuscitá-los. E muita coisa mudaria. Mas a nós isso não foi dado.
Quando se tem esse direito sobre os túmulos, abre-se e fecha­-se a porta da morte dessa forma, o que mais é necessário?
Poder sobre os demônios
“Quando de sua chegada à Irlanda, os demônios, diz um historiador do século XII, fizeram um círculo com que cingiam toda a ilha para lhe barrarem a passagem. Patrício levantou a mão direita, fez o sinal da cruz e passou adiante.”
Lindo tema para uma iluminura: um barquinho em cuja proa está São Patrício, fragilzinho, tendo um pé colocado para frente e outro para trás, um halo de santidade, e uma sarabanda de demônios correndo. Para pintar os demônios, pediríamos o auxílio da arte moderna que realmente os representa como eles são. E ao lado, outro quadrinho: São Patrício dando uma bênção, e os demônios, com fogo saindo de suas pernas, caem de ponta-­cabeça dentro do mar; e monstros marinhos fugindo espavoridos de todos os lados — porque os demônios até aos monstros causam horror. Outras cenas: o barquinho de São Patrício ancorando sereno; ele descendo, amarrando a pequena embarcação e penetrando na Irlanda. Lamento não saber pintar iluminuras para representar coisas dessas.
“Depois derrubou o ídolo do sol, ao qual as crianças, como ao antigo Moloch, eram oferecidas em sacrifício.”
Isso eu gostaria muito mais de pintar: um ídolo horrendo, em pé, numa atitude sanguinária, diante do qual há adoradores infames; uma mãe que entrega espavorida seu filhinho; ao lado, restos de cadáveres de crianças mortas; e São Patrício que chega. Segundo quadro: o santo faz uso da palavra com veemência. Terceiro: ele derruba o ídolo. Quarto: a população festeja.
Assim é que se tocam as coisas para frente. Mas para isso é preciso ser santo.
O bastão de São Patrício enxotou serpentes da Irlanda
Certa vez perguntaram a Napoleão — pode-se imaginar quão cretino era o indivíduo que fez tal indagação — por que ele não se fazia aclamar como deus. Napoleão respondeu: “Olhe, meu caro, depois de Jesus Cristo, só há um jeito para alguém ser deus: tomar a cruz, subir ao Calvário e fazer-se crucificar. E eu não tenho vontade disso. Porque depois d’Ele ninguém toma a sério outro deus.” É bem verdade. Assim também, para fazer essas coisas é preciso ser santo. Se quiséssemos verdadeiramente ser santos, talvez pudéssemos realizá-­las.
Continua Hello:
“Atribui-se ao bastão de São Patrício o poder de enxotar as serpentes.”
Parece que esses animais são desconhecidos na Irlanda, e sua ausência é atribuída a uma bênção particular: a bênção do bastão que São Patrício segurou nas mãos.
Por que não pedimos um pouco dessa relíquia para o Brasil? Positivamente, é falta de imaginação. Poder-se-ia andar tranquilamente pelos matos, com a cruz de São Patrício na ponta de um bastão.
Propulsor, em escala mundial, da vida da Igreja
“A figura desse santo assemelha-se um pouco a um navio que se distancia da pátria: durante algum tempo pode ser visto distintamente; mas depois, ele parece desaparecer quando o céu e o mar se confundem no horizonte. Assim também São Patrício, no céu e nos mares da Irlanda.”
Essa história coloca diante de nossos olhos uma dessas figuras de fundadores e evangelizadores de povos, de homens da destra de Deus.
Há certas pessoas que Deus escolhe a fim de fazer um apostolado circunscrito e pequeno. Para isso são eficientes e poderosas, pois o Deus lhes dá as graças necessárias. Porém, tais pessoas não são muito salientes por suas obras. No período de evangelização da Europa, houve um grande número de santos e de santas que fundaram cristandades em lugares onde haveria de futuro dioceses — alguns desses santos se tornaram diretamente seus bispos — e foram patronos desses locais.
Seus sepulcros ficam nesses lugares, onde se celebram seus cultos, às vezes com peregrinações. Dir­-se­ ia que eles são animadores desse aspecto riquíssimo da Igreja, como de toda grande sociedade, que é a vida regional.
Mas há outros santos que são propulsores da vida da Igreja, em escala mundial. E esses são propriamente os homens da destra de Deus. Os obstáculos parecem insignificantes diante deles. Tais santos realizam coisas que nunca ninguém poderia imaginar, fazendo acelerar muito a marcha da História e o progresso da Igreja. Isto se pode dizer de São Patrício e também da nação irlandesa.
A Revolução conspurca até as coisas mais esplêndidas
Os irlandeses participaram da ação missionária do império de Carlos Magno, evangelizando a França, a Holanda e, sobretudo, a Alemanha. A Irlanda foi um ponto de irradiação extraordinário da Religião Católica nesta época, mais ou menos como, séculos depois, a Península Ibérica, da qual partiu a evangelização de toda a América Latina, parte da África e regiões da Ásia.
Tal qual aconteceu com a Península Ibérica, depois se apagou a glória internacional da Irlanda, mas algo de sua fidelidade restou. Espanha e Portugal — este último em medida infelizmente menor — têm resistido a toda espécie de tentativas para obrigá-los a apostatar. Na Espanha houve até resistência a uma terrível revolução comunista, e a Irlanda sofreu perseguições atrozes, mas não apostatou, como prêmio pelo fato de ter sido uma nação apostólica, e continua firme para a glória de Deus.
Isso é bonito, edificante, e eleva os nossos corações.
 Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferências de 18/3/1966 e 16/3/1967
1) Ernest Hello, escritor francês. 1828­ 1885. Não possuímos referência exata da ficha original usada por Dr. Plinio.
2) Termo retirado da coletânea de histórias de São Francisco de Assis intitu­ lada I Fioretti (As florzinhas).
3) Índia tupinambá, esposa de Diogo Álvares Correia (Caramuru).
4) Charles de Montalembert, 1810­1870.
 

domingo, 26 de agosto de 2012

Santa Germana Cousin

Num século habituado aos prazeres e deleites da vida, onde o sofrimento e a dor eram considerados com repugnância e horror, despontou radiosa uma alma de extrema humildade, colidindo estrondosamente com os preconceitos de seu tempo: Santa Germana Cousin.
Comentarei  a  vida  de  Santa  Germana Cousin, a virgem de  Pribac, que vivera em fins do  século XVI.
Assim  narra-nos  uma  ficha  com  sua história:
“Se houve uma vida triste, inútil e miserável aos olhos do mundo, foi a da Bem-Aventurada Germana Cousin. Uma mão paralisada, uma saúde detestável, nenhuma instrução, um cajado para dirigir ovelhas, a guarda de alguns carneiros, enfim, a morte aos vinte e dois anos, eis o que compôs para o mundo a vida de Germana.
“No estábulo, um recanto pobre da casa, estava seu quartinho: um cubículo de cinco pés de comprimento, sob uma escada. Algumas ramagens de videira como leito, e, como alimento, um pouco de pão e de água era bastante para esta miserável escrofulosa. Sua faina diária era guardar o rebanho da família. E as estações do ano lhe fizeram sofrer muito no que elas têm de mais rigoroso.
“Sua paciência era inalterável, ela não possuía outra resposta às injúrias e aos maus-tratos que de todo lado caíam sobre ela quando voltava para casa, trazendo o rebanho e levando-o para o estábulo. A sua única resposta era calar-se e retirar-se a seu pequeno cubículo.”
Diante  de  uma  vida  como  essa,  quais  ensinamentos  poderiam  ser  hauridos para o benefício das almas?
Dois notórios contrastes sucederam-se durante a vida de Santa Germana. Tendo nascido no século XVI, houve uma flagrante divergência entre o pecado dominante deste século e a vida levada por ela, como também a diferença entre as dificuldades da vida terrena que sofrera, em relação à glória sobrenatural pela qual esteve cercada no final de sua existência e sobretudo no Céu.
Por um lado, constata-se um século profundamente marcado pela Renascença, carregando seus pendores defeituosos, que se entregava cada vez mais desbragadamente às pompas mundanas, aos prazeres da vida e a uma ambição pela glória terrena. Embora sendo menos vil que a dominante ambição pelo dinheiro no mundo contemporâneo, não deixava de ser censurável, por possuir um aspecto laico, voltado apenas para o amor-próprio pessoal, desconsiderando a glória celeste que é a única glória à qual o homem deve tender. Temos então um século de vanglória, centrado no que há de passageiro, transitório e terreno, e que, inconscientemente, faz dessa vanglória um de seus ídolos.
Em  meio  a  este  ambiente,  nasce  uma santa venerada por toda a posteridade por ter sido o contrário da  vanglória, levando uma vida pautada pelas maiores humilhações possíveis. Não podendo prestar serviços, pois possuía péssima saúde, Santa Germana era vista com extraordinária crueldade pelos seus mais próximos, maltratada e desprezada com uma raiva  irracional que o homem de espírito  pagão nutre contra quem apresente  qualquer inferioridade intelectual ou  física. Ela tinha conjugadas ambas as  inferioridades, e era também iletrada. 
“De um lado, as pessoas caçoavam da simplicidade dela e de sua devoção. Ela não conhecia nada, exceto o doce nome de Jesus, seu Salvador, e tinha muito cuidado de não se entristecer com seus sofrimentos, com sua miséria, e de pedir a Deus que lhe libertasse, ainda mesmo quando o poder divino, multiplicando os milagres em torno dela, parecia disposto a atender todos os seus desejos.”
“Ela veio ao mundo paralítica da mão direita e atingida por uma escrofulose. Sua mãe fora levada pela morte logo após seu nascimento. Germana teve que passar toda a sua vida sob a autoridade de uma madrasta que a detestava, maltratava e conservava afastada de seus irmãos e irmãs. Seu pai, Lourenço Cousin, não tinha por sua filha nenhuma espécie de ternura, pouco se inquietando por seus sofrimentos.”
Embora sendo uma pessoa de mínima instrução, que nunca dera provas de grande inteligência, além do  aspecto  físico  tão  depauperado  e  desprezível aos olhos do mundo, esquecida pelo próprio pai e perseguida  pela  madrasta  incessantemente,  comprouve à Providência reunir em  torno da vida de Santa Germana todas as razões de humilhação imagináveis, para cumulá-la ainda mais de  alegria na vida eterna. 
Rios que se abriam, neves que davam flores...
“Chegada a hora da Santa Missa, a Bem-Aventurada deixava seu cajado e sua roca, abandonando seu rebanho à guarda do Divino Pastor. Em Germana, a confiança era como uma luz sobrenatural que jamais fora iludida; esta lhe inspirava uma certeza sobre-humana que era posta a serviço de um amor heroico.
“O rebanho, sempre muito bem guardado, mesmo na entrada da floresta de Bocogne, onde foi várias vezes deixado, jamais teve uma ovelha desgarrada, nem o menor prejuízo causado aos campos vizinhos. O que há de mais, o rebanho estava florescente e não havia em toda a aldeia um rebanho mais belo nem mais numeroso.
“Nosso Senhor multiplicou os milagres nas mãos de sua caridosa serva, como Ele outrora havia multiplicado entre as suas mãos divinas. Mas esta explicação não veio ao espírito de todos. Acusaram-na de roubar pão da casa de seu pai, e sua madrasta não foi a última a conceber tais suspeitas. Um dia deu-se conta, ou julgou notar que Germana levava em seu avental um certo número de pedaços de pão que não lhe tinham sido dados. Imediatamente tomou um bastão e pôs-se a correr atrás de Germana. Seu furor contra o suposto roubo lhe fez vituperar todas as injúrias que lhe vieram ao espírito. Dois habitantes de Pribac que a viram, tomados de piedade pela pobre menina ameaçada, apertaram o passo com o desígnio de tomar a defesa dela. Quando chegaram perto da pastora, fizeram-lhe abrir o avental e ele não continha outra coisa, senão um magnífico buquê de belíssimas flores, espargindo um perfume delicioso. Jamais os jardins de Pribac tinham produzido flores semelhantes! Não era uma estação de flores, pois estava-se durante um rigoroso inverno...
“Um dia, Santa Germana não podendo ir à igreja sem atravessar um riacho, o qual, de tal maneira se tinha enchido à noite, tornara-se intransponível, e quando duas testemunhas esperavam para ver o desaponto dela, sem se deter um só instante Germana pôs o pé e as águas se retiraram e fizeram para a humilde pastora de Bocogne o que outrora o Jordão havia feito para a Arca da Aliança e para os filhos de Israel. Os camponeses que estavam lá ficaram tomados de temor e como que fora de si mesmos. Ficaram muito tempo com o olhar fixado sobre Germana que se distanciava a toda pressa, e olhavam para ela e para o riacho que continuava a correr.”
Surge então outro aspecto de Santa Germana, os milagres que se realizaram em grande quantidade à sua volta, comprovando sua autêntica virtude. Milagres dos quais dois são clássicos, um de separar as águas, como sucedeu ao povo hebraico quando transpunha o Rio Jordão, com a Arca da Aliança. O outro  milagre  faz lembrar o famoso fato da vida de  Santa Isabel da Hungria quando levava  pão  aos  pobres.  Ocorreu  que  um cortesão veio a exprobrá-la, perguntando o que trazia em suas mãos,  ao que ela respondeu-lhe: “São rosas”, e abrindo o avental notou que  de fato o que havia ali eram rosas...  Milagre  magnífico, semelhante ao realizado por Santa Germana quando os pães  transformaram-se  num  lindo buquê de flores.
Milagres como esses poderiam ser uma forma de Santa Germana dar-se conta de sua própria grandeza e orgulhar-se dela. Não obstante, ela foi um modelo indubitável de humildade, mesmo após a enorme fama de santidade intensamente propagada a seu respeito.
Despretensão, a condição para a santidade
Aos familiares dela não foi dado ver as qualidades extraordinárias que possuía. Mesmo consciente dos milagres que lhe eram atribuídos, a  madrasta a perseguiu maldosamente  por uma suspeita de roubo, absolutamente infundada. 
Mas  Germana,  possuidora  de  extraordinário  equilíbrio,  preferiu  permanecer em seu estado a pedir  a cura que a privaria de suas humilhações,  fazendo  possivelmente com que não tivesse alcançado a  extraordinária santidade a que chegou.  Bem  poderia  ela  ter-se utilizado dos milagres para dizer a sua madrasta: “Não percebe quem sou, e que valho sozinha mais do que toda a aldeia de Pribac e as redondezas somadas? Em determinado momento a senhora pode vir a precisar de mim para algum milagre; porém, tratando-me dessa forma, jamais lhe atenderei. E quando adoecer gravemente? Aqui está quem poderá curá-la. Portanto, respeite-me.”
Ela poderia intimidar por essa forma o ambiente em que vivia, pois todos se curvariam ante suas ameaças. Entretanto, continuando a aceitar todas as humilhações que de início lhe foram impostas pela Providência, Santa Germana recusou o aroma inebriante de seus próprios milagres e das homenagens que lhe eram prestadas, para manter-se fiel até o fim.
Protetora do Papado
Pode-se imaginar essa notícia penetrando nos palácios, nos conventos, nas rodas da alta burguesia, e transmitindo a todos os que ouviam, um convite a confiar nas orações dela. Mas vinha juntamente uma afirmação: “É ouvida por Deus a oração daquele que não tem vanglória, pois ela afasta o homem de Deus. Se te queres unir a Deus, abandona a vanglória.”
Uma mensagem como esta, era uma pregação da humildade contrária ao orgulho característico do século XVI, uma pregação da virgindade contrária à concupiscência efervescente que haveria de culminar na Revolução Francesa.
“Germana foi invocada a favor de Pio VII e mais tarde de Pio IX. A dupla libertação desses dois Soberanos Pontífices seguiu-se de perto ao pedido que foi a ela feito.”
Socorrendo a Igreja em terríveis aflições, pedindo por Pio VII e posteriormente por Pio IX, Santa Germana transforma-se em protectora da mais gloriosa das instituições existentes na Terra: o Papado. Essa foi a grandeza à qual Deus elevou-a.
Mansidão ou... combatividade?
Para o católico de nossos tempos há alguma lição a ser tirada da edificante vida de Santa Germana?
Adaptadas às circunstâncias do mundo de hoje, devemos observar as mesmas virtudes que por ela foram praticadas. O católico de nossos dias deve ser altivo, batalhador, cônscio de seu valor, não esquecendo, porém, de representar perante seu século as virtudes de Santa Germana Cousin. Muitas vezes negado, malvisto, isolado e perseguido, ele vê constituírem-se em torno de si as inimizades mais gratuitas, enquanto desfazem-se as mais fundadas amizades. Ele tem de lutar de peito aberto contra as potências de sua época, remando contra a maré montante dos vícios e desvios de seu tempo. Não raras vezes torna-se ele objecto de desprezo, senão de ódio. Também Santa Germana era objeto de injúrias pessoais, as quais ela humildemente aceitou.
Ante as injustiças particulares recebidas, devemos recebê-las com mansidão. Entretanto, quando a glória de Deus é tocada, devemos defendê-la como leões.
E ao tratar-se de problemas do amor-próprio ou de reivindicações pessoais, devemos ser mansos como cordeiros.
Teremos imitado, então, a nosso modo, as  virtudes  de  Santa  Germana,  ora  inclinando  a  cabeça perante as humilhações, ora defendendo a glória de Deus como  guerreiros.
A pastora transformada em rainha
“Uma noite, dois religiosos surpreendidos pela escuridão se viram obrigados a deter-se numa floresta vizinha para esperar lá a aurora. No meio da noite eles foram acordados por cânticos admiráveis, os seus olhos se abriram, e eles viram uma luz das mais esplendorosas dissipar as trevas. Em alguns instantes essa luz se tornou mais brilhante que o sol. Rodeado por essa luz, um conjunto de virgens apareceu por cima da floresta; elas se dirigiam para Pribac, cantando cânticos maravilhosos. A visão não desapareceu, senão para aparecer uns instantes depois; eram as mesmas virgens que vinham em sentido oposto; elas circundavam uma nova companheira que tinha acabado de juntar-se a elas e que levava sobre a fronte uma coroa de flores nova. Desaparecendo a visão uma segunda vez, deixou os religiosos encantados e conversando sobre o que eles tinham visto e ouvido.
“Na manhã seguinte, Lourenço Cousin, pai dela, não a vendo aparecer como de costume — Germana sempre matinal e ativa — foi ao alto da escada, chamando-a. Aproximou-se e a pastora dormia o seu último sono.
“Havia quarenta anos que o corpo de Germana repousava no campo santo. O coveiro de Pribac, tendo um dia que preparar uma fossa, se pôs ao trabalho no mesmo lugar onde tinha escavado a da Bem-Aventurada. No primeiro golpe de pá ele levantou uma pedra, mas imediatamente se deteve e deitou um brado; ele tinha diante de si um cadáver que parecia todo recente e o instrumento tinha penetrado na carne incorrupta do cadáver.
“Hoje, seus restos mortais são venerados num relicário cercado de ouro e de luzes. Mais de quatrocentos milagres foram atestados por processos verbais
Amigas do homem, as belas e poéticas  florestas  da  França  foram  o  ambiente escolhido pela Providência para o lindo milagre da aparição dos  coros das virgens. 
Dois frades de hábito, sandálias, bordão, com alvas e longas barbas  a  emoldurar-lhes  o  rosto,  realizavam uma longa viagem a pé, rezando recolhidamente. Exauridos pelo esforço, ao cair da noite dormem na própria floresta, tranquilos, à  espera de que venha o dia. Alinhados no chão, protegidos pelas árvores, repousam o merecido sono dos  justos. 
Aparece então uma luz extraordinária nos primeiros raios da manhã.  Eles  despertam  e  indagam-se: o que será? Veem passar uma névoa como que de cristal: é um  coro de virgens que atravessam a  floresta  sem  dificuldades  em  ultrapassar os obstáculos materiais,  e  desaparecem  sobre  as  montanhas. Passado algum tempo as virgens voltam, trazendo uma a mais,  agora  sem  escrofulose  e  sem  humilhações. E, como nos contos de  fada, a pastora transformou-se em  rainha,  cercada  por  todas  as  outras princesas. Caminham alegres  para o Céu para receber então a  coroa de glória. 
“Deposuit potentes de sede et exaltavit humiles”3 , o orgulho fora castigado, enquanto a humildade ia ser  coroada no Céu. 

Plinio Correa de Oliveira (Extraído de conferência de 20/8/1973)