Páginas

Mostrando postagens com marcador João Clá. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador João Clá. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Santa gemma Galgani


“Se todos soubessem como Jesus é belo, como é amável, não procurariam senão o seu amor. Nosso coração é feito para amar uma só coisa: nosso grande Deus”.

Entre os mais esplêndidos espetáculos da natureza estão as grandes cachoeiras. Nelas, as volumosas águas se precipitam com uma força avassaladora, envolvendo numa misteriosa nuvem, nimbada de irisados lampejos, tudo ao seu redor.
Ao contemplá-las, o espírito se extasia, e é levado a relacionar esse espetáculo com uma realidade de índole sobrenatural: o incomensurável, fecundo e transformante amor de Deus.
Com efeito, provindo de uma altura infinita, a água viva e multiforme da bondade divina desce sobre os homens com infinda abundância. Ela enche de caridade a quem a recebe com boa disposição, trazendo como fruto o desejo ardente de restituir em toda medida possível tal amor gratuito do Criador.
Todos fomos chamados a fazer de nossa existência uma desigual porfia por retribuir a Deus os seus incontáveis benefícios. Algumas almas eleitas, contudo, já nesta Terra experimentam um místico e transformante intercâmbio de amor que as faz viver de algum modo como na eternidade, por uma especial união espiritual com o Redentor.
É o caso de Santa Gemma Galgani, cuja identificação com Cristo foi estreita a ponto de poder ela afirmar: “Não estou mais em mim, estou com meu Deus, toda para Ele; e Ele está todo em mim e para mim. Jesus está comigo e é todo meu”.1
Convívio com o sobrenatural
Nascida na cidade italiana de Lucca, em 12 de março de 1878, Gemma teve um curto, mas intenso convívio com sua piedosa mãe. Esta contraíra uma tuberculose de lenta e implacável evolução, o que não lhe impediu de legar aos filhos uma formação verdadeiramente católica.
Uma de suas derradeiras providências fora fazer com que a pequena recebesse a plenitude da graça batismal pela Crisma, antes mesmo da Primeira Comunhão, como era então costume na Itália. E, apesar das dificuldades impostas pela doença, a própria senhora Galgani, auxiliada por uma catequista, incumbiu-se de preparar a filha para receber o Sacramento.
Depois da cerimônia, a menina permaneceu na Basílica de San Michele in Foro para assistir a uma Missa em Ação de Graças e, estando em oração por sua querida mãe, teve seu primeiro diálogo sobrenatural:
— Gemma, queres dar-me tua mãe? — ouviu no fundo da alma.
— Sim, mas só se eu for junto — respondeu ela.
— Não, dá-me de boa vontade tua mãe. Tu deves ficar agora com teu pai. Eu a levarei para o Céu. Mas dás com gosto?
“Tive de responder que sim”2, confessa a santa em sua autobiografia.
As graças da Primeira Comunhão
Em setembro de 1885, a senhora Galgani entregou piedosamente sua alma a Deus, deixando a filha instalada na casa da tia materna, Elena Landi. Algum tempo depois, Gemma regressou para junto do pai e ingressou como externa no colégio das Irmãs de Santa Zita, fundado pela Beata Elena Guerra.
Aos nove anos, revelando piedade incomum, a menina manifestava enorme desejo de receber a Sagrada Eucaristia. Em vão suplicou durante largo tempo ao confessor, Monsenhor Giovanni Volpi, ao pai e às mestras: “Dai-me Jesus e vereis que serei mais sábia, não cometerei mais pecados, não serei mais a mesma!”.
Afinal, o sacerdote acabou por aceder e, apesar da sua pouca idade para os costumes da época, na festa do Sagrado Coração de 1887, Jesus Hóstia entrava pela primeira vez naquela fogosa e inocente alma: “O que se passou naquele momento entre mim e Ele, não saberia exprimi-lo. Jesus fez-Se sentir em minha alma de uma maneira muito forte. Compreendi, então, que as delícias do Céu não são como as da Terra. Sentia-me tomada pelo desejo de tornar contínua aquela união entre mim e Jesus”.3
Unir-se a Nosso Senhor, assemelhar-se a Ele, foi a partir daquele momento o único objetivo da vida de Gemma.
Esposa de Cristo Crucificado
Durante o período transcorrido com as Irmãs de Santa Zita, a menina dedicou-se com todo esmero às atividades escolares. Por seu bom exemplo, era a “alma” da escola. Muito benquista pelas companheiras, estas a respeitavam, pois, apesar de pouco expansiva, tinha o dom da palavra concisa e do agir resoluto.

Enquanto isso, o Divino Mestre a cumulava de graças interiores, fazendo-a progredir cada vez mais nas vias da perfeição. A vida da jovem Gemma transcorria envolta em frequentes fenômenos místicos, e isso transparecia de algum modo em seu olhar.
Certo dia, estando já com dezessete anos, nossa santa recebeu de presente um rico relógio e uma cruz com corrente de ouro. E para agradar ao parente que lhe fizera o obséquio, saiu à rua portando-os consigo. À noite, ao se preparar para dormir, apareceu-lhe o Anjo da Guarda dizendo: “Lembra-te de que as únicas joias que devem adornar a esposa de um Rei crucificado são os espinhos e a cruz”.4
A jovem, que sempre sentira especial devoção pelos sofrimentos de Jesus, tomou esta advertência com toda seriedade e, desde então, renunciou a quanto poderia servir de pretexto à vaidade, passando a trajar uma simples roupa negra.
Início da “via dolorosa”
Desde a morte da mãe, conta a santa na sua biografia, ela nunca deixara de oferecer algum pequeno sacrifício a Jesus. Era chegada, porém, a hora de começar a sorver em grandes goles o cálice do sofrimento.
Em 1896, uma terrível necrose no pé, acompanhada por agudíssimas dores, obrigou-a a submeter-se a uma cirurgia. Recusando qualquer anestesia, Gemma se manteve imóvel durante a intervenção, enquanto os presentes acompanhavam horrorizados o que mais parecia uma tortura do que um ato terapêutico. Apenas alguns gemidos involuntários a traíram no momento mais difícil da operação, a qual ela suportou sem tirar os olhos do Crucifixo, pedindo ainda a Jesus perdão pela debilidade manifestada. No ano seguinte, seu pai faleceu após perder toda a fortuna, deixando a família em grande miséria.
Encontro com São Gabriel da Virgem Dolorosa
Em 1898, foi Gemma atingida por grave doença na espinha dorsal, ficando prostrada na cama, com dificuldades para fazer o menor movimento.
Em meio a tal moléstia, seu Anjo da Guarda não deixava de consolá-la, e o Divino Mestre servia-se de suas dores para fazê-la progredir na virtude da humildade. Adquiriu também uma particular devoção por São Gabriel da Virgem Dolorosa, religioso passionista falecido trinta e seis anos antes, cuja biografia lera avidamente durante a doença.
Certa noite, após ter feito voto de virgindade e ter manifestado o propósito de vestir o hábito religioso caso viesse a sarar, apareceu-lhe em sonho o santo passionista dizendo: “Faze em boa hora o voto de ser religiosa, mas não acrescentes mais nada”. E ao perguntar-lhe Gemma o porquê, retirou o símbolo que levava prendido à batina, deu-o a beijar à enferma e o colocou-o sobre ela dizendo: “Sorella mia! — Minha querida irmã!”.
Durante todo esse tempo, seus parentes e conhecidos não deixavam de fazer novenas e tríduos implorando sua cura; ela, porém, permanecia indiferente, dócil aos desígnios divinos. Ao cabo de um ano, para agravar a situação, os médicos lhe diagnosticaram um tumor na cabeça, dando-a por desenganada. Então, uma das suas antigas mestras conseguiu convencê-la a fazer uma novena a Santa Margarida Maria Alacoque. No último dia dessa novena, poucas horas após receber a Sagrada Comunhão, a jovem pôs-se de pé, totalmente sã. Era a primeira sexta-feira do mês de março.
“Não cesses de sofrer por Ele nem um momento”
Na Quinta-Feira Santa do ano seguinte, Gemma, ainda debilitada, praticava no seu quarto a devoção da “Hora Santa em companhia do Senhor no Horto”, escrita pela fundadora das Irmãs de Santa Zita, sentindo, enquanto o fazia, uma profunda dor por suas faltas. Terminada a oração, apareceu diante dela a figura de Jesus Crucificado, dizendo-Lhe: “Filha, estas chagas foram abertas em Mim pelos teus pecados. Mas alegra-te, porque já as fechaste com tua dor. Não me ofendas mais. Ama-me como Eu sempre te amei”.5
Dias depois, enquanto fazia as orações da tarde, Cristo Crucificado tornou-se novamente visível a ela e lhe disse: “Olha, minha filha, e aprende como se ama. Vês esta Cruz, estes espinhos e cravos, estas carnes lívidas, estas contusões e chagas? Tudo é obra de amor, e de amor infinito. Eis até que ponto Eu te amei. Queres amar-Me verdadeiramente? Aprende então a sofrer: o sofrimento ensina a amar”.
Noutra ocasião, enquanto pedia a Deus a graça de amar muito, ouviu uma voz sobrenatural que lhe dizia: “Queres sempre amar a Jesus? Não cesses de sofrer por Ele nem um momento. A Cruz é o trono dos verdadeiros amantes; a Cruz é o patrimônio dos eleitos nesta vida”.
Aquelas visões, ao mesmo tempo que intensificavam a dor pelos seus pecados, traziam-lhe grande consolação e aumentavam nela o desejo de amar a Jesus e padecer por Ele.
A graça dos Sagrados Estigmas
Na véspera da festa do Sagrado Coração desse mesmo ano, Gemma perdeu os sentidos e, ao acordar, encontrou-se em presença da Santíssima Virgem, que lhe disse: “Meu Filho, Jesus, ama-te muito e quer conceder-te uma grande graça; mostrar-te-ás digna dela?”. A santa não sabia o que responder. Nossa Senhora continuou, dizendo: “Eu serei para ti uma mãe. Saberás tu te mostrar verdadeira filha?”. E, a seguir, estendeu seu manto e a cobriu com ele.
Nesse instante, apareceu-lhe novamente Jesus. Com a simplicidade própria das almas inocentes, assim narra Gemma o acontecido: “Suas chagas estavam abertas, mas não jorravam sangue; delas saíam chamas ardentes. Em um piscar de olhos essas chamas tocaram minhas mãos, meus pés e meu coração”. Por mais algum tempo permaneceu ela sob o manto da Rainha dos Céus. Maria a osculou na fronte e desapareceu, deixando a jovem ajoelhada com fortes dores nas mãos, nos pés e no coração, de onde escorria sangue: Santa Gemma Galgani havia recebido a graça dos Sagrados Estigmas.
O fenômeno repetia-se a cada semana. Na quinta-feira, as chagas se abriam à noite, permanecendo até às três horas da tarde de sexta-feira. No sábado, ou o mais tardar no domingo, delas só restavam umas marcas esbranquiçadas.
Além dos estigmas, cuja existência poucos conheciam, eram frequentes na vida de Santa Gemma outras manifestações sobrenaturais, como suores de sangue e êxtases incontáveis, que ocorriam a qualquer instante. Isso tornou o relacionamento com as tias, com as quais vivia desde a morte do pai, cada vez mais difícil.
Tirou-a desse embaraço a piedosa senhora Cecília Giannini, a qual, admirada com os prodígios da graça naquela alma, adotou-a como filha. Em sua nova família, todos votavam-lhe grande veneração. Anotavam com precisão as palavras proferidas nos frequentes arroubamentos e maravilhavam-se com os estigmas sagrados e as feridas produzidas ora pelo látego da flagelação, ora pelos espinhos da coroa.
Encontro com os Padres Passionistas
Foi em junho desse mesmo ano de 1899, tão fundamental na existência da Santa, que Gemma haveria de ter seu primeiro encontro com os padres passionistas, prenunciado por São Gabriel da Virgem Dolorosa.
Nos últimos dias desse mês, haviam começado na Igreja de São Martinho as “Santas Missões”, pregadas por sacerdotes dessa ordem. No último dia houve comunhão geral, da qual também participou Santa Gemma. Durante a ação de graças, Jesus lhe perguntou: “Gemma, te agrada o hábito com que está revestido esse sacerdote? Gostarias de te ver revestida dele?”.
“Sim,” acrescentou o Senhor ao vê-la incapaz de dar uma resposta afirmativa, “tu serás uma filha da minha Paixão, e uma filha predileta. Um destes meus filhos será o teu pai. Vá e manifesta-lhe tudo o que acontece contigo”.
Após algumas vicissitudes, tão frequentes nas almas mais eleitas, Gemma acabou por escrever, com autorização de Monsenhor Volpi, ao padre Germano Di San Stanislao, religioso passionista, residente em Roma, cujo nome e fisionomia o Senhor lhe havia indicado.
Dotado de grande talento e virtude, tal sacerdote viajou a Lucca para conhecê-la, e passou a ser um verdadeiro pai para a santa. Durante três anos, conduziu-a com destreza nos caminhos da perfeição. Graças a essa direção espiritual, feita sobretudo por meio de cartas, ficaram documentados os singulares favores recebidos pela angelical jovem. São missivas emocionantes, nas quais transparece toda a beleza de sua alma.
“Consummatum est”
O último Calvário da virgem de Lucca começou na Páscoa de 1902. Seu corpo, prostrado na cama por terrível doença que a impossibilitava de ingerir alimento, espelhava as penas interiores que padecia sua alma privada de todas as consolações e alegrias sensíveis. “Não sabeis que sou toda vossa? Jesus só!”, suspirava Gemma, em meio a um aparente abandono.
Ela havia participado sucessivamente de todos os tormentos do Homem-Deus: suas angústias interiores, seu suor de sangue, a flagelação e suas numerosas chagas, os maus tratos, por obra dos demônios, as profundas feridas da coroa de espinhos, o deslocamento dos ossos e as chagas dos cravos. Faltavam-lhe apenas, para imitar cabalmente o Redentor em sua Paixão, a agonia e a morte em um mar de dores.
Foi o que aconteceu, por fim, no Sábado Santo de 1903. Com apenas 25 anos de idade, a seráfica virgem libertou-se definitivamente dos liames que a prendiam à Terra e recebeu sua “recompensa demasiadamente grande” (Gn 15, 1), o próprio Deus por toda a eternidade.
* * *
A alma de Gemma entrou na glória enriquecida pelo único e real tesouro, aquele que nunca acabará: a caridade. “Se todos soubessem como Jesus é belo, como é amável, não procurariam senão o seu amor”.
Com efeito, como o mundo seria outro se ouvisse o conselho da virgem de Lucca e pudesse afirmar como ela: “Meu coração palpita continuamente em uníssono com o Coração de Jesus. Viva Jesus! O Coração de Jesus e o meu são uma mesma coisa.[...] Sim, eu sou feliz, Jesus, porque sinto meu coração palpitar com o vosso, e porque Vos possuo”.


1GERMANO DI SAN STANISLAO, CP. La séraphique vierge de Lucques, Gemma Galgani. Tradução do italiano pelo Pe. Félix de Jesus Crucifié, CP. Paris: M. Mignard, 1912. Salvo indicação em nota, os trechos citados entre aspas neste artigo serão todos transcritos desta obra, omitindo-se a referência da página. SANTA GEMMA GALGANI. Sus escritos: Autobiografía. Tradução do italiano pelo Pe. Bernardo Monsegú. Madrid: El Pasionario, 1977, p.12. Idem, p.16. Idem, p.22. Idem, p.37.

quarta-feira, 20 de março de 2013

São Vicente de Paulo


Fundador de Obras de Caridade, Diretor de uma Ordem Religiosa; por outro lado, insigne lutador contra o jansenismo e inspirador de uma cruzada contra Túnis. Homem ao mesmo tempo capaz de tratar com a rainha e com galerianos; de cuidar de doentes e de armar um exército contra os inimigos da Fé. Dotado de tal amplitude de espírito, São Vicente de Paulo representou a própria harmonia do espírito de Nosso Senhor Jesus Cristo.


Pediram-me que comentasse uma ficha biográfica de São Vicente de Paulo, extraída do Breviário Romano.

Vicente nasceu de pais pobres em Pay, na Landae, França, no dia 24 de abril de 1581.

Desde criança guardou os rebanhos de seu pai. Mas sua viva inteligência fez com que sua família o mandasse estudar entre os cordelliers de Dax.

Foi depois para Toulouse a fim de conseguir grau de Doutor e, em 1600, ordenou-se sacerdote. Após ter sido cativo em Tunis, em 1616 foi incluído no corpo de capelães da Rainha Margarida de Valois. Durante algum tempo, foi cura de Clichy e de Chatillon-les-Dombes.

Nomeado grão-capelão das galeras da França pelo rei, com um zelo maravilhoso, trabalhou pela salvação dos oficiais e dos remadores.

Indicado por São Francisco de Sales para o governo das religiosas da Visitação, cumpriu essa missão durante 40 anos com tal prudência que justificou plenamente o julgamento do santo prelado, o qual declarou não conhecer padre mais digno do que Vicente.

Mas sua carreira fez-se quase que inteira ao serviço da poderosa família dos Gondi. Ele evangelizou as nove mil almas que viviam em suas terras, e diminuiu a extensão das ruínas e das misérias produzidas pelas guerras civis ou com estrangeiros.

Até uma idade bem avançada, Vicente dedicou-se a evangelizar os pobres e sobretudo os camponeses. Para isto fez um especial voto, aprovado pela Santa Sé. Preocupou-se em estabelecer a disciplina eclesiástica, dirigindo seminários para o Clero, e tendo o cuidado de multiplicar as conferências espirituais entre os padres.

Enviou evangelizadores não só através das províncias da França, mas também para Itália, Polônia, Escócia, Irlanda e Índia.


Protegido pelos reis da França, assistiu Luís XIII nos seus últimos momentos e foi chamado por Ana d’Áustria, mãe de Luís XIV, para fazer parte do Conselho de Consciência.

Lançou os fundamentos de uma nova Congregação, a dos Lazaristas, e com Santa Luísa de Marillac criou a Instituição das Filhas da Caridade, ou Irmãs de São Vicente de Paulo.

Acabado de fadiga, o chamado Apóstolo da Caridade veio a falecer em 1660. Afirma-se não ter havido miséria que ele não houvesse socorrido. Cristãos aprisionados pelos turcos, crianças abandonadas, jovens indisciplinados, moças em risco de cair no pecado, religiosas displicentes, pecadoras públicas, condenados às galés, estrangeiros enfermos, artesãos sem trabalho, os loucos e os mendigos, todos foram lembrados pelo grande Monsieur Vincent, como era conhecido naquela época.

Membro da Mesa de Consciência e Ordens

Quero chamar a atenção para dois aspectos de sua vida.

O primeiro é a quase incrível fecundidade dessa existência, tomando em consideração as várias situações pelas quais ele transitou.

Nascido de uma família pobre de camponeses, provavelmente analfabetos ou semianalfabetos, ele teve uma ascensão: dada a sua excepcional inteligência, foi estudar e ordenou-se sacerdote. Depois, caiu como cativo dos berberes, piratas que percorriam o Mediterrâneo e às vezes até faziam incursões pelos territórios da Europa, levando católicos como escravos, os quais eram vendidos nos países do Oriente.

Maravilhosamente resgatado da condição de simples escravo, ele é logo contratado para ser capelão de uma rainha e entra numa corte. Deste alto cargo ele passa a ser vigário de duas aldeias; entra sob serviço de uma casa nobre poderosa, a dos Gondi, e parece cifrar o seu trabalho às nove mil almas que constituíam a população dos feudos ou das terras em que a família Gondi tinha restos de poderes feudais.

Mas, depois disto, ele novamente se aproxima da corte e é elevado a um dos mais altos cargos: membro da Mesa de Consciência.

A Mesa de Consciência e Ordens era uma instituição que existia em quase todas as monarquias católicas daquele tempo, e tinha uma função muito delicada. Naquela época o Estado era sempre unido à Igreja nos países católicos, e os Bispos tinham muitas vezes poderes temporais. A diocese era senhora feudal com poderes mais amplos, ou menos, destas ou daquelas terras; dessa forma o provimento das dioceses que se vagassem cabia ao Papa por princípio, porque só o Sumo Pontífice pode nomear e demitir livremente Bispos, mas mediante indicação do rei. Este propunha em geral três nomes, dos quais o Papa escolhia um.

Naturalmente, quando um nome não era adequado, o Sumo Pontífice exigia outro nome. Ele não ficava manietado, circunscrito àqueles três, mas era o rei que os indicava.

A Mesa de Consciência não era uma mesa no sentido material da palavra. Tinha esse título porque seus membros se reuniam em torno de uma mesa, e era um Conselho das pessoas de maior confiança e virtude do reino, mais perspicazes e inteligentes, para estudar quais os padres que, por sua vida e doutrina ortodoxa, cultura e atividade, saúde e influência pessoal, eram capazes de serem Bispos.

Como é sabido, toda a vida de uma diocese gira em torno do Bispo, e uma das coisas mais importantes para a vida interna da Igreja é a designação de bons Bispos. Podemos assim compreender quanto um país deve ter empenho em que seja escolhido o creme dos sacerdotes para ser Bispo.

Ele foi escolhido por Ana d’Áustria, a Rainha-Mãe, regente da minoridade de Luís XIV, para esta Mesa de Consciência e Ordens e ali exerceu grande influência para a designação dos Bispos. Esse homem que subiu a tão alto cargo, tratando com cortesãos no palácio real da França, entretanto foi capelão-geral das galés, tendo que fazer apostolado junto a criminosos, os quais eram atarraxados nos navios e passavam a vida remando. Entre um príncipe e um guerreiro há uma distância enorme; porém tal distância é menor do que a existente entre o sacerdote e o escravo. Tudo isso constituiu os vaivéns de sua existência.

Multiplicidade de atividades


Outro aspecto é a multiplicidade das atividades que ele exerceu: Obras de Caridade, Diretor de uma Ordem Religiosa que então estava apenas saindo das mãos de seu grande fundador, São Francisco de Sales; por outro lado, lutador insigne contra o jansenismo. Ele foi um dos homens que mais trabalhou contra o jansenismo na França, impedindo que essa forma péssima de protestantismo larvado penetrasse nos meios católicos. Além disso, São Vicente levantou uma cruzada contra a Tunísia; foi, portanto, chefe de cruzados.

Vemos assim a diferença de aspectos dessa personalidade. Um homem capaz de tratar com a rainha, mas também com galerianos. De atrair a confiança da soberana e de encontrar palavras que pusessem à vontade o indivíduo que estava remando nas galés. Um homem capaz de tratar de um doente e de armar um exército; de dirigir uma Congregação Religiosa de freiras reclusas, que passavam a sua vida em oração, mas ao mesmo tempo capaz de orientar almas de uma corte, passando todo o tempo sujeito às tentações do mundanismo.

Tinha ele um espírito amplíssimo, uma personalidade vastíssima, rica dos maiores aspectos, com a possibilidade de impressionar a fundo os homens mais variados. Ou seja, com uma faculdade de adaptação aos vários meios que de si dariam origem a um verdadeiro romance.


Há pessoas que leem com entusiasmo a vida de Laurence of Arabia, porque sendo inglês esteve na Arábia e se adaptou às condições de vida lá existentes. O que é isto em comparação com todas as pluralidades de papéis que São Vicente de Paulo desempenhou de um modo tão profundamente brilhante?

Se houvesse um grande biógrafo que soubesse apresentar a vida de São Vicente de Paulo com ardor, sem se distanciar em nada da realidade histórica, mas realçando os aspectos que verdadeiramente dão a chama de sua existência, tenho certeza que esta seria uma das biografias mais famosas.

Uma das figuras mais deformadas pela “heresia branca”


Parece-me que até a consumação dos séculos uma tentação para os que escrevem vida de santos vai ser de redigi-la de modo “heresia branca”1. E a figura de São Vicente de Paulo é exatamente a que tem sido mais deformada pela “heresia branca”.

Em que sentido? A “heresia branca” gosta de apresentar este santo sempre sorrindo e com uma criancinha ao seu lado. Que ele seja apresentado sorrindo, ótimo! E com uma criancinha ao lado — se não quiserem economizar bronze, podem até pôr cinquenta criancinhas, não tenho nada a objetar contra isto —, está esplêndido. Quem pode objetar contra o apostolado junto às crianças de quem Nosso Senhor disse: “Deixai vir a Mim os pequeninos”?

Mas que se queira ver neste homem só isto! Este é o lado verdadeiramente absurdo. Por que não se faz, numa igreja ereta em louvor de São Vicente de Paulo, um quadro deste varão de Deus, na presença de Luís XIII, obtendo deste a assinatura de um edito que ordenava uma cruzada contra Túnis?

Não devemos procurar corrigir uma unilateralidade com a outra, escondendo São Vicente de Paulo caridoso, para manifestar apenas São Vicente de Paulo guerreiro, porque a beleza consiste exatamente na coexistência dos dois aspectos. Aí está a perfeição, a harmonia do espírito de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Plinio Correa de Oliveira -Extraído de conferência de 19/7/1971

1) Expressão metafórica criada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental que se manifesta na piedade, na cultura, na arte, etc. As pessoas por ela afetadas se tornam moles, medíocres, pouco propensas à fortaleza, assim como a tudo que signifique esplendor.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Santa Escolástica e o apostolado do sofrimento



Santa Escolástica, irmã de São Bento, desenvolveu uma obra entrelaçada com a deste, fundando as beneditinas.

Numa época em que a ação social destas religiosas pareceria tão necessária, elas se empenharam em algo muito mais importante: rezavam e se sacrificavam. E, pelo seu exemplo, deixaram bem claro que a fecundidade do ramo masculino devia-se ao fato de haver um ramo feminino que rezava e se imolava.

Vemos, assim, o papel admirável, insubstituível e incomparável de Santa Escolástica.

Plinio Correa de Oliveira (Extraído de conferência de 10/2/1965)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Bênção de São Brás

No dia 3 de fevereiro, muitos fiéis procuram suas paróquias para receber a bênção de São Brás, implorando a proteção de Deus contra os males da garganta. Enquanto pronuncia a fórmula, o sacerdote ou diácono aplica-lhes junto ao pescoço duas velas abençoadas no dia anterior — festa da Apresentação do Menino Jesus no Templo e de Nossa Senhora da Candelária — atadas em forma de cruz.
A origem deste belo rito é atribuída pela tradição a fato acontecido com o venerado Bispo de Sebaste (atual Armênia) que viveu no século IV. Certo dia, foi levado até ele um menino em estado delicado, com uma espinha de peixe atravessada em sua garganta. Vendo isto, o santo tomou duas velas, oferecidas havia pouco pela mãe da criança à Igreja, e colocou-as cruzadas sobre o pescoço do pequeno que, ao ser abençoado, ficou subitamente aliviado do mal.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Santa Isabel da Hungria

FILHA DE REI E MÃE DOS POBRES
Jovem viúva de 20 anos, Isabel foi expulsa de seu castelo com os quatro filhos pequenos e só conseguiu alojamento num depósito, ao lado dos porcos. Nessa situação, mandou cantar um Te Deum, para agradecer a Nosso Senhor a graça de sofrer em união com Ele.
Em Santa Isabel, parece que a santidade lhe veio do berço. Nasceu em 1207, na Hungria. Aos 4 anos, entrava na capela do castelo, abria o grande livro dos Salmos, e ainda sem saber ler, olhava-o longamente e passava muitas horas recolhida em oração. Ao brincar com outras meninas, procurava algum jeito de encaminhá-las para a capela. Quando esta estava fechada, beijava-lhe a porta, a fechadura, as paredes, pois, dizia ela, “Deus lá dentro repousa”.
Antes de completar dez anos, perdeu a mãe, a Rainha Gertrudes. Na mesma época, faleceu também seu protetor, o Duque Herman, o qual era pai de seu futuro esposo e a tratava como filha, amando-a justamente por sua piedade inocente e graciosa.
Aos 13 anos de idade, realizou-se seu casamento com o poderoso e não menos piedoso Duque Luiz da Turíngia, ao qual havia sido prometida desde tenra infância. Em sua curta existência — faleceu aos 24 anos — ela conquistou o mais glorioso dos títulos: o de Santa.
Caridade em grau heróico
Santa Isabel fazia bom uso da imensa riqueza de seu esposo, distribuindo aos pobres generosas esmolas. Isto causava profunda irritação a muitas pessoas da corte, sobretudo aos seus dois cunhados, Henrique e Conrado. Acusando-a de estar “dilapidando o patrimônio familiar”, estes não perdiam oportunidade de tentar fazerlhe mal.
E ela, por sua vez, não se contentava em simplesmente dar moedas ou alimentos. Seu amor a Deus a impelia a ações muito mais generosas.
Certa vez, um leproso pedia esmola na porta do castelo. Guiada por uma inspiração divina, a jovem e formosa Duquesa desceu até lá, tomou o morfético pela mão, levou-o até seu quarto e o fez deitar-se na cama do casal. Após tratar de suas chagas, deixou-o repousando, coberto com um lençol.
“Um escândalo!” — bramiram os intrigantes, que se apressaram em chamar às pressas o Duque Luiz. Ao chegar, este encontrou Isabel radiante de felicidade. Confiante em que seu digno esposo aprovaria esse heróico ato de caridade, ela narrou-lhe o fato e disse:
— Ide ao quarto ver.
Maravilhosa surpresa esperava o valente Duque: levantando o lençol, ele viu, não um leproso, mas Nosso Senhor Jesus Cristo! Este deixou-se contemplar por um instante apenas, o suficiente para confirmar naquelas duas almas de escol a certeza de estarem no bom caminho.
Socorro dos infelizes
No ano de 1226, estando seu esposo na Itália com o Imperador Frederico II, uma terrível fome assolou toda a Alemanha, sobretudo a Turíngia. Pelas matas e campos, andavam multidões de infelizes à procura de raízes e frutas para se alimentarem. Bois, cavalos e outros animais que morriam eram logo devorados pelos homens famintos. Em breve a morte começou sua ceifa. Pelos campos e estradas, amontoavam-se os cadáveres.
Nessa terrível situação, a única ocupação de Isabel, dia e noite, era socorrer os infelizes. Transformou seu castelo na “morada da caridade sem limites”, como escreve um de seus biógrafos. Distribuiu aos indigentes todo o dinheiro do tesouro Ducal. Vencendo a oposição de alguns administradores egoístas, mandou abrir os celeiros do castelo, e ela mesma dirigiu a distribuição de tudo, sem nada reservar para seus próprios familiares. Com equilíbrio e bom senso, fazia dar a cada necessitado uma ração diária. Aqueles que, por fraqueza ou doença, não conseguiam subir até o castelo, eram objeto de uma solicitude especial de parte da Santa: ela descia para ir pessoalmente socorrê-los no sopé da montanha.
Fundou três hospitais para auxiliar os doentes: um para mulheres pobres, outro só para crianças, e um terceiro para todos em geral.
Onde havia um agonizante, lá estava ela, a fim de ajudá-lo a morrer bem. Depois passava longo tempo em oração pelas almas dos falecidos, muitos dos quais enterrou com suas próprias mãos, envoltos em toalhas tecidas por ela mesma.
Passado esse terrível período de desolação, ela reuniu os homens e mulheres em condições de trabalhar, providenciou sapatos, roupas e ferramentas para os que não tinham, e ordenou que fossem para o campo cultivar. Em breve voltaram os bons tempos de fartura e ela pôde ver com alegria o trigo encher os celeiros e o sorriso voltar aos lábios de toda aquela gente.
Começam as grandes provações
Para glória de sua Igreja e edificação dos fiéis, Deus faz brilhar de modo especial na alma do Santo uma ou outra virtude. Por exemplo, em São Francisco de Assis, a pobreza; em Santa Bernadete, a humildade; em São Luís de Gonzaga, a castidade. E assim por diante.
Isto não significa, porém, que uma virtude exista isolada na alma do Santo, como uma torre em meio de imensa planície. Não. As virtudes são todas irmãs. É impossível progredir ou decair numa sem avançar ou regredir nas demais.
Em Santa Isabel, reluz muito a solicitude para com os necessitados. Mas ela era exímia na prática de todas as virtudes.
Poucas pessoas levaram tão longe quanto ela o desapego aos bens desta terra e a conformação amorosa com a vontade de Deus.
Esposa exemplar, unida em matrimônio com um marido modelar, a ele dedicava todo o afeto natural e legítimo de seu nobre coração. E era retribuída na mesma proporção. Muito mais do que isso, porém, unia-os o amor a Deus, o desejo de perfeição.
Nesta perspectiva, compreende-se com facilidade a dor da separação, quando o Duque da Turíngia partiu para a Cruzada, em 1227. Sofrimento incomparavelmente maior quando, pouco tempo depois, recebeu a notícia de que ele havia falecido antes mesmo de chegar à Terra Santa.
Do castelo para um abrigo de porcos
Esse era, porém, apenas o início de uma cascata de sofrimentos.
Agora ela não tinha mais a proteção de seu virtuoso esposo. Disso se aproveitaram seus dois cunhados para deixarem expandir o ódio que lhe tinham. No mesmo dia a expulsaram do castelo, sob um frio muito rigoroso, com os quatro filhos pequenos, sem lhe permitir levar qualquer dinheiro, agasalho ou alimento. E num requinte de crueldade, proibiram, sob severas penalidades, que qualquer habitante da cidade lhe desse abrigo.
Após bater sem resultado em inúmeras portas, um taberneiro — condoído, porém, temeroso de represálias — acolheu-a, mas oferecendo-lhe como albergue uma espécie de cavalariça que servia também de chiqueiro! Deste modo, a Duquesa e filha de Rei viuse reduzida a passar a noite, com os filhos, na companhia dos porcos, agasalhando-se nos utensílios de montaria para não morrer de frio.
No dia seguinte, pessoas caridosas e de caráter levaram-lhe alimentos. Uma noite e um dia passou ela nesta “pousada dos porcos”, onde foi altamente recompensada por uma aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Um velho sacerdote das redondezas ofereceu-lhe alojamento, não dispondo senão de um miserável casebre. Certo dia, a santa Duquesa visitou o convento dos Frades Menores para pedir... Auxílio? Não. Pediu-lhes para cantarem um Te Deum, na intenção de agradecer ao Senhor a graça de participar nos seus sofrimentos!
Por ordem de seus cunhados, alguns esbirros arrancaram-na daquele miserável abrigo, para mantê-la aprisionada em péssimas condições nas dependências de um velho castelo.
Recusa o mais vantajoso casamento da época
Após alguns meses de indescritíveis sofrimentos, sua tia Matilde, abadessa de Kitzing, tomou conhecimento desses fatos e enviou mensageiros com duas viaturas para levá-la com os filhos para o seu convento.
Passado pouco tempo, seu tio Egbert, Bispo-Príncipe de Bamberg, lhe comunicou uma proposta de casamento com o Imperador Frederico II, o mais poderoso soberano da época. Mas Isabel tinha ambições muito maiores! Seu coração estava todo voltado para o Infinito, nada nesta terra podia satisfazê-lo.
Passados poucos dias, regressaram à Turíngia os cavaleiros que tinham acompanhado o Duque Luiz à Cruzada. Apresentando-se a Conrado e Henrique, censuraram-lhes corajosamente a dureza e crueldade com que haviam tratado a viúva e os filhos de seu próprio irmão. Os dois culpados não resistiram à franqueza altiva dos seus vassalos. E, chorando, pediram perdão a Isabel, restituindo-lhe todos os bens de que a haviam despojado.
A serviço dos enfermos
A Santa mandou construir ao lado do convento dos Frades Menores uma casa modestíssima — apelidada de “palácio de abjeção” pelos parentes de seu falecido marido — na qual se instalou, com os filhos e os serviçais que lhe permaneceram fiéis.
Na Sexta-Feira Santa de 1229, fez votos na Ordem de São Francisco, e tomou o hábito das Clarissas. Tendo edificado para si apenas uma pobre morada, empregou seus recursos em construir igrejas para Deus e hospitais para os doentes pobres, dos quais ela mesma passou a cuidar dia e noite, com mais carinho e solicitude do que antes.
Deus concedeu-lhe a graça de servir aos desvalidos, não somente o pão para o corpo, mas também o esplendor da sua própria luz, através dos milagres que realizava por seu intermédio.
Curas milagrosas
Certo dia, encontrou um menino estropiado e disforme, estendido na soleira da porta de um hospital. Além de surdo-mudo, ele não conseguia andar senão de quatro, como um animal. A mãe deixara-o ali, na esperança de que a boa Duquesa dele se apiedasse e o acolhesse.
Logo que o viu, Isabel abaixou-se para acariciar-lhe os cabelos sujos e revoltos. E perguntou-lhe:
— Onde estão teus pais? Quem te deixou aqui?
Não recebendo resposta, repetiu as perguntas. Mas o pobre ente apenas a fitava com olhos arregalados. Desconfiando de alguma possessão diabólica, ela disse em alta e clara voz:
— Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, eu te ordeno, a ti ou a quem em ti estiver, que me respondas de onde vens!
No mesmo instante, o menino ergueu-se e — ele que não havia aprendido a falar! — explicou-lhe com desembaraço sua triste vida. Depois, caindo de joelhos, pôs-se a chorar de alegria e louvar a Deus todo-poderoso.
— Eu não conhecia Deus, nem sabia de sua existência. Todo o meu ser era morto. Não sabia nada. Bendita sejas tu, senhora, que obtiveste de Deus a graça de não morrer como até o presente vivi.
A estas palavras, Isabel pôs-se também de joelhos para agradecer ao Senhor, junto com o menino, e, por fim, recomendou-lhe:
— Agora volta para teus pais e não digas nada do que te aconteceu. Diz apenas que Deus te socorreu. Guarda-te sempre do pecado para não acontecer de voltares a ser o que eras.
A notícia desse milagre correu como um rastilho de pólvora, espalhando por toda a Turíngia a fama de santidade de Isabel. Em consequência, aumentou o número dos que a ela recorriam. E Deus dignava-Se de, por sua intercessão, atender a todos.
Deixou pender a cabeça, como se dormisse
No dia 16 de novembro de 1231, a Santa adoeceu. Após receber a unção dos enfermos e o viático, Nosso Senhor lhe apareceu e revelou-lhe que dentro de três dias viria levá-la para o Céu. Depois desta visão, seu rosto ficou tão resplandecente que era quase impossível fixar-lhe os olhos.
Ao primeiro canto do galo do dia 19, ela disse: “Eis a hora em que Jesus nasceu de Maria Virgem. Que galo imponente e lindo seria aquele, o primeiro a cantar naquela noite maravilhosa! Ó Jesus, que resgatastes o mundo, que resgatastes a mim!” Depois acrescentou: “Ó Maria, ó Mãe, vinde em meu socorro!”
Em seguida, disse baixinho: “Silêncio... Silêncio!...” E deixou pender a cabeça, como se dormisse. Sua alma acabava de entrar na glória celeste.
Para satisfazer a devoção do povo que afluía de toda parte, seu santo corpo permaneceu exposto na igreja durante quatro dias. Muitíssimos milagres atestaram a sua santidade. Foi solenemente canonizada em 1235 pelo Papa Gregório IX.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Santo Antonio Maria Claret

Analisando esta foto, nota-se que na fisionomia deste varão não entrou a mão nem a imaginação de nenhum pintor. Foto sem subterfúgios, de um homem sem subterfúgios. Diante dela, podemos perguntar: é esta a ideia que temos de um santo? Absolutamente não, o que me leva à conclusão de que formamos uma concepção incompleta de santidade, pois trata-se de um santo: Santo Antonio Maria Claret.
Por que não se tem a ideia de que é um santo? Toda a fisionomia dele não leva a marca da estética: o formato do rosto, perfeitamente comum; as sobrancelhas dão ideia de uma personalidade forte; o enorme nariz parece ter passado por uma explosão nasal; lábios grossos; boca sem um traçado bem definido e orelhas grandes. Entretanto, homem com alto senso de dignidade e extraordinário senso da luta!
A linha geral da fisionomia revela uma firmeza indomável. Os olhos manifestam uma inquebrantável determinação da vontade, e parecem dizer: “Eu vou de qualquer jeito, e não tenho medo das consequências! O que devo fazer, faço! O que eu disse, mantenho!”.
Observando seu olhar, não é difícil perceber que, a par de tanta firmeza, ele tem uma bondade e uma doçura incontestáveis. No fundo do olhar, sobretudo do lado direito, nota-se juntamente com a doçura uma firmeza resolvida a ir até o martírio. Não tem hesitações, entregou tudo e está disposto a enfrentar qualquer dificuldade que apareça.
É um homem movido por alto senso do dever, fundado nas mais elevadas concepções religiosas e metafísicas, profundamente persuadido de que assume a posição certa; de que professa e ensina a Religião verdadeira; de que é um ministro de Deus, e ensina a doutrina imutável e eterna da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. A atitude dele é a de quem crê nisso até o fundo da alma e tem certeza daquilo que crê. Está disposto a qualquer coisa para pregar, defender e manter essa doutrina, de acordo com seu lema: “A Dios orando y con el mazo dando” (A Deus orando e golpeando o inimigo).
 A consciência dele é um lago tranquilo de água cristalina. É um exemplo de vida sobrenatural, um apóstolo transbordante de vida interior. E porque transbordante dessa vida, homem para o qual não há barreiras. Quando encontra obstáculos insuperáveis, levanta os olhos para Deus e faz uma prece.
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 9 de outubro de 1987. Sem revisão do autor.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Santa Narcisa de Jesús Martillo Morán

“Vim ao mundo para sofrer”
A escuridão e o silêncio da noite envolviam as compridas e poeirentas ruas de uma importante cidade do litoral equatoriano. Contínuas brisas de verão produziam um suave murmúrio que se misturava com o ruído de folhas secas volteando lentamente ao impulso do vento. Em torno da praça e da catedral vislumbravam-se aristocráticas residências familiares cujos habitantes, nessa hora avançada, encontravam-se já em pleno repouso.
Da. Silvania Gellibert de Negrete, nobre dama de Guayaquil, se despertou ao ouvir o ruído de fortes pancadas. O que estaria acontecendo na casa a estas horas da madrugada?
Pressurosa e assustada, dirigiu-se ao sótão, de onde pareciam provir os sons. Encostou o ouvido à parede, para escutar melhor. Ouviu, então, os estalos de violentas chicotadas e, ao mesmo tempo, fervorosas orações pedindo a Deus perdão pelos pecados dos homens. Atônita e com muita curiosidade, Dª Silvania procurou aguçar a vista e, por uma fenda da parede de madeira, viu sua jovem hóspede ajoelhada diante de um crucifixo, coroada de espinhos, com as costas ensanguentadas, castigando cruelmente seu corpo com um látego de pontas de aço.
Quem seria essa mulher que se inflige semelhante castigo? Seu nome é Narcisa Martillo Morán. Trata-se de uma alma chamada por Deus para reparar, por meio de extraordinárias penitências, os pecados cometidos em sua época.
Nasce uma vítima expiatória
Transcorria a primeira metade do século XIX. As guerras e as convulsões sociais eclodiam em quantidade na América do Sul. Quando Narcisa nasceu, em 29 de outubro de 1832, havia pouco tempo que o Equador tinha-se transformado em república.
Foram seus progenitores Pedro Martillo Mosquera e Josefa Morán. Profundamente católicos, abastados e de ilustre ascendência espanhola, viviam numa fazenda no povoado de Nobol, província de Guaias.
Sexta entre nove irmãos, a menina passou seus primeiros anos na casa paterna. Já na infância, abriu sua alma à voz de Deus, e quando, aos 7 anos, recebeu o Sacramento da Confirmação, passou a aplicar-se em alcançar a santidade, acostumando-se a dedicar longas horas à oração.
“Ninguém é profeta em sua própria terra”
Não tardaram, entretanto, a surgir as primeiras dificuldades. “Ninguém é profeta em sua própria terra” (Mc 6, 4), ensina o Divino Mestre. Em Santa Narcisa se cumpririam ao pé da letra estas palavras do Redentor.
Narra-nos uma testemunha da época: “Narcisa tinha uma irmã, porém, que tremenda irmã! Filhas dos mesmos pais, mas tão diferentes! No meio dos santos surgem também pecadores. Assim saiu a irmã de Narcisa, que foi terrível: gostava dos bailes e tinha muitos namorados. Convidava sua irmã a dançar nas festas que organizava na fazenda, mas ela nunca aceitava. [...] Narcisa brilhava por sua ausência, encontrando habilmente o modo de não participar dos bailes nem dos banquetes que sua irmã organizava”.1
As fugas das ocasiões de pecado e das más companhias, bem como as graças místicas que já marcavam a fundo sua alma, tornaram essa santa jovem alvo de um sem-número de incompreensões, zombarias e falatório de seus próprios familiares.
Cumulada de graças extraordinárias
As fabulosas paisagens e as mil belezas naturais que lhe oferecia o ambiente familiar influenciaram o espírito contemplativo de Narcisa.
Com frequência, ela transformava um frondoso araçazeiro existente perto da fazenda em sua “catedral”, em seu oratório para “elevar a alma a Deus”. Num dia de inverno tropical, recolheu-se à sombra dessa árvore para orar. Absorta em seu convívio com Jesus, não percebeu uma chuva torrencial que começava a encharcar a floresta. Preocupado pela ausência da filha, seu pai saiu à sua procura, mas teve de regressar para casa com as roupas empapadas, sem encontrar seu paradeiro. Dentro de pouco tempo chegou a jovenzinha, também debaixo da chuva, mas, para surpresa de todos, com suas vestimentas totalmente secas!
Havia na casa dos Martillo Morán um aposento que, com o consentimento dos pais, Narcisa arranjara como oratório. Encerrada em sua “capela”, ela passava longas horas rezando diante de uma pequena imagem que representava a Divina Infância de Jesus. Seus irmãos, que a espiavam do lado de fora, escutavam às vezes a voz de Alguém que falava com ela. Ao lhe perguntarem com quem conversava, Narcisa respondia com simplicidade: “Com Ele, com Ele”. 2 E guardava silêncio... Muitos anos depois, seu diretor espiritual, Mons. Manuel Medina, revelaria que Nosso Senhor “a consolava quase diariamente com Sua presença”. 3
Viagem a Guayaquil
Movida pela perda prematura dos pais, pelo desejo de encontrar um experimentado diretor de almas que a orientasse em sua vida espiritual e, sobretudo, pelo anelo de santificar-se longe de qualquer obstáculo, Narcisa — já então com cerca de 20 anos — decidiu sair do ambiente familiar e mudar-se para Guayaquil.
Deus serviu-Se da mencionada Da. Silvania Gellibert para satisfazer suas inquietudes. A amizade da jovem com essa nobre dama lhe permitiu renunciar à sua parte da herança paterna e estabelecer-se nessa cidade, onde estava certa de encontrar o que procurava.
Difunde-se sua fama de santidade
Em Guayaquil, viveu em vários lugares. As famílias que a acolhiam ofereciam-lhe confortáveis aposentos, porém, ela sempre os recusava. Em seu ardente desejo de passar despercebida, preferiu transformar o estreito e calorento sótão dos anfitriões em seu local de oração, de trabalho, de árduas e dolorosas penitências. No entanto, é impossível “tapar o sol com a peneira”... Em qualquer lugar onde ela se encontrasse, espalhavam-se rapidamente sua fama de santidade e “o bom odor de Jesus Cristo” que emanam de suas virtudes. As pessoas que a rodeavam começavam a ter-lhe muito respeito e até veneração.
Mansidão e humildade de coração
Apesar de ter anteriormente usufruído de uma cômoda fortuna, Narcisa dedicou-se ao humilde ofício de costureira em Guayaquil. Passava até altas horas da noite, à luz de um candeeiro, trabalhando para as damas da sociedade. Estas, não poucas vezes vaidosas e caprichosas, obrigavam-na a desmanchar um vestido já concluído e costurá-lo de novo, com algumas modificações... O que ela fazia com inteira mansidão.
Além de uma humildade profunda e sincera, a alma de Narcisa estava adornada com outras virtudes características dos bem-aventurados. Segundo os que a conheceram, ela era “muito amável e alegre”, “de caráter doce e aprazível”, “sumamente boa e obediente”, “muito caritativa”, “bondosa e compassiva”, mas sobretudo “extremamente piedosa”. 4
Suas três grandes devoções
A espiritualidade da humilde costureira se fundamentava em três firmes alicerces: uma arraigada devoção ao Santíssimo Sacramento, ao Coração de Jesus e à Santíssima Virgem, Mãe de Misericórdia. Tinha sempre consigo um terço e o desfiava com atenção e serenidade uma infinidade de vezes, ao longo de sua vida.
Convém salientar que, embora sendo simples leiga, seguiu desde muito jovem os conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência. A estes, somaram-se outros propósitos que praticou com todo rigor: “de clausura, até mesmo para não sair de seu quarto, de isolamento, de jejum a pão e água, de comunhão diária, de confissão, de mortificação e de oração”.5
Imitadora da Paixão do Redentor
Em 1853, Sua Santidade Pio IX beatificou Mariana de Jesús Paredes y Flores, a “Açucena de Quito”. Levantou-se em todo o país uma forte onda de devoção e entusiasmo por essa que, mais tarde, seria a primeira equatoriana canonizada. Sua vida de intensa penitência e oração cativou muitas almas, entre elas a de Narcisa de Jesús, que se propôs imitá-la. “E o Senhor a favoreceu tanto para cumprir esse propósito, que basta ler a vida de Mariana para conhecer as virtudes de Narcisa” — comenta seu biógrafo.6
Tomando conhecimento da vida dessa santa de Quito, Narcisa — então com 21 anos — compreendeu que a Divina Providência lhe dera a sublime vocação de imolar-se como vítima expiatória.
Ela começou, então, um severo regime de penitências e sacrifícios corporais. Usava diariamente cilícios em todas as partes de seu corpo virginal, a ponto de não conseguir fazer um movimento sequer sem sentir dor. Flagelava-se sem piedade com látego de pontas de aço até derramar sangue em tal abundância que este se escoava “pelas fendas do piso de madeira, chegando assim a manchar o forro do piso inferior”.7 Não contente com semelhante penitência, seu desejo de desagravar, de reparar as faltas alheias a levava a crucificar-se e coroar-se de espinhos...
Foi muitas vezes surpreendida por seus familiares e conhecidos na prática de atos como esses. Apavorados, ao presenciar cenas tão tremendas e singulares, perguntavam-lhe por que fazia isso. “Vim ao mundo para sofrer” — respondia-lhes com simplicidade a Santa, sempre com o rosto sereno e aprazível.
Vida mística e perseguição do demônio
Em recompensa por tão grandes imolações, Deus lhe concedia graças muito peculiares. Entrava em êxtase após receber Nosso Senhor Jesus Cristo, na Eucaristia, ou simplesmente ao pôr-se em oração. Era necessário sacudi-la fortemente para fazê-la voltar a si.
Por outro lado, Narcisa foi também muito perseguida pelo espírito infernal. O demônio lhe armava ciladas para afastá-la do caminho de santidade, interrompia com estrépitos suas orações, espancava-a cruelmente, sujava seu quarto, mas ela saía sempre vitoriosa de todas essas vexações.
“Se queres ser santa, vai para o Patronato”
Sua última viagem, ela a fez por motivos de direção espiritual.
Encontrava-se na “noite escura”, que assalta tantas almas virtuosas, quando Frei Pedro Gual — nessa época, comissário e visitador geral dos franciscanos na América do Sul — convidou-a a viajar para Lima, e estabelecer-se numa comunidade de terciárias da Ordem Dominicana. “Se queres ser santa, vai para o Patronato”, disse-lhe o frade. 8 Narcisa passou seus últimos meses nesse convento da capital peruana, vivendo como uma observante religiosa de clausura, embora fosse uma simples secular. Ali intensificou suas orações, mortificações e sacrifícios, com o único desejo de clamar misericórdia e perdão pelos pecadores, e alcançar, a todo custo, a santidade.
“Jamais concedi igual graça a uma alma”
Enquanto Narcisa redobrava suas penitências, as manifestações sobrenaturais aumentavam de forma extraordinária. Era-lhe cada vez mais fácil entrar em êxtase. Começou a gozar de dons muito especiais, como o de profecia, discernimento dos corações... Tinha visões e aparições de Jesus e de Sua Mãe Santíssima.
Certo dia, quando fazia, absorta, a ação de graças depois de ter comungado, no fim de seu retiro espiritual, apresentou-Se diante dela o Rei dos reis, envolto numa inefável e deslumbrante claridade. Com muita doçura e um suave sorriso, Nosso Senhor Jesus Cristo “tirou da cavidade do peito o Seu Coração” 9, aproximou-o dos lábios da Santa e o deu a beijar, dizendo-lhe: “Jamais concedi igual graça a uma alma”. 10
Sua viagem definitiva: a eternidade
Em um de seus costumeiros arrebatamentos, em 24 de setembro de 1869, apareceram-lhe o Salvador e Nossa Senhora. Pediram-lhe que manifestasse um desejo, alguma graça especial que quisesse obter. Então, Santa Narcisa, movida pela caridade, pediu por seus próximos, mas rogou também a graça de ir logo para o Céu.
Seus pedidos foram atendidos diligentemente. Após essa revelação sobrenatural, ela caiu enferma, com agudas febres que aumentavam a cada dia.
Chegou assim à noite de 8 de dezembro de 1869, festa da Imaculada Conceição e data da inauguração do Concílio Vaticano I, por cujo bom êxito Narcisa oferecia seus últimos sofrimentos. Quando no convento apagavam-se as candeias e as terciárias dominicanas se recolhiam para repousar, uma delas, admirada e assustada, procurou a superiora e lhe comunicou que tinha visto sair do quarto da Santa uns raios indescritíveis de luz, enquanto um agradável aroma inundava todo o claustro.
A religiosa foi verificar o que ocorria e “ao abrir a porta do quarto de Narcisa, viu a mesma claridade que se notava do lado de fora e sentiu que ali a fragrância era maior; ela tinha falecido, abrasada pela febre de seu corpo e, sobretudo, pelo ardor do amor divino”.11
Seus restos mortais irradiavam uma intensa luz e exalavam um discreto perfume, fazendo pressagiar sua entrada no coro dos Anjos e dos Santos. Ao ser exumado, anos depois, seu corpo apareceu incorrupto, com um sorriso esboçado nos lábios.
“Quem se humilha, será exaltado”
O Servo de Deus João Paulo II sintetizou, com palavras de admiração e de glória, o singular chamado de Deus a Santa Narcisa e a fidelidade com a qual ela o recebeu:
“Nesta jovem equatoriana, que viveu apenas 37 anos, entre contínuas mortificações e duras penitências corporais, encontramos a aplicação da sabedoria da cruz em cada instante da vida. Ela estava firmemente persuadida de que o caminho da santidade passa pela humilhação e pela abnegação, isto é, pelo sentir-se crucificada por Cristo. [...]
“A espiritualidade de Narcisa de Jesús está baseada no esconder-se aos olhos do mundo, vivendo na mais profunda humildade e pobreza, oferecendo ao Senhor suas penitências como holocausto para a salvação dos homens. Hoje, porém, cumprem-se verdadeiramente para a Beata as palavras que escutamos no Evangelho: ‘Quem se humilha, será exaltado’”
(Homilia na Missa de beatificação, 25/10/1992).
1PAZMIÑO GUZMÁN, Roberto. Itinerario de una vida. Guayaquil: Vicepostulación de la Causa de Canonización de la Beata Narcisa de Jesús, 2007. p. 36. 
2PAZMIÑO GUZMÁN, Roberto. La Beata Narcisa, o.c. Guayaquil: Justicia y Paz, 2002. p. 21. 3PAZMIÑO GUZMÁN, Roberto. Una mujer de nuestro pueblo. Guayaquil: Editora “Asociados”, 2002. p. 49. 
4Idem. p. 55. 
5Idem. p. 151. 
6Idem. p. 52. 
7Idem. p. 122. 
8Idem. p. 129. 
9Idem. p. 187. 
10Idem, ibidem. 
11PAZMIÑO GUZMÁN, Itinerario de una vida. Guayaquil: Vicepostulación de la Causa de Canonización de la Beata Narcisa de Jesús, 2007. p. 23.