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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Santa Isabel da Hungria

FILHA DE REI E MÃE DOS POBRES
Jovem viúva de 20 anos, Isabel foi expulsa de seu castelo com os quatro filhos pequenos e só conseguiu alojamento num depósito, ao lado dos porcos. Nessa situação, mandou cantar um Te Deum, para agradecer a Nosso Senhor a graça de sofrer em união com Ele.
Em Santa Isabel, parece que a santidade lhe veio do berço. Nasceu em 1207, na Hungria. Aos 4 anos, entrava na capela do castelo, abria o grande livro dos Salmos, e ainda sem saber ler, olhava-o longamente e passava muitas horas recolhida em oração. Ao brincar com outras meninas, procurava algum jeito de encaminhá-las para a capela. Quando esta estava fechada, beijava-lhe a porta, a fechadura, as paredes, pois, dizia ela, “Deus lá dentro repousa”.
Antes de completar dez anos, perdeu a mãe, a Rainha Gertrudes. Na mesma época, faleceu também seu protetor, o Duque Herman, o qual era pai de seu futuro esposo e a tratava como filha, amando-a justamente por sua piedade inocente e graciosa.
Aos 13 anos de idade, realizou-se seu casamento com o poderoso e não menos piedoso Duque Luiz da Turíngia, ao qual havia sido prometida desde tenra infância. Em sua curta existência — faleceu aos 24 anos — ela conquistou o mais glorioso dos títulos: o de Santa.
Caridade em grau heróico
Santa Isabel fazia bom uso da imensa riqueza de seu esposo, distribuindo aos pobres generosas esmolas. Isto causava profunda irritação a muitas pessoas da corte, sobretudo aos seus dois cunhados, Henrique e Conrado. Acusando-a de estar “dilapidando o patrimônio familiar”, estes não perdiam oportunidade de tentar fazerlhe mal.
E ela, por sua vez, não se contentava em simplesmente dar moedas ou alimentos. Seu amor a Deus a impelia a ações muito mais generosas.
Certa vez, um leproso pedia esmola na porta do castelo. Guiada por uma inspiração divina, a jovem e formosa Duquesa desceu até lá, tomou o morfético pela mão, levou-o até seu quarto e o fez deitar-se na cama do casal. Após tratar de suas chagas, deixou-o repousando, coberto com um lençol.
“Um escândalo!” — bramiram os intrigantes, que se apressaram em chamar às pressas o Duque Luiz. Ao chegar, este encontrou Isabel radiante de felicidade. Confiante em que seu digno esposo aprovaria esse heróico ato de caridade, ela narrou-lhe o fato e disse:
— Ide ao quarto ver.
Maravilhosa surpresa esperava o valente Duque: levantando o lençol, ele viu, não um leproso, mas Nosso Senhor Jesus Cristo! Este deixou-se contemplar por um instante apenas, o suficiente para confirmar naquelas duas almas de escol a certeza de estarem no bom caminho.
Socorro dos infelizes
No ano de 1226, estando seu esposo na Itália com o Imperador Frederico II, uma terrível fome assolou toda a Alemanha, sobretudo a Turíngia. Pelas matas e campos, andavam multidões de infelizes à procura de raízes e frutas para se alimentarem. Bois, cavalos e outros animais que morriam eram logo devorados pelos homens famintos. Em breve a morte começou sua ceifa. Pelos campos e estradas, amontoavam-se os cadáveres.
Nessa terrível situação, a única ocupação de Isabel, dia e noite, era socorrer os infelizes. Transformou seu castelo na “morada da caridade sem limites”, como escreve um de seus biógrafos. Distribuiu aos indigentes todo o dinheiro do tesouro Ducal. Vencendo a oposição de alguns administradores egoístas, mandou abrir os celeiros do castelo, e ela mesma dirigiu a distribuição de tudo, sem nada reservar para seus próprios familiares. Com equilíbrio e bom senso, fazia dar a cada necessitado uma ração diária. Aqueles que, por fraqueza ou doença, não conseguiam subir até o castelo, eram objeto de uma solicitude especial de parte da Santa: ela descia para ir pessoalmente socorrê-los no sopé da montanha.
Fundou três hospitais para auxiliar os doentes: um para mulheres pobres, outro só para crianças, e um terceiro para todos em geral.
Onde havia um agonizante, lá estava ela, a fim de ajudá-lo a morrer bem. Depois passava longo tempo em oração pelas almas dos falecidos, muitos dos quais enterrou com suas próprias mãos, envoltos em toalhas tecidas por ela mesma.
Passado esse terrível período de desolação, ela reuniu os homens e mulheres em condições de trabalhar, providenciou sapatos, roupas e ferramentas para os que não tinham, e ordenou que fossem para o campo cultivar. Em breve voltaram os bons tempos de fartura e ela pôde ver com alegria o trigo encher os celeiros e o sorriso voltar aos lábios de toda aquela gente.
Começam as grandes provações
Para glória de sua Igreja e edificação dos fiéis, Deus faz brilhar de modo especial na alma do Santo uma ou outra virtude. Por exemplo, em São Francisco de Assis, a pobreza; em Santa Bernadete, a humildade; em São Luís de Gonzaga, a castidade. E assim por diante.
Isto não significa, porém, que uma virtude exista isolada na alma do Santo, como uma torre em meio de imensa planície. Não. As virtudes são todas irmãs. É impossível progredir ou decair numa sem avançar ou regredir nas demais.
Em Santa Isabel, reluz muito a solicitude para com os necessitados. Mas ela era exímia na prática de todas as virtudes.
Poucas pessoas levaram tão longe quanto ela o desapego aos bens desta terra e a conformação amorosa com a vontade de Deus.
Esposa exemplar, unida em matrimônio com um marido modelar, a ele dedicava todo o afeto natural e legítimo de seu nobre coração. E era retribuída na mesma proporção. Muito mais do que isso, porém, unia-os o amor a Deus, o desejo de perfeição.
Nesta perspectiva, compreende-se com facilidade a dor da separação, quando o Duque da Turíngia partiu para a Cruzada, em 1227. Sofrimento incomparavelmente maior quando, pouco tempo depois, recebeu a notícia de que ele havia falecido antes mesmo de chegar à Terra Santa.
Do castelo para um abrigo de porcos
Esse era, porém, apenas o início de uma cascata de sofrimentos.
Agora ela não tinha mais a proteção de seu virtuoso esposo. Disso se aproveitaram seus dois cunhados para deixarem expandir o ódio que lhe tinham. No mesmo dia a expulsaram do castelo, sob um frio muito rigoroso, com os quatro filhos pequenos, sem lhe permitir levar qualquer dinheiro, agasalho ou alimento. E num requinte de crueldade, proibiram, sob severas penalidades, que qualquer habitante da cidade lhe desse abrigo.
Após bater sem resultado em inúmeras portas, um taberneiro — condoído, porém, temeroso de represálias — acolheu-a, mas oferecendo-lhe como albergue uma espécie de cavalariça que servia também de chiqueiro! Deste modo, a Duquesa e filha de Rei viuse reduzida a passar a noite, com os filhos, na companhia dos porcos, agasalhando-se nos utensílios de montaria para não morrer de frio.
No dia seguinte, pessoas caridosas e de caráter levaram-lhe alimentos. Uma noite e um dia passou ela nesta “pousada dos porcos”, onde foi altamente recompensada por uma aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Um velho sacerdote das redondezas ofereceu-lhe alojamento, não dispondo senão de um miserável casebre. Certo dia, a santa Duquesa visitou o convento dos Frades Menores para pedir... Auxílio? Não. Pediu-lhes para cantarem um Te Deum, na intenção de agradecer ao Senhor a graça de participar nos seus sofrimentos!
Por ordem de seus cunhados, alguns esbirros arrancaram-na daquele miserável abrigo, para mantê-la aprisionada em péssimas condições nas dependências de um velho castelo.
Recusa o mais vantajoso casamento da época
Após alguns meses de indescritíveis sofrimentos, sua tia Matilde, abadessa de Kitzing, tomou conhecimento desses fatos e enviou mensageiros com duas viaturas para levá-la com os filhos para o seu convento.
Passado pouco tempo, seu tio Egbert, Bispo-Príncipe de Bamberg, lhe comunicou uma proposta de casamento com o Imperador Frederico II, o mais poderoso soberano da época. Mas Isabel tinha ambições muito maiores! Seu coração estava todo voltado para o Infinito, nada nesta terra podia satisfazê-lo.
Passados poucos dias, regressaram à Turíngia os cavaleiros que tinham acompanhado o Duque Luiz à Cruzada. Apresentando-se a Conrado e Henrique, censuraram-lhes corajosamente a dureza e crueldade com que haviam tratado a viúva e os filhos de seu próprio irmão. Os dois culpados não resistiram à franqueza altiva dos seus vassalos. E, chorando, pediram perdão a Isabel, restituindo-lhe todos os bens de que a haviam despojado.
A serviço dos enfermos
A Santa mandou construir ao lado do convento dos Frades Menores uma casa modestíssima — apelidada de “palácio de abjeção” pelos parentes de seu falecido marido — na qual se instalou, com os filhos e os serviçais que lhe permaneceram fiéis.
Na Sexta-Feira Santa de 1229, fez votos na Ordem de São Francisco, e tomou o hábito das Clarissas. Tendo edificado para si apenas uma pobre morada, empregou seus recursos em construir igrejas para Deus e hospitais para os doentes pobres, dos quais ela mesma passou a cuidar dia e noite, com mais carinho e solicitude do que antes.
Deus concedeu-lhe a graça de servir aos desvalidos, não somente o pão para o corpo, mas também o esplendor da sua própria luz, através dos milagres que realizava por seu intermédio.
Curas milagrosas
Certo dia, encontrou um menino estropiado e disforme, estendido na soleira da porta de um hospital. Além de surdo-mudo, ele não conseguia andar senão de quatro, como um animal. A mãe deixara-o ali, na esperança de que a boa Duquesa dele se apiedasse e o acolhesse.
Logo que o viu, Isabel abaixou-se para acariciar-lhe os cabelos sujos e revoltos. E perguntou-lhe:
— Onde estão teus pais? Quem te deixou aqui?
Não recebendo resposta, repetiu as perguntas. Mas o pobre ente apenas a fitava com olhos arregalados. Desconfiando de alguma possessão diabólica, ela disse em alta e clara voz:
— Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, eu te ordeno, a ti ou a quem em ti estiver, que me respondas de onde vens!
No mesmo instante, o menino ergueu-se e — ele que não havia aprendido a falar! — explicou-lhe com desembaraço sua triste vida. Depois, caindo de joelhos, pôs-se a chorar de alegria e louvar a Deus todo-poderoso.
— Eu não conhecia Deus, nem sabia de sua existência. Todo o meu ser era morto. Não sabia nada. Bendita sejas tu, senhora, que obtiveste de Deus a graça de não morrer como até o presente vivi.
A estas palavras, Isabel pôs-se também de joelhos para agradecer ao Senhor, junto com o menino, e, por fim, recomendou-lhe:
— Agora volta para teus pais e não digas nada do que te aconteceu. Diz apenas que Deus te socorreu. Guarda-te sempre do pecado para não acontecer de voltares a ser o que eras.
A notícia desse milagre correu como um rastilho de pólvora, espalhando por toda a Turíngia a fama de santidade de Isabel. Em consequência, aumentou o número dos que a ela recorriam. E Deus dignava-Se de, por sua intercessão, atender a todos.
Deixou pender a cabeça, como se dormisse
No dia 16 de novembro de 1231, a Santa adoeceu. Após receber a unção dos enfermos e o viático, Nosso Senhor lhe apareceu e revelou-lhe que dentro de três dias viria levá-la para o Céu. Depois desta visão, seu rosto ficou tão resplandecente que era quase impossível fixar-lhe os olhos.
Ao primeiro canto do galo do dia 19, ela disse: “Eis a hora em que Jesus nasceu de Maria Virgem. Que galo imponente e lindo seria aquele, o primeiro a cantar naquela noite maravilhosa! Ó Jesus, que resgatastes o mundo, que resgatastes a mim!” Depois acrescentou: “Ó Maria, ó Mãe, vinde em meu socorro!”
Em seguida, disse baixinho: “Silêncio... Silêncio!...” E deixou pender a cabeça, como se dormisse. Sua alma acabava de entrar na glória celeste.
Para satisfazer a devoção do povo que afluía de toda parte, seu santo corpo permaneceu exposto na igreja durante quatro dias. Muitíssimos milagres atestaram a sua santidade. Foi solenemente canonizada em 1235 pelo Papa Gregório IX.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

São Luís IX, rei da França

Assim como Deus deseja encaminhar o desenvolvimento da Igreja para a realização de seus planos, é natural que esteja nos desígnios d’Ele, correlativamente, estabelecer, proteger e desenvolver a civilização católica. Em virtude dessa disposição divina, desperta o maior interesse uma análise da história à procura das pessoas providenciais, dos problemas, das crises, dificuldades e êxitos que a formação e conservação dessa civilização encontrou diante de si.
Vejamos hoje um de seus períodos-auge, aqueles anos do século XIII nos quais desabrochou um sábio governante e um grande herói da fé: São Luís IX, rei da França.
Santidade e infâmia numa mesma dinastia
Ele era filho de Luís VIII e de uma princesa cercada de uma auréola bem medieval e poética, tanto pelo seu nome como pela origem, pelo estilo e pelas qualidades morais: Branca de Castela.
Parece-me um nome de contos de fadas, que faz pensar num lírio particularmente alvo, brotado no alto da torre de uma fortaleza sobranceira e inexpugnável! Branca de Castela...
Dela nasceu, em 25 de abril de 1215, um filho igualmente lirial, do qual se podem fazer todos os elogios.
Por ocasião da morte de seu pai, em 1227, Luís tinha 12 anos. Com esta idade foi proclamado rei, bem antes do reconhecimento de sua maioridade, que sobreviria apenas em 1235. Neste mesmo ano casou-se com uma princesa de nome também literário, Margarida de Provença. Situada no sul da França, a Provença, além de rica e bela, é uma região de clima suave, terra dos trovadores e da poesia. E assim como a mãe era um lírio desabrochado nos cumes de uma fortaleza, a esposa era uma margarida nascida no meio dos encantos provençais.
Pelo lado materno, era primo-irmão de Luís outro monarca santo, o rei Fernando de Castela, grande herói da reconquista espanhola contra os mouros. Quanto a seus descendentes, São Luís foi pai do rei Filipe III, o Ousado, e avô de um dos piores reis de toda a história, Filipe, o Belo. Quer dizer, uma virtuosa mãe na origem, um primo santo no ramo colateral e um neto iníquo. É a confirmação de uma triste regra no existir das dinastias, segundo a qual a santidade e a infâmia costumam disputar lugar numa mesma genealogia...
Temas candentes no tempo de São Luís
Viveu São Luís numa época em que alguns temas eram candentes, revestindo-se de importância transcendental e ocasionando as mais profundas repercussões na organização da Idade Média. Não se tratava, portanto, de problemas meramente especulativos, nos quais o santo soberano deve ter tomado parte relevante, embora haja carência de dados históricos para situar essa participação.
Para mencionar apenas alguns desses temas, havia, em primeiro lugar, a luta entre o Império e o Papado, que atingia então seu estágio mais delicado.
Luís IX, rei de França — ou seja, da “Filha Primogênita” da Esposa de Cristo — santo, terceiro franciscano, cheio de zelo pela causa da Igreja, acompanhou com apreensão essa querela que envolvia os poderes espiritual e temporal. Infelizmente, não se conhece muito de sua atividade diplomática, nem da força política ou material que tenha empregado para assegurar a preponderância do Papado sobre o Império, questão absolutamente nevrálgica para a Civilização Católica daquela época. Seria preciso esclarecer ainda alguns pontos, para se poder chegar a uma conclusão acertada sobre a atitude do monarca francês nessa controvérsia.
Outro tema interessante é o seguinte: São Luís viveu no ápice da Idade Média. Sabemos que foi contemporâneo de São Tomás, de São Boaventura, e que no tempo dele a sociedade orgânica e corporativa atingiu o máximo de seu desenvolvimento. Ora, gostaríamos de saber se ele teve consciência de todo esse florescimento que se dava na sociedade, e de sua importância.
De modo mais particular é preciso abordar outro ponto.
Sabemos que o regime feudal, para corresponder à concepção católica da sociedade que o engendrou, devia ser constituído pelo inteiro equilíbrio de forças entre suseranos e vassalos. Sobretudo, entre o rei e os nobres. Esse equilíbrio é garantido por dois fatores: é necessário que o rei tenha uma autoridade efetiva e, por isso, que seja bastante vigoroso para impor sua vontade aos senhores feudais. Mas é preciso também que estes últimos sejam bastante fortes para poderem conter os eventuais abusos do monarca. Assim se mantinha a harmonia social na Idade Média.
Tal situação era possível em virtude do ascendente do Papa sobre toda a sociedade, pois, sendo o Pontífice superior aos reis e aos senhores feudais, podia servir de árbitro. E um rei que tinha sobre si esse poder pontifício (maior que a própria tutela exercida pelo Imperador do Sacro Império), não era inteiramente livre para estrangular os vassalos e nobres inferiores.
No tempo de São Luís, esse equilíbrio social parece ter atingido um apogeu. Segundo conceituados historiadores, no século XIV — portanto, no período imediato ao de São Luís — o feudalismo alcançou na Europa a sua posição ideal. Se isto é assim, deve ter havido uma preparação, realizada pela geração anterior, precisamente a que viveu sob a influência direta do virtuoso monarca francês.
Um santo no trono da França
Logo após a morte de Luís VIII, Branca de Castela, tão enérgica quanto jeitosa em política, assumiu a regência do governo. Depois de enfrentar vitoriosamente algumas crises, deixou o caminho livre e bem calçado para que as jovens mãos de seu filho continuassem a magna tarefa de governar a França.
Os contemporâneos de São Luís afirmavam que a melhor distração do rei era cantar no coro da Igreja e conversar a respeito de assuntos religiosos com os cortesãos. Costumava servir comida a 200 pobres, cujos pés lavava. Cuidava de bom grado dos doentes e tinha uma predileção especial em tratar dos leprosos, numa época em que esta doença era epidêmica e dificilmente curável.
Quando se pensa na aparência de um desses pobres enfermos, com as carnes em decomposição, cobertos por um manto grotesco e esfarrapado, agitando um guizo para afugentar as pessoas sãs, e se imagina um rei, no esplendor de seu poder, aproximar-se dele para tratá-lo com todo o carinho e solicitude, pode-se vislumbrar a autenticidade de suas virtudes.
Além de sua admirável caridade e paternal benevolência, São Luís era também louvado pela justiça e equidade com que governava seus súditos. Tornou-se quase legendário o fato de proceder pessoalmente a julgamentos e decisões, sob um grande carvalho nas proximidades de seu palácio, em Vincennes.
Igual retidão marcou também outro episódio de sua vida, no qual esteve em jogo a integridade territorial francesa. Tratava-se de uma rebelião levada a cabo nada menos do que pelo próprio sogro do rei, Raimundo VII, Conde de Tolosa, que se aliara a outro importante nobre francês revoltoso, Hugo de Lusignan, ambos simpatizantes de Henrique III, soberano inglês com pretensões não pequenas de conquista na França.
São Luís, para quem os interesses do reino contavam acima de quaisquer sentimentos familiares, partiu em luta contra seu sogro, derrotou-o e o obrigou a assinar um tratado ratificando os direitos da coroa francesa. Por fim, em 1243 se estabeleceu a chamada “paz de Bordeaux”, pela qual o rei da Inglaterra foi obrigado a ceder terras a São Luís. Aproveitando-se da ocasião propícia, os conselheiros do santo monarca quiseram convencê-lo a exigir mais do que o razoável. Prevaleceu, no entanto, o equilíbrio e a honestidade de São Luís, decidido a exigir apenas aquilo a que tinha direito, isto é, o proporcional à sua vitória.
Diante desse modelo de desprendimento, O ímpio e ganancioso Voltaire fez este interessante comentário: “E impossível ao homem levar mais longe sua virtude...”
Rei cruzado e penitente
Não se pode falar de São Luís IX sem mencionar um dos aspectos mais rutilantes de sua personalidade: o de cruzado.
Depois de enfrentar e vencer as mais duras batalhas no seu reino, viu-se na contingência de conquistar vitória ainda mais árdua, ou seja, aplacar as resistências e as injunções maternas que tentaram demovê-lo da promessa feita de abraçar a cruz. Afinal, prevaleceram suas inabaláveis disposições, e São Luís acabou vestindo a túnica de cruzado e partindo com seus guerreiros para a Terra Santa.
Nessa campanha, semeada de reveses e pontilhada de poucos sucessos, São Luís lutou como herói, mas acabou sendo preso por causa da imprudência de um irmão seu, que não seguiu as ordens do rei sobre a tática a ser empregada na batalha decisiva. No cárcere, São Luís deu provas de heroísmo ainda maior, edificando os próprios inimigos que o mantinham cativo. Após um longo período de sofrimento, recobrou a liberdade e pôde voltar ao seu reino, cujos súditos rezavam e ansiavam por seu feliz retorno.
Sem fundamento, São Luís pensou haver cometido alguma imperfeição, algum pecado, em punição do qual Deus permitira o inglório fracasso daquela Cruzada. Sua delicadeza de consciência e sua profunda piedade o faziam pensar numa reparação, quando lhe chegou o oferecimento de uma preciosa relíquia, vinda diretamente da Terra Santa: um espinho da dolorosa coroa que, na Paixão, cingira a fronte adorável de Nosso Senhor Jesus Cristo.
O que fez São Luís?
Não mandou confeccionar apenas um precioso escrínio, mas ordenou a construção de uma verdadeira jóia de arquitetura, a Sainte Chapelle (Capela Santa), no interior da qual fosse abrigada aquela relíquia de inestimável valor. E Rei cruzado e penitente como se tal não bastasse, resolveu partir para as fronteiras Não se pode falar de São Luís IX sem mencionar um de seu reino com a Itália, onde recebeu pessoalmente o espinho sagrado, a fim de conduzi-lo a pé, em trajes de penitente, até Paris. Tudo isso, em reparação pela suposta falta que ele teria cometido nos campos de batalha, defendendo a Terra Santa.
Eis a verdadeira fisionomia de um santo que era rei! Autêntico monarca, que dizia “ mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa”, quando não tinha culpa alguma. Possuía, sim, um senso moral tão desenvolvido, uma aversão tão completa ao pecado, que se julgava na obrigação de reparar uma pretensa falta, em virtude da qual Deus não havia sido glorificado como merecia.
Foram almas dessa categoria que levaram a Civilização Cristã aos seus dias de maior esplendor. Foram personalidades assim, santas e providenciais, que procuraram realizar neste mundo a sociedade humana perfeita, regida pelas leis de Deus e pelos ensinamentos da santa Igreja.
O santo monarca entregou sua alma ao Criador em 1270, aos 55 anos, após ser atingido pela peste, em plena guerra, durante outra Cruzada que ele comandou. Até chegar ao leito de morte foi um batalhador, a respeito do que haveria muito a dizer noutra oportunidade.