Páginas

Mostrando postagens com marcador mons João Clá Dias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mons João Clá Dias. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

São Crispim de Viterbo


“Exultai no Senhor, ó justos” (Sl 32, 1); “Felizes aqueles cuja vida é pura, e seguem a Lei do Senhor” (Sl 118, 1). Estes e muitos outros ensinamentos dos Salmos poderiam ser citados, para mostrar o quanto a virtude e a verdadeira alegria andam sempre de mãos dadas.
O íntimo relacionamento entre ambas aparece especialmente visível no Santo cuja vida contemplaremos aqui: São Crispim de Viterbo. Com propriedade realçou São João Paulo II em sua homilia, ao canonizar este irmão leigo capuchinho do século XVII: “O primeiro aspecto de santidade que desejo fazer notar em São Crispim é o da alegria”.1
Consagrado desde criança a sua “Mãe e Senhora”
Ele veio ao mundo a 13 de novembro de 1668, em Viterbo, cidade então pertencente aos Estados Pontifícios, e dois dias depois foi batizado na Igreja de São João Batista, recebendo o nome do avô: Pedro. Seus pais, Ubaldo e Marzia Fioretti, eram de condição humilde, porém muito respeitados por sua conduta digna e piedosa.
Sendo Pedro ainda muito criança, o pai veio falecer, mas não sem antes confiar ao seu irmão Francisco a formação do pequeno. Marzia, por seu lado, empenhava-se em dar-lhe esmerada educação religiosa e moral.
Quando contava cinco anos de idade, ela o levou em peregrinação ao Santuário de Santa Maria della Quercia, a fim de consagrá-lo a Nossa Senhora. Lá chegando, ambos se ajoelharam diante da bela imagem e a mãe disse ao filho: “Estás vendo? Esta é a tua Mãe, e eu agora te entrego a Ela. Procura amá-La sempre de todo o coração e honrá-La como tua Senhora”.2 Tais palavras calaram tão fundo na alma do menino que, até o fim da vida, jamais deixou de dirigir-se à Virgem Santíssima sem chamá-la de “Mãe e Senhora”.
Melhor um santo magro, que um pecador forte
Desde a mais terna infância, comenta um de seus biógrafos, Pedro manifestou ter um temperamento extremamente dócil e agradável, acompanhado por uma alegria contagiante, qualidades estas que “demonstravam as mais vantajosas predisposições para avançar nas vias da virtude e pressagiavam sua futura santidade”.3

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Santa Catarina de Alexandria

No dia 25 de novembro, comemoramos a festa de Santa Catarina de Alexandria, virgem e mártir.Sobre a morte da Santa Catarina, o Abbé Daras, na "Vida dos Santos", traz a seguinte narração:
"Maximiliano, imperador, ordenou a morte de santa Catarina. Foi ela conduzida ao lugar do suplício em meio a uma multidão, sobretudo de mulheres de alta condição, que choravam a sua sorte. A virgem caminhava com grande calma. Antes de morrer, fez a seguinte oração:
“Senhor Jesus Cristo, meu Deus, eu vos agradeço terdes firmado meus pés sobre o rochedo da fé e terdes dirigido meus passos na via da salvação. Abri agora vossos braços feridos sobre a cruz, para receber minha alma, que eu sacrifico à glória de Vosso Nome.
Lembrai-vos, Senhor, que somos feitos de carne e sangue. Perdoai-me as faltas que cometi por ignorância e lavai minha alma no sangue que vou derramar por vós.
Não deixeis meu corpo, martirizado por vosso amor, em poder dos que me odeiam.
Baixai vosso olhar sobre esse povo e dai-lhe o conhecimento da verdade.
Enfim, Senhor, exaltai em vossa infinita misericórdia aqueles que Vos invocarão por meu intermédio, para que Vosso Nome seja para sempre bendito.
Em seguida mandou que os soldados cumprissem as ordens, e sua cabeça foi decepada de um só golpe.
Era o dia 25 de novembro. Numerosos milagres logo foram constatados. Os anjos, como ela o desejara, transportaram seu corpo para a santa montanha do Sinai, a fim de que repousasse onde Deus escrevera sobre pedra sua Lei, que ela guardava tão fielmente escrita em seu coração".

domingo, 27 de novembro de 2016

São Carlos Borromeu

São Carlos Borromeu não foi apenas um grande bispo contrarreformista, mas, em algum sentido, o Bispo da Contra-Reforma. Não só por ser um homem de grande preparo e cultura, que irradiou sua sabedoria em seu tempo, mas por ter realizado o modelo perfeito de bispo.
Não basta redigir obras refutando isso ou aquilo. A pessoa precisa ser a personificação, o próprio símbolo, o tipo humano das obras que escreveu. O trabalho que ele realizou, sendo o Bispo da Contra-Reforma e o modelo de bispo, foi de uma eficácia para a Igreja certamente maior do que a dos próprios escritos dele.

Plinio Corrêa de Oliveira -Extraído de conferência de 30/10/1963

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

São Pascoal Bailão

Contemplando a vida de São Pascoal Bailão, Dr. Plinio ressalta o quanto a ação apostólica de alguns Santos permanece mesmo após a morte.
São Pascoal Bailão foi um Santo franciscano que viveu no século XVI e se tornou famoso pela sua devoção ao Santíssimo Sacramento.
Fervoroso devoto da Transubstanciação
Para compreendemos bem o sentido da ficha que será lida, devemos saber o que é a Missa e, dentro dela, a Consagração.
A Missa é a renovação incruenta do Sacrifício do Calvário. É o maior ato de culto da Religião Católica, porque é Nosso Senhor Jesus Cristo que se oferece a Si mesmo ao Padre Eterno.
Quando o padre pronuncia as palavras da Consagração, a hóstia e o vinho se transubstanciam, passando a ser Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esse é o momento no qual se dá a renovação incruenta do Sacrifício do Calvário, um dos mais augustos mistérios da Religião Católica.
Assim, é compreensível que uma pessoa piedosa dê grande importância a estar presente à Missa. E todas as outras orações da Igreja se estruturam tendo em vista a parte mais importante da Missa.
Desse modo compreendemos como um Santo, com uma devoção eucarística acendrada, tenha o melhor de sua devoção voltada para a transubstanciação, na qual Nosso Senhor Jesus Cristo se oferece novamente.
Vejamos, então, a vida de São Pascoal Bailão.
Um ato de adoração no momento extremo da vida
São Pascoal Bailão, cujo corpo repousa no Convento dos Franciscanos de Valência, na Espanha, era nascido na província de Aragão. Tendo que apascentar seu rebanho, ele assistia à Missa sempre que podia, e se era impossível assisti-la, ele deitava ouvidos atentos ao som da sineta que tocava por ocasião da elevação.

sábado, 24 de setembro de 2016

São Patrício

Envolta na bruma atlântica e revestida de um verdor inebriante, a Irlanda, nação-ilha situada ao norte da Europa, é comparada a "uma esmeralda encastoada no mar".
Se desvendamos sua história na aurora do século V, nos deparamos com um país separado por léguas de distância dos demais. Fazia parte dos últimos rincões da terra conhecida de então. As invasões bárbaras não a atingiram, mas também não conhecera a civilização romana. Sua escassa população vivia em aglomerados fortificados de choças, espalhados ao longo de suas costas, rios e lagos. Os bosques serviam de refúgio aos druidas, sacerdotes pagãos que dominavam o povo com suas magias.
Nada indicava que esta remota região do Velho Continente poderia se converter em berço da vanguarda de um impulso monástico e missionário, que tanto benefício traria à Igreja. Sem embargo, na encruzilhada histórica subsequente à queda do Império Romano, a Irlanda desempenhou, segundo eminentes historiadores, o papel de "líder da cultura do Ocidente".
Como se deu tão surpreendente transformação?

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Santa Maria Madalena e Santa Marta

Santa Maria Madalena tinha um tal amor por Nosso Senhor Jesus Cristo, mas um tal amor, um amor tão exclusivo, que há aquele episódio famoso do Evangelho em que Nosso Senhor vai visitar Santa Maria Madalena, Santa Marta e São Lázaro. Santa Marta estava pondo as coisas em ordem dentro da casa para receber bem Nosso Senhor, então estava pondo isto aqui, fazendo uma limpeza lá, não sei mais quanto, e Santa Maria Madalena deixou-a completamente abandonada com os afazeres da casa e ficou com Nosso Senhor, encantada com Nosso Senhor.
Até que, em certo momento, Santa Marta passa por Santa Maria Madalena e diz:
- Mas como é? E os afazeres todos? Você não vem me ajudar a pôr as coisas em ordem?
Nosso Senhor é quem responde por Santa Maria Madalena, porque ela fica meio sem resposta, e diz a ela:
- Marta, Maria escolheu a melhor parte.
Todos nós temos trabalhos a fazer. Mas, prestem atenção, não está dito por Nosso Senhor de que a outra parte era desprezível. Ele não diz: "Marta, você está fazendo um serviço inútil e Maria está fazendo aquilo que deve". Nosso Senhor é muito justo na palavra dEle, Ele diz: "Maria escolheu a melhor parte".
Portanto, a parte que não era melhor, Maria deixou. Mas o ideal seria que Maria, fazendo aquilo que não era o melhor, porque era necessário, tivesse escolhido a melhor parte. E o ideal seria que Marta, fazendo o que estava fazendo, não rejeitasse a melhor parte. As duas coisas.
Porque Nosso Senhor quando diz "Maria escolheu a melhor parte", Ele faz uma censura para as duas: "Marta, você deveria fazer o que está fazendo, mas prestando atenção na parte melhor. Maria, você deveria estar prestando atenção na parte melhor, mas fazer o que Marta faz".

Portanto, cada um de nós deve fazer o serviço de Marta com o espírito de Maria.
Mons João Clá Dias - Extraído de conferência 24/10/97  linguagem oral, sem revisão do autor.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

São Bernardino de Siena

Olhar de fogo, grandeza e seriedade
São Bernardino de Siena foi quem popularizou a devoção ao Santíssimo Nome de Jesus. Não foi tanto um homem de estudos quanto um pregador, que reunia em torno de si multidões imensas, em praças muito grandes. Quando ele falava, a multidão ia se deslocando conforme o vento, para ouvir suas palavras. Notem seu rosto sério, do homem que se sente revestido de uma missão divina, chamado a dizer verdades duríssimas aos seus contemporâneos, e que as disse de fato.
Ele está cumprindo sua missão; e as brasas estarão acumuladas sobre a cabeça de quem não o ouvir. É uma alma povoada de ideias, de convicções a respeito da transcendência e da perfeição infinita de Deus, e do alto destino eterno.
Vejam como tudo está bem apanhado neste olhar de fogo. Não há clima para conversar com ele sobre bagatelas. Quanta grandeza e seriedade!

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 1965

quarta-feira, 18 de maio de 2016

São Francisco de Paula

Místico e analfabeto, teve uma vida longa e santa voltada para o amor de Deus e santificação dos homens. A Santa Igreja o elevou às honras dos altares e sua festa é comemorada em 2 de abril, dia em que morreu, aos 91 anos, na Sexta-feira Santa de 1507

De um santo casal sem filhos…
Tiago e Viena formavam um casal que vivia em Paula, pequena cidade da Calábria, na Itália. Tiago era agricultor. Viena ajudava o marido no que era possível a uma mulher fazer. Juntos, eles constituíam um casal católico exemplar.
Embora levando uma vida difícil, procuravam santificar-se: rezavam bastante, jejuavam, praticavam boas obras, faziam penitência. Consideravam-se felizes. A felicidade de situação em que viviam, no entanto, era empalidecida por algo lhes penalizava: não conseguiam ter filhos.
 …milagrosamente, nasce um menino…
Não faltavam pedidos, orações e sacrifícios para que Deus lhes enviasse um filho. Pediam muito a intercessão de São Francisco de Assis, de quem eram devotos. Prometeram até que, se o santo lhes atendesse, dariam o nome de Francisco ao primeiro dos filhos que tivessem.
Deus ouviu tão prementes e piedosos pedidos: nasceu-lhes um filho. O menino tinha uma infecção nos olhos e poderia ficar cego. De novo procuraram São Francisco. Com respeito, pediam que ele atendesse por inteiro o pedido deles e não apenas pela metade.

sábado, 9 de abril de 2016

Santo Eulógio

Em todas as perseguições sofridas pela Igreja, existiram duas correntes entre os católicos: a do heroísmo e da acomodação. Santo Eulógio, mártir, lutou valentemente contra os acomodatícios, tendo uma forma de coragem mais meritória do que a própria coragem do martírio.
A respeito de Santo Eulógio, diz o Martirológio Romano: Santo Eulógio foi presbítero e mártir, e na perseguição dos sarracenos foi açoitado, esbofeteado e degolado à espada, em consequência de sua intrépida e gloriosa confissão de Cristo. Foi quem descreveu o martírio de vários santos de Córdoba, durante esta cruel perseguição. Século IX.
Perseguido pelos muçulmanos e pelos cristãos acomodados
Em Rohrbacher 1 encontram-se os seguintes dados biográficos sobre este Santo:
No ano de 850, desencadeou-se em Córdoba violenta perseguição muçulmana contra os cristãos. Dentre as várias vítimas destaca-se o sacerdote Eulógio, pertencente a uma das famílias mais consideradas da cidade, e que escreveu os combates gloriosos daqueles que morreram pela fé. Será o defensor de vários cristãos que se apresentaram voluntariamente ao martírio, e por isto foram criticados como temerários.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

São Pascoal Bailão

Quem já teve oportunidade de contemplar o espetáculo encantador de um rebanho de ovelhas reunido em torno de seu pastor, certamente terá notado o quanto existe uma como que interlocução entre esses mansos animais e aquele a quem estão confiados. Com efeito, quando ele as chama ou lhes dirige alguma advertência, as ovelhas se juntam ao seu redor, submissas e atentas, parecendo compreender o sentido de suas palavras.
Esta cena, tão simples na aparência, nos revela a realidade profunda daquela frase do Evangelho: "As minhas ovelhas escutam a minha voz" (Jo 10, 27). Há na relação pastor-ovelha uma simbologia criada por Deus para nos fazer entender o relacionamento cheio de consonância e intimidade que se estabelece entre Jesus e a alma conduzida pela graça. Bastará uma palavra, isto é, uma suave inspiração do Espírito Santo, para ela se mover segundo a vontade de Deus, sem temores ou dúvidas, pois sabe reconhecer o timbre da voz do Pastor.
Tais são os santos, ao longo da História, verdadeiras "oves manus eius - ovelhas nas mãos do Senhor" (Sl 94, 7), flexíveis e obedientes a seus mandamentos. Aquilo que os distingue dos demais homens e os faz galgar os cumes da virtude, conferindo-lhes um inequívoco carisma de atração, repousa nesse abandono nas mãos de Deus e na docilidade em deixar- se levar conforme o seu beneplácito. Nisso consiste o verdadeiro heroísmo, muito mais do que em esforços e trabalhos nos quais a alma possa se fatigar, pois estes, quando privados do auxílio da graça, resultam inteiramente estéreis.
Deste modo, compreendemos então que a santidade não consiste tanto em realizar grandes obras, mas sim em tornar grandes todas as obras, mesmo as mais insignificantes.

domingo, 10 de maio de 2015

São José de Calasanz

Militia est vita hominis super terram — A vida do homem sobre a Terra é uma luta” (Jó 7, 1). Quem poderia negar a grande verdade imortalizada nestas palavras do Santo Jó? Estamos neste mundo em estado de prova, num campo de batalha. Os trabalhos ou as penitências nos custam; nada, porém, é tão difícil quanto a luta.
É no combate às dificuldades internas ou externas que se abatem sobre o homem, ameaçando fazê-lo sucumbir, que ele alcança a verdadeira humildade. E ao se reconhecer contingente e necessitado do auxílio divino, não desfalecendo, alcançará a promessa do Divino Redentor: “Ao vencedor concederei assentar-se comigo no meu trono, assim como Eu venci e Me assentei com meu Pai no seu trono” (Ap 3, 21).
Tal foi a vida de São José de Calasanz: uma luta árdua e quase ininterrupta ao longo dos seus 92 anos de existência. Chamado à sublime vocação de santificar as crianças para, por este meio, resgatar cidades inteiras, sua vida foi uma contínua batalha, tão mais dolorosa “quanto as perseguições lhe advinham daqueles que mais obrigados estavam a apoiá-lo”.1
Prenúncio dos dotes futuros
Nasceu ele no povoado espanhol de Peralta de la Sal, nos confins de Aragão e Catalunha — quiçá em 1556, diz antiga tradição —, no seio de piedosa família fidalga, cujo pai era o administrador da cidade.
Sabendo ser o demônio o pior inimigo de Deus e dos homens, com apenas cinco anos decidiu exterminá-lo. Em sua mente infantil, julgava ter este malfeitor corpo visível. Armou-se de um punhal e, como não o encontrou em casa, resolveu procurá-lo campo afora. Um batalhão de crianças foi-se lhe juntando e detiveram-se todos num olival: diante daqueles olhinhos assustados, o maligno aparecera na forma de uma pavorosa sombra e aninhara-se no alto de uma oliveira. Com a arma entre os dentes, o pequeno herói subiu corajosamente pelo tronco, disposto a matá-lo. No entanto, o príncipe das trevas fez com que se quebrasse o grosso galho no qual se encontrava, para acabar com ele. A Virgem Santíssima, todavia, o protegeu e o menino se levantou ileso do chão. Era o primeiro encontro de um longo combate que haveria de durar toda a vida do Santo. “Mais tarde, ao exorcizar um possesso, confessará o demônio que naquele momento não tinha no mundo inimigo maior que José”.2

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

São Norberto de Magdeburgo

Ao ser derrubado do cavalo por um raio, como São Paulo, o vaidoso conde abandonou radicalmente os costumes mundanos. Desde aquele momento, transformou-se em pedra de escândalo e varão de contradição

São_Norberto1-horz A velha catedral de Colônia acolhia naquela ocasião grande número de fiéis que se acotovelavam ao longo da ampla nave, disputando espaço para assistir ao ato que em breve iria começar. Corria o ano de 1115, provavelmente no mês de dezembro, e naquele dia, o arcebispo Frederico ia conferir a vários jovens a ordem do presbiterato. A cerimônia iniciou-se com esplendor, em meio à luz de incontáveis círios.

Bem à frente dos assistentes, chamava a atenção de todos o conde de Gennep, luxuosamente ataviado, com as insígnias de sua alta posição. Muitos ali conheciam sua vida leviana e vaidosa, e estranhavam vê-lo agora em atitude tão recolhida. Um murmúrio de admiração percorreu a assembléia quando, tendo sido chamados os ordinandos, também ele se levantou e foi colocar-se ao lado destes. Mas o jovem aristocrata, imperturbável, fez sinal a um dos seus servidores e este lhe apresentou uma rude túnica de peles. O conde, desfazendo-se de suas ricas roupagens, vestiu aquele hábito de penitência. Era a reparação pública pela vida mundana que até então levara. 

Depois, subindo ao presbitério, recebeu sucessivamente o diaconato e o presbiterato. O brilhante fidalgo transformava-se em humilde servo de Jesus Cristo; interiormente revestido da sublime dignidade sacerdotal e, no exterior, à imitação de João Batista, da pobreza daquela veste singular.

A vaidade abafa uma vocação

 Norberto, filho primogênito de Heriberto, conde de Gennep, nasceu em 1080, na cidade de Xanten, Alemanha. Seus pais almejavam para ele a carreira eclesiástica, pois fora revelado à piedosa condessa Hedwiges que seu filho seria um grande prelado e prestaria relevantes serviços a Deus.

Mas, desde cedo, o menino começou a manifestar tendências mundanas e ambiciosas que contrariavam os piedosos desejos paternos. A aguda inteligência de Norberto e sua facilidade em assimilar tudo quanto lhe era ensinado talvez tenham contribuído para acentuar nele uma inata inclinação para a vaidade. Com efeito, uma rara eloqüência e notáveis qualidades literárias conferiam grande atração à sua pessoa, e isso não poderia deixar de ensoberbecer um jovem principiante como ele.

Ambição e prestígio na corte

 Terminados os estudos, Norberto recebeu a ordem do subdiaconato. Depois disso, sua ascensão foi rápida. Junto ao príncipe-arcebispo de Colônia, iniciou-se nas questões diplomáticas. Pouco tempo depois, transferiuse para a corte do rei da Alemanha, Henrique V. A personalidade irradiante e os modos graciosos do jovem conde chamaram a atenção do soberano, que o nomeou conselheiro de Estado. Norberto movia-se com desembaraço nos luxuosos cenários das intrigas palatinas, deixando todos admirados com seu talento e superioridade de espírito.

O prestígio de que gozava permitia-lhe acariciar sonhos para o futuro, dando vazão a um orgulho que só tendia a crescer e a dominar sua alma. Pouco a pouco, a influência do ambiente mundano ia amolecendo sua natural seriedade e tornando levianos seus costumes.

Entretanto, aquele despreocupado clérigo, tão esquecido de seus deveres religiosos, conservava ainda sentimentos de piedade que lhe aguilhoavam a consciência, provocando em sua alma a insatisfação própria daqueles a quem Deus reserva um chamado ad maiora. 

Um sacrilégio choca a alma de Norberto

Em 1110, Henrique V viajou para Roma, a fim de ser coroado imperador pelo Papa. Norberto o acompanhou, junto com outros dignitários e um numeroso exército. Já na Cidade Eterna, o imperador se desentendeu com o Papa e deu ordem a seus soldados de arrancar-lhe os paramentos e as insígnias e levá-lo prisioneiro.

Norberto sofreu um choque ao presenciar aquela cena sacrílega. Na mesma noite, foi prostrar-se aos pés do Pontífice preso, implorando perdão. Era o primeiro passo do filho pródigo na estrada que o traria de volta à casa paterna.

A luta interior

 A partir daquele momento, a voz da graça passou a falar com maior veemência no seu interior e ele começou a dar-lhe ouvidos. De volta à Alemanha, após a libertação do Papa, Norberto permaneceu na corte por mais alguns anos, até que, em 1115, Henrique V acabou sendo excomungado.

Por fidelidade à Santa Sé, Norberto abandonou Henrique V e se retirou para suas terras de Xanten. No isolamento da pequena cidade, suas ambições sentiam-se coarctadas. Mas, acostumado aos elogios e ao incenso, o conde ainda desejava vivamente satisfazer seu orgulho.

Convertido por um raio e uma voz

 Com esses anseios na alma, partira Norberto para Wreden, distante uns 50 quilômetros de Xanten, numa luminosa manhã de primavera. A certa altura da viagem, o céu começou a cobrir-se de espessas nuvens negras. De repente ressoou um trovão. Norberto esporeou o cavalo, na esperança de alcançar refúgio, mas foi inútil. Um violentíssimo raio caiu aos pés de sua cavalgadura e o animal, assustado, derrubou-o da sela.

O conde permaneceu uma hora desmaiado no lodo, sob chuva torrencial, ante o olhar estarrecido de seu escudeiro. Tendo recuperado os sentidos, ouviu uma voz interior que lhe dizia: “Deixa o mal e faze o bem, procura a paz e segue-a”1. Norberto levantou-se contrito e radicalmente determinado a abraçar para sempre as vias da virtude.

A partir desse dia, passou a levar uma vida de recolhimento e oração, submetendo seu corpo a rigorosas penitências. Instruído por Conon, abade do mosteiro beneditino de Siegburg, começou a sentir novamente o chamado para o sacerdócio e apresentou-se ao bispo de Colônia pedindo ser ordenado. Assim foi que, poucos meses após sua conversão, foram-lhe conferidas no mesmo dia, por um especial favor, as ordens do diaconato e do presbiterato.

  Lutas na vida sacerdotal

 Após um retiro de 40 dias na abadia de Siegburg, Norberto celebrou em Xanten sua primeira missa e começou a pregar. Falava principalmente sobre o transitório dos bens deste mundo e as obrigações do homem perante Deus. Seu fervor não agradou a certos clérigos que, usando como argumento a conduta pouco recomendável do pregador no passado, organizaram uma oposição contra ele. O ódio chegou até o extremo de pagarem a um homem para insultá-lo e cuspir-lhe no rosto.

Descalço, trajando sua túnica de penitência, Norberto partiu de Xanten e começou a percorrer cidades e povoados. As multidões lhe seguiam, atraídas pela eloqüência com a qual anunciava “a palavra de Deus cheia de fogo, que queimava os vícios, estimulava as virtudes e enriquecia as almas bem dispostas com a sua sabedoria”2.

Sua pregação via-se confirmada pelos milagres, pelo dom de línguas e, sobretudo, por um singular carisma de apaziguar, com sua simples presença, as dissensões e inimizades. O povo corria ao encontro desse sacerdote que já se tornara conhecido pelo afetuoso apelido de “Anjo da Paz”.

  Um coração inovador

Apesar dos brilhantes resultados de sua ação missionária, os detratores de Norberto persistiam em difamá-lo e criar obstáculos a seu apostolado. Por isso, em outubro de 1119, foi ele ajoelhar-se aos pés do Papa Calisto II, durante um concílio em Reims, para lhe expor sua situação e seus anseios de se entregar à vida religiosa.

Se o feitio daquele humilde peregrino impressionou favoravelmente o Pontífice, também não passou despercebido aos olhos do bispo de Laon, Dom Bartolomeu de Viry. Este soube discernir em Norberto as características de um chamado excepcional e propôs-se ajudá-lo em tudo quanto pudesse.

Não se enganava o arguto bispo: pulsava em Norberto um coração de inovador, dócil às inspirações do Espírito Santo. Seu projeto era formar uma congregação de clérigos postos em vida comunitária, que buscassem na oração, na penitência, no silêncio e na vida interior; o fundamento do seu apostolado. Ao harmonizar por primeira vez as doçuras da contemplação com a ação evangelizadora, Norberto tornar-se-ia fundador da chamada “vida mista”.


  Assim, sob os auspícios do Santo Padre e de Dom Bartolomeu, iniciou ele sua grande obra. Na pantanosa e sombria floresta de Coucy, próxima a Laon, existia um vale conhecido pelo nome de Premontré (prado mostrado). Ali, sobre as ruínas de uma capela abandonada, começou a erguer seu primeiro mosteiro. No Natal de 1121, Norberto e seus numerosos discípulos pronunciaram seus votos de religião, abraçando a regra agostiniana. Estava fundada a Ordem dos Cônegos Regulares de Premontré, hoje conhecidos como Premonstratenses.

Crescimento do instituto e fundação feminina

 Pouco a pouco afluíram as vocações, e naquele bosque escuro e desabitado logo foi elevada a igreja de Santa Maria de Premontré. Em torno dela foram construídas as moradias dos clérigos.

 A Europa contemplou admirada aqueles homens vestidos de branco, saídos do silencioso vale de Premontré, percorrendo desde as grandes cidades até as menores aldeias, como incansáveis anjos da Boa Nova, inculcando nos corações o amor à Eucaristia e a devoção terna à Virgem Santíssima, que haviam haurido no convívio com Norberto.

Dado o crescimento prodigioso de sua obra, teve ele de empreender contínuas viagens para estabelecer novas fundações na Alemanha, na Bélgica, na França e em outras regiões. Junto aos mosteiros dos cônegos, surgiram depois os das Irmãs da Segunda Ordem, conhecidas como Norbertinas, onde se observava o mesmo rigor de vida, em inteira consonância com o fundador.

  Elevação ao episcopado

 A Providência, entretanto, reservava a Norberto outra missão. Em 1126, em circunstâncias inesperadas e totalmente contra a sua vontade, foi eleito Arcebispo de Magdeburgo. Poucos dias depois, fez sua entrada nessa cidade, recebendo as homenagens do clero, dos nobres e do povo.

O aspecto do novo Arcebispo não se diferenciava muito ao do pobre penitente que anos atrás percorrera as aldeias, arrastando a todos com a eficácia de sua palavra. Terminadas as cerimônias, dirigiu-se ao palácio episcopal onde doravante deveria residir. Mas o porteiro, ao vê-lo, tomou-o por um indigente, e disse-lhe:

 — Chegaste tarde, já foi repartida a comida aos necessitados.

Quando lhe avisaram que aquele era seu novo senhor, logo sua rudeza se mudou em confusão. Norberto, porém, sorrindo com afabilidade, respondeu:

— Tu me conheces melhor e viste mais claro do que aqueles que me conduziram a este palácio ”3.

Oito anos durou seu ministério pastoral em Magdeburgo. Com sua característica retidão, logo notou os relaxamentos existentes na diocese e tomou enérgicas medidas em prol da ordem. Isso suscitou rancores, e alguns descontentes planejaram matá-lo. Como, porém, esse plano falhou, eles recorreram à arma da calúnia e amotinaram a turba contra o Arcebispo. Também isso foi em vão, pois a bondade e a coragem do santo em pouco tempo fizeram serenar os ânimos e restabelecer a paz.

Grande na humildade, humilde na grandeza

Em inícios de 1130 faleceu o Papa Honório II, e o mundo católico recebeu a desconcertante notícia da eleição de dois sucessores para o sólio pontifício: Inocêncio II e Anacleto II. O perigo de um cisma era iminente.

Movido pelo Espírito Santo, São Bernardo de Claraval logo se levantou, na França, a favor de Inocêncio, conclamando todos a defender o verdadeiro Papa, que chegava a esse reino fugindo do usurpador.

Na Alemanha, o rei Lotário demorava em tomar posição. Só o Arcebispo de Magdeburgo, no qual depositava sua confiança, poderia pesar favoravelmente em sua determinação. Norberto não poupou esforços: apresentando provas e documentos, e valendo-se de sua eloqüência, mostrou-lhe a legitimidade de Inocêncio enquanto sucessor de Pedro. Sua voz foi aceita como um verdadeiro oráculo pelo soberano, e toda a Alemanha colocou-se resolutamente do lado do Papa legítimo. 

Assim, Norberto salvou sua pátria do risco de um fatal rompimento com a Igreja. Este foi o último e, talvez, o mais belo lance de sua vida.

De volta a Magdeburgo, seu já abalado estado de saúde agravou-se de modo alarmante. Mesmo assim, durante alguns meses de dolorosa enfermidade, realizou milagres assombrosos, como a ressurreição de três mortos num mesmo dia.

Por fim, a 6 de junho de 1134, na oitava de Pentecostes, sentindo a morte iminente, quis ser colocado, conforme o costume daquela época, sobre uma cruz de cinzas traçada no solo. Nessa posição, à imitação do Redentor, expirou da mesma forma como havia vivido: grande na humildade e humilde na grandeza.

 Uma vida definida por uma única palavra: integridade

A partir do instante de sua conversão, a peregrinação de São Norberto neste mundo poderia ser definida por uma única palavra: integridade. Foi por excelência o varão da despretensão, da entrega generosa e desinteressada de si, pela glória da Igreja. Uma vez posta a mão no arado, seus olhos jamais se voltaram para contemplar as brilhantes promessas que o mundo lhe oferecia. Pelo contrário, ele se apresentou ante o olhar surpreso dos seus coetâneos, como o fundador e arquétipo de um novo estilo de vida, austero e abnegado.

É necessário notar, porém, que a rutilância de suas virtudes, acentuada por uma personalidade rica em dotes naturais, dividia as opiniões e separava nitidamente os bons dos maus. São Norberto foi, a exemplo do Divino Mestre, pedra de escândalo e varão de contradição. Sua própria bondade, que cativava as almas santas e impelia os pecadores a abraçarem o bom caminho, era causa de contínuas perseguições.

Ciente de que o verdadeiro sentido da existência se cifra unicamente em agradar a Deus, São Norberto era em vão acossado pelos seus adversários. Seu superior poder desarmava o ódio, fazia procurar a virtude e transformava a ira em amor.

1ADRIAANSEN, Vita c. XIII, p. 24. 

 2 LITURGIA DAS HORAS, vol. II, p. 6. 3 ADRIAANSEN, Vita c. XLIII, p. 215.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

São Miguel Arcanjo

Os anjos foram dotados por Deus de inteligência perfeitíssima e, no entanto, pecaram, revoltando-se contra seu Criador. Mistério do mal... São Miguel, por sua fidelidade, recebeu em prêmio a missão de proteger a Santa Igreja.
Todos os domingos, um incontável número de fiéis no orbe católico canta ou recita durante a celebração da sagrada Eucaristia o símbolo da nossa fé. As verdades de nossa santa religião são proclamadas, uma após outra, numa inspirada e sublime síntese, até completar a totalidade da única doutrina da fé: “Assim como a semente da mostarda contém num pequeníssimo grão um grande número de ramos — ensina-nos São Cirilo de Jerusalém —, da mesma forma este resumo da fé encerra em algumas palavras todo o conhecimento da verdadeira piedade contida no Antigo e no Novo Testamento” (1).
“Creio em Deus Pai todo-poderoso!” Depois desta primeira e fundamental afirmação, da qual dependem todos os outros artigos do Credo, proclamamos em seguida “o começo da história da salvação” (2): “Criador do Céu e da terra!”
O mistério da criação
Deus, Ser absoluto e eterno, não precisava de nenhuma criatura que Lhe rendesse homenagens e reconhecesse sua grandeza sem limites. Entretanto, em sua misericórdia, quis criar, não para aumentar a própria glória, intrínseca e sempiterna, mas para manifestar seu amor todo-poderoso e “comunicar sua glória” (3) aos seres por Ele criados, fazendo-os participar de sua verdade, sua bondade e sua beleza.
Uma imensa multidão de criaturas diversas e desiguais — seres visíveis e invisíveis, inteligentes ou desprovidos de razão, dispostos numa maravilhosa hierarquia — constituiu então a Ordem do universo, reflexo da perfeição adorável do Ser infinito, que só se manifestaria totalmente, na plenitude dos tempos, por seu Filho Unigênito, Jesus Cristo, o Verbo eterno encarnado.
Explica o Doutor Angélico que “todo efeito representa algo da sua causa” (4). Assim, em todas as criaturas podemos encontrar vestígios da eterna Sabedoria que as tirou do nada: nos astros que enchem as vastidões do firmamento e cujas constelações encontramse separadas, às vezes, por milhões de anos-luz; nos diminutos grãos de areia, jamais iguais entre si, que cobrem desertos e praias; na variedade assombrosa de vegetais, que vai da “erva do campo que hoje existe e amanhã é queimada” (Mt 6, 30) às seculares sequóias e jequitibás; no admirável instinto dos insetos, na fidelidade quase inteligente de um cão, na delicadeza virginal de um arminho, nos milhares de micróbios que podem pulular numa gota de água... Mas quis Deus espelhar-se sobretudo no homem, criando-o à sua imagem. E ao constituí-lo um composto de corpo corruptível e alma imortal, o tornou elo de ligação entre a matéria e o mundo espiritual.
O mundo angélico
Porém, no alto desta grandiosa hierarquia, “superando em perfeição todas as criaturas visíveis” (5), colocou Deus a natureza angélica: espíritos puros, inteligentes e capazes de amar, cheios da graça divina desde o início de sua existência, na aurora da primeira manhã da criação. Distribuídos e ordenados por Deus em nove coros (6) — Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Virtudes, Potestades, Principados, Arcanjos e Anjos — constituem o exército da celeste Jerusalém e receberam a tríplice missão de perpétuos adoradores da Santíssima Trindade, executores dos divinos desígnios e protetores do gênero humano.
Imensa e incalculável é esta corte do Senhor. “Porventura podem ser contadas as suas legiões?”, pergunta o livro de Jó (25, 3). E o profeta Daniel, abismado, escreveu: “Eram milhares de milhares os que o serviam, e mil milhões os que assistiam diante d’Ele” (Dn 7, 10). Entretanto, cada um desses espíritos possui uma personalidade própria, inconfundível e específica, não havendo sido criado um igual ao outro (7).
O primeiro dos anjos
A tanta diversidade e esplendor quis Deus colocar um ápice, um ponto monárquico, um ser que espelhasse de modo inigualável a luz eterna e inextinguível. Maravilha dentre as maravilhas, obra-prima do mundo angélico, fulgurava no mais alto dos coros e todos extasiavam-se diante dele. “Tu és o selo da semelhança de Deus, cheio de sabedoria e perfeito na beleza; tu vivias nas delícias do paraíso de Deus e tudo foi empregado em realçar a tua formosura!” (cf. Ez 28, 12-13).
Sendo o primeiro dos serafins, iluminava todos os espíritos celestes com os reflexos da divindade que sua inteligência ímpar discernia com o auxílio da graça. Lúcifer era seu nome: o que levava a luz...
A prova dos espíritos celestes
Entretanto, antes de poder contemplar, por toda a eternidade, a essência de Deus, deviam os anjos passar por uma prova, e apesar da altíssima perfeição da sua natureza, “não podiam dirigir-se a esta bem-aventurança por sua vontade, sem ajuda da graça de Deus” (8).
Diante deles a face do Ser infinito permanecia como que envolta em penumbras e só seus reflexos eram capazes de alimentar o ardente amor das legiões do Senhor.
Segundo afirmam Tertuliano, São Cipriano, São Basílio, São Bernardo e outros santos, a prova que decidiu o destino eterno dos espíritos angélicos foi o anúncio da Encarnação do Verbo, Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, o qual haveria de nascer da Virgem Maria.
Podemos imaginar, então, que um frêmito de assombro percorreu as fileiras das milícias celestes ao conhecerem intuitivamente, por uma ação de Deus, o plano da Salvação: o Criador eterno, inacessível, todo-poderoso, se uniria hipostaticamente à natureza humana, elevando-a assim até o trono do Altíssimo; e uma mulher, a Mãe de Deus, tornar-se-ia medianeira de todas as graças, seria exaltada por cima dos coros angélicos e coroada Rainha do universo!
O inexplicável surgia diante dos anjos como sendo o píncaro e o centro da obra da criação.
A prova havia chegado.
Amar sem entender! Amar sobre todas as coisas ao Deus Altíssimo que numa sublime manifestação de seu amor havia tirado do nada todas as criaturas! Reconhecer, num supremo lance de adoração e submissão, a superioridade infinita da Bondade absoluta e eterna!
Era este o ato que confirmaria os espíritos angélicos na graça divina e os introduziria na visão beatífica para todo o sempre.
A primeira revolução da História
Lúcifer, porém, duvidou diante de um mistério que ultrapassava seu angélico entendimento. Será que Deus ignorava a natureza perfeitíssima dos anjos e preferia unir-Se a um ser humano, tão inferior a eles na ordem das criaturas? Ele, o mais alto dos serafins, seria compelido a adorar um homem? “Esta união hipostática do homem com o Verbo pareceu-lhe intolerável e desejou que fosse realizada com ele”, afirma Cornélio a Lápide (9). Sim, só a ele mesmo, Lúcifer, “o perfeito desde o dia da criação” (Ez 28, 15), deveria Deus unir-Se e deste modo constituí-lo como o mediador único e necessário entre o Criador e as criaturas. Assim, “aquele que do nada havia sido feito anjo, comparando-se, cheio de soberba, com o seu Criador, pretendeu roubar o que era próprio do Filho de Deus”, conclui São Bernardo (10).
“O anjo pecou querendo ser como Deus” (11) e o príncipe da luz tornou-se trevas.
Fez-se ouvir o primeiro grito de revolta da história da criação: “Não servirei! Subirei até o Céu, estabelecerei o meu trono acima dos astros de Deus, sentar-me-ei sobre o monte da aliança! Serei semelhante ao Altíssimo!” (cf. Is 14,13-14).
O defensor da glória de Deus
Ecoou, então, um brado no Céu: “Quem como Deus?”
Entre o anjo revoltado e o trono do Todo-Poderoso erguia-se “um dos primeiros príncipes” (Dn 10, 3), um serafim incomparavelmente mais esplendoroso e forte do que havia sido “o que levava a luz”.
Quem era este que ousava desafiar o mais alto dos anjos e agora refulgia invencível, revestido do “poder da justiça divina, mais forte que toda a força natural dos anjos” (12)?
Quem era este? Chama viva de amor, labareda de zelo e humildade, executor da divina justiça.
“Quem como Deus?” — Milhões de milhões dos espíritos celestes repetiram o mesmo brado de fidelidade.
“Quem como Deus?” — Este sinal de fidelidade, que em hebraico se diz Mi-ka-el, passou a ser o nome daquele serafim que por sua caridade ímpar foi o primeiro a levantar-se em defesa da Majestade ofendida.
Michael, Miguel: nome que exprime, em sua sonora brevidade, o louvor mais completo, a adoração mais perfeita, o reconhecimento mais cheio de amor da transcendência divina e a confissão mais humilde da contingência da criatura.
A primeira batalha de uma guerra eterna
“Houve no Céu uma grande batalha” (Ap 12, 7). Luta entre anjos e demônios, luta da luz contra as trevas, da fidelidade contra a soberba, da humildade e da ordem contra o orgulho e a desordem. “Miguel e os seus anjos pelejavam contra o dragão, e o dragão com os seus anjos pelejavam contra ele” (Ap 12, 7).
Satanás, desvairado de orgulho e “obstinado em seu pecado” (13), “arrastou a terça parte” (Ap 12, 4) dos espíritos angélicos, submergindo-os consigo nas trevas eternas da revolta.
Porém, estes não prevaleceram, nem o seu lugar se encontrou mais no Céu. Foi precipitado aquele grande dragão, que se chama demônio e Satanás, e foram junto com ele os seus anjos (cf. Ap 12, 8-9) nos abismos tenebrosos do inferno (cf. 2Pd 2, 4).
Um imenso clamor encheu o universo: Como caíste do céu, ó astro resplandecente, que no nascer do dia brilhavas? (cf. Is 14, 12). A tua soberba foi abatida até os infernos! (cf. Is 14, 11).
E enquanto o serafim revoltado era visto “cair do céu como um relâmpago” (Lc 10, 18) e ser condenado ao fogo inextinguível, “preparado para ele e os seu anjos” (Mt 25, 41), São Miguel era elevado pelo Rei eterno ao píncaro da hierarquia dos anjos fiéis e se tornava o “gloriosíssimo príncipe da milícia celeste”, como é designado pela liturgia da Santa Igreja Católica.
O novo campo de batalha
Restabelecida a ordem nos céus angélicos, o campo de batalha onde prosseguiu a luta entre a luz e as trevas passou a ser a terra dos homens.
O anjo destronado conseguiu seduzir nossos primeiros pais a pecarem, como ele, contra o Altíssimo, querendo ser como deuses (cf. Gn 3,5), e o Senhor Deus declarou guerra ao tentador: “Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela” (Gn 3, 15).
A partir deste momento uma luta árdua contra o poder das trevas perpassa a história da humanidade. Iniciada na origem do mundo, vai durar até o último dia, segundo as palavras do Senhor. Inserido nesta batalha, o homem deve lutar sempre para aderir ao bem (14).
Neste combate, além das armas decisivas da graça de Deus, que recebemos superabundantemente por meio dos sacramentos, contam os homens com o auxílio e a proteção dos anjos. E ao príncipe da Jerusalém celeste corresponde a capitania de todas as legiões angélicas na luta contra as forças do inferno, pela salvação das almas. Assim, São Miguel continua na terra a luta triunfal que iniciou no Céu.
Protetor do povo eleito e da Santa Igreja
Foi São Miguel o anjo tutelar do povo de Israel.
Nas Sagradas Escrituras, é ele mencionado pela primeira vez no livro de Daniel. Este profeta, ao escrever as revelações recebidas do anjo Gabriel sobre o combate para libertar a nação eleita da servidão aos persas, afirma que ninguém a defenderá “a não ser Miguel, vosso príncipe” (Dn 10, 22). E acrescenta ao narrar as tribulações de épocas vindouras: “Naquele tempo, surgirá Miguel, o grande príncipe, o protetor dos filhos de seu povo” (Dn 12, 1).
O serafim da fidelidade não cessou de proteger o povo de Israel e velar pela fé da Sinagoga até o momento supremo da morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Escureceu-se o sol e houve trevas, a terra tremeu, fenderam-se as rochas e o véu do Templo — monumental tecido de jacinto, púrpura e escarlate que cobria a entrada do impenetrável “Santo dos Santos” — rasgou-se em duas partes, de alto a baixo (cf. Mt 27, 51; Mc 15, 38; Lc 23, 45). Narra-nos o famoso historiador judeu, Flávio Josefo, que depois desses acontecimentos os próprios sacerdotes do Templo escutaram dentro do recinto sagrado uma misteriosa voz que clamava repetidas vezes: “Saiamos daqui!” (15).
São Miguel, a sentinela de Israel, abandonava definitivamente o Templo da Antiga Aliança, inútil agora, porque o único e verdadeiro sacrifício acabava de consumar-se no alto do Calvário. Do coração trespassado do Cordeiro Imaculado nascia a Santa Igreja, Corpo Místico de Cristo, Templo eterno do Espírito Santo. E a partir desse instante, Miguel o triunfador, o primeiro adorador do Verbo encarnado, tornou-se também o vigilante protetor da única Igreja de Deus.
A este respeito escreveu o cardeal Shuster: “Depois do ofício de pai legal de Jesus Cristo, que corresponde a São José, não há na terra nenhum ministério mais importante e mais sublime do que o conferido a São Miguel: protetor e defensor da Igreja” (16).
 1) Cathecheses Iluminandorum, in CIC, 186. 2 ) CIC, 280. 3 ) CIC, 319. 4 ) Suma Teológica, I, q. 45, a. 7. 5 ) CIC, 330. 6 ) Cf. Suma Teológica I, q. 108, a. 5. 7 ) Cf. Idem, I, q. 50, a. 4. 8 ) Idem, I, q. 62, a. 2. 9 ) A. Bernet, Enquête sur les Anges, Librairie Académique Perrin, 1997, p. 43. 10 ) Obras Completas, BAC, Madrid, 1953, vol. 1, p. 215. 11 ) Suma Teológica I, q. 65, a. 5. 12 ) Idem I, q. 109, a. 4. 13 ) Idem, I, q. 64, a. 2. 14 ) Gaudium et spes, 37, 2. 15 ) Cf. História dos hebreus, Editorial das Américas, São Paulo, 1963, vol. 8, p. 304. 16) Año Cristiano, BAC, Madrid, 2002, vol. 9, p. 266.

sábado, 7 de setembro de 2013

PROFETA DANIEL


Devido a sua heróica fidelidade a Deus, por duas vezes Daniel foi perseguido por idólatras e lançado numa cova de leões. Em ambas as ocasiões, por sua inabalável confiança no Altíssimo, saiu miraculosamente ileso. Da estirpe real de Davi, muito jovem ainda, Daniel foi levado para Babilônia por Nabucodonosor quando este conquistou Jerusalém, no século VI antes de Cristo.
Inteligente e bem apessoado, destacava-se pelo porte e, sobretudo, pelas virtudes e dons sobrenaturais, entre os quais os de sabedoria, fortaleza e interpretação de visões e sonhos.
Percebendo sua superioridade, Nabucodonosor nomeou-o governador de todas as províncias de Babilônia, presidente dos magistrados e dos sábios do império.
Deus enviou um anjo que fechou a boca dos leões
Algum tempo depois, subiu ao trono de Babilônia o rei Dario, que pretendia elevá-lo ao mais alto cargo do reino. Mas, movidos por inveja e ódio, vários ministros e sátrapas (governadores de províncias), tramaram a morte de Daniel, apresentando a Dario esta proposta:
“Os ministros do reino, os prefeitos, os sátrapas, os conselheiros e os governadores estão todos de acordo em que seja publicado um edito real com uma interdição, estabelecendo que aquele que nesses trinta dias dirigir preces a um deus ou homem qualquer que seja, além de ti, ó rei, seja jogado na cova dos leões” (Dn 6, 8).
Embora admirasse o fiel israelita, o rei cedeu e fez publicar a infame lei.
Sabendo disso, “Daniel entrou em sua casa, a qual tinha no quarto de cima janelas que davam para o lado de Jerusalém. Três vezes ao dia, ajoelhado, como antes, continuou a orar e a louvar a Deus” (6, 11).
Os ministros e sátrapas o denunciaram ao rei, o qual se entristeceu e procurou salvá-lo da morte. Mas os iníquos adversários do profeta ameaçaram o monarca, frisando que, segundo a lei dos medos e persas, todo edito real era imutável. Este acabou fraquejando e ordenou que Daniel fosse lançado na cova dos leões.
Perturbado, Dario não conseguiu dormir naquela noite e, logo de manhã, foi à cova. Chamou Daniel, que lhe respondeu: “Meu Deus enviou seu anjo e fechou a boca dos leões; eles não me fizeram mal algum, porque a seus olhos eu era inocente e porque contra ti também, ó rei, não cometi falta alguma” (6, 23).
O rei mandou tirá-lo e jogar na cova os acusadores, com suas mulheres e filhos. “Não haviam tocado o fundo da cova, e já os leões os agarraram e lhes trituraram os ossos!” (6, 25).
Decretou, então, Dario: “Em toda a extensão de meu reino, se mantenha perante o Deus de Daniel temor e tremor. É o Deus vivo, que subsiste eternamente; seu reino é indestrutível e seu domínio é perpétuo” (6, 27).
O ídolo Bel
Babilônia foi depois conquistada pelo rei persa Ciro, o Grande, o qual manteve o profeta em proeminente cargo. “Daniel era conviva do rei e o mais honrado de todos os seus íntimos” (14, 1).
Entretanto, em Babilônia era adorado um ídolo denominado Bel. Diariamente eram-lhe oferecidas 40 ovelhas, além de vários quilos de farinha e seis ânforas de vinho. Tudo era “comido e bebido” por Bel.
Certo dia, o rei perguntou a Daniel por que não cultuava o ídolo. Respondeu ele: “Porque não venero ídolo feito pela mão do homem, mas sim o Deus vivo que criou o céu e a terra” (14, 5).
Argumentou o rei que Bel era vivo, pois comia e bebia diariamente. Rindo, retrucou Daniel: “Este deus é de barro por dentro e de bronze por fora, e ele nunca comeu coisa alguma” (14, 6).
Irritado, o monarca mandou chamar os sacerdotes de Bel e decretou: “Se não me disserdes quem come essas oferendas, morrereis. Mas se me provardes que é Bel quem as absorve, será Daniel quem morrerá” (14, 7-8).
No templo de Bel residiam os 70 sacerdotes, com suas mulheres e filhos, e para lá se dirigiram Daniel e o rei.
Astúcia de Daniel
Os sacerdotes mostravam-se seguros, porque haviam feito aberturas secretas pelas quais entravam à noite para comer as oferendas. Tendo eles se retirado, o rei depôs os alimentos diante do ídolo. Mas Daniel, na presença do rei, mandou seus criados espalharem cinza pelo templo todo. Em seguida, saíram, fecharam a porta, lacrando-a com o sinete real, e se retiraram.
Voltando ao raiar da aurora, e vendo a mesa do altar vazia, o rei entoou louvores a Bel. Mas Daniel, pondo-se a rir, apontou-lhe as pegadas de homens, mulheres e crianças no pavimento.
Furioso, o soberano mandou prender os sacerdotes, os quais lhe mostraram as aberturas secretas por onde entravam todas as noites para comer o que havia sobre o altar.
O rei, então, mandou matá-los e Daniel destruiu Bel e seu templo.
Fez estourar o dragão
Existia também em Babilônia um imenso dragão, adorado como deus.
O rei interpelou Daniel: “Pretenderás também dizer que aquele é de bronze? Vive, come, bebe. Tu não podes negar que seja um deus vivo. (...) Adora-o então” (14, 23-24).
Este replicou que, se o rei lhe permitisse, mataria o dragão sem mesmo usar espada ou bastão. Ele autorizou. Então Daniel cozinhou juntos breu, gordura e pêlos, fez bolotas e jogou-as na boca do monstro, o qual estourou e morreu. “Eis aí o que adoráveis!” — disse ao rei (14, 26).
Cheios de ódio, os babilônios exigiram do rei: “Entrega-nos Daniel; do contrário, nós te mataremos, bem como toda tua família” (14, 28). Este cedeu, e Daniel foi lançado numa cova onde havia sete leões famintos.
Deus não abandona os que O amam
Por milagre de Deus, Daniel não foi tocado pelas feras.
Enquanto isso se passava, o profeta Habacuc — na Judéia a muitos quilômetros de Babilônia — preparava a refeição para os ceifadores no campo. De repente, apareceu um anjo que lhe ordenou levar os alimentos a Daniel. “Senhor, disse Habacuc, nunca vi Babilônia, e não conheço essa cova” (14, 34).
O anjo, então, levou-o até a entrada da cova dos leões, em Babilônia, onde Habacuc bradou: “Daniel, toma a refeição que Deus te envia” (14, 36). Daniel exclamou: “Ó Deus, vós pensastes em mim! Vós não abandonastes os que vos amam!” (14, 37). Pôs-se a comer, e o anjo transportou Habacuc de volta à Judéia.
Transcorridos sete dias, o rei dirigiu-se à cova para chorar Daniel. Surpreso, viu-o ileso, sentado no meio dos leões.
Em alta voz, o monarca louvou o verdadeiro Deus, mandou imediatamente retirar Daniel da cova, e nela jogar seus inimigos. Todos foram devorados num instante.
Confiança
Nesses episódios, brilha de modo especial a confiança de Daniel. Mais do que nunca, essa virtude hoje nos é necessária.
Disse o Divino Mestre “Haveis de ter aflições no mundo; mas tende confiança, Eu venci o mundo” ( Jo 16, 33).

Peçamos ao profeta Daniel que nos obtenha de Nossa Senhora graças super-abundantes e eficazes de confiança.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

São Leão IX


Aliança entre a grandeza terrena e o serviço de Deus
São Leão IX nasceu no ano de 1002, nos confins de Alsácia. Seu pai era Conde de Ingersheim e primo-irmão do Imperador Conrado, o Sálico. Sua mãe lhe deu o nome de Bruno. Ao atingir a idade de 5 anos, foi confiado, por seus pais, à educação de Bertoldo, o venerável Bispo de Toul, o qual dirigia então uma escola no próprio palácio episcopal.
Como vemos por esses dados, São Leão viveu em plena Idade Média. Neste trecho já se encontra uma nota interessante e peculiarmente medieval, ou seja, o fato de haver uma escola dirigida pelo bispo e que funcionava no próprio palácio episcopal.
No colégio, Bruno foi confiado particularmente a um primo seu, chamado Aderico, filho do Príncipe de Luxemburgo; os dois se tomaram de uma íntima amizade. Seu primo foi-lhe modelo de todas as virtudes e serviu extraordinariamente para sua formação.
Havia na Idade Média, pessoas pertencentes à mais alta categoria social e que se destacavam, sobretudo, por sua extraordinária virtude. Formava-se assim uma aliança entre a grandeza terrena e o serviço de Deus.
A Igreja Católica como centro de tudo
Tendo recebido do Bispo de Toul as sagradas ordens, foi nomeado clérigo da Capela do palácio do Imperador Conrado, o Sálico.
Todos os Imperadores tinham sua própria capela, na qual um conjunto de capelães mantinha o culto. O fato de ser clérigo na capela imperial era, portanto, uma situação de alta confiança, pois conferia a oportunidade de estar em contato direto com o Imperador.
Por outro lado, é digno de nota o fato de o Imperador ter sua capela própria, donde decorre que o elemento central de sua vida de corte era a recitação do Ofício Divino, a Santa Missa e outras práticas de culto católicas.
Esse piedoso costume, por sua vez, provinha da convicção profunda e verdadeira que estava radicada na sociedade daquele tempo: a Igreja Católica deve estar no centro de todas as coisas. E, portanto, na Corte imperial o elemento central devia ser a capela, onde estava presente o Santíssimo Sacramento, ou seja, Nosso Senhor Jesus Cristo, o Rei dos Reis. Também ali devia estar a imagem de Nossa Senhora Rainha e Mãe. Como isso é diferente dos costumes laicos e divorciados da verdadeira posição católica!
A virtude outrora era um título de ascensão
Bruno foi imediatamente bem visto pelo Imperador, que impressionado com suas virtudes passou a tratá-lo de “meu sobrinho”.
Ser tratado de primo e sobrinho do Rei era considerado pelas cortes daquele tempo uma honra extraordinária. Ele realmente era parente do Imperador, mas não em grau tão próximo; era filho de primos e não de irmãos do Imperador, portanto não era de fato seu sobrinho. Mas, o Imperador o tratava como sobrinho, elevando-o assim à categoria de Príncipe da Casa Imperial. A principal razão dessa honraria era a alta consideração do Imperador pelas virtudes de Bruno.
Como na Idade Média a maior parte das pessoas procurava a todo custo manter a posse do estado de graça, criava-se um ambiente onde a virtude era bem vista, e constituía um título de ascensão e não um título de perseguição como cada vez mais vem se tornando nos dias atuais.
Algum tempo depois, no ano de 1026, o Imperador recebeu a visita de clérigos da Diocese de Toul, que lhe anunciavam a morte do Bispo e o desejo de toda a população que Bruno fosse designado para a diocese vaga. Conrado acedeu, apesar de Bruno não ter ainda a idade canônica.
Aqui vemos um costume medieval que como outros é preciso ser bem entendido. É preciso levar em conta que a nomeação de um Bispo sempre foi privilégio papal. Porém, para isso o Papa pode receber indicações, as quais ele é livre de aceitar ou recusar. Ora, na Idade Média mantinha-se o costume proveniente dos primeiros tempos da Cristandade, pelo qual o povo da diocese podia aclamar ou propor um nome, mas cabia ao Papa ratificar ou não a proposta.
Com a implantação do Sacro Império, os Imperadores também tomaram o hábito de propor candidatos ao episcopado. Então se formava uma corrente de mediações, onde o povo propunha ao Imperador um nome e este, por sua vez, estando de acordo, propunha ao Papa. Mas, a palavra final sempre cabia ao Sumo Pontífice.
Apesar da pouca idade, Bruno imediatamente se destacou entre os Bispos da região por sua capacidade e pela virtude com que dirigia a diocese.
Note-se, portanto, a rapidez dessa ascensão, a qual se deve, acima de tudo, às suas notáveis virtudes.
Quem se humilhar será exaltado!
Durante 22 anos Bruno governou pacificamente e com brilho a Diocese de Toul. Com a morte do Papa Dâmaso II no ano de 1048, os romanos mandaram uma deputação ao Imperador Henrique III para pedir-lhe que designasse um novo Papa. O Imperador Henrique III reuniu, para esse efeito, uma Dieta em Worms, da qual participavam todos os Bispos do Império. Logo, todas as vozes designaram Bruno, Bispo de Toul, como futuro Papa. Tendo sido consultado, Bruno, por humildade, de nenhum modo queria aceitar o cargo; pediu então que lhe dessem alguns dias para refletir.
Pediu tempo para refletir, mas de fato, o que ele queria era escapar do encargo de ser Papa.
Terminado o prazo, apresentou-se diante de toda a Dieta de Worms reunida e disse que ele iria fazer uma confissão pública de todos os seus pecados, para fazer notar quanto ele era pecador e de nenhum modo digno do papado. Ajoelhou-se e fez sua confissão pública.
A confissão constava de matérias tão leves, que o fato que ele considerava mais grave e pavoroso, mal dava matéria de um pecado venial. Tendo terminado, todos se levantaram e o aclamaram.
Só um Bispo com tal limpeza de consciência poderia ser o Papa.
Como última tentativa, ele levantou um sério problema: o Imperador não tinha direito de nomeá-lo Papa. O Papa só pode ser eleito pelo clero de Roma, na forma canônica, ouvindo, quando queira, o povo de Roma.
Então ele iria a Roma a fim de lá consultar se o clero e o povo o queriam como Papa.
Retirou-se e, tomando o traje de peregrino, saiu a pé de Worms em direção a Roma.
Que extraordinária firmeza possuía esse homem, para tomar tal decisão, pois viajar a Roma supunha, entre outras dificuldades, a travessia dos Alpes, com suas neves eternas, montanhas escarpadíssimas e caminhos de cabras para transpor, pelo que essa viagem sempre foi considerada perigosa.
Ele poderia ter ido andando até o mar Adriático e lá tomar um barco. Mas ele quis, como um penitente, ir a pé até Roma, onde esperava ser recebido como um mero peregrino.
Ao chegar às cercanias de Roma, encontrou a população da cidade à sua espera.
A cidade de Roma naquele tempo deveria somar entre duzentos a trezentos mil habitantes.
Vestido como peregrino, com as vistas baixas e sem olhar nem dar atenção para ninguém, entrou em Roma, dirigindo-se diretamente ao túmulo de São Pedro para rezar.
É possível a abundância do estado de graça numa época
Este é realmente um homem reto, que faz as coisas como devem ser feitas.
O povo de Roma, aclamando-o, quis naquele mesmo dia entronizá-lo. Mas ele disse que esperassem até o dia seguinte, para ainda poderem pensar. Mas, por fim, chegou o dia seguinte e o povo estava de tal maneira decidido de que ele deveria ser o Pontífice, que ele acabou por aceitar, sendo então entronizado na Sé Romana.
Este apreço geral pela virtude daquele homem dá uma ideia do espírito que vigorava naquele tempo, e faz ver como é possível o estado de graça ser tão abundante em determinada época. Pois, sem ele, esses atos e gestos verdadeiramente extraordinários não se realizariam desta forma.
Por inspiração divina, tomou o título de Leão, considerando que devia, à testa da Igreja, lutar como verdadeiro leão. De fato, não tardou em começar a luta contra os verdadeiros inimigos da Igreja.
Um “Leão” em defesa da Igreja
Quais eram os verdadeiros inimigos da Igreja?
Naquele tempo, havia se difundido um abuso péssimo chamado simonia. Que consistia no seguinte: como a indicação dos cargos clericais era frequentemente feita pelo Imperador e pelo povo, acontecia que muitos homens vorazes, querendo ter cargos lucrativos, pagavam ao povo ou ao Imperador para serem indicados para o episcopado, ou então para que um parente ou alguém ligado a ele fosse nomeado Bispo, Abade e até mesmo Cardeal. Chegava-se até o absurdo de subornar os Cardeais e o povo de Roma, para elegerem determinado Papa, comprando assim até a Tiara romana.
Esse processo de escolha não podia deixar de trazer os piores inconvenientes. Através dele, muitas vezes, eram os mais ordinários que assumiam cargos eclesiásticos, dentre os quais estavam pessoas de costumes inteiramente desregrados, que por um lado constituíam um escândalo geral na Cristandade, e por outro um perigoso amolecimento ante as investidas de pagãos.
Estes vinham de todos os lados: os normandos vinham através do mar do Norte, penetravam pelo estreito de Gibraltar e atacavam o Sul da Itália; havia ainda restos de bárbaros que vinham dos países eslavos; e também os maometanos que atacavam por todas as partes.
Neste momento em que a Cristandade precisava lutar especialmente para defender-se, ela se apresentava extraordinariamente debilitada, pela decadência espiritual causada pela simonia.
Por isso, tendo assumido o papado, Leão IX começou a reunir diversos Sínodos e outros tipos de reuniões eclesiásticas, a fim de imediatamente punir e depor os Bispos que tinham tomado o cargo indignamente, nomeando bons para subsituí-los. Isso causava, como é de se esperar, as mais acirradas indignações.
Zelo na defesa dos súditos
Ocupava-se ele com esse árduo trabalho, quando recebeu o aviso de que os normandos estavam por invadir a Apúlia, território do qual o Papa era Rei. Portanto, competia a ele defender seus súditos. Sem hesitação, foi a toda pressa à Alemanha a fim de pedir ao Imperador, seu parente, que mandasse um exército para defendê-lo.
Tendo o Imperador prometido enviar-lhe auxílio, o Papa desceu até a famosa Abadia beneditina de Monte Cassino, uma das mais célebres do mundo, a qual não ficava a muita distância de Roma, e lá permaneceu à espera da chegada do exército imperial. De fato, algum tempo depois chega o exército, porém, para sua surpresa, este era constituído por apenas 500 lorenos. Isto porque o exército imperial, quando chegou próximo aos Alpes, desistiu de descer.
A este punhado de combatentes tinham se incorporado pelo caminho alguns contingentes italianos, aos quais se somaram ainda alguns romanos, que eram senhores feudais da região. Assim constituiu-se o parco exército de resistência. Chegaram, por fim, os normandos, aos quais, apesar da desvantagem numérica, o exército do Papa ofereceu dura resistência que resultou numa tremenda carnificina.
Contudo, os normandos acabaram por vencer a batalha e levaram cativo o Papa, ao qual, devido à dignidade e respeitabilidade de sua pessoa, dispensaram toda forma de honras e cuidados.
Mas de todos os fatos da vida de Leão IX, nenhum me parece tão marcante da aprovação divina ao seu modo enérgico de agir, quanto às circunstâncias de sua morte.
A doce mensageira da felicidade eterna
A doença, doce mensageira da felicidade eterna…
Como é linda esta expressão e contrária ao horror à doença que se tem em nossos dias. Claro que se deve combater a doença, mas com essa resignação deve-se aceitá-la.
…a doença veio anunciar-lhe que sua hora tinha chegado. No dia 12 de fevereiro de 1054, ele celebrou por última vez o Santo Sacrifício da Missa onde dirigiu à multidão uma exortação comovedora.
No dia seguinte, sabendo que sua hora estava próxima, ele quis ser transportado da cidade de Benevento para Roma. Foram os próprios normandos que reivindicaram a honra de levá-lo numa liteira.
Que esplêndida glória ser carregado numa liteira pelo próprio “inimigo”!
Desta forma o Papa voltou ao Palácio de Latrão no mês de abril de 1054, época na qual habitualmente ele reunia o Sínodo dos Bispos das províncias eclesiásticas circunvizinhas de Roma. Ele então as convocou para o dia 17 de abril. Reunidos os Bispos, ele lhes disse: “Eu me recomendo à vossa fraternidade porque o tempo de minha dissolução chegou.”
Esta frase proferida pelo Papa é a reminiscência de uma citação de São Paulo, que manifestava o desejo de ser dissolvido, quer dizer, ter separada a alma do corpo, para subir a Jesus Cristo.
“Na última noite, em visão, a glória da Pátria celeste me foi manifestada. Eu reconheci entre os grupos de mártires aqueles que morreram na Apúlia, para defesa da Igreja.”
Aqueles valentes lorenos que morreram na Apúlia, em defesa da Igreja, os quais eram mártires, estavam à espera que Leão IX fosse juntar-se a eles no Céu.
“Vem, nos disseram eles, e permanece entre nós, porque foi por teu intermédio que nós conseguimos as eternas felicidades. Mas uma voz, ao mesmo tempo, se fez ouvir, dizendo: ‘Não já, mas daqui a três dias somente.’”
No dia seguinte, ele reuniu de novo os Bispos, e sendo posto numa liteira foi conduzido pelos seus fiéis normandos em procissão até à Basílica de São Pedro, onde ele desejava morrer.
Hoje, carne e sangue; amanhã, poeira e cinza
Que lindo cortejo deve ter sido aquele! O Papa carregado numa liteira, os Bispos a seu lado, certamente cantando e portando círios, seguidos por um tropel de normandos armados, todos caminhando rumo à Basílica de São Pedro. Creio que não houve desfile militar que tenha superado em beleza aquela cena.
Prosternado diante da sepultura do Príncipe dos Apóstolos, Leão IX rezou pela Igreja e pela conversão dos pecadores. Assim que terminou, um delicioso aroma, superior ao perfume mais puro, se exalava da sepultura de São Pedro. Era o primeiro Papa manifestando seu agrado diante desse seu digno sucessor. Permaneceu então durante cerca de uma hora em silenciosa contemplação. Bispos, normandos e o povo em grande número estavam a sua volta.
Em certo momento ele mandou trazer pão e vinho. Os abençoou, comeu três pedaços de pão, bebeu um pouco de vinho e distribuiu o resto entre os assistentes. Ninguém comeu. Todo mundo guardou como relíquia os pedaços de pão que ele distribuiu.
Levantando-se então, dirigiu-se para o túmulo que ele mesmo tinha mandado preparar para si na Basílica. Lá, dirigindo-se aos Bispos, disse: “Vede, meus irmãos, como é miserável, frágil e efêmera a glória humana. Que esse exemplo jamais saia de vossa memória. Do nada eu fui um dia elevado ao que há de mais alto; e agora vou ser reduzido novamente a nada. Eu terei como moradia esse cárcere escuro e estreito. Hoje ainda convosco sou carne e sangue. Amanhã serei poeira e cinza.”
Que linda pregação! Qual terá sido a reação dos Bispos e mesmo dos normandos que estavam ao seu redor, vendo aquela cena grandiosa de um homem anunciando sua morte?
Adormeceu com uma calma indizível e acordou no Céu
Todos os assistentes se puseram aos prantos… O Papa então os despediu dizendo: Venham amanhã assistir a meu último suspiro.

São Leão retirou-se ao palácio próximo onde passou toda a noite em oração. Na manhã seguinte, sustentado por dois assistentes, voltou para a Basílica e veio prosternar-se diante do altar-mor. Estendeu-se sobre uma cama que tinham preparado junto ao altar, fez sinal com a mão para impor silêncio e dirigiu ao povo uma última exortação.
Depois, chamou para junto de si os Bispos e fez a confissão de seus pecados. Mediante uma ordem dele, um deles celebrou a Missa e deu a ele a Comunhão. Depois de ter comungado, o Papa disse: “Fazei silêncio, porque parece que eu vou dormir.” Inclinando a cabeça, adormeceu, com uma calma indescritível, para acordar no Céu.
Assim, diante do altar de São Pedro, no dia 19 de abril do ano da graça de 1054, faleceu o Santo Pontífice Leão IX.
Entre aqueles que o assistiam na hora de sua morte estava Hildebrando, que era a uma vez seu inspirador e secretário, e mais tarde viria a ser seu sucessor com o nome de São Gregório VII. Imagine ter como secretário um santo, o qual, a meu ver, foi “o Papa”, não comparando a santidade, mas sim a missão, e o papel na História da Igreja.

Que sublimidade, maravilha e grandeza devia ter aquela cena na qual um santo contempla outro expirar, onde São Gregório VII, ainda moço, permanece ao lado de São Leão IX, rezando até a hora em que a alma dele se desprende do corpo e sobe ao Céu! A contemplação de fatos como este, e o deliciar-se com o perfume das virtudes de um tal santo, constitui um descanso da vida de todos os dias. Assim sendo, resta-nos pedir a São Leão IX que, do alto do Céu, reze e interceda por nós.   
Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferência de 29/10/1974