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sexta-feira, 12 de maio de 2017

São Willehade


Os saxões eram pagãos muito agressivos e frequentemente invadiam as terras dos francos, cometendo crimes e pilhagens. Carlos Magno, numa cruzada em defesa da Religião Católica, atacou-os e derrotou-os. Eles se revoltaram, mas novamente o Imperador venceu-os e lhes impôs um tributo em benefício da Santa Igreja.
        São Willehade, bispo e confessor. Foi o primeiro Bispo de Bremen, diocese criada pelo Imperador Carlos Magno, após suas conquistas. No ano de 788, 21º do seu reinado, Carlos Magno deu àquela igreja um diploma lavrado nos seguintes termos:
        “Em nome de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, Carlos, por vontade da Providência Divina, Rei. Sob o auxílio do Deus dos exércitos, conseguimos uma vitória nas guerras. É só n’Ele que nos gloriamos. E é d’Ele que nós esperamos neste mundo a paz e a prosperidade, e no outro a recompensa eterna.
        Salvem-se, pois, todos os fiéis de Cristo, e os saxões rebeldes aos nossos ancestrais, pela obstinação da perfídia e por um tão longo tempo rebeldes a Deus e a nós, até que os tivéssemos vencido pela Cruz do Senhor, não pela nossa. Por sua misericórdia, nós recebemos a graça do batismo, e os levamos à antiga liberdade, desobrigando-os de todos os antigos tributos que nos devem. Pelo amor d’Aquele que nos deu a vitória, de tributários os declaramos devotamente súditos.
        Como se recusaram a tal presente e o jugo de nosso poder, agora que foram vencidos pelas armas e pela Fé, ficam obrigados a pagar a Nosso Senhor Jesus Cristo e seus sacerdotes o dízimo de todos os seus animais, frutos e culturas.”
Zelo do poder civil para com o poder eclesiástico

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

São Vicente Ferrer

Certa ocasião, quando São Vicente Ferrer entrava em Barcelona — uma das maiores e mais ilustres cidades de seu tempo —, fizeram-lhe uma recepção tão extraordinária que de todas as janelas pendiam tapeçarias em sua honra, o povo o aclamava e ele caminhava debaixo de um pálio, cujas varas eram carregadas pelos principais da cidade. Então, alguém lhe perguntou, baixinho, ao ouvido:
— Irmão Vicente, e a vaidade?
— Esvoaça do lado de fora, mas não entra — respondeu ele.
A resposta de um orgulhoso seria: “Nem sinto tentação.”
E um pusilânime diria: “Pobre de mim, estou inundado de vaidade.”
Este Santo deu a resposta certa: Como homem, posso e estou sendo tentado. Porém, a tentação esvoaça do lado de fora, mas, pela graça de Deus, ela não entra.
De fato, neste vale de lágrimas é normal sermos tentados. A tentação tempera a alma. Quem diz “não” para o demônio sai mais forte, mais pertencente a Nossa Senhora. O servo bom e fiel que foi provado e venceu manifesta a sua fidelidade, faz render na luta os seus talentos, colhe louros e os entrega à sua Senhora.
Somos soldados da Igreja Militante e devemos nos entusiasmar com isso.

Plinio Corrêa de Oliveira – Extraído de conferência de 16/1/1970

domingo, 27 de novembro de 2016

São Carlos Borromeu

São Carlos Borromeu não foi apenas um grande bispo contrarreformista, mas, em algum sentido, o Bispo da Contra-Reforma. Não só por ser um homem de grande preparo e cultura, que irradiou sua sabedoria em seu tempo, mas por ter realizado o modelo perfeito de bispo.
Não basta redigir obras refutando isso ou aquilo. A pessoa precisa ser a personificação, o próprio símbolo, o tipo humano das obras que escreveu. O trabalho que ele realizou, sendo o Bispo da Contra-Reforma e o modelo de bispo, foi de uma eficácia para a Igreja certamente maior do que a dos próprios escritos dele.

Plinio Corrêa de Oliveira -Extraído de conferência de 30/10/1963

domingo, 30 de outubro de 2016

Santo Alberto Magno

Corria o ano de 1223. Nas povoações do norte da Itália anunciava-se de boca a ouvido a chegada de um frade, célebre por suas palavras e obras, que percorria a região para instruir o povo nos mistérios do Reino dos Céus. Cativadas por sua fama de santidade, as multidões se apinhavam nas igrejas para ouvi-lo.
Com efeito, ao falar do púlpito as suas admoestações arrebatavam os fiéis, deixando-lhes uma impressão profunda, um chamado irresistível para abraçar a prática da virtude. Seu nome era Jordão da Saxônia, Mestre Geral da Ordem dos Pregadores e sucessor imediato de São Domingos de Gusmão.
Quando ele ensinava, parecia um embaixador divino. Em seus lábios os temas doutrinários mais intrincados tornavam-se claros, acessíveis e luminosos, ao que se somava um notável dom de atração capaz de mover os ouvintes a abandonar para sempre o pecado. Eram dias de franca expansão da Ordem, que lançava suas raízes, e “o fascínio de São Domingos se transferira para os seus filhos, sem perder a intensidade e o ardor”.1
A uma dessas concorridas prédicas assistia, atento às exortações do sacerdote, certo jovem vindo da Baviera. Encontrava-se na Península para estudar filosofia e artes liberais, na renomada Universidade de Pádua. Todavia, até então nunca conhecera alguém com as qualidades morais do Beato Jordão, alemão como ele.
Ao ouvi-lo sentiu despertar em seu interior o desejo de incorporar-se à nova milícia espiritual de que ele era superior e abraçar o mesmo carisma que animava numerosos religiosos já presentes em vários países da Cristandade. Pouco tempo antes Nossa Senhora lhe aparecera, convidando-o a abandonar o mundo, e agora algo indicava que este era o próximo passo a ser dado.
O nome deste bávaro de pouco mais de 20 anos era Alberto, o qual passaria para a História com o cognome de Magno.
“Sim” incondicional à vocação dominicana

domingo, 16 de outubro de 2016

São Francisco de Jerônimo



Quem se deixa dominar pelo orgulho perde todas as virtudes que eventualmente possua. Mas ao despretensioso todo o resto lhe será dado por acréscimo.
Em 11 de maio comemora-se a festa de São Francisco de Jerônimo, cuja biografia contém os seguintes dados1:
São Francisco de Jerônimo nasceu em 17 de dezembro de 1642.
Grande pregador em Nápoles
Tornando-se jesuíta, seu maior desejo era ser missionário nas Índias e Japão, mas Deus o destinou a evangelizar o reino de Nápoles, trabalho ao qual se dedicou de corpo e alma.
Preparou, para auxiliá-lo, uma confraria de artesãos que se chamou Oratório da Missão; além de outros numerosos trabalhos, seus membros todos os domingos acompanhavam São Francisco em suas pregações pelas ruas e praças de Nápoles. Saíam cantando da Igreja de Gesù Nuovo e, em procissão, dirigiam-se aos locais mais frequentados.
Ao avistarem a procissão, os elementos de má vida abandonavam, sem cólera, o que estavam fazendo.
Francisco subia, então, a um lugar mais elevado e falava ao povo. Começava descrevendo, com energia, os horríveis efeitos do pecado e os castigos que esperavam o pecador.
Quando o temor estava em todos os corações, ele falava sobre a misericórdia de Deus. Depois dizia aos presentes que faria penitência por si e por eles. Ajoelhava-se ante uma cruz e, com o rosto em lágrimas, flagelava-se com uma disciplina de ferro. Não era preciso mais para o povo segui-lo, cheio de arrependimento.
Grande devoto da Virgem, que frequentemente enviava-lhe os pecadores que desejava se convertessem. Tornou-se famoso o caso de um homem, há muito afastado da Igreja, que Nossa Senhora o protegeu por causa do respeito com que saudava as suas imagens. Apareceu-lhe três vezes, ordenando que procurasse Francisco para se confessar.
São Francisco de Jerônimo morreu em 1716, cantando o Magnificat em agradecimento pelas graças que recebera em sua vida.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Santa Marciana

Continuação do post anterior.
Argumento apologético para os séculos vindouros
Alguém dirá: “Dr. Plinio, então o senhor assinala dois pontos: milagres para converter os povos do Mediterrâneo, o perfume da Doutrina Católica e a beleza simbólica desses acontecimentos para atrair as almas a essa Doutrina. Mas por que essa santa, em vez de morrer dilacerada por um touro, não foi protegida por Deus até o fim? E o Criador não deu ordens para o touro liquidar com o governador romano? Não teria sido uma coisa muito mais bonita ver o touro, o leão, o leopardo de repente pularem, como um cavalo alado, por cima da tribuna do governador romano, matá-lo e depois fazer uma chacina e implantar ali o domínio dos católicos? Não seria então, muito antes de Constantino, uma espécie de revanche católica que nos daria as glórias da vitória? Para que tanta gente que morre praticamente sem resistir, tantos milagres que não dão numa vitória que só Constantino veio alcançar?”
Uma pessoa, com muito fundamento, muita razão, muito bom senso, dias atrás me fez essa pergunta. Eu estava apressado, não dei a resposta, mas a dou agora: Uma das provas de que Nosso Senhor Jesus Cristo existiu e de que os fatos narrados pelo Evangelho, são verdadeiros — provas válidas para os homens de hoje, de quinhentos anos atrás, para os homens até o fim do mundo, está precisamente no testemunho dos mártires. Não se tratava apenas de vencer, mas de dar um argumento apologético para os Séculos vindouros. Qual era esse argumento apologético? Os fatos narrados no Evangelho se deram na presença de muitíssima gente. Por sua vez, as testemunhas desses fatos, ou os filhos delas, foram dispersas por todo o Império Romano, pela pressão de Tito à nação judaica. Os inimigos acérrimos dos católicos poderiam alegar que os fatos narrados pelo Evangelho eram falsos, dizendo: fale com esse, com aquele, com aquele outro; eles dirão que isso não existiu, que esses fatos não são verdadeiros.
Havia judeus por todo o Império Romano De mais a mais, muitos deles que ali viviam já não eram propriamente procedentes da Judeia, mas chamados da diáspora, que se tinham dispersado antes de Jesus Cristo. Esses judeus viajavam frequentemente a Jerusalém, o ponto de atração de interesse máximo para eles, e se inteiram das coisas que lá aconteciam.
Todos eles poderiam ter desmentido o Evangelho o que deveria criar nas pessoas que ouvissem os Apóstolos, ou seus seguidores uma dúvida.
Entretanto, os judeus não desmentiam fatos públicos notoríssimos, e isso confirmava os cristãos na Fé. Estes estavam tão certos de que aqueles fatos eram verdadeiros que, como Marciana, deixavamse estrangular, eram as testemunhas vivas da veracidade da narração do Evangelho.
Isso levou um escritor não católico, Pascal, a dizer uma coisa muito verdadeira: “Eu creio no que contam testemunhas que se deixam estrangular.” E é verdade. Essas testemunhas, para provarem que a Religião Católica é verdadeira, se deixavam estrangular. Nenhuma prova melhor da veracidade da coisa do que a estrangulação.
O testemunho dos mártires prova a veracidade do Evangelho
Então, durante muitos séculos e até hoje, uma das melhores provas de que a Religião Católica é verdadeira e de que os fatos narrados no Evangelho são verdadeiros, é o testemunho dos mártires por toda a extensão do Império Romano. Assim, se compreende que a Providência dava a esses homens o apelo para uma forma de heroísmo que correspondia aos desígnios d’Ela naquele tempo e que não era liquidar e vencer, mas aguentar e morrer. Se eles tivessem vencido, dir-se-ia: uma seita venceu. E não se teria um argumento inteiramente seguro. Dessa forma, ficou a prova: milhões e milhões tiveram tanta certeza que eles se deixavam matar. Quer dizer, a prova do sangue foi dada exuberantemente e todas as gerações vindouras creram por causa deles. E é por causa disso que a Providência não os convidou a uma cruzada contra os pagãos, mas, pelo contrário, a essa forma de reação cujo sentido profundo hoje se percebe, e naquele tempo não se percebia.
Fica, então, patente o milagre da Providência Se Ela deu a Santa Marciana a força para derrubar o ídolo, não lhe concederia energias para ir até a tribuna do representante do imperador, do procônsul para esbofeteá-lo jogá-lo no chão, apunhalá-lo, liquidá-lo? É evidente que sim. Para Deus nada impossível. Mas que prova seria para nós a vida de Marciana, se ela tivesse ficado proconsulesa depois? Que prova seria para os séculos futuros? Nenhuma. Era preciso que houvesse dois milagres: primeiro, da resistência contra todos os obstáculos; e depois, em determinado momento, um obstáculo que vem e a respeito do qual Deus não dá mais resistência.
Então, volto a dizer, existem três operações sobre a opinião pública: ela vai e quebra o ídolo; há a provado milagre e a prova do martírio. Essas provas são tão boas que duram até nossos dias.

Plinio Correia de Oliveira – Extraído de conferência de 18/2/1972

sábado, 3 de setembro de 2016

Santa Marciana

  Comentários de Plinio Correa de Oliveira sobre Santa Marciana, virgem e mártir, cujos dados biográficos foram tirados da obra do Abbé Ferrier: La grande fleur de la vie des Saintes.
Ó meu Divino Mestre, vou feliz para ‘Vós!”
     Em Rouzucourt, pequena cidade da Mauritânia, Argélia de hoje, vivia, em fins do século III, uma jovem chamada Marciana, tão piedosa quanto bela, que consagrou muito cedo sua virgindade a Deus e deixou tudo para viver numa cela perto da cidade romana.
     Ora, um dia, a virgem, inspirada sem dúvida pela voz do Senhor, saiu de sua cela e veio se misturar à multidão que circulava na cidade agitada por uma viva emoção, porque corriam os dias sangrentos da perseguição desencadeada no mundo inteiro pelo ímpio Diocleciano.
     Marciana, chegando pela porta Tipásia, viu colocada numa praça uma estátua de mármore da deusa Diana. Aos pés da deusa corriam águas límpidas num tanque também de mármore.
     A intrépida virgem não pode suportar a visão do ídolo impuro. E tendo primeiro lhe quebrado a cabeça, fez depois o ídolo em mil pedaços. Uma multidão furiosa se lançou sobre ela e a maltratou horrivelmente. Depois a arrastaram ao pretório, perante o juiz imperial.
     A altiva cristã riu-se dos deuses de pedra e de madeira e gloriou-se de adorar o Deus vivo e O exaltou no templo com voz eloquente. O juiz pagão irritou-se e entregou-a aos gladiadores para que servisse de joguete a infames ultrajes. A virgem permaneceu serena e sem medo. Durante três horas, com efeito, Deus a defendeu no meio desses brutos, atacados de terror e imobilidade. Pela oração da angélica mártir, um deles se converteu a Jesus Cristo.
     O tirano, confuso, redobrou seu ódio ímpio, e não podendo desonrar a virgem cristã, condenou-a a ser estraçalhada por animais ferozes. Marciana, quando chegou a hora, caminhou para a arena como para uma alegre festa, bendizendo a Jesus Cristo. Amarraram-na ao local do suplício e contra ela foi lançado um leão furioso que logo se atirou sobre a vítima, ficou de pé e colocou suas garras sobre seu peito. Depois, afastou-se bruscamente e não a tocou mais.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

São Tomás de Aquino

Nos últimos dias de sua vida, estando hospedado em uma Cartuxa, São Tomás de Aquino fez um comentário ao “Cântico dos Cânticos”, Livro da Bíblia que canta o amor divino.
Ele, que era o Anjo das Escolas, morreu ensinando a perfeição do amor de Deus a esses religiosos, almas puríssimas, todas feitas para o amor de Deus, cuja função não é tanto de meditar sobre a ciência quanto sobre a caridade, suscitadas para se separarem de tudo no mundo e viverem apenas pensando no divino amor.
Que bela cena: as últimas palavras de São Tomás de Aquino engrandecendo o amor de Deus, e aqueles monges reverentes, bebendo aquelas palavras como se cada um sorvesse uma gota descida do Céu!
Assim se fechou, no extremo da contemplação e do isolamento de todas as coisas do mundo, a vida desse grande Doutor da Igreja.

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 6/3/1967

terça-feira, 26 de julho de 2016

A espera de São Joaquim e Santa Ana

Segundo a tradição, Santa Ana concebeu Nossa Senhora de São Joaquim quando já era muito velha, fora da idade de ter filhos. Quando eles já tinham passado a época em que esperavam ter filhos.
Para cada judeu era muito importante ter filho, porque era possível que o filho de qualquer judeu fosse o Messias, e a finalidade deles não era só por ter filhos, mas era ter filhos dos quais um pudesse ser o Messias. Eles que desejavam tanto a vinda do Messias, deveriam legitimamente desejar que nascesse deles.
Provavelmente ─ isso acrescento eu ─ eles receberam comunicações de ordem mística ordinária ou extraordinária, de que o Messias nasceria deles. E os anos passam, os anos passam, os anos passam, a promessa lá está, a promessa lá está, a promessa lá está, e não vem, não vem, não vem!
O martírio da espera pode ser pior que o do campo de batalha
Eu acho que um martírio desses pode ser pior do que o martírio no campo de batalha! Porque o que é o escoar dos dias, e dos dias, e dos dias, e a coisa não vem, a coisa não vem, a coisa não vem ─ é uma coisa do outro mundo!
Bem, afinal, surpresa! Santa Ana comunica ao esposo que ela tinha concebido uma criança. Bem, então é o Messias! Há uma promessa de que o Messias nasceria deles! Então é o Messias. Nasce... é uma Menina!
Podem calcular o que isso representa? Então, todas aquelas promessas são vãs? Toda aquela esperança é vã? Não se pode admitir isso. Mas Deus levar as coisas a este ponto, de fazer nascer uma menina, depois de uma tão longa promessa? Parece quase uma brincadeira, da qual a santidade dEle é incapaz! Então, como explicar isso?
A menina se desenvolve, e é uma torrente de maravilhas! É uma menina como eles nunca imaginaram! Digna filha de uma tal espera. Mas, para ter como descendente o Messias, era preciso ser por via masculina. Não se computava, para o Messias, a descendência por via feminina. Então, se essa menina única, incomparável, casa-se, o filho dEla não será o Messias descendente de São Joaquim e de Santa Ana.
Estão vendo a complicação da coisa. Bem, vamos adiante. A coisa toca mais para frente. A menina visivelmente tocada pela graça, comunica aos pais que é desejo de Deus que ela seja sempre virgem. E eles veem na menina que esse é o desejo de Deus. Não podem duvidar. Mas, então, o quê? Uma promessa, uma longa espera, uma aparente realização ─ um bolsão que fecha a realização: o próprio Deus chama essa menina a ser sempre virgem.
Logo, a promessa no que é que fica? Deus parece ter prometido e ter retirado. Vamos esperar, vamos esperar, vamos esperar.
Bem, vai mais para frente o assunto. Em certo momento apresenta-se São José para casar com Ela. Parente dEla, ambos eram da Casa de David, sumamente puro, digno, composto, homem simples... São Joaquim e Santa Ana não eram riquíssimos, mas bem abastados. São José, pelo contrário, pobre, era um mero carpinteiro. Não é o que o mundo chama de um casamento brilhante. Ele se apresenta para casar, mas ele sabe que ele também tem uma promessa de ser, ele mesmo, sempre virgem. E que Deus pediu a ele. Em certo momento Deus diz a ele: case, sem deixar de ser virgem! E diz a Nossa Senhora: - Case com esse homem, e não deixe de ser virgem!
Mas quando São José recebe a comunicação que ele deve casar-se, a esperança da virgindade no que é que fica? Será que ele faltou em alguma coisa, e Deus já não quer como lírio dele entre os homens?
Até eles se entenderem sobre esse assunto, e os dois compreenderem que misteriosamente a Providência quer que ambos fiquem virgens, até isso, que complicação, que problema! E, com certeza, Nossa Senhora contava tudo para Santa Ana e São Joaquim: isto está assim, aquilo está assado, etc., etc.
Afinal, casam-se. Está muito bem, a virgindade respeitada por ambos, um lar pequeno mas perfumado por todas as virtudes possíveis!
Os paradoxos: S. José deve se casar com Nossa senhora, apesar das respectivas promessas de virgindade
José deve se casar com Nossa senhora, apesar das respectivas promessas de virgindade
Em certo momento São José percebe o que ele jamais na vida cria ter percebido: Nossa Senhora está com uma criança. Não sei se percebem que espera é essa, cheia de ziguezagues, cada uma mais terrível do que a outra!
Bom, pela lei judaica, se Ela prevaricasse, ele tinha obrigação de mandá-la embora de casa. Mas ele sabia que Ela não podia prevaricar. Ele a conhecia, sabia: esta alma não faz isso! Como é isso? Nossa Senhora vê o sofrimento de São José, e percebe que Ela não pode dizer a São José uma palavra. Se Ela falasse do Angelus, se Ela explicasse, o mistério estaria terminado e concluído, o problema do Messias estaria altamente resolvido.
Mas não é assim. E então São José resolve ausentar-se. Pergunta a Deus, não recebe nenhuma comunicação, fica num mistério cada vez mais pesado. Percebe que o processo da gestação vai para frente, e que ele não pode assistir a essa gestação. Inocente contra toda a evidência! Mas, é um mistério...
 O mistério se desvanece, um anjo conta a S. José
Podem imaginar o alívio dele quando, em sonho, um anjo conta para ele! No dia seguinte, quando ele amanhece, Nossa Senhora que talvez tenha passado a noite em claro, o vê, e o vê sereno, tranquilo, contente, ser para com Ela mais reverente do que tudo. Porque ele compreende que a Esposa dele é um tabernáculo onde o próprio Espírito Santo deu origem ao Filho de Deus, e que ali está o Messias, esperado das nações, esperado da Casa de David, esperado de São Joaquim e de Santa Ana, esperado dele! E que ali se realizou de modo super maravilhoso o que nunca se poderia imaginar. Mas as promessas não falham!
Como são os caminhos de Deus: quanto mais se espera, mais altíssimo será o que vem!
Plinio Correa de Oliveira - Extraído de uma conversa em 1988, sem revisão do autor.


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Santo Antão

Em sua mocidade, Santo Antão era muito rico. Quando tinha 18 anos, seus pais morreram, tendo ele herdado enorme fortuna. Certo dia, ele caminhava para uma igreja, meditando sobre a vantagem de se despojar dos bens terrenos a fim de seguir mais de perto a Nosso Senhor. Ao entrar no templo, encontrou o sacerdote fazendo um sermão sobre o moço rico do Evangelho, o qual recusou o chamado de Nosso Senhor por não querer abandonar tudo quanto possuía.
Diante disso, Santo Antão tomou a seguinte resolução: “Eu serei o moço rico que vai dizer sim para Cristo; o convite d’Ele não ficará sem uma resposta afirmativa; darei o que o outro não deu.” E entregou tudo, foi para o deserto e tornou-se um gigante do eremitismo antigo.

 Plinio Corrêa de Oliveira – Extraído de conferência de 7/3/1970

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

São Gregório Magno

São Gregório Magno foi um dos fundadores da gloriosíssima Idade Média. Pois, de fato, pode-se dizer que todos os problemas daquele tempo passaram pela mente desse grande homem. Ele os analisou e os enfrentou, deixando escritos que são verdadeiros pilares do pensamento medieval.
Quer enquanto simples diácono ou sacerdote, quer depois de ser elevado ao Pontificado, em todos os traços sua vida foi admirável, voltada inteiramente para o sentir da Igreja Católica e da Civilização Cristã.
Ele, de algum modo, acabou de fechar a última réstia da porta que nos separava da Antiguidade pagã; e, por outro lado, abriu a porta para a idade nova que ia nascer.

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 11/3/1967

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Santo Estevão

Após comemorar as radiantes alegrias do Natal, a Igreja celebra em 26 de dezembro a memória de Santo Estêvão, seu primeiro mártir. O holocausto desse extraordinário herói da Fé é assim narrado pelos Atos dos Apóstolos:
Naqueles dias Estêvão, cheio de graça e de fortaleza, fazia prodígios e grandes milagres entre o povo. Ora, alguns da sinagoga, chamada dos libertos, dos cirenenses, dos alexandrinos e dos que eram da Cilícia e da Ásia, levantaram-se para disputar com ele. Mas não puderam resistir à sabedoria e ao Espírito que o inspirava. (...)
Tendo ouvido seu discurso, seus corações foram feridos pelo ódio e eles rangiam os dentes contra ele. Mas Estêvão, que estava cheio do Espírito Santo, tendo elevado os olhos ao Céu, viu a glória de Deus e Jesus, de pé, à direita de Deus, e disse: “Vejo os Céus abertos e o Filho do Homem à direita de Deus”.
Eles levantaram então grandes gritos, taparam os ouvidos e se atiraram todos contra ele. E arrastando-o para fora da cidade, lapidaram-no. E as testemunhas depuseram seus vestidos aos pés de um homem chamado Saulo. E lapidaram Estêvão que rezava e dizia: “Senhor Jesus, recebei meu espírito”. Depois, tendo ajoelhado, gritou com voz forte: “Senhor, não lhes imputeis esse pecado”. E dizendo isso, adormeceu no Senhor.
Prodígios que suscitam o ódio dos maus
A narração é de extrema beleza, e cada frase mereceria um comentário próprio, pois a cena se desenvolve em lances sucessivos, com significados peculiares.
O primeiro fato é que Estêvão opera maravilhas, definidas pelo Livro Sagrado com uma linguagem tão cheia de imponderáveis que nos deixa encantados. Logo no início encontramos uma bonita expressão, empregada para indicar a virtude do santo: cheio de graça e de fortaleza.
Quer dizer, era um homem na plenitude do vigor — não só de ânimo, mas também do sobrenatural, da graça que atua nele —, realizando prodígios e milagres entre o povo. Ora, à vista desses feitos espetaculares, a pertinácia dos que desejavam perseguir Estêvão é bem apontada pelos Atos dos Apóstolos: tomados de ódio, levantaram-se para discutir sofisticamente com ele e atacá-lo. É o segundo lance.
Porém, seus opositores não puderam resistir à sabedoria e ao Espírito com os quais Estêvão falava. De modo que, depois de ter operado prodígios, ele também argumentou de maneira maravilhosa, confundindo completamente os maus e os deixando sem palavras para lhe replicar. E estes que odiavam os milagres, detestaram ainda mais os seus argumentos.
Trata-se, portanto, de uma ira crescente, à medida que Santo Estêvão vai manifestando as excelências depositadas por Deus em sua alma. Como se viu, a primeira manifestação dessa grandeza maravilha são seus feitos prodigiosos, contra os quais se declarou a sanha dos adversários, em forma de discussão. Tendo o santo argumentado de forma irretorquível, aumenta-lhes o rancor — gratuito, em relação ao bem enquanto bem.
Outra não é a razão dessa raiva. Enganado estaria quem pensasse ter ela eclodido porque Santo Estêvão foi inábil, porque cometeu algum equívoco ou porque não entenderam algo do que disse.
Eles compreenderam perfeitamente, deram-se conta das maravilhas que Estêvão operava e ouviram argumentos contra os quais não tinham respostas. Então o odiaram, porque era bom e sem erro.
É semelhante, aliás, o procedimento de muitos fautores do mal. Atacam o bem e a verdade, porque não podem suportá-los. E quanto maior a manifestação da verdade e do bem, tanto maior o ódio que suscita nos maus. Esses que se mostraram hostis a Santo Estêvão eram da mesma laia dos que decidiram a morte de Nosso Senhor, dos que preferiram Barrabás ao Cordeiro imaculado. O ladrão, o facínora, foi considerado mais simpático, mais atraente e agradável do que Nosso Senhor, por causa do amor ao mal.
Nesses episódios se patenteia a iniquidade e a malícia do pecado daqueles aos quais a Escritura chama de “filhos das trevas”, dos que cometem a falta, não por fraqueza ou debilidade, mas scienter et volenter. Daqueles que aborrecem o bem que não observam e se comprazem com o mal que praticam, e professam uma doutrina má em virtude da qual detestam a boa causa por sabê-la benéfica.
Santo Estêvão teria sido imprudente?
Prosseguindo, a narração sagrada nos evoca a atitude de Santo Estêvão que, “tendo elevado os olhos ao Céu, viu a glória de Deus e Jesus, de pé, à direita de Deus, e disse: ‘Vejo os Céus abertos e o Filho do Homem à direita de Deus’.”
É interessante fazer aqui uma composição de lugares, e imaginar o modo como Santo Estêvão externou essa magnífica afirmação. Há de ter sido de maneira tal que os ouvintes perceberam toda a sua veracidade, e viram que ele tinha razão. Reluzia nele um tamanho reflexo daquilo que dizia, uma superior evidência da autenticidade do que falava, que suas palavras eram irrecusáveis!
O fato nos faz recordar outro, ocorrido no século XIX, e comentado por Dom Chautard. Conta este que um advogado esteve em Ars para assistir a um sermão de São João Batista Vianney. Depois, ao ser interrogado por seus amigos acerca do que presenciara naquela cidade, exclamou: “Vi Deus num homem”.
Ora, se isso se deu com São João Vianney, imaginemos como Santo Estêvão, no momento do seu êxtase, estaria transbordando de sobrenatural! Foi um resplandecer de graça mística tão imenso que seus perseguidores não puderam suportar, e cresceram em ódio a ponto de resolver matá-lo.
Poder-se-ia perguntar se Santo Estêvão não foi imprudente, enfrentando desse modo a ira dos maus. Não agiria melhor se tivesse ido embora, sem forçar, por assim dizer, aquela gente a cometer um assassinato sacrílego? Pelo contrário, ele cada vez se afirmava mais, aumentando a raiva dos seus contendores, até que chegaram ao homicídio. Este crime não ocorreria, e Estêvão não perderia sua vida de apóstolo, se fugisse. Então, não procederia de forma mais sapiencial se ficasse quieto e procurasse escapar?
A primeira resposta a essa pergunta, encontramos na própria Escritura: Santo Estêvão estava cheio do Espírito Santo. Portanto, agia corretamente, sob a inspiração divina. O fato é que ele se achava engajado numa luta cujo desfecho era incerto. Nessa pugna, tentava ele com insistência penetrar naquelas almas, por meio de uma nova maravilha que operava. Para comovê-las e conquistá-las, ele foi afirmando verdades sempre mais elevadas. Quando atingiu o ápice de seu apostolado, seus interlocutores, empedernidos no recusar o que Santo Estêvão dizia ou fazia, cometeram o assassinato.
O método apostólico que ele empregou foi perfeito. Procurou tocar aqueles corações, iluminar aquelas inteligências. A cada rejeição, ele respondia com uma misericórdia maior, deixava transbordar de seu íntimo uma graça mais intensa, exprimia um argumento mais fulgurante, realizava um prodígio mais admirável. Até o ponto em que eles recusaram tudo. Sua atitude foi altamente sábia e apostólica. Ele poderia ter convertido aqueles homens se estes tivessem aberto suas almas ao efeito da acção salutar da santa vítima.
Porém, não quiseram ceder à bondade e à virtude de Estêvão. Ergueram-se contra ele e só açaimaram quando perpetraram o ignominioso assassinato.
A morte plácida dos justos
Cometeram-no — descrevem os Atos dos Apóstolos — depois de lançar grandes gritos e “tapar os ouvidos”, como se costumava fazer diante de alguém que proferisse uma blasfêmia. E num ódio que movia a todos, atiraram-se contra Santo Estêvão, apedrejando-o mortalmente.
E pode-se bem imaginar que a sanha dos malfeitores crescia, à medida que o primeiro mártir da Igreja tomava atitudes cada vez mais sublimes, enquanto as pedras caíam sobre ele.
Um curioso detalhe salientado pela Escritura é que “as testemunhas depuseram seus vestidos aos pés de um homem chamado Saulo”. Saulo, o futuro São Paulo, naquele tempo fariseu e encarniçado perseguidor dos cristãos.
A vida de Santo Estêvão vai se extinguindo sob a brutalidade da lapidação.
Procuremos imaginar a cena maravilhosa. Ele, qual segundo Cordeiro de Deus, olhos voltados para o céu, ferido e deitando sangue por todo o seu corpo, com contusões horrorosas, faz apenas esta oração: “Senhor Jesus, recebei o meu espírito! Senhor Jesus, recebei o meu espírito!”
Que extraordinária impressão essa atitude devia causar nas almas boas!
E depois, “tendo ajoelhado, gritou com voz forte: Senhor, não lhes imputeis esse pecado!”
Então, a primeira prece — “Senhor Jesus, recebei meu espírito” —, ele a disse de pé. Mas, é natural, vergado pela violência das pedradas, não pôde mais se manter ereto. Caiu de joelhos, e nessa postura tão supremamente conveniente para a oração, ele pediu a Nosso Senhor que não lhes imputasse aquele pecado. Ou seja, ainda com voz forte, rogava o perdão para os seus próprios agressores.
No auge da tragédia, ele tem uma frase de uma simplicidade e de uma serenidade sublimes.
“E dizendo isso, adormeceu no Senhor.”
Tudo acabou, e veio a morte plácida dos justos. A tormenta se tinha transformado num sono, o martírio estava consumado, ele estava dormindo em Deus. Ao exalar o último suspiro, aquele homem todo ensanguentado, certamente terá tido uma expressão de fisionomia tranquilíssima. Sua alma subia ao Céu.
Como esse martírio é digno de ser o primeiro da história da Igreja, exemplo para os demais holocaustos dos que morreram testemunhando sua Fé em Cristo Jesus, Senhor nosso!