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sábado, 9 de abril de 2016

Santo Eulógio

Em todas as perseguições sofridas pela Igreja, existiram duas correntes entre os católicos: a do heroísmo e da acomodação. Santo Eulógio, mártir, lutou valentemente contra os acomodatícios, tendo uma forma de coragem mais meritória do que a própria coragem do martírio.
A respeito de Santo Eulógio, diz o Martirológio Romano: Santo Eulógio foi presbítero e mártir, e na perseguição dos sarracenos foi açoitado, esbofeteado e degolado à espada, em consequência de sua intrépida e gloriosa confissão de Cristo. Foi quem descreveu o martírio de vários santos de Córdoba, durante esta cruel perseguição. Século IX.
Perseguido pelos muçulmanos e pelos cristãos acomodados
Em Rohrbacher 1 encontram-se os seguintes dados biográficos sobre este Santo:
No ano de 850, desencadeou-se em Córdoba violenta perseguição muçulmana contra os cristãos. Dentre as várias vítimas destaca-se o sacerdote Eulógio, pertencente a uma das famílias mais consideradas da cidade, e que escreveu os combates gloriosos daqueles que morreram pela fé. Será o defensor de vários cristãos que se apresentaram voluntariamente ao martírio, e por isto foram criticados como temerários.

domingo, 21 de abril de 2013

São Damião de Veuster


Pai e servo dos leprosos

De antecâmara do inferno, a Ilha de Molokai transformou-se no cenário de uma extraordinária história de heroísmo. Tudo começou quando em suas praias desembarcou um missionário decidido a entregar a vida pelas vítimas da lepra.
O flagelo da lepra atravessou a História como um dos símbolos mais expressivos de infelicidade, desolação e abandono. Poucos infortúnios parecem ter representado, até os nossos dias, um auge de desgraça como o provocado por esta enfermidade que as atas médicas de todos os tempos e lugares registram com descrições dramáticas, difíceis de serem concebidas mesmo pelas imaginações mais inventivas.
Precedida por um longo e silencioso período de incubação, a lepra só se manifesta quando já é um mal estabelecido, através de alguns indícios prenunciativos dos tormentos que se aproximam: insensibilidade da pele à temperatura e à dor provocada por contusões, além de manchas espalhadas pelo corpo. Aos poucos ela avança: as nódoas transformam-se em úlceras purulentas, os membros afetados se entumecem e podem vir a cair, e todo o corpo passa a ser uma chaga, de odor nauseabundo. No estágio mais avançado, ataca os nervos ou algum órgão vital, debilitando as vítimas até levá-las à morte.
Durante milênios, esta moléstia acometeu representantes de todas as classes sociais e ceifou elevadas porcentagens de populações, sem qualquer perspectiva de cura. A descoberta de tratamentos eficazes, que reverteram seus efeitos e trouxeram soluções efetivas, deu-se apenas no século XX.
A "Ilha Maldita"
Fortemente afetado pela doença, o Arquipélago do Havaí presenciou episódios cruéis no decorrer da segunda metade do século XIX. A lepra ali atingiu uma proliferação alarmante, pois muitos nativos polinésios não possuíam resistência à bactéria. Atônito perante um mal crescente que escapava à sua capacidade de coerção, o governo não encontrou outro remédio senão segregar os enfermos num local isolado, visando evitar a contaminação. O nome da ilha escolhida para tal fim, hoje célebre pelos feitos que passaremos a narrar, ficou conhecido no mundo inteiro como sinônimo de tragédia: Molokai.
No ano de 1866 as autoridades havaianas começaram a deportar os leprosos para a península de Kalaupapa, localizada ao norte de Molokai. Neste recanto de privilegiada beleza natural, isolado do resto da ilha por rochedos intransponíveis, foram estabelecidos os vilarejos de Kalawao e Kalaupapa, que começaram a receber um número cada vez maior de leprosos provenientes de todo o Arquipélago. Ao cabo de alguns anos eles seriam oitocentos, chegando a mais de mil em algumas épocas.
A narrativa do que ali se passou desde então corresponde mais à descrição de um pesadelo do que à da vida numa ilha paradisíaca. No entanto, eis a rigorosa verdade histórica: após uma captura traumática, na qual com frequência se fazia uso da força para vencer a inconformidade dos enfermos e de suas famílias, eram eles desembarcados na colônia, e ali viviam na mais completa carência material e espiritual.
"Os suprimentos esgotavam-se em questão de horas, os moribundos agonizavam ao ar livre, os cadáveres permaneciam insepultos. Não havia sequer um simulacro de ordem pública; era um espetáculo de devassidão e licenciosidade inacreditáveis, representado ao som ininterrupto e ignorado dos estertores dos moribundos".1 Os recém-chegados eram recebidos por moradores antigos que se apressavam em fazer- lhes uma sinistra comunicação: "Aole kanawai ma keia wahi - Não há lei neste lugar".2 Todas as tentativas de intervenção governamental - que, aliás, foram ínfimas - fracassaram perante a enormidade de problemas daqueles homens debilitados, imersos num misto de revolta, desespero e ódio.
Uma sentença de martírio
A Santa Igreja Católica, na pessoa do Bispo Dom Luís Maigret, observava com pesar essa realidade tão contrária ao espírito do Evangelho, perguntando- se o que fazer para reverter o quadro. A existência de tantas ovelhas tresmalhadas fê-lo convocar alguns sacerdotes do Havaí aos quais expôs a questão de Molokai. Após deixar claro que não exigiria de nenhum deles o sacrifício de ali se encerrarem, mostrou-lhes o quanto o bem daquelas almas abandonadas reclamava uma assistência religiosa. Para sua surpresa, apresentaram-se voluntariamente quatro padres para a terrível missão, entre eles um belga chamado Damião de Veuster.
Este missionário de 33 anos era, sem sombra de dúvida, o mais indicado para a tarefa. Nascera no vilarejo flamengo de Tremelo, filho de camponeses fervorosos que ofereceram quatro de seus oito filhos para o serviço da Igreja. José, o caçula, havia escolhido o nome de Damião ao ingressar na Congregação dos Sagrados Corações. Sua resolução de seguir o chamado de Deus deixara uma ponta de decepção no pai, o qual via nele seu sucessor nos negócios familiares, pois era um jovem "hábil e inteligente como quatro".3
Fiel ao apelo da graça, ingressou no noviciado, fez os estudos eclesiásticos e partiu aos 25 anos para o Havaí, onde foi ordenado presbítero.Quando se ofereceu como voluntário para Molokai, contava já com oito anos de uma fecunda e bem-sucedida experiência evangelizadora entre os nativos.
Dom Maigret aceitou seu oferecimento sem externar um pensamento inevitável: essa resolução equivalia a uma sentença de martírio. Ainda mais admirado com aquele missionário cuja intrepidez conhecia, quis acompanhá-lo pessoalmente à “Ilha Maldita”, aonde chegaram em 10 de maio de 1873. Ali o zeloso Prelado soube encontrar palavras adequadas para transmitir aos leprosos, na língua nativa, a notícia que ia transformar suas vidas: “Até agora, meus filhos, vocês estiveram abandonados e sem ajuda nenhuma. Mas não será mais assim; trouxe-lhes alguém que será como um pai, alguém que os ama tanto que, pelo bem-estar de todos e pela salvação de suas almas imortais, não hesitou em tornar-se um de vocês, a fim de viver e morrer aqui”.4
Brilha uma nova esperança
Iniciou-se assim uma aventura como poucas vezes se escreveu, baseada na coragem de um homem que soube enfrentar o sofrimento multiplicado pelo sofrimento.
Seu primeiro ato na ilha foi celebrar a Missa numa pequena Uma sentença de martírio capela inacabada. Dois leprosos se aproximaram com timidez, assistiram ao Santo Sacrifício e lhe pediram em seguida para atender um moribundo, que acabou expirando pouco depois nos braços do sacerdote.
Com a alma dilacerada perante tanta miséria, padre Damião logo se deu conta do quanto havia por fazer. Em primeiro lugar administrar os Sacramentos, mas também, ao mesmo tempo, suprir a falta de água, de alimentos, de remédios e até de cemitério. Precisou solucionar um problema ainda mais grave: a apatia dos leprosos, que haviam perdido a vontade de viver.
“Mais ainda que esse renascimento material, o que a presença do padre Damião operou no inferno de Molokai foi a ressurreição moral”.5 E o próprio Santo explica o segredo deste resultado: “Bondade para todos, caridade para os necessitados, mão amiga para os sofredores e moribundos, tudo isso somado a uma sólida formação religiosa aos meus ouvintes: estes têm sido meus invariáveis recursos para introduzir hábitos morais entre os leprosos”.6
“O que me mantém aqui é Deus e a salvação das almas”
Se quisermos descobrir a fonte de seu ânimo para levar adiante essa empresa humanamente inviável, teremos de reconhecer que seu extraordinário amor ao próximo o movia a agir assim e lhe dava forças para suportar os padecimentos daí decorrentes. Ora, esse amor dirigia-se a Deus em primeiro lugar, pois, como ensina São Tomás de Aquino, "o amor ao próximo não é meritório senão por amá-lo por causa de Deus".7 Em passagem anterior, explicara o Doutor Angélico: "A razão de amar o próximo é Deus; pois o que devemos amar no próximo é que ele esteja unido a Deus. Fica, portanto, claro que o ato pelo qual Deus é amado é da mesma espécie daquele pelo qual se ama o próximo".8
Num de seus escritos, São Damião revela esta impostação interior, ao comentar o desejo que tinha de salvar os enfermos: "Seu aspecto é horrível, mas têm uma alma resgatada pelo preço do adorável Sangue de nosso Divino Redentor. Também Ele, em sua divina caridade, consolou os leprosos. Se não posso curá-los como Ele, ao menos posso consolá-los e, pelo santo ministério que em sua bondade me confiou, espero que muitos deles, purificados da lepra da alma, se apresentarão ante seu Tribunal de modo a poderem entrar na comunidade dos Bem-aventurados".9
É inegável que viver solitário naquele local de tormentos pesava-lhe muito, como ele próprio reconheceu: "Ainda que me oferecessem todos os tesouros da Terra, não permaneceria cinco minutos mais nesta ilha. O que me mantém aqui é apenas Deus e a salvação das almas".10 A virtude prevalecia sobre as inclinações da natureza, com efeitos que podiam ser notados inclusive no seu modo de tratar os enfermos. Comovedoras são as palavras de certo leproso, pronunciadas num improvisado discurso de agradecimento ao Bispo, por ter-lhes enviado o missionário: "Ele cumula-nos de cuidados e carinho. É ele que constrói as nossas casas, e quando um de nós cai doente, dá-nos chá, biscoitos e açúcar, e aos pobres dá roupas".11
Uma colônia totalmente renovada
Com o passar do tempo, a atividade apostólica desse incansável homem de Deus em Molokai alcançou resultados que despertaram admiração no mundo inteiro. Cuidou praticamente sozinho de 3.137 leprosos, dos quais 2.312 faleceram e foram sepultados por ele. Antes de receber qualquer auxílio, construiu 300 cabanas e fez dois mil caixões com as próprias mãos. Transcorridos 11 anos de atividade, a colônia estava totalmente renovada.
Durante todo esse tempo, o Santo mantinha sua atenção voltada para as necessidades dos seus queridos doentes, e, conforme ia adquirindo experiência no acompanhamento da enfermidade, parecia vislumbrar a chegada de remédios eficazes contra ela. "Padre Damião não havia desanimado quanto à descoberta da cura da lepra. 'Mas, até onde sei, ela ainda não foi encontrada', disse. 'Quem sabe se, pela incansável perseverança dos médicos, isso acontecerá num futuro próximo'".12
Com efeito, menos de 50 anos após a sua morte a ciência encontrou os meios para deter a ação do bacilo Mycobacterium lepræ, descoberto pelo norueguês Gerhard Hansen, ainda nos dias de Damião.
Algo, porém, era previsível. Embora todos os habitantes da "Ilha Maldita" procurassem afastar tal pensamento, cedo ou tarde o missionário também seria atacado pela doença.
"Nós, os leprosos"
Certo dia, ao deixar cair acidentalmente uma chaleira de água sobre os pés, não sentiu dor alguma... Era o sinal inequívoco de que contraíra a lepra!
Na homilia do domingo seguinte, assim dirigiu-se aos fiéis para dar-lhes a notícia: "Nossa verdadeira pátria é o Céu, para onde nós, os leprosos, estamos certos de ir muito em breve [.]. Lá não haverá mais nem lepra nem feiúra, e seremos transfigurados".13 A temida doença, que em qualquer outro causaria aflição e talvez desespero, nesse ministro de Deus operou "uma profunda transformação. Sem descuidar de suas atividades, respondeu aos avanços da lepra com um maior aprofundamento espiritual".14
Ao longo de cinco anos caminhou rumo ao seu calvário, com doçura e mansidão, apenas implorando a Deus que não o deixasse morrer antes de estar assegurada a continuidade da assistência aos leprosos. E sua oração foi ouvida: "Como num conto de fadas, os últimos dias de Damião iluminaram-se subitamente. As nuvens de desespero e solidão que havia séculos pesavam sobre a lepra começaram a dissipar-se e o mundo finalmente se apercebia da existência e das necessidades dos leprosos. Era como se todos os sonhos desse sacerdote Ao longo de cinco anos caminhou com doçura e mansidão rumo ao seu calvário solitário tivessem recebido uma confirmação explícita por parte São Damião em 1888, um ano antes da Providência: juntamente com da sua morte os que haveriam de sucedê-lo, começaram a chegar também donativos e mensagens de solidariedade de todo o mundo”.15
Ao amanhecer de 15 de abril de 1889, segunda-feira da Semana Santa, ele rendeu serenamente sua alma a Deus. Inconsolados, os leprosos vieram entoar seus cânticos e despedir-se desse sacerdote tão amado, ao qual tanto deviam. Ao mesmo tempo, reinava grande paz nas exéquias, pois todos sabiam que Kamiano fora, como havia desejado, passar a Páscoa junto a seu adorado Salvador, e estaria à espera deles no Céu.
A doação de si levada a um limite inimaginável
O caso de São Damião não é único, pois não faltam na Igreja mártires da caridade movidos por disposições tão louváveis quanto as dele. Entretanto, o número de adversidades que, junto com o drama da lepra, recaíram sobre seus ombros como uma cruz de proporções descomunais, suscita uma estima toda especial.
Levar a doação de si mesmo a esse limite inimaginável, movido apenas pelo amor a Cristo e às almas, comprova a sinceridade do seu desejo de servir a Deus e à Santa Igreja e desperta nos outros, até nos não católicos, sentimentos de intensa admiração. Certo pastor anglicano, ao enviar uma vultosa doação por ele arrecadada para as necessidades dos leprosos de Molokai, escreveu-lhe: "Seu exemplo é mais eficaz para obter conversões à sua própria Igreja do que todos os sermões que ouvi em minha vida".16
Em 2009 o Papa Bento XVI inscreveu seu nome no Catálogo dos Santos. Essa canonização foi motivo de contentamento para todos quantos algum dia tomaram contato com sua história e aguardavam que lhe fosse dada essa coroa. Embora não tenhamos sido chamados a cuidar das vítimas da lepra, seu exemplo anima cada um de nós a sermos mais generosos no cumprimento da respectiva vocação, a compreendermos que "a Deus devemos dar tudo, absolutamente tudo, e depois de ter dado tudo ainda devemos dar nossa própria vida".17
1FARROW, John. Damião, o leproso. São Paulo: Quadrante, 1995, p.82.
2CLIFFORD, Edward. Father Damien and others. London: Church Army, [s.d.], p.30-31.
3GONZÁLEZ CHAVES, Alberto José. Beato Damián José de Veuster. In: ECHEVERRÍA, Lamberto de; LLORCA, Bernardino; REPETTO BETES, José Luis (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2003, v.IV, p.312.
4 FARROW, op. cit., p.92.
5 DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja das Revoluções. Um combate por Deus. São Paulo: Quadrante, 2006, v.IX, p.512.
6 CLIFFORD, op. cit., p.29.
7 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.27, a.8.
8 Idem, q.25, a.1.
9 SÃO DAMIÃO DE VEUSTER, apud GONZÁLEZ CHAVES, op. cit., p.316.
10 Idem, p.319.
11 FARROW, op. cit., p.135.
12 CLIFFORD, op. cit., p.30.
13 SÃO DAMIÃO DE VEUSTER, apud GONZÁLEZ CHAVES, op. cit., p.321.
14 DELVILLE, Jean-Pierre. Damiano De Veuster. In: LEONARDI, Claudio; RICCARDI, Andrea; ZARRI, Gabriella (Dir.). Il grande libro dei santi. Dizionario Enciclopedico. Torino: San Paolo, 1998, v.I, p.514.
15 FARROW, op. cit., p.173- 174.
16 GONZÁLEZ CHAVES, op. cit., p.322.
17 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Via-Sacra. IX Estação. 2.ed. São Paulo: Copypress, 2006, p.34.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

São Nicéforo de Antioquia

Como nós perdoamos...
No tempo em que o ímpio Valeriano assolava a Igreja de Cristo, destacou-se um ativo sacerdote de nome Saprício. Seu operoso zelo havia atraído a si um jovem leigo chamado Nicéforo, o qual, no decurso do tempo, tornou-se um valioso e indispensável auxiliar. Certo dia eles se desentenderam...
 Terrível e inesperado, como o estrépito de um trovão numa manhã clara e sem nuvens, ressoou por todo o Império Romano o anúncio da nova perseguição aos cristãos, decretada por Valeriano.
À sangrenta e implacável perseguição desencadeada pelo falecido imperador Décio — que havia sonhado com ressuscitar o velho e desacreditado culto pagão — seguirase um período de paz e tranquilidade para a Igreja. Desde sua ascensão ao trono, em 253, Valeriano dera mostras de simpatia e até benevolência para com aquela religião que crescia sem cessar e cujos seguidores enfrentavam os tormentos e a morte com uma valentia desconcertante.
Entretanto, transcorridos quatro anos, essa benignidade subitamente cedeu lugar ao ódio, e em 257 um tirânico decreto foi promulgado contra a Santa Igreja de Deus: todos os bispos, presbíteros e diáconos deviam sacrificar aos ídolos, sob pena de desterro, e as reuniões para celebrar o culto cristão eram proibidas sob pena de morte.
Em consequência, incontáveis prelados e sacerdotes foram deportados para as minas de metal ou de sal, nas quais — acorrentados junto com criminosos, escravos revoltados ou prisioneiros de guerra — deveriam trabalhar sem repouso, em condições verdadeiramente indescritíveis, até o esgotamento final.
Esses horrores não foram senão o primeiro relâmpago de uma furiosa tempestade.
Rios de sangue cristão inundaram o Império Romano
No ano seguinte, 258, um novo edito agravou e estendeu a todas as províncias do Império o incêndio da perseguição: os bispos e presbíteros que não sacrificassem aos ídolos deveriam ser executados imediatamente; pelo mesmo “crime”, os senadores, nobres e cidadãos ilustres seriam condenados à morte, e todos os seus bens confiscados.
Tudo parecia disposto pela impiedade para fazer sucumbir definitivamente a única Religião verdadeira.
Rios de sangue cristão inundaram o vasto Império Romano. O Papa Sisto II subiu ao Céu graças ao ferro dos carrascos. Poucos dias depois, seu valoroso diácono Lourenço morreu queimado numa grelha. Um jovem acólito, chamado Tarcísio, sacrificou sua vida em defesa do Santíssimo Sacramento. Frutuoso, Bispo de Tarragona, foi queimado vivo junto com seus dois diáconos. No norte da África, 153 fiéis foram precipitados num forno de cal e passaram para a História com o qualificativo de massa candida (a massa branca). Cipriano, o grande Bispo de Cartago, venerado pelos cristãos e odiado pelos pagãos por seu espírito combativo, exclamou ao ouvir a sentença de morte: “Graças a Deus!” e entregou resolutamente sua augusta cabeça ao gládio do verdugo.
O paganismo, cego e moribundo, embriagava-se com o sangue dos discípulos d’Aquele que havia proclamado: “Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33).
“Perdoa-me, padre, pelo amor do Senhor!”
Nesse período em que o ímpio Valeriano assolava a Igreja de Cristo, destacou-se, numa paróquia de Antioquia, um ativo sacerdote de nome Saprício. Seu operoso zelo havia atraído a si um jovem leigo chamado Nicéforo, o qual, no decurso do tempo, tornou-se um valioso e indispensável auxiliar no arriscado labor apostólico que Saprício desenvolvia em meio à perseguição.
Por motivos que a tradição não transmitiu nem a História registrou, certo dia eles se desentenderam, e uma profunda inimizade os separou de tal modo que os dois evitavam encontrar-se numa mesma rua.
Não durou pouco tempo esta desedificante situação. Mas Nicéforo, arrependido de sua conduta mais digna de um pagão do que de um discípulo de Cristo, recorreu a alguns amigos de Saprício, por meio dos quais lhe enviou um pedido de clemência. Este, porém, ferido em seu amor próprio, negou-se a perdoar. Nicéforo renovou repetidas vezes a manifestação de seu arrependimento e o pedido de reconciliação. Saprício, entretanto, permaneceu inflexível em sua atitude de recusa, e negava-se mesmo a receber qualquer mensageiro do amigo de outrora.
Desconsolado, Nicéforo apresentou-se na casa de Saprício e lançou-se aos seus pés, exclamando:
— Perdoa-me, padre, pelo amor do Senhor!
Mas aquele que, como sacerdote, deveria ser um exemplo de benevolência e despretensão, permaneceu insensível e obstinado em seu rancor.
Frio e silencioso desdém
Perdurava esta lamentável inimizade, quando a polícia imperial deteve Saprício e o conduziu ao tribunal. Depois de confessar ser sacerdote de Cristo e negar-se a adorar os ídolos, ele sofreu cruéis suplícios e, por fim, recebeu a sentença irrecorrível: seria degolado imediatamente.
A pena capital, segundo o costume da época, era aplicada fora das muralhas da cidade. E para lá foi levado o réu, exausto e cambaleante pelos tormentos padecidos.
Chegaram aos ouvidos de Nicéforo os ecos desses dramáticos acontecimentos. Ele dirigiu-se pressuroso ao encontro do cortejo que conduzia o sentenciado e lançou-se aos seus pés, suplicando uma vez mais:
— Mártir de Cristo, perdoa-me as ofensas que contra ti cometi!
Mas os lábios de Saprício não se abriram. Um frio e silencioso desdém foi sua única resposta.
Nicéforo, no entanto, não desistiu. Adiantou-se por um atalho e, antes da saída da cidade, suplicou novamente em alta voz:
— Mártir de Cristo, eu te rogo, perdoa-me e esquece as ofensas que por humana fraqueza te fiz. Eis que em breve receberás de Cristo a coroa da vitória por haver confessado o nome do Senhor!
Nem um olhar sequer dignava-se Saprício conceder a seu antigo e dedicado auxiliar, de modo que os próprios algozes comentavam entre risos: “Nunca vimos homem tão néscio! Pede perdão a um condenado à morte...” Ao ouvir isto, Nicéforo respondeu com energia: “Não sabeis o que peço ao confessor de Cristo, mas Deus o sabe”.
Coração empedernido pelo orgulho
O orgulho, paixão dinâmica e insaciável que Saprício, sem dúvida, não havia contido adequadamente ao longo de sua vida, o impedia agora, às portas da eternidade, de pôr em prática as palavras do Redentor: “Se estás para fazer tua oferta diante do altar e te lembrares aí que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa tua oferta diante do altar, vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e depois vem fazer tua oferta” (Mt 5, 23-24).
Como poderia esse homem, que negava o perdão a quem o implorava com humildade, receber de Deus as graças extraordinárias indispensáveis para fazer o supremo holocausto?
Chegados, por fim, ao lugar do suplício, Nicéforo tentou mais uma vez comover aquele coração empedernido:
— Está escrito: “Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á!”
Tudo foi em vão. Saprício parecia ignorar o que sucedia ao seu redor.
Por não perdoar ao próximo...
— Ajoelha-te e põe logo a cabeça sobre o cepo, para ser cortada — ordenou o carrasco.
— Por quê? — indagou Saprício.
— Porque, por amor a um homem supliciado na cruz, não queres sacrificar aos deuses e desprezas o edito do imperador — respondeu o comandante da milícia.
Cumpriram-se então as palavras eternas do Divino Mestre: Não sereis perdoados “se cada um não perdoar do íntimo de seu coração ao seu irmão” (Mt 18, 35).
O Senhor, Juiz perfeitíssimo, não derramou naquele coração dominado pelo orgulho as graças místicas e eficazes, sem as quais ele não teria forças para enfrentar a morte por amor a Deus e à sua Lei. Abandonado, assim, às suas próprias e humanas forças, aquele presbítero incapaz de perdoar disse ao verdugo que já levantava a espada:
— Não me firas! Sacrificarei aos deuses, como ordena o imperador.
A voz de Nicéforo rasgou o silêncio de estupefação que dominou durante alguns instantes todos os presentes:
— Não, irmão, não apostates, negando a Nosso Senhor Jesus Cristo! Não desfaleças! Não percas a coroa celestial que para ti já está preparada!
Mas Saprício, que não havia amado e perdoado o próximo a quem via, renegava agora o Deus a quem não via (cf. 1 Jo 4, 20). Cego pela soberba, fechou diante de si as portas do Céu.
Foi dada a outro a coroa
Enquanto o novo Iscariotes era posto em liberdade e desaparecia rapidamente no meio da multidão ainda atônita, Nicéforo começou a bradar:
— Eu sou cristão! Creio no Nome de Jesus Cristo a quem esse negou! Descarregai sobre mim o golpe da espada!
Contudo, ninguém se atrevia a executá-lo sem uma ordem formal. E todos estavam admirados com a valentia desse discípulo de Cristo que se entregava voluntariamente à morte e não cessava de clamar:
— Sou cristão e não sacrifico aos vossos deuses!
Um dos soldados foi enviado a toda pressa ao palácio do governador para narrar-lhe o sucedido. Pouco depois, retornou com a sentença, acolhida com júbilo por Nicéforo: “Se não sacrifica aos deuses, segundo os editos imperiais, seja morto pela espada”.
Rolou então por terra a cabeça daquele arauto da fé, enquanto sua alma, perdoada e santificada, voava para o Céu, inundada do amor infinito de Nosso Senhor Jesus Cristo.
A Igreja atravessou triunfante o furacão
Valeriano recebeu, já nesta terra, justa punição por seu ódio e crueldade. Numa batalha contra os persas, no ano de 260, caiu prisioneiro de seus inimigos. Abandonado até pelo seu próprio filho, Galieno, foi executado depois de sofrer incontáveis humilhações.
E a Igreja atravessou incólume e triunfante o furacão de maldade desencadeado por esse tirano. A santa intrepidez de milhares de homens, mulheres e crianças que haviam seguido o Mestre Divino até o alto do Calvário despertava um entusiasmo crescente e arrastava multidões cada vez maiores para a verdadeira fé. Deste modo, os golpes dos carrascos não produziram outro resultado que o de multiplicar o número dos cristãos.
A Santa Igreja Católica Apostólica e Romana, rocha inabalável, ressurgia como Cristo do sepulcro, mais forte, esplendorosa e gloriosa. E ressurgirá sempre, depois de cada nova investida das portas do inferno contra ela. E até o fim do mundo, ao longo dos séculos, os povos poderão contemplar o cumprimento desta infalível afirmação proferida um dia, por lábios divinos, na cidade de Jerusalém: “Todo o que cair sobre essa Pedra, será quebrado; e aquele sobre quem ela cair, será esmagado” (Lc 20, 18).

terça-feira, 20 de março de 2012

ATÉ A MORTE, SE NECESSÁRIO FOR!

A Fé move as montanhas, diz o Salvador, e chega a vencer, com heroísmo, o próprio instinto de conservação. Conheçamos neste artigo um dos mais belos aspectos da história da Igreja.
Roma, sedenta e desenfreada, acorria mais uma vez para embriagar-se com o sangue dos mártires.
O Coliseu, a majestosa mole de pedra construída por Vespasiano, abria seus pórticos para a turba que subia precipitadamente pelas largas escadarias e se acotovelava nas arquibancadas de mármore.
Quase cinqüenta mil espectadores aguardavam impacientes o momento de serem lançados às feras os cristãos.
Subitamente, a multidão emudeceu, e durante alguns instantes reinou um silêncio impressionante: um homem havia sido introduzido na arena e avançava lenta e gravemente em direção ao seu ponto mais central. Logo, porém, ressoou no majestoso edifício um alarido frenético, seguido de uma ensurdecedora salva de palmas. Do fundo das cavernas onde estavam encerradas, as feras responderam com um longo rugido à explosão daquela alegria sangüinária. O mártir, porém, continuava impassível e aguardava com sobrenatural calma o momento supremo.
Ouviu-se um curto toque de trombeta e abriu-se a porta de um dos porões, da qual saltou na arena um enorme leão africano. Faminta por um prolongado jejum e atiçada pelos clamores da multidão, a fera deu uma volta inteira ao circo, agitando nervosamente a cauda, antes de perceber a vítima, que permanecia imóvel no centro da arena, absorta numa oração que só terminaria na eternidade...
Instantes depois, uma poça de sangue e os restos de um corpo destroçado, proclamavam a invencibilidade da verdadeira Fé, cujo Divino Fundador havia ensinado: “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, e depois nada mais podem fazer” (Lc 12, 4).
Quantas vezes esta cena gloriosa e terrível repetiu-se durante os primeiros séculos da Santa Igreja Católica? Foi do Sacrifício do próprio Deus encarnado que Ela havia nascido, e era o sangue dos seus fiéis que faria germinar em todo o orbe as sementes de novos cristãos.
Quantas vezes também, com variantes próprias ao tempo e aos lugares, esta cena repetiu-se ao longo de sua existência duas vezes milenar? Só Deus sabe! Mas é um fato incontestável que em nenhum momento da história da Igreja, deixou de haver homens e mulheres que selaram seu testemunho de fé com o derramamento do próprio sangue: os mártires.
Supremo testemunho de Fé
Mártir: eis uma palavra cuja sonoridade desperta na alma de todo católico um surto de entusiasmo e veneração.
Mártir significa, em grego, testemunha. “O martírio é o supremo testemunho prestado à verdade da Fé; designa um testemunho que vai até a morte” (CIC, 2473).
“Vós sereis minhas testemunhas até as extremidades da terra” (At 1, 8), havia dito o Mestre a seus discípulos. E estes proclamaram, quando foram chamados a juízo pelo Sinédrio, por causa de Cristo: “Nós somos testemunhas”! (At 5, 32).
Este testemunho levado até as últimas conseqüências, acendeu nos primeiros séculos da Igreja um entusiasmo até então desconhecido, e fez um incontável número de católicos, como Santo Antônio Maria Claret, exclamar: “Oxalá pudesse eu, com o sangue de minhas veias, selar as verdades que proclamo!” 1.
Não há maior amor
Inácio, o santo bispo de Antioquia, foi condenado, sob o imperador Trajano, a ser lançado às feras por professar a Fé de Jesus Cristo. Sacerdotes e fiéis multiplicavam seus esforços para livrá-lo do suplício. Porém, ele rogava: “Deixai-me fazer o meu sacrifício, enquanto o altar está preparado! Nem as chamas, nem a cruz, nem os dentes dos leões me causam medo. É por meio deles que chegarei até Deus”. No meio do anfiteatro, exclamou antes de ser devorado pelas feras: “Eu sou o trigo de Cristo e desejo ser moído pelos dentes dos leões para tornar-me um pão agradável a meu Senhor Jesus!”
O que levou Santo Inácio e milhões de outros cristãos a enfrentar a morte para não renegar a verdadeira Fé?
Explica São Tomás de Aquino que, no martírio, o cristão é movido por uma ardente caridade 2. E afirma o teólogo dominicano Pe. Lumbreras, comentando a Suma Teológica, que o mártir “demonstra que ama a Deus sobre todas as coisas”, pois “despreza a vida na defesa da Fé e dos ensinamentos de Jesus Cristo” 3.
Diante de Pilatos, Jesus havia respondido: “Vim ao mundo para dar testemunho da Verdade” (Jo 18, 37); e “obediente ao Pai Celeste até a morte” (Fil 2, 8), o Filho Unigênito levou seu testemunho até derramar, no alto do Calvário, a última gota de seu Sangue divino.
Considerando que a própria vida é o bem mais prezado pelo homem, São Tomás conclui que “o martírio é, entre os atos humanos, o mais perfeito em seu gênero, como sinal de maior caridade, pois segundo São João (15, 13), não há maior amor do que dar a própria vida pelos seus amigos” 4.
Ato de fortaleza
Que espanto para os incrédulos, contemplar ao longo da História este exército interminável de católicos que caminham para o martírio como quem vai a um banquete, e “enfrentam a morte num ato de fortaleza”! (CIC, 2473).
Esta virtude heróica da fortaleza que, por amor a Deus, leva o cristão a enfrentar a morte com o desdém e a sobranceria de quem tem a certeza do Céu, fez Santo Agostinho exclamar admirado: “Oh bem-aventurados mártires! Oh soldados fortíssimos! Com que elogios explicarei a fortaleza de vossos corpos?” 6
É unicamente graças ao Espírito de Fortaleza prometido pelo Salvador (cfr. Jo 15, 26-27) que uma indefesa donzela como Santa Inês ou um menino inocente como São Tarcísio foram “fortes na guerra” (Hb 11, 34) e manifestaram uma tão grande intrepidez que espantou até os próprios perseguidores da Fé.
A glória
Recompensa “demasiadamente grande” (Gen 15, 1) a que recebem estes heróis da Fé! Explica o Pe. Lumbreras que “o martírio confere a graça santificante, apaga os pecados e perdoa a pena — inclusive a temporal — a estes devida; o mártir sobe diretamente ao Céu, sem passar pelo Purgatório (...). Recebe, finalmente, um prêmio acidental, (...) a aureola dos mártires” 7.
Por isso, canta a Igreja noTe Deum: “O exército dos mártires canta os vossos louvores”. Sim, é o exército invencível daqueles que “lavaram seus vestidos e os embranqueceram no sangue do Cordeiro” (Ap 7, 14); são os escolhidos por Jesus para lutarem e vencerem com Ele (cfr. Ap 17, 14) e que depois, pelos séculos dos séculos, estarão junto ao trono de Deus, abrigados sob seu Tabernáculo (cfr. Ap 7, 15).
O martírio hoje e sempre
Em recente documento, o Santo Padre assim proclamou a perene atualidade do testemunho de Fé levado até as últimas conseqüências:
“O fiel que tenha considerado seriamente sua vocação cristã, dentro da qual o martírio aparece como uma possibilidade prenunciada na Revelação, não pode excluir esta perspectiva do horizonte da própria vida. Estes dois mil anos depois do nascimento de Cristo estão marcados pelo persistente testemunho dos mártires (...). À admiração pelo seu martírio associe-se, no coração dos fiéis, o desejo de poderem, com a graça de Deus, seguir o seu exemplo caso o exijam as circunstâncias” 8.
* * *
“Tende confiança, Eu venci o mundo!” (Jo 16, 33) havia proclamado o Redentor a seus apóstolos na véspera de sua Paixão. Este brado divino ecoará sempre vivo através dos séculos como o cântico de vitória da Santa Igreja Católica, o Corpo Místico de Cristo. A Igreja, pura e imaculada, não cessa de estender o Reino de Deus, crescendo sempre em santidade e glória, a despeito de todas as tormentas e perseguições que Satanás possa levantar contra Ela. E nós, católicos do século XXI, participamos da invencibilidade da Igreja na medida em que sejamos membros vivos d’Ela, unidos à Rocha inabalável contra a qual o inferno nunca prevalecerá. E pela mediação da Virgem Santíssima, a Rainha dos mártires, certos estamos de receber a fortaleza do Espírito Santo que “ajuda a nossa fraqueza” (Rom 8, 26) para levar nosso testemunho de Fé até a morte se preciso for.
1) J. M. Gil, Epistolário Claretiano, I.
2) Cfr. Suma Teológica, 2-2,q 124, a2, ad2
3) Introd. q 124, in Suma Teológica, vol. IX, BAC.
4) Suma Teológica, 2-2,q 124, a3,c
5) Suma Teológica, 2-2, q.124 a2,c
6) Ep. 8 ML: 4, 252
7) Suma Teológica, vol IX, apêndice ao tratado da fortaleza, 3. BAC
8) Incarnationis mysterium, 13.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Santa Maria Goretti

Mártir da pureza
Quando a impudicícia já ia fazendo estragos pelo mundo, Deus fez de uma menina de onze anos uma heroína da pureza.
Santa Maria Goretti nasceu em Corinaldo, província de Ancona (Itália), numa família humilde mas muito piedosa. Tornou-se órfã de pai ainda criança. Desde menina, rezava o Rosário diariamente e fez sua primeira Comunhão aos onze anos de idade – como era costume naquela época –, após grandes atos de desejo, pois queria recebê-la o quanto antes. Era o dia 29 de maio de 1902.
Certa vez, ouvindo uma menina falar com uma amiga coisas indecentes, mostrou-se severamente desgostosa; procurou sua mãe e disse-lhe: “Quanta coisa má fala essa menina!”. Sua progenitora recomendou-lhe que procurasse nunca tomar parte nessas conversas, e Maria acrescentou: “Antes disso, preferiria....” A palavra não chegou a sair de seus lábios, mas um mês depois confirmou, com seu martírio, seu desejo de morrer antes que pecar.
Em 5 de julho — um mês e uma semana após a sua primeira Comunhão —, seu vizinho, Alessandro Serenelli, com 19 anos de idade, fez uma proposta desonesta a Maria, que se negou terminantemente a aceitar. Alessandro ameaçou-a com um punhal e ela se defendeu valentemente, dizendo-lhe: “Não faças isso, irás para o inferno!”. Ante sua resistência heróica, o jovem a apunhalou quatorze vezes.
Apesar das gravíssimas feridas — uma delas no coração — Maria não morreu imediatamente e foi conduzida a um hospital, em Nettuno. O capelão levou-lhe a Sagrada Comunhão e, antes de ministrá-la, perguntou-lhe: “Maria, perdoas de todo coração a teu assassino?” “Sim — respondeu ela —, o perdôo pelo amor de Jesus e quero que ele também venha comigo ao Paraíso. Que Deus o perdoe porque eu já o perdoei”. Após receber a Eucaristia e a Unção dos Enfermos, entregou sua alma ao Criador em 6 de julho de 1902.
 Alessandro Serenelli cumpriu 26 anos de prisão e, ao sair, tornou-se irmão leigo capuchinho, em Roma. Poucos anos após seu martírio, Maria lhe apareceu em sonhos entre 14 lírios brancos (um por punhalada). Em fins de 1937, ele dirigiu-se a Corinaldo para reconciliar-se com a família Goretti. Pediu perdão a Assunta, a mãe de Maria, e recebeu a comunhão junto a ela, durante a Missa de Natal naquela cidade, tendo os assistentes ficado vivamente impressionados pela cena.
O Papa Pio XII canonizou-a como mártir em 26 de junho de 1950. Acorreu tal multidão — mais de 500 mil pessoas — para a cerimônia que foi necessário realizá-la na Praça de São Pedro.
Comentários
O contraste entre os acontecimentos dolorosos no terreno da pureza, ocorridos em nossos dias, de um lado e, de outro, o exemplo dado por Santa Maria Goretti é tão flagrante que não podemos deixar de fazer um comentário sobre o tema.
Basta lembrarmos que enquanto a Igreja venera no dia de hoje uma santa a qual, ainda na infância, foi vítima de um atentado brutal, bárbaro, bestial, e sacrificou sua vida por amor à pureza, se introduzem atualmente costumes escandalosos, obscenos a tal ponto que não convém serem mencionados em nosso ambiente. A degradação moral não se detém, exceto quando já tenha destruído tudo aquilo que tende a destruir. E o último passo será o nudismo mais anarquista e completo.
Devemos dar glória à Igreja que continua, em meio à decadência geral, a apresentar aos homens um modelo contrário àquilo para o qual o mundo contemporâneo caminhe.
De maneira que isso é para nós uma fonte de alegria, de consolação, uma inspiração para a luta em defesa desses valores, por maior que seja a desolação reinante em certos meios a respeito desse assunto.
Santa Maria Goretti se nos apresenta como um incitamento ao zelo da Igreja pela pureza, ao valor dessa virtude que Ela sempre inculcou. De tal maneira que mais vale a pena à pessoa sacrificar sua vida do que perder sua castidade. Precisamos compreender que foi sobrenatural a virtude de nossa santa , e toda a desolação do mundo de hoje pode ser dominada e transformada em motivo de alegria, pela ação da graça divina.
Assim, não podemos desanimar na luta. Lembremo-nos de que a pureza foi restabelecida e elevada a um grau até então desconhecido no mundo antigo, pela introdução da religião católica entre os romanos. Esta continua sempre a mesma e o precioso Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, presente na Eucaristia, pode ser chamado em nosso dias, como o era no passado, o vinho que gera virgens. Portanto, possuímos entre nós o fermento de todas as vitórias e a causa de todos os sucessos. Basta termos fé, piedade, sabermos rezar, fazer penitência e reparação pelos pecadores, que conseguiremos vencer essa onda imensa de impiedade .
Eu gostaria de acentuar um ponto.
Em toda essa questão social de que tanto se fala hoje em dia, o problema da pureza ocupa um lugar preponderante. Não pode haver verdadeira ordem social sem autêntica ordem familiar; e esta não existe sem a virtude cujo nome enche os homens de respeito humano. Essa virtude precisa ser conhecida, admirada e praticada pelos católicos até a última perfeição. Sobre ela pouco se ousa falar: é a virtude da castidade conforme o estado da pessoa, ou a castidade perfeita, ou a matrimonial. Duas formas santas de virtude, que precisam ser adotadas e defendidas.
A ordem política e social rui inevitavelmente nos lugares onde a pureza não é observada. Não se pode construir seriamente a Civilização Cristã sem que, entre outras virtudes, a da castidade esteja na base. Dessa virtude Santa Maria Goretti nos deu belíssimo exemplo.
Há um princípio de Paul Bourget, muito verdadeiro, que é o seguinte: quando a pessoa não age de acordo com suas idéias, acaba pensando de acordo com seus atos. Nossa sociedade, antes mesmo de adotar as idéias anárquicas, vai infelizmente caminhando para elas por meio dos costumes anárquicos.
Uma palavra sobre o homem que a assassinou.
Condenado à prisão, reconheceu em toda a extensão o mal por ele praticado e tornou-se um prisioneiro modelar. Após cumprir a pena, foi recebido como humílimo irmão leigo capuchinho, e solicitou à mãe de Santa Maria Goretti que o atendesse, pois queria pedir-lhe perdão.
Esta o perdoou e depois ambos combinaram comungar lado a lado num dia marcado, em uma determinada igreja.
Vemos aqui um exemplo de contrição verdadeira, num mundo onde esta é cada vez menos conhecida: uma cabeça que se humilha, um peito no qual se bate reconhecendo ter pecado, dizendo mea culpa.
Esses fatos nos ajudam a compreender que Santa Maria Goretti é nossa patrona, para nos preservar na virtude da pureza; e, se tivermos a desgraça de nos afastarmos desse caminho, para nos reconduzir a uma verdadeira penitência e sincera conversão.
É altamente oportuno pedir seu auxílio no dia de sua festa. Se ela chegou a perdoar, por essa forma sublime, seu assassino e conseguiu para um homem tão depravado uma forma tão alta de virtude, que ele se tornou um religioso; quem pode o mais, pode o menos. Compreendamos assim quanta confiança podemos depositar em sua intercessão.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

São Brás

Brasa de amor de Deus
Está com dor de garganta? Tome Mentolipthus! Hoje em dia a receita pode ser esta, mas houve tempo em que a primeira providência era rezar a São Brás. O que não excluía, é claro, tomar os remédios adequados. De onde vem esse costume singular, de pedir a São Brás a cura das doenças de garganta?
Convidamos o leitor a reviver os fatos maravilhosos da vida deste mártir dos primeiros tempos do cristianismo, nos quais encontrará a origem da poderosa intercessão de São Brás.

Aos pés de uma montanha, numa gruta, nos campos de Sebaste, na Armênia, morava um homem puro e inocente, doce e modesto. O povo da cidade, movido pelas virtudes do Santo Varão, inspirado pelo Espírito Santo, o escolheu como Bispo. Os habitantes da cidade, e até os animais, iam procurá-lo, para obter alívio de seus males.
Um dia, os soldados de Agrícola, governador da Capadócia, procuravam feras nos campos de Sebaste, para martirizar os cristãos na arena, quando depararam com muitos animais ferozes de todas as espécies, leões, ursos, tigres, hienas, lobos e gorilas convivendo na maior harmonia. Olhando-se estupefatos e boquiabertos, perguntavam-se o que acontecia, quando da negra gruta surge, da escuridão para a luz, um homem caminhando entre as feras, levantando a mão, como que abençoando-as. Tranquilas e em ordem voltaram para suas covas e desertos de onde vieram.
Um enorme leão de juba ruiva permaneceu. Os soldados, mortos de medo, viram-no levantar a pata e logo após, Brás aproximou-se dele para extrair-lhe uma farpa que lá se cravara. O animal, tranquilo, foi-se embora.
Sabendo do fato, o governador Agrícola mandou prender o homem da caverna. Brás foi preso sem a menor resistência.
Não conseguindo vergar o santo ancião, que se recusou a adorar os ídolos pagãos, Agrícola mandou que o açoitassem e depois o prendessem na mais negra e úmida das masmorras.
Muitos iam procurar o Santo Bispo, que os abençoava e curava. Uma pobre mulher o buscou, aflita, com seu filho nos braços, quase estrangulado por uma espinha de peixe que lhe atravessava a garganta. Comovido com a fé daquela pobre mãe, São Brás passou a mão na cabeça da criança, ergueu os olhos, rezou por um instante, fez o sinal da cruz na garganta do menino e pediu a Deus que o acudisse. Pouco depois a criança ficou livre da espinha que a maltratava.
Por várias vezes o santo foi levado à presença de Agrícola, mas sempre perseverava na fé de Jesus Cristo. Em revide era supliciado. Movido por sua fidelidade e amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, São Brás curava e abençoava. Sete mulheres que cuidaram de suas feridas, provocadas pelos suplícios de Agrícola, foram também castigadas. Depois o governador foi informado que elas haviam atirado seus ídolos no fundo de um lago próximo, e mandou matá-las.
São Brás chorou por elas e Agrícola, enfurecido, condenou-o à morte, decretando que o lançassem no lago. Brás fez o sinal da cruz sobre as águas e avançou sem afundar. As águas pareciam uma estrada sob seus pés. No meio do lago parou e desafiou os soldados:
— Venham! Venham e ponham à prova o poder de seus deuses!
Vários aceitaram o desafio. Entraram no lago e afundaram no mesmo instante.
Um anjo do Senhor apareceu ao bom Bispo e ordenou que voltasse à terra firme para ser martirizado. O governador o condenou à decapitação. Antes de apresentar a cabeça ao carrasco, São Brás suplicou a Deus por todos aqueles que o haviam assistido no sofrimento, e também por aqueles que lhe pedissem socorro, após ter ele entrado na glória dos céus.
Naquele instante, Jesus lhe apareceu e prometeu conceder-lhe o que pedia.
Morreu São Brás em plena época de ascensão do Cristianismo, em Sebaste, a 3 de fevereiro. Era natural da Armênia.
Brás, brasa, chama do amor de Deus, da fé, do amor ao próximo. A vida heróica de São Brás é um estímulo para que mantenhamos também acesa em nossas almas a brasa da fé, que em meio às trevas sempre arda de zelo, fidelidade e intrepidez a favor do bem.
Dentre os milagres que cercaram a vida deste grande santo, há um que chama particularmente a atenção: seu domínio sobre os animais ferozes, que, na companhia do santo, se tornavam mansos como cordeiros. Qual o sentido de tal fato?
No Paraíso Terrestre, antes do pecado original, Adão e Eva tinham poder sobre os animais, que viviam em harmonia com o homem, e o serviam. Como castigo do primeiro pecado, que foi uma revolta contra Deus, a natureza se insurgiu contra o violador da ordem, e os animais passaram a hostilizar o homem.
Pelo apaziguamento que São Brás operava sobre os animais selvagens, quis Deus mostrar aos pecadores o poder da virtude, que ordena até a natureza indomável das feras.
Hoje em dia, a humanidade geme sob o peso do caos, provocado pelo pecado. E os homens praticam atos de ferocidade nunca vistos. Procuremos a solução para a desordem do mundo na Lei de Deus. Pela força da virtude, não só os homens, mas também a própria natureza entrará em ordem. E então que belezas não surgirão de uma sociedade, onde todos pratiquem o bem e amem a verdade?