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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

São João Fischer

No dia 22 de junho a Igreja celebra a memória de São João Fisher, juntamente com a de São Tomás Morus, ambos martirizados na Inglaterra por se recusarem a aderir à revolta de Henrique VIII contra o Papado.

“Deixai-me dormir mais uma hora...”
São João Fisher tinha sido capelão da mãe de Henrique VII e chanceler da universidade de Cambridge, antes de ser nomeado Bispo de Rochester. Opôs-se ao divórcio de Henrique VIII e Catarina de Aragão, bem como à constituição da igreja anglicana. Tendo negado a prestar o juramento exigido pelo rei aos bispos ingleses, foi detido e encarcerado na Torre de Londres. Durante sua reclusão, em maio de 1535, foi feito Cardeal pelo Sumo Pontífice Paulo III. São João Fischer foi condenado a morrer por torturas, mas a pena lhe foi comutada para decapitação, devido ao muito debilitado estado de saúde em que se encontrava. Assim, nas primeiras horas do dia 22 de junho, o oficial da Torre encontrou-se com o prisioneiro na cela, recordou-lhe que era idoso e não poderia suportar o regime do cárcere por longo tempo. Em seguida, declarou-lhe ser vontade do rei que a execução tivesse lugar naquela mesma manhã. — Está bem — respondeu o santo —, se é essa a mensagem que me trazeis, não constituiu para mim novidade. Espero-a todos os dias. Que horas são?
— Cerca de cinco.
— Para que horas foi marcada a minha partida deste mundo?
— Às dez.
— Então, agradeço-vos que me deixeis dormir uma hora ou duas mais, pois não dormi muito essa noite, não por medo, mas por causa de minhas doenças e grande fraqueza.
Extremo cuidado com a saúde, a caminho do cadafalso
Ao voltar às nove horas, o oficial encontrou Fischer de pé e vestido. O santo Bispo tomou o novo Testamento e com grande consolação leu essas palavras de São João: Ora, a vida eterna é essa: Que te conheçam a ti como um só Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Eu te glorifiquei sobre a Terra, acabei a obra que me deste para fazer; e agora, Pai, glorifica-me junto de ti mesmo com aquela glória que tínheis em si antes que houvesse o mundo. Depois, pediu que lhe dessem seu manto forrado. Ao que lhe interrogou o oficial:
— Mas, meu senhor, por que haveis de ter um tal cuidado com vossa saúde, se vosso tempo está contado, e pouco mais tendes que uma hora de vida?
— Peço meu manto para me conservar aquecido até o momento da execução. Pois ainda que não me falte coragem quanto a morrer santamente, não quero, entretanto, comprometer minha saúde nem um minuto sequer.
Caminhou rumo ao cadafalso endireitando seu corpo tão magro e descarnado que parecia que a morte tinha tomado a forma de um homem. Sobre o patíbulo, com voz inteligível e clara pediu aos que assistiam a execução que rezassem por ele:
— Até agora nunca tive medo da morte; contudo, sou carne. E São Pedro, receando-a, negou o Senhor três vezes. Ajudai-me, pois, a que no instante preciso em que eu receba o golpe mortal, não ceda por fraqueza em nenhum ponto da Religião Católica.
Já no lugar do suplício lhe ofereceram o perdão por várias vezes, se quisesse dizer o que dele esperavam. Mas foi inabalável. Após o suplício, seu corpo ficou exposto, desnudo, durante todo o dia. Sua cabeça, espetada numa lança, foi posta na ponte de Londres. Quinze dias depois, como ainda parecesse viva e o povo começasse a acreditar num milagre, foi lançada ao Tâmisa.
Castigo que todo homem teme
Vemos aqui as reações de alma de um grande prelado às vésperas de seu martírio, o qual não oculta seu receios diante da morte.
Creio que, sem uma assistência da graça, ninguém pode dizer que não teme a morte, pois esta, de si, significa um castigo de Deus infligido aos homens por causa do pecado original. Ela é, portanto, de natureza a incutir medo. Não se pode saber que espécie de sofrimento a separação definitiva entre a alma e o corpo traz para quem morre, porém nos é dado conjeturar que se trata de uma dor profunda, mais ou menos inimaginável. Pois se a menor torção do menor osso do corpo humano pode ser penosa, que dizer dessa dilaceração pela qual a alma vai diminuindo sua influência sobre a carne até abandoná-la completamente?
Portanto, é normal que uma pessoa, ao considerar de frente essa realidade, tenha medo no supremo momento de enfrentá-la.
Se fosse só isso, ainda seria pouco. Na verdade, qualquer pessoa judiciosa que tenha presenciado a situação de um agonizante, sentiu medo da morte por uma razão mais profunda.
Lembro-me, por exemplo, de observar uma pessoa durante a agonia e de fazer a seguinte reflexão: “Está colocado, a bem dizer, entre a eternidade e a Terra, e já perdeu completamente a consciência de tudo. Os fatos exteriores não lhe tocam. Porém, no mais recôndito de sua mente, não estará pensando em algo? Que formas de medo, de tentação, de provação, que consolações, alegrias, que auxílios uma alma pode sentir nesse momento?”
Mais uma vez, é compreensível que tal circunstância, repassada de incertezas, seja de molde a causar temores no homem.
Admirável tranquilidade na hora da morte
Agora voltemos ao exemplo de São João Fisher, e consideremos até que ponto admirável esse santo levou a virtude da vigilância e do examinar-se a si próprio. Pois, afinal, ele recebe a notícia da morte com toda a serenidade e, em seguida, pede que lhe concedam mais duas horas de sono. É uma extraordinária despreocupação diante de sua partida iminente deste mundo: “Não dormi bem à noite, estou com sono, deixem-me repousar um pouco mais”.
E adormece na paz de sua alma, pois a sabe pronta para comparecer diante de Deus, e nos braços d’Ele repousa até o momento de se deitar para o descanso eterno. É, sem dúvida, uma impressionante manifestação de limpeza de consciência, como também a de um auxílio sobrenatural por onde ele teve essa tranquilidade na última hora de sua vida.
Dali a pouco ele acorda, levanta-se, prepara-se e se apresenta calmo ao oficial que vem buscá-lo.
Medo de ter medo
Dirigiu-se ao local do suplício e, ao pé do cadafalso sentiu que a fraqueza humana poderia falar mais alto. Ele teve medo de vir a ter medo, de perder algo daquele magnífico estado de alma em que se achava para enfrentar a morte. Então pediu que os presentes rezassem por ele.
Quanta razão tinha o santo nessa desconfiança de si mesmo! Pois ali, no patíbulo, sofreu uma longa insistência por parte de seus algozes que o queriam perverter e fazê-lo renegar a fé católica. Esse assédio no último momento não era gratuito: sabiam que se aquele homem aceitasse as propostas heréticas, seria um triunfo para a causa anglicana, e nada mais sedutor do que ter de escolher entre o dizer “sim” e a morte. Se ele aceitasse, sairia daquele cadafalso cercado de honras e aplausos. Naquela noite dormiria em algum palácio, no meio do conforto, e com alguns anos de vida regalada pela frente.
Porém, São João Fisher teve medo do próprio medo, receava uma tentação do demônio naquela hora, reconheceu que poderia cair, e por isso, praticando a virtude da vigilância recomendada pelo Divino Mestre, pediu a oração dos outros em seu favor. Sobretudo, deve ter implorado a intercessão de Maria Santíssima junto ao trono de Nosso Senhor Jesus Cristo. Permaneceu inabalável na sua fé, foi decapitado e assim recebeu a coroa do martírio.
Confiando em Nossa Senhora teremos forças para enfrentar a morte
Eis para nós, católicos, um modelo de como enfrentarmos o momento de nossa própria morte. Tenhamos esse espírito de vigilância e humildade manifestado por São João Fisher. Nunca imaginemos que, por sermos devotos de Maria Santíssima e praticarmos boas obras de apostolado, não seremos tentados nem fraquejaremos na última hora.
Devemos, sim, pedir a graça de sermos vigilantes sobre nós mesmos, a graça de resistir sempre à tentação quando esta se apresente, compreendendo que o espírito pode estar pronto, mas a carne é fraca. De modo especial peçamos a Nossa Senhora que nos assista com sua misericórdia no momento de deixarmos este mundo rumo à eternidade. Como nos recomenda a Santa Igreja, a graça de termos uma boa morte deve ser pedida com toda a insistência, pois não sabemos o que pode nos suceder no derradeiro instante de nossa vida.
Essas considerações não visam criar pânico nem um terror malsão. Pelo contrário, quando o homem confia em Nossa Senhora — e, por meio d’Ela, em Nosso Senhor —, ao mesmo tempo compreende como a morte é terrível, mas para ela caminha com serenidade. Porém, insisto, cumpre entender a necessidade de implorarmos amiúde essa confiança em Deus e esse auxílio sobrenatural do Céu, único remédio para evitarmos o terror malsão diante da morte.
Sejam esses os preciosos ensinamentos a colhermos do exemplo de São João Fisher, Bispo, Cardeal e mártir da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

São João Evangelista

Algumas considerações sobre São João Batista
Era uma alma eminentemente virgem, chegada de modo extremo a Nosso Senhor, devotíssima do seu Coração Sagrado. São João Evangelista, mais que Apóstolo, foi verdadeiro amigo do Homem Deus. Por isso, Nosso Senhor, antes de expirar no madeiro, deixou ao seu discípulo predileto um tesouro inapreciável: Maria Santíssima. Receber Nossa Senhora, é receber tudo o que Deus — depois de dar-se a Si mesmo — pode conceder ao homem. Maria, Virgem, foi dada pelo virginal Filho ao virginal amigo que era São João. Nessa entrega vemos uma manifestação extraordinária do amor de Deus às almas virgens. E vemos, também, um dos rutilantes traços da grandeza do Apóstolo Evangelista.


Como diz muito bem o Abade Dom Guéranger, “São João Evangelista era parente de Nosso Senhor segundo a carne, e enquanto outros foram Apóstolos e discípulos, ele foi amigo do Filho de Deus”, a quem Jesus tributava um sentimento mais próximo e íntimo que aos demais. Na última Ceia, São João reclinou-se sobre o peito do Mestre e ouviu as pulsações do Sagrado Coração: naquele instante, pulsações de amor, mas também de dor e angústia, diante dos abismos de sofrimentos que d’Ele se acercavam. Alma eminentemente virgem e unida a Nosso Senhor, predileta e devota do Sagrado Coração de Jesus, São João mereceu como recompensa um tesouro sem preço: aos pés da Cruz, recebeu por Mãe a própria Mãe do Redentor, Maria Santíssima. Mais do que isto, abaixo d’Ele, Deus não lhe poderia dar...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

São Francisco Xavier

A extraordinária epopeia apostólica de São Francisco Xavier, enfrentando toda sorte de riscos a fim de conquistar os povos do Oriente para a Igreja Católica, faz-nos compreender o teor do verdadeiro ideal: mais do que a realização de uma grande coisa, é o glorificar a Deus, submetendo-se humildemente à sua superior vontade.
Pode-se dizer que o significado de certas palavras sofre transformações ao longo dos tempos, de acordo com o entendimento das gerações que se sucedem umas às outras. Exemplo característico, a meu ver, são os termos “ideal” e “idealismo”.
Luminosidade e harmonia sonora
A palavra “ideal” possui uma ressonância peculiar, luminosidade, harmonia sonora — quase diria visual — que lhe dão significado próprio. De algum modo ela impele o menos poético dos homens a pronunciá-la como um cântico: ideal!
Quando se diz que alguém tem ideal, entende-se tratar-se de um valor maior que o simples e vil desejo de lucrar vantagem pessoal. Não se aplica, no sentido literal e plano do termo, a afirmações como esta: “Fulano cultiva um ideal, o de tornar-se riquíssimo”. Isto se refere a uma meta, um objetivo, uma ambição, não a um ideal.
Dizer-se de um indivíduo que ele é um homem ambicioso, pois deseja fazer coisas grandes, pode ser até um elogio. Porém, há diferença entre uma coisa grande e uma grande coisa.
O genuíno idealismo de São Francisco Xavier
Imaginemos, por outro lado, São Francisco Xavier dirigindo-se para a Índia e o Japão, como primeiro passo para alcançar também a China. Naqueles idos do século XVI, viajar da Europa para o Extremo Oriente podia representar tanto ou mais perigo do que, hoje, uma expedição de astronautas rumo à Lua.
O discípulo de Santo Inácio enfrentou riscos e dificuldades impensáveis, imbuído de um anelo muito superior ao dos mais audaciosos comerciantes da época: ele ia em busca de almas para Nosso Senhor Jesus Cristo. Viaja com o coração estraçalhado de dor diante das devastações que a Pseudo-Reforma produzia na cristandade européia, e talvez pensasse: “Vou para a Índia, Japão, China, convidar novos povos e almas ainda não evangelizadas a corresponderem à graça, e assim trazê-las para a fé católica que agora se mostra abalada no Ocidente.”
Quem procede desta maneira não realiza uma coisa grande, mas uma grande coisa. Isto se chama ideal. E todos os reluzimentos que esta palavra possa ter, fulguram com toda a sua beleza quando os esforços são empregados na mais alta das finalidades: salvar almas para a glória de Deus e de Maria Santíssima. Nesse ideal não está presente o egoísmo; para alcançá-lo, o homem entrega toda a sua vida, disposto a passar pelos maiores riscos, dissabores, perigos, sofrimentos, preocupado unicamente com o serviço divino.
Eis o verdadeiro ideal, autenticamente glorioso. E ao considerarmos essa disposição de São Francisco Xavier, nós o veneramos e lhe imploramos: rogai por nós.
Na aparência, um ideal fracassado
Contudo, a vida de São Francisco Xavier pode parecer, até certo ponto, frustrada. Como se sabe, seu maior objetivo era conquistar a China para Deus. Esteve na Índia e a evangelizou. Visitou o Japão e ali obteve imensas vantagens para a fé cristã. Em seguida partiu em direção à China, sua grande meta, pois este país de população incalculável, riqueza cultural extraordinária e grande prestígio em todo o Extremo Oriente, seria uma conquista incomparável para a Igreja Católica.
Mas, mistérios de Deus... Esse apóstolo de zelo e fervor invulgares morre antes de chegar àquela nação. Seu supremo ideal, a evangelização do povo chinês, não se realizaria. Doente, sentiu a morte se aproximar enquanto se achava na Ilha de Sancian, de onde já se divisava a China continental. Quis então expirar no puro amor de Deus, com seus olhos voltados para aquela China na qual não conseguiu entrar. Rendeu seu derradeiro suspiro em paz, embora não houvesse atingido seu ideal.
Diante dessa situação, vem-nos a perplexidade: “Por que Deus permite tal frustração? Por que o herói desejoso de conquistar para Ele algo tão excelente como toda a China não atingiu seu objetivo? Como entender esse (ao menos na aparência) fracasso?”
Encontro com um Bispo chinês do século XX
Estas questões me trazem à lembrança a figura de um Bispo, que conheci em Roma, dotado de um charme próprio, gesticulava e alterava a fisionomia de acordo com seu modo de ser. Sobre a cabeça, um tanto pequena em relação ao resto do corpo, portava um chapéu preto, ornado de uma pena de pavão que oscilava conforme seus movimentos. Ao vê-lo, pensei: “Este homem é um porta-penas de pavão perfeito!”
Numa palavra, esse Bispo trazia consigo toda a graça daquela antiga e misteriosa China que fascinou São Francisco Xavier. E no meu interior ecoou algo do imenso desejo que este santo missionário alimentou de conquistar o povo chinês para a Igreja Católica.
Hipótese entusiasmadora
Pode-se supor que se o grande ideal de São Francisco Xavier fosse realizado e tivéssemos uma China católica, a Santa Sé provavelmente consentiria em estabelecer uma liturgia peculiar àquele povo, com manifestações simbólicas dos dogmas da Igreja conforme as circunstâncias locais, um canto sacro próprio, edifícios sagrados inspirados nos estilos arquitectónicos chineses e segundo o talento de seus artistas. Imaginemos, por exemplo, a mirífica beleza de uma catedral feita de porcelana, e cuja torre, semelhante a um pagode, ostentasse no alto uma imagem da Imaculada Conceição! As estalas do presbitério talhadas em marfim, os bancos da nave central feitos de algum lindo bambu, encerado e perfumado...
Se, diante dessa hipótese, nossa alma se entusiasma, não será difícil calcular a intensidade do entusiasmo ainda maior que latejava no coração de São Francisco Xavier.
Dar glória a Deus, o mais elevado ideal
Ora, no momento em que maravilhas semelhantes começariam a se produzir, Deus, em cujas mãos estão as vidas dos homens, diz ao santo missionário jesuíta: “Cessa a tua luta, venha para o Céu!”
E Francisco, olhando para a China e por esta nação rezando, expira docemente no Senhor, dizendo sem ressentimento algum: “Deus que me insuflou esse ideal, não permitiu sua realização. Senhor, seja feita a vossa vontade assim na Terra como no Céu!”
Algum companheiro de São Francisco Xavier, vendo-o morrer assim, quiçá se tomasse de desânimo: “Então, não se dará a conversão do povo chinês? Dir-se-ia que as orações de São Francisco não foram atendidas, e seu ideal foi posto de lado”. Por essas dúvidas percebemos quanto é sutil o tema do idealismo, e de quantos aspectos se reveste, a serem considerados para compreendermos a obra de Deus.
Claro está, o ideal de São Francisco Xavier era a evangelização da China, porém não era seu fim supremo, que consistia em dar glória a Deus. Desde que o Altíssimo, por insondáveis desígnios, dele quisesse, não a China, mas um ato de submissão à vontade divina, São Francisco o aceitava como seu mais elevado ideal. O ideal que os anjos proclamaram na noite de Natal, em Belém: “Glória a Deus nas alturas, e paz na Terra aos homens de boa vontade”.
À semelhança do Divino Mestre e Nossa Senhora
Francisco era um desses homens de vontade boa, santa, reta, nobre, voltada para o ideal. Por isso morreu em paz na Terra, glorificando a Deus. E talvez o Criador tenha recebido mais louvor pela conformidade desta grande alma com os desígnios d’Ele, do que na conversão da China. Desse modo ensinou a todos os homens de boa vontade a cumprirem esse supremo ideal que é dar-lhe a devida glória acima de tudo.
Nisso se assemelham a Nosso Senhor Jesus Cristo, que padeceu e morreu proclamando sua conformidade com a vontade do Pai Eterno. No Horto das Oliveiras, bradou: “Pai meu, se for possível, afaste-se de Mim este cálice, mas seja feita a vossa vontade e não a minha”. Como se assemelham, igualmente, à Santíssima Virgem que, quando da Anunciação do anjo, diante do excelso convite para a maternidade divina, respondeu:
“Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”. “Faça-se”, Fiat, termo que aqui significa obediência, disciplina, confiança, bondade, ideal, glória a Deus.
 “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Pronunciemos a frase da Santíssima Virgem, unamo-nos a Ela na mesma obediência e assim cumpriremos nosso ideal. Pode ser que num primeiro momento Deus espere de nós que desejemos nossas “Chinas”.
Num segundo passo, teremos a impressão de que não as conquistamos, elas nos escaparam das mãos e nada conseguimos. Nesta hora, recordemo-nos de São Francisco Xavier e, pelos rogos de Maria, digamos: “Meu Deus, aconteceu como quisestes; quero o que quereis. Fez-se a vossa vontade e não a minha. Morro em paz.”
Dessa forma nossa vida terá atingido sua finalidade, e de algum modo que não sabemos explicar, o mérito de nossa submissão será maior que o de todas as nossas conquistas.
Mais do que a China convertida
Certamente, ao perceber a morte se aproximar, São Francisco Xavier olhava para aquela nação tão amada e desejada, e pensou: “Meu Deus, esta China virá quando quiserdes. Ela vale muito, mas o Céu tem maior valor. Contemplando vosso Sagrado Coração e o Coração Imaculado de Maria, rogo-vos a graça de sempre ir para frente e para cima”.
Aos olhos de Deus, essa atitude se reveste de um alcance incalculável. Nosso santo não conquistou a China, porém, sem o saber, obteve inúmeras outras vitórias. Somente no Juízo Final saberemos quantas glórias foram dadas a Deus, muito maiores do que a China, simplesmente pela obediência animosa, intrépida e heróica de São Francisco Xavier!
Podemos imaginar que, ao expirar, ele tenha elevado a Deus uma prece semelhante a esta:
“Senhor, meu Deus, meu Criador, meu Redentor. Senhora, Maria Santíssima, Mãe de Deus e minha. Vim até aqui para vos obter a China. Porém, quereis de mim uma viagem maior, que eu transponha os sombrios umbrais da morte e vá para a eternidade. Quereis quebrar-me, separando minha alma do meu corpo, o qual em breve não será senão um cadáver. Rogo-vos que minha alma, julgada por Vós em espírito de benignidade, seja conduzida ao Paraíso.
“Senhor, não pude conquistar a China, mas bem sei que de tudo quanto alcancei na vida, algo queríeis mais do que todo o resto: de Francisco, queríeis Francisco!
“Minha Mãe, aqui está Francisco. Oferecei-me a Deus, pois não nasci senão para isto! Salve Rainha, Mãe de misericórdia...”

sábado, 10 de dezembro de 2011

A expansiva piedade de São Crispim de Viterbo

Hino de exaltação à virtude da humildade, a vida deste santo italiano constitui uma iluminura na qual se retrata a inocência medieval aliada à santidade franciscana.
Alguns  episódios  da  vida  de  São Crispim de Viterbo [ver quadro anexo], irmão leigo capuchinho, despertam nossa admiração  pela extrema piedade que neles se revela.
Fez da cozinha conventual um lugar de devoção mariana
Nascido em 1668, foi consagrado desde a idade de 5 anos a Nossa Senhora, por quem  teve  especial devoção durante toda a sua existência. Tendo ingressado na Ordem dos  capuchinhos, quis ficar entre os irmãos leigos, tomando como modelo São Félix de  Cantalício.
No  mosteiro,  trabalhava  nos  jardins,  fazia compras, cuidava dos doentes, passando as noites em oração e nas práticas de penitência.  Ao ser encarregado da cozinha, nesta erigiu um altar à  Santíssima Virgem. Aí era visitado por grandes senhores,  cardeais e pelo próprio Papa Clemente XI que, certa vez,  ali foi venerar a imagem da Mãe de Deus.
Chamo a atenção para a piedade contagiosa de um autêntico irmão leigo capuchinho. Era tão comunicativa que os grandes da época, tanto os da Igreja quanto os da sociedade temporal, dirigiam-se a esse altar erguido na cozinha do mosteiro, atraídos que eram pela devoção do santo.
Nossa Senhora concedeu-lhe o dom dos milagres. Certa vez, tendo curado uma pessoa chegada ao Sumo Pontífice, o médico afirmou: “Vossos remédios têm mais virtude que os nossos”. E o santo respondeu: “Senhor, sois um médico sábio e a cidade de Roma vos reconhece como tal. Mas, a Santíssima Virgem é muito mais sábia do  que vós todos, médicos do mundo!”
O bom odor de Jesus Cristo, em Orvieto
Como irmão encarregado da despensa do convento, logo tornou-se estimado na cidade de Orvieto. O governador conversava com ele, e o Cardeal-Bispo da sua diocese detinha a carruagem em que ia para se entreter com o pobre frade na rua.
Imagine-se tais cenas encantadoras! Orvieto, já então  cidade de certa importância na Itália, com sua linda catedral gótica, cuja fachada reluz ornada de lindos mosaicos  coloridos. Fim de tarde, os trabalhos de todas as corporações encerrados, o movimento da cidade vai diminuindo, os sinos começam a tilintar, convidando os fiéis para a bênção do Santíssimo Sacramento ou para as Vésperas.  Envolto numa penumbra azulada, ergue-se o palácio do  Governo. Ali, também desobrigado de seus afazeres diários, o governador descansa e se entretém, sem empáfia,  sem petulância, mas com naturalidade, com o humilde  frade capuchinho. Embevecido, o magistrado dá graças a  Deus por receber a visita do santo religioso.
Percebe-se, nesse contato, a beleza da lei dos contrários harmônicos; regozija-nos ver um grande personagem enlevado na conversa com um pequeno, embora,  do ponto de vista sobrenatural, este último seria talvez  maior que aquele.
O frade sai do palácio e segue seu caminho pelas ruas  tortuosas da cidade. De repente, um ruído de ferros e de  ferraduras, e uma carruagem se detém ao lado dele. A  carruagem do Cardeal. Distinguindo-a, o frade mantém  os olhos baixos, em atitude de respeito e reverência. Porém, o Príncipe da Igreja abre a porta do carro e diz:
— Entre, Frei Crispim, vamos conversar um pouco...
— Oh! Eminência!
— Que notícias o senhor me conta?
O frade narra-lhe alguns fatos da vida do convento, ou  então, com toda a naturalidade, comenta:
— Tive uma visão assim...
O Cardeal é todo ouvidos, imerso em admiração.
Creio não ser difícil compreender como nos aproveita  à alma recompormos cenas como essas, pois constituem  o sabor de um passado no qual, segundo expressão de  São Paulo, sentia-se o “bom odor de Nosso Senhor Jesus  Cristo” (Cor , 15), tão diferente dos cheiros perniciosos que vão se espraiando no mundo hodierno.
Na hora da morte, não quis “atrapalhar” a festa de seu padroeiro
O resultado dessa expansiva piedade foi que os habitantes de Orvieto não o deixavam ir-se embora. Nas vezes em que o transferiram de convento, o povo negou-se a dar esmolas para os religiosos. Quer dizer, era preciso fazer voltar Frei Crispim, senão os frades passariam  fome...
Durante anos seguidos foi insultado por uma religiosa  à porta da qual vinha bater. Dela, dizia sempre o santo:  “Deus seja louvado, pois há em Orvieto uma pessoa que  me conhece e me trata como mereço!” Pois o justo cai sete vezes (Pr 24, 16) e, portanto, não se deve considerar isento de ouvir  rabugices e desaforos.
Frei Crispim ficou gravemente enfermo poucos dias  antes da festa de São Félix de Cantalício, seu padroeiro. Como os frades lhe dissessem que logo compareceria diante de Deus, respondeu-lhes que isso só ocorreria  após a comemoração de São Félix, pois sua morte atrapalharia a festa do santo.
O santo irmão leigo capuchinho faleceu em Roma, em  maio de 1750.
Contrastes que formam a beleza da Civilização Cristã
Sem dúvida, uma existência admirável, que nos proporciona não apenas um motivo de enlevo, um exemplo  a ser imitado, mas também um ensinamento que merece  ser ressaltado.
Com efeito, no ambiente em que ele viveu, houve toda uma floração de irmãos leigos capuchinhos, talvez não  tão eminentes na virtude, mas todos daquela escola que  engendrou São Félix de Cantalício e o nosso próprio santo, constituindo uma nota de exaltação da humildade.
Dir-se-ia que esses religiosos eram ecos da paz, da serenidade de alma, da bondade características da cristandade medieval, dessa Idade Média entretanto tão gloriosa pela sua pompa e por suas batalhas. E é justamente nesse encontro harmônico de contrastes que reside a  quintessência da beleza. Se quisermos compreender o esplendor da Idade Média combativa, consideremos a serenidade de um São Crispim de Viterbo ou de um São  Félix de Cantalício. Se desejarmos entender a bondade  desses dois santos, contemplemos a pugnacidade peculiar àquela época histórica.
Desse conjunto de contrastes harmônicos depreende-se a grandiosa beleza da Civilização Cristã. 

*São Crispim de Viterbo foi canonizado pelo Papa João Paulo II em 20 de junho de 1982. Era a primeira canonização realizada por aquele Pontífice. Na homilia que este então pronunciou, após salientar os traços mais significativos da piedade do santo, concluiu:
Desejo, enfim, destacar sua devoção a Maria Santíssima, ao mesmo tempo terna e vigorosa. Chamava-A “senhora minha Mãe”, e sob sua proteção desenvolveu sua vida de cristão e religioso. À intercessão da Mãe de Deus confiou súplicas e necessidades humanas que encontrava ao longo de seu caminho enquanto pedia esmolas. E quando lhe rogavam orasse por casos e situações graves, dizia: “Deixe-me falar um pouco com minha Senhora Mãe, e depois volte”. Resposta singela, porém inteiramente imbuída de sabedoria cristã, que revelava confiança total na solicitude materna de Maria.
A vida oculta, humilde e obediente de São Crispim, rica em obras de caridade e sabedoria estimulante, encerra uma mensagem para a humanidade de hoje, que espera o exemplo alentador dos Santos, como o esperava na primeira metade do século XVIII.
Filho autêntico de São Francisco de Assis, à nossa geração muitas vezes ébria por seus êxitos, oferece ele uma lição de entrega humilde e confiante a Deus e a seus desígnios de salvação, de amor à pobreza e aos pobres, de obediência à Igreja, e de confiança em Maria, sinal grandioso da misericórdia divina no obscuro céu de nosso tempo, conforme a mensagem alentadora brotada de seu Coração Imaculado. (...)
São Crispim interceda pela Igreja e por toda a humanidade, tão necessitada de amor, justiça e paz.
(Cf. L’Osservatore Romano, ed. esp. de 27 de junho de 1982)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Moisés, prefigura do Redentor

Profeta, legislador e autor inspirado, Moisés surge como uma das maiores figuras do Antigo Testamento e extraordinário símbolo do futuro Messias, ao lado do qual apareceria no Monte Tabor, no dia da Transfiguração de Jesus. Um belo artigo do escritor e jornalista católico André Frossard (1915-1995), sobre Moisés, oferece o ensejo de comentar significativas passagens da vida desse grande líder do Povo Eleito.
A revista  francesa  Historia  publicou um artigo intitulado “Moisés”, de autoria de  André Frossard, do qual selecionamos alguns trechos para lermos e comentá-los .
Tragédias e doçuras
Moisés, talvez o maior homem que tenha existido, pois Jesus Cristo é Deus.
Essa entrada, simplesmente magnífica, tem aquela síntese que caracteriza o espírito francês.
Sua vida pública iniciada aos 80 anos, se desenrola sob um céu tempestuoso, apenas iluminado de quando em quando pelo interlúdio pastoral de uma doçura sem amanhã.
Quer dizer, sua existência foi de tragédias, com alguns episódios dulcíssimos, mas logo depois seguidos por outras catástrofes. Após sua morte, que foi uma verdadeira beleza, houve sua glorificação. Pode-se dizer que caíram mil homens à esquerda e dez mil à direita dele (cf. Sl 90, 7).
Ele fez de Israel um povo, (...) uma religião em marcha, perfilado ao redor de sua lei, como um exército em torno de sua bandeira.
Como está bem expressa a obra de Moisés! Os judeus que viviam no Egito eram um mundaréu de escravos, sem direitos, sem constituição, formavam apenas um segmento racial, um magma étnico que ele transformou em povo e numa religião em marcha. Porque esta, realmente, adquiriu outra consistência, amplitude, outro porte ao longo dos 40 anos de peregrinação no deserto, que parecem inúteis. Porém, no decurso dessas quatro décadas eles se prepararam para ocupar a terra prometida.
Tiveram de percorrer um “rio chinês”* para alcançar o objetivo. E, com uma síntese toda francesa, esse escritor expõe logo no início o que aconteceu. Quer dizer, durante essa prolongada espera eles se transformaram num povo e depois numa religião em movimento, “perfilado ao redor de sua lei como um exército em torno de sua bandeira”. Quando entraram em Israel, já estavam completamente estruturados para se tornar a grande nação que foram depois.
Vê-se, portanto, como o “rio chinês”, transitado pelos israelitas durante 40 anos, foi fecundo, e uma condição para chegarem à terra prometida.
* Metáfora para indicar um caminho sinuoso e difícil, em oposição à estrada reta, sem obstáculos.
Uma eloquência que encheu o Antigo Testamento
A eloquência prodigiosa desse gago encheu o Antigo Testamento de sua sonoridade de bronze cujo estrondo wagneriano rola eternamente suas vagas possantes sob os céus pacíficos do Evangelho.
É fenomenal e dispensa qualquer comentário. Moisés de fato era gago, mas um gago de grande eloquência!
Ele nasceu sob o signo da primeira perseguição anti-semítica registrada na História, numa data que se hesita em fixar entre os séculos XV e XII antes da era cristã. Roma não era senão um débil ondulado de colinas desertas à beira do Tibre, e a Acrópole, um terraço desnudo, uma espécie de escabelo avançado junto ao mar, para uma representação de gênio que ainda não começara. A civilização seguia dois rios — o Nilo, o Eufrates — e começava a enxertar alguns frutos promissores numa ilha do Mediterrâneo, Creta, plataforma inicial das artes, das leis e das técnicas do mundo ocidental.
O Egito oferecia então o modelo acabado dessas sociedades antigas, onde se encontravam harmoniosamente combinadas, para a frágil felicidade de uma elite, uma alta inteligência religiosa curvada para a magia, o mais extremado refinamento dos sentidos e a mais refulgente dureza de costumes políticos. (...) Os judeus tinham sido atraídos um após outro para o Egito pela esperança segura que lhes dava o poder de José, filho de Jacó e Raquel, o qual se tornara, pela lucidez de seu gênio, o primeiro-ministro do reino. Receberam boas terras no país de Gessen, entre o delta do Nilo e os Lagos Amargos, onde actualmente passa o Canal de Suez. Em algumas gerações o país foi inundado por esses protegidos de José, multiplicados pela felicidade, até o dia — diz a Escritura — em que subiu ao trono egípcio um “rei que não conhecera José”...
Essas expressões da Bíblia Sagrada têm beleza poética característica .  É o Espírito Santo que fala . “Um rei  que não conhecera José”, quer dizer,  se o tivesse conhecido, tal era José,  que a perseguição aos judeus seria  impossível . Não se poderia lhe  fazer maior elogio do que esse: “Não conheceu José” .
Mas, aqui não se trata de talento  nem de gênio; é a inspiração . O tema  sobe para outros páramos .
Cauteloso e esperto
...e que começou a lançar um olhar descontente sobre essa população exótica, cuja massa crescente ameaçava pouco a pouco o recenseamento. Então se iniciaram as desditas de Israel. (...) Um povo, outrora feliz, olha estupefato seus pulsos acorrentados; e, em milhares de peitos descarnados pelas galés, forma-se e sobe o soluço do exílio.  
Portanto,  devido  aos  maus  tratos  que  passaram  a  receber,  os  judeus percebem que estão desterrados . Uma realidade descrita de modo extraordinário: “forma-se e sobe  o soluço do exílio”.
Israel, extenuado em sua miséria, recebe a ordem oficial: todos os meninos recém-nascidos deverão ser lançados ao rio. Moisés é um deles. (...)
O destino de Israel flutuava sobre as águas, protegido da corrente por um fraco leque de caules. À pequena distância, a irmã da criança espreitava, e a própria mãe, um pouco mais longe, temerosa de denunciar o filho com sua presença, mas incapaz de se resignar a perdê-lo de vista, esperava um milagre. Foi então que apareceu a filha do Faraó, a qual viera banhar-se, seguida de suas servas. Tendo se aproximado do rio, ela percebeu a caixa entre os caniços, mandou que lha trouxessem, ergueu vivamente a leve cobertura do junco e descobriu, sobre um leito de folhas, um bebê que chorava. (...) Desde logo a filha do Faraó tratou o menino como um filho e lhe deu o nome de Moisés, “porque o tirei das águas”, dizia ela. O nome de Moisés é, com efeito, composto de “moj”, que significa água, e do final “esés”, salvo. (...)
Educado pelos melhores mestres, o filho adotivo da princesa tornou-se um personagem muito importante, até o dia em que o espírito de justiça, que a convivência com os grandes deste mundo não pudera afastar de seu coração predestinado, o fez arriscar sem hesitação e perder de um só golpe, todas as honras e benefícios da proteção real.
Vendo um dia um egípcio maltratar um desses hebreus, seus irmãos, cujos sofrimentos lhe haviam sido ocultados até então, Moisés esperou ficar a sós com o que torturava, matou-o e enterrou-o na areia. Não havia ninguém nos arredores, e ele acreditou estar seguro de sua impunidade. Mas, no dia seguinte, iria medir a extensão de seu erro. Dois hebreus iniciaram uma discussão diante dele. Procurando separá-los, o mais agressivo dos dois gritou-lhe: “Quem te fez juiz? Terás, por acaso, intenção de me assassinar como o fizeste com o egípcio?”
Assustado e não duvidando de que o Faraó logo o buscasse para condená-lo à morte, Moisés fugiu para o país de Madian, do outro lado dos lagos, em algum lugar ao norte da península do Sinai.
Observem  como  Moisés  era  cauteloso.  Hoje, dir-se-ia medroso. Na  realidade,  ele  era  esperto. Quer dizer, vendo que  seu crime foi proclamado  por um, pensou: “O Faraó  me apanha!”. E imediatamente fugiu para longe, para um lugar seguro. Os que amam a segurança não tenham vergonha, pois Moisés, um herói, sabia amá-la.
Prenúncio e símbolo de Nosso Senhor
Durante muitos anos, Moisés levará, nas terras de Madian, uma existência obscura, que tudo permite supor feliz e faz lembrar, pela humildade de sua condição e pelo véu de intimidade que a encobre, a vida oculta de Jesus na oficina de Nazaré.
A vida dos profetas que antecederam a Nosso Senhor, não só prenunciava, mas prefigurava a do Redentor .
Na vida de Jesus e na de Moisés, um longo período de silêncio preludia as tempestades da vida pública, ilustrada inúmeras vezes por prodígios inesperados. Jesus multiplica os pães, e os flocos de maná caem ante Moisés; este atravessa o Mar Vermelho a pé enxuto, e Jesus caminha sobre as águas. Ambos surgem no meio de um povo subjugado, ao qual eles mostram a trajetória de um reino da libertação. Ambos dão uma lei ao povo judeu, ambos se transfiguram no alto de uma montanha.
Mas as verdadeiras concordâncias místicas escapam à fraqueza de nosso olhar e o paralelismo histórico limita-se às imagens. O sacrifício pedido à mãe de Moisés, a Mãe de Cristo dele sentirá todo o horror sobre o rochedo do Calvário.
Quer  dizer,  Nossa  Senhora  teve  de fazer por Jesus um sacrifício semelhante ao da mãe de Moisés: esta  expôs  seu  filho  ao  perigo,  junto  às correntes do Nilo, e a Santíssima  Virgem entregou o Redentor à morte .
Os milagres de Cristo manifestam sua divindade, os milagres de Moisés testemunham a onipotência de um Outro. A Lei do Sinai, destinada unicamente ao povo judeu, distingue-o das outras nações, separa-o e lhe imprime o selo de uma elevação coletiva; a lei do Evangelho se dirige a todos os homens através do povo judeu e dá a cada ser humano vindo a este mundo o poder extraordinário de participar da existência de Deus.
Para o cristão, a terra prometida é uma prefigura do reino dos Céus, e a grande caminhada sangrenta dos hebreus para Canaã — com sua refulgente orquestração de heroísmos, de cóleras, de apostasias fenomenais, de arrependimentos e de perdões incomensuráveis — anuncia esta lenta aproximação da alegria pelo sofrimento e pelo amor, que se chamará vida cristã.
É  a  constatação  de  que  o  trajeto de nosso “rio chinês”, como o da  maioria dos católicos, é muito parecido com o dos judeus daquele tempo .
Moisés lançou as bases da Bíblia, formidável trabalho de embasamento sobre o qual repousa para sempre a continuidade dos textos sagrados. Jesus nada escreveu, mas quando o último profeta colocou seu último vitral na noite da espera, ele fez entrar sua luz no edifício.
A  imagem  é  lindíssima .  Depois  de São João Batista ter posto o último vitral, raia o Sol da Justiça, que é  Nosso Senhor Jesus Cristo!

Único profeta escolhido face a face por Deus
Foi no sul do país de Madian, no maciço do Sinai, que Deus se revelou pela primeira vez ao pastor Moisés, através do crepitar de uma sarça ardente, mas cujos ramos não se consumiam no ardor das chamas. Aproximando-se para ver esse prodígio, Moisés ouviu uma voz que o chamava do meio da sarça, como uma mãe chama seu filho: “Moisés! Moisés!”
Linda interpretação dessa voz. À  primeira vista, ter-se-ia a impressão de que ela deveria incutir medo; porém, o escritor a interpreta como a  voz da mãe que chama o filho: “Moisés! Moisés!”
O missionário resiste à sua vocação. Sua humildade apresenta ao Eterno toda uma série de argumentos, dos quais o mais tocante surge como um refrão: ele gagueja. Quem escutará um líder atingido por uma tal enfermidade? (...) “Senhor, enviareis assim mesmo um gago como profeta?”
Sim, exatamente. O gago será profeta, e tão grande que — dirá o Deuteronômio — não haverá outro em Israel que se assemelhe a este sofrido “que Deus em seu amor escolheu, face a face”.
É um elogio fabuloso, e uma belíssima idéia: Moisés foi o único profeta que Deus suscitou, face a face.  O Criador lhe apareceu, conversou  com ele e o elegeu .
Ladeado por seu irmão Aarão, munido de poderes sobrenaturais simbolizados por um bastão, Moisés foi pedir a liberdade de Israel ao Faraó, que respondeu por um acréscimo de maldades.
Ele vai, portanto, com Aarão, para que este falasse ao Faraó. Aarão é a palavra e Moisés, a presença. Percebe-se, assim, como a presença é mais do que a palavra. Vai munido apenas de uma vara. Imaginemos o palácio do Faraó, Moisés entrando, tomado de coragem — embora ele fosse um criminoso conforme a lei do Egito — e anunciando ao soberano a vontade de Deus. Houve então a conhecida luta entre os anjos, que praticavam milagres por ordem do Altíssimo, e os demônios que, através dos magos egípcios, imitavam os prodígios de Moisés.
Moisés enfrenta as resistências do seu próprio povo
Seguiram-se  as  nove  pragas  do  Egito, e nem assim o Faraó se deixou tocar. Quando sobreveio a décima e a mais terrível — todos os primogênitos  morreram  numa  só  noite —, o soberano egípcio se declarou  vencido e concedeu a liberdade aos  judeus,  a  “passagem”  (Páscoa,  segundo o hebreu) ao povo de Moisés .  Descreve o articulista: 
Antes da aurora, grandes colunas de povo se puseram a caminho, sob o olhar fúnebre dos egípcios, que na porta de suas casas enlutadas os forçavam a apressar sua marcha. Fora da cidade de Ramsés, todas as colunas se uniram, formando ao redor de Moisés e de Aarão um mar imenso.
Que  cena  majestosa!  Os  judeus  ficaram  a  noite  inteira  acordados,  e os egípcios, humilhados, esmagados por um poder sobrenatural, deixaram sair de madrugada esses homens que para eles eram animais de  carga. Depois de já terem perdido o  rebanho, ficaram privados dos escravos . Era uma depauperação terrível  para o Egito.
Cumpre  ressaltar  que  Moisés,  produzindo esses fatos, obteve grande vitória aos olhos dos seus perseguidores, mas diante dos judeus seu  prestígio  foi  insignificante. É  uma  lamentável  constatação:  com  frequência as pessoas são prestigiadas  quando praticam o mal, e não quando realizam o bem . Com o extraordinário Moisés não se deu de modo  diverso:
Israel, precedido por uma coluna de nuvem, escura de dia, brilhante à noite, que lhe indica o caminho, ouviu de repente o ruído surdo do exército egípcio lançado ao seu alcance. A nuvem de pó que se elevava no horizonte trazia-lhe a morte, e pela primeira vez o povo apavorado se volta contra Moisés: “Não havia suficientes cemitérios no Egito para que nos conduzisses aqui tão longe para morrer? Não te dizíamos com razão, quando nos falavas de liberdade, que a servidão valia mais do que esse fim miserável no deserto?”
Aqui transparece como Moisés precisou vencer resistências para convencê-los a sair do Egito. Eles entraram, portanto, no deserto com  alma minguada. Assim que se apresentou uma ocasião, cometeram infidelidade e demonstraram sua ingratidão. O normal seria que dissessem  a Moisés: “Tu que provaste ser enviado de Deus, por favor, reza agora conosco e nos salva” .Não. Fizeram  recriminações: “Nós é que tínhamos  razão e não tu . Vamos nos render e  nos entregar!”
É uma espécie de aversão a Deus,  chegando ao ponto de querer regressar ao cativeiro. Em vez da solução  confiante, tão suave e doce, optaram  pela desconfiança e a vontade de voltar para a escravidão .
Antepor os egípcios a Moisés não  é  a mesma coisa que preferir Barrabás a Jesus? Pois isto o faz todo  aquele que se deixa tentar na Fé ou  numa virtude decorrente dela: a confiança .
Moisés opera o milagre da travessia  do  Mar  Vermelho,  e  os  judeus  voltam a peregrinar pelo deserto:
Um solo árido, semeado de uma vegetação mirrada, onde os sofrimentos da sede e da fome levantaram contra Moisés novos tumultos, acalmados por outros milagres.
Assim é toda criatura humana. Recebe favores de Deus e, se não corresponder à graça, na primeira vez  em que estiver acuada, diz: “Olha lá,  vai acontecer o desastre que eu estava prevendo!”
É o “profeta de desgraças”, que  atua de modo sempre errado .
Está-lhe reservada uma maravilhosa ressurreição
Os quarenta anos de êxodo que se seguiram serão feitos dos mesmos combates contra o desânimo, das mesmas adorações indignas perdoadas pela intercessão do profeta, e dos mesmos retornos violentos à santidade da Lei, tesouro supremo encerrado em sua arca de madeira e dirigida, de etapa em etapa, para as terras longínquas da felicidade. Apesar de sua estupenda familiaridade com o Céu, Moisés experimentou um momento de dúvida: nas terras ressecadas de Meriba, ante as tribos ameaçadoras que reclamavam água, Moisés, sob as ordens de Deus, tocou um rochedo com seu bastão para dele fazer jorrar uma fonte. Entretanto, em lugar de dar um só golpe, bateu duas vezes. Durante um instante imperceptível sua Fé cambaleou. E esse desfalecimento público, mal observado, lhe fechou a entrada da terra prometida.
Se já existisse Nossa Senhora com sua prerrogativa de Medianeira junto a seu Divino Filho, Moisés obteria através d’Ela o perdão, e entraria em Canaã...
Moisés era chefe de estado, juiz das doze tribos, patriarca, legislador e general, sem nada perder de sua humildade profunda, que estava na raiz de todas as suas virtudes, e à qual a própria Escritura prestará homenagem após a sua morte.
Foi um povo forte, enfim, que chegou à extremidade do planalto da Transjordânia, olhando para essa terra onde Moisés não entrará. Ele tinha 120 anos. Sua missão estava cumprida. Ele atingia o fim de sua viagem terrena. “Sua vista não se tinha enfraquecido, suas forças estavam intactas”. E, entretanto, ele sabia que não iria longe. A dúvida de Meriba o deteve na soleira de Canaã. Mas, não são os bens deste mundo que foram prometidos ao profeta, e a amizade de Deus se reservava o direito de consolá-lo em sua justiça Então, enquanto Israel fascinado lançava seus olhares em direção à planície de Jericó, “Moisés, o servidor de Javé, morreu no país de Moab, segundo a vontade do Eterno. E foi enterrado no vale. Ninguém até agora descobriu o seu túmulo”.
Os séculos passam, o túmulo de Moisés está intacto. Até hoje ninguém o encontrou. Podemos imaginar como será a linda ressurreição de Moisés, no dia do Juízo. Embora muitos pensem que todas as ressurreições serão iguais, devemos supor que todas serão esplêndidas para os eleitos, e horríveis para os outros, como o despertar de um frenético.
Assim como existirão ressurgimentos diferentemente hediondos, haverá os desigualmente belos. O de Moisés será belíssimo, maravilhoso, cercado de uma coorte de anjos, etc., como convém à grandeza de sua vocação.
Conquistador suave e chefe humilde...
Na planície de Moab, os filhos de Israel choraram Moisés durante trinta dias, antes de caminharem para o Jordão, luto e alegria misturados em seus corações. Sem dúvida, a possante beleza desse caráter, o extraordinário gesto de energia que exige o governo de um povo fugitivo entre os terrores e os sofrimentos do deserto, sugeriram aos historiadores retratos de um Moisés como chefe de guerra e como ditador inspirado. Mas toda a força de Moisés lhe vinha de sua Fé em Deus, a qual sua humildade fazia brilhar. Não foi um déspota esclarecido nem um general infalível que Israel chorou nas portas de Canaã. Este conquistador era suave e este chefe era mais humilde que o mais humilde de seus companheiros de caminho.
Em meio ao brilho fulgurante das armas e até sob a tempestade dos anátemas, sua vida tremulou ao sopro de uma imensa ternura vinda de outro lugar. Os homens reconhecerão este mesmo acento nas palavras de um outro, o próprio Amor desprezado expirando na Cruz sobre uma colina de Jerusalém.
A meu ver, mais não se poderia dizer de um homem. Está tudo dito, tudo feito.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Santo Agostinho

Santo Agostinho, farol de sabedoria e de amor a Deus
De pecador a modelo de perfeição espiritual, Santo Agostinho abraçou a Fé católica com fervor e zelo invulgares, defendendo-a e a enriquecendo com a extraordinária inteligência que lhe foi concedida por Deus.
Considerado um dos mais luminosos teólogos da Igreja em todos os tempos, Santo Agostinho legou à História não apenas seus tratados espirituais, como também a narrativa da própria conversão, a descrição de suas lutas interiores e de seu triunfo sobre o pecado. “Confissões”, a célebre obra do Bispo de Hipona, tem produzido inúmeros frutos de emenda de vida, de retomada do caminho da virtude, por parte dos que se deixaram tocar pelo exemplo desse herói da Fé.
Antes de comentarmos uma eloquente passagem dessa autobiografia, convém tomarmos conhecimento de alguns breves contornos do perfil de Santo Agostinho.

Retórico e filósofo ilustre
“Pai por excelência de todos os Padres da Igreja, Doutor da graça, monge, pastor, teólogo, autor de uma obra monumental e escritor de gênio, Agostinho permanece o símbolo vivo do convertido, não cessando de influenciar o espírito e o imaginário da Europa.
“Esse romano da África, de origem berbere, nascido no ano de 354, em Tagasta, na atual Argélia, alcançou grande renome por seu extraordinário domínio das artes liberais, e foi considerado por seus contemporâneos como o mais ilustre dos retóricos e o mais autorizado dos filósofos. Adepto de Cícero, o jovem Agostinho vai para Cartago, e depois para Roma e Milão, que era então a capital do Império. As suas peregrinações espirituais o levaram a aderir ao maniqueísmo, mas é o encontro com o cristianismo que vai revolucionar a sua existência. Aos trinta e dois anos, por insistência de sua mãe, Santa Mônica, e de Santo Ambrósio, e após uma revelação sobrenatural nos jardins da sua casa, Agostinho pede que seja batizado.
“Diz uma tradição que, terminada a cerimônia do Batismo, Santo Ambrósio exclamou: ‘Te Deum laudamus!’, e que Santo Agostinho acrescentou: ‘Te Dominum confittemur!’; e assim, alternando suas frases um e outro, entre os dois improvisaram naquela ocasião os conceitos e palavras que compõem o cântico litúrgico do ‘Te Deum’.
Incansável adversário da heresia
“Depois de um breve retiro em Cassiciaco, Agostinho volta à sua terra natal, torna-se monge e consagra três anos à oração e ao estudo.
“Em 391, O Bispo Valério de Hipona (atual Annaba) chama-o para junto de si. Agostinho suceder-lhe-á em 395 nessa importante sede episcopal. Começa então para esse pregador e catequista infatigável uma era de grandes controvérsias — contra os donatistas, em primeiro lugar, que negam aos ‘lapsi’ (apóstatas) o perdão da Igreja; em seguida contra os pelagianos, que atribuem exclusivamente ao homem o mérito da salvação.
“O Bispo de Hipona descobre em si uma vocação de lutador contra as heresias, capaz não só de inscrever a sua reflexão nas problemáticas do seu tempo, como também de edificar uma autêntica Teologia perene. No fim da sua vida, já em plena invasão dos Vândalos, enfrentou um último desvio à Fé: o dos homeanos, que negam o dogma cristológico.
A tristeza, companheira no fim da vida
“Por volta do ano 430, os bárbaros devastam totalmente o norte da África. Ao atingirem Hipona, os invasores a cercaram e lhe impuseram um rigoroso assédio. Este acontecimento agravou a já amarga e triste ancianidade de Santo Agostinho, que sofreu mais do que todos, e se alimentou de dia e de noite com a torrente de lágrimas que brotavam de seus olhos ao ver como uns caíam mortos e outros fugiam, e ao considerar que as igrejas ficavam viúvas de seus sacerdotes, e as populações arrasadas se transformavam em desertos.
“Como os horrores continuassem, reuniu seus monges e lhes disse: ‘Pedi ao Senhor que nos tire desta angustiosa situação, ou nos dê forças para suportá-la, ou me leve desta vida e me livre de presenciar tantas calamidades’.
“O Senhor o ouviu e lhe concedeu a terceira dessas petições. Meses após o início do cerco da cidade, Santo Agostinho caiu enfermo. Compreendendo que o dia de sua morte se aproximava, mandou que escrevessem os Sete Salmos Penitenciais em grandes cartazes e os pregassem a uma das paredes de sua cela, de maneira a poder lê-los e rezá-los a partir do leito em que se achava prostrado. Assim foi feito, e o Santo, sempre com imensa emoção de alma, recitava constantemente ditas orações.
“Pouco antes de sua morte, Santo Agostinho teve essas interessantes palavras: ‘Ninguém, por muito virtuosamente que tenha vivido, deve sair deste mundo sem fazer previamente confissão de seus pecados e sem receber a Eucaristia’.
“Até o último momento de sua vida conservou perfeito estado de suas faculdades, seus membros e sua vista, de maneira que, com completa lucidez mental, no instante supremo, rodeado de seus monges que o assistiam com suas preces, aos 77 anos de idade e 40 de episcopado entregou seu espírito a Deus.
Apaixonado investigador da verdade
“Luminosíssimo farol de sabedoria, baluarte da ortodoxia, fortaleza inexpugnável da Fé, sobressaindo em talento e ciência entre os demais doutores da Igreja, Agostinho foi homem eminente, tanto pelos exemplos de suas virtudes, quanto pela riqueza de sua doutrina.
“A obra que deixou é imensa. Cento e treze Tratados, entre os quais se destacam o ‘De Trinitate’ e ‘A Cidade de Deus’ que inaugura a teologia da História; 218 epístolas, mais de 500 ‘Sermões’, ‘Diálogos’ e ‘Comentários’ bíblicos, e, por fim, essa obra singular que são as ‘Confissões’, a primeira autobiografia de todos os tempos.
“A sua teologia, feita de experiência e permanentemente existencial, eleva-se até a contemplação pura, sem ignorar a psicologia, a historicidade, a realidade humana. Da iluminação fulgurante da sua juventude ao final da sua velhice, Santo Agostinho nunca deixou de meditar sobre o dom feito por Deus ao homem, e que faz dele um investigador apaixonado da verdade.”1
“Dai-me o que me ordenais; ordenai-me o que quiserdes!”
Vemos, portanto, como Santo Agostinho se destacou não apenas por suas insignes virtudes, mas também pela luminosa sabedoria que Deus lhe concedeu, a fim de a utilizar para o bem das almas e da doutrina católica.
Em seu famoso livro autobiográfico — “Confissões” — tem ele esta linda passagem sobre a qual gostaria de tecer alguns breves comentários: “Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e sempre nova. Tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora a procurar-Vos! Disforme, lançava-me sobre estas formosuras que criastes. Estáveis comigo, e eu não estava convosco! Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós. Porém, chamaste-me com uma voz tão forte que rompestes a minha surdez. Brilhastes, cintilastes e logo afugentastes a minha cegueira! Exalastes perfume: respirei-o suspirando por Vós. Saboreei-Vos, e agora tenho sede e fome de Vós. Tocastes-me e ardi no desejo da vossa paz. Só na grandeza da vossa misericórdia coloca toda a minha esperança. Dai-me o que me ordenais, e ordenai-me o que quiserdes. “Ora, afirmou um sábio: ‘É já um efeito da inteligência saber que ninguém pode ser casto sem o dom de Deus’. Pela continência, reunimo-nos e nos reduzimos à unidade, da qual nos afastamos ao nos derramarmos por inumeráveis criaturas. Pouco Vos ama aquele que ama, ao mesmo tempo, outra criatura sem ser por vossa causa. Ó amor que sempre ardeis e nunca Vos extinguis! Ó caridade, ó meu Deus, inflamai-me! Ordenais-me a continência. Dai-me o que me ordenais e ordenai-me o que quiserdes!”
Trata-se de um texto tão elevado e nobre que sua intelecção pode parecer, à primeira vista, um pouco árdua.
Belos jogos de palavras
Santo Agostinho faz alguns jogos de palavras, muito apreciados pelos antigos. Não sei como soam e que sabor têm na audição e no paladar espiritual das gerações posteriores à minha, mas a meu ver são lindíssimos. Como se sabe, Santo Agostinho se converteu na idade madura, após ter levado uma vida de pecados. Por isso, se dirige a Deus dizendo: “Tarde Vos amei”, e utiliza o primeiro jogo de palavras: “Ó Beleza tão antiga e sempre nova”. O Criador é antigo, pois, sendo eterno, existiu antes de todos os séculos. Mas é uma Beleza sempre renovada, porque é infinito, manifestando continuamente algo de inédito à nossa consideração. E o homem, adorando-O por tais predicados, encontra em Deus a plenitude, a perfeição expressa pelo aludido jogo de palavras. Este como que vincula dons antitéticos que o espírito humano não saberia unir.
Exclama o Santo: “Eis que habitáveis dentro de mim e eu lá fora a procurar-Vos!”
Em todos os homens, sobretudo nos batizados, Deus age de modo permanente através da ação da graça. Portanto, o Altíssimo permanecia no interior de Santo Agostinho. Porém, como um louco, ele O procurava fora, almejando um contentamento que as criaturas não dão, pois a verdadeira felicidade está dentro de nós.
Vemos, então, outro jogo de palavras: dentro e fora. Ele possuía, no mais fundo da alma, aquilo que tinha o desatino de procurar fora.
Continua o Bispo de Hipona: “Disforme, lançava-me sobre estas formosuras que criastes. Estáveis comigo, e eu não estava convosco!”
Quer dizer, Deus habitava em seu interior, mas ele não permanecia com o Senhor. É uma antítese, sem ser uma contradição.
Recebemos graças para obedecer às ordens divinas
Em certo trecho, Santo Agostinho tem esta linda afirmação: Deus nos proporciona aquilo que nos ordena. O que significa isso?
Quando o Criador nos prescreve um mandamento, nos concede anteriormente a possibilidade de observá-lo. Assim, antes de nos preceituar a castidade, Ele nos dá a graça para praticá-la. Pois Deus, ao contrário de certos dirigentes humanos, é um bom Pai e nos governa pelas regras da sua inesgotável misericórdia.
Com base nessa concepção, Santo Agostinho apresenta uma interessante justificativa para a castidade. Segundo ele, o bem de cada ser e o da ordem do universo é a unidade. O homem puro é aquele que ama a Deus acima de tudo, e as outras coisas por amor ao Criador. Pelo contrário, o impuro corre atrás de mil criaturas, e nessa espécie de pluralidade se afasta da unidade originária, primitiva, para a qual deve tender. Ao agir assim, ofende a ordem do universo.
Tal visualização encerra uma maravilhosa repulsa da poligamia e do divórcio, e é mais valiosa, penso eu, do que qualquer refutação sociológica contra esses desvios morais. Pois a metafísica é muito mais apropriada para convencer o espírito humano do que os dados técnicos, mesmo quando acompanhados de argumentos de índole psicossocial. Creio que em qualquer época de minha vida, esse raciocínio a favor da castidade, baseado no conceito da unidade, convenceria mais do que todos os outros.
Com esses breves comentários é-nos dado recordar, então, a memória deste extraordinário varão de Fé e de sabedoria, exemplo fulgurante de amor a Deus, que foi o grande Santo Agostinho de Hipona.