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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Santo Isidoro de Sevilha

Pausados, graves e solenes, os sinos da Igreja de Santa Cruz de Jerusalém, a principal de Sevilha, anunciavam a partida deste mundo de seu Arcebispo Isidoro, admirável por sua ciência, por seus escritos e, sobretudo, por sua integridade de vida. Era o dia 4 de abril de 636. Revestido das insígnias episcopais e tendo sobre o peito o livro dos Santos Evangelhos, o corpo repousava no presbitério e o povo, em prantos, comprimia-se para prestar-lhe suas filiais homenagens. Por fim foi conduzido à Igreja de São Vicente e sepultado entre Leandro e Florentina, seus irmãos na carne e na santidade.
Quem era este Isidoro, de família tão abençoada e cuja morte tanto se lamentava?
Hordas bárbaras irrompem no Império
Desde o início do século IV, e com mais intensidade no transcurso do século V, o outrora tão poderoso Império Romano tornava-se cada vez menos capaz de conter o avanço das hordas bárbaras que irrompiam por todos os lados em seu território, saqueando, queimando e destruindo por onde passavam. E como julgavam ser a cultura a causa da decadência daquele povo antes tão aguerrido, os bárbaros demonstravam especial empenho em fazer desaparecer os livros que encontravam.
Entretanto, pior que a destruição material eram os empecilhos causados pelos invasores - pagãos ou arianos - ao desenvolvimento da Igreja Católica, que mal acabara de conseguir a liberdade de ação, concedida pelo Edito de Milão, em 313, pelo imperador Constantino.
Com muita frequência os povos bárbaros guerreavam entre si, pela conquista ou pela manutenção de algum território. Foi o que aconteceu na Península Ibérica, disputada por alanos, suevos, vândalos e visigodos. Estes últimos, aliados a Roma, acabaram por dominar a situação e manter a região sob seu domínio.
Fundamentos da formação de um sábio

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

São Leandro, Bispo de Sevilha

Sem o auxílio da graça, o homem é incapaz de obter êxito em seu apostolado; porém, amparado por ela, consegue o inimaginável. Disto nos dá um belo exemplo São Leandro de Sevilha, o qual extirpou a heresia que havia quase dois séculos grassava na Espanha.

Os grandes movimentos da História, em geral, são impulsionados por homens a quem Deus concede uma grandiosa missão, comunicando-lhes seu espírito e sua força. Um destes homens foi São Leandro de Sevilha. Convertendo os godos e salvando uma nação inteira do jugo dos arianos, ele bem pode ser considerado um dos fundadores da Idade Média.

Acompanhemos com especial veneração sua ficha biográfica1:

São Leandro nasceu em Cartagena, Espanha. Seus pais pertenciam à alta nobreza, e sua família estava repleta de santos. Um de seus irmãos, Santo Isidoro, sucedeu-o no trono episcopal de Sevilha; o outro, São Fulgêncio, foi Bispo de Cartagena. Sua irmã, Santa Florentina, tornou-se religiosa.

Quando era jovem ainda, São Leandro retirou-se para um mosteiro, tornando-se perfeito modelo de ciência e piedade. Seus méritos o levaram à Sé Episcopal de Sevilha, onde não diminuíram em nada as austeridades que praticava.

Quando Leandro foi nomeado bispo, parte do território espanhol estava dominada pelos visigodos arianos havia cento e setenta anos. Entregando-se imediatamente ao combate da heresia, o novo Bispo rezava e implorava o auxílio de Deus. O sucesso coroou seu zelo, e em pouco tempo a heresia já contava com menos adeptos.

Entretanto, Leovigildo, então rei dos visigodos, e também ariano, irritado com a atividade de São Leandro, e principalmente com a conversão de seu filho primogênito, condenou o santo ao exílio e o filho à morte.

Seu segundo filho, Recaredo, que vindo a ser um fervoroso católico, ao herdar o trono conseguiu a conversão de todos os seus súditos.

São Leandro dedicou-se a manter o fervor dos fiéis e foi a alma de dois grandes concílios: o de Sevilha e o de Toledo, os quais condenaram o arianismo.

Homem de ação, Leandro a todos inspirava o amor à prece, especialmente aos religiosos. Escreveu instruções admiráveis à sua irmã sobre o exercício da oração e o desprezo do mundo. Reformou a liturgia na Espanha.

Afligido por numerosas enfermidades, o apóstolo dos visigodos faleceu em 596.

A ação do Espírito Santo e a pujança da santidade

A ficha é riquíssima de aspectos passíveis de comentário. O primeiro deles é o florescimento de santos numa mesma família da alta nobreza espanhola: Santo Isidoro de Sevilha — um dos maiores santos da história da Espanha —, São Fulgêncio, Santa Florentina e São Leandro.

Vemos que beleza há na conjunção de tantos santos numa mesma estirpe. Com isso, Deus faz sentir a importância do fenômeno “estirpe” na formação dos santos e na realização dos planos da Providência.

Por outro lado, observamos a pujança de santidade existente naquela época. Trata-se de um dos mais belos fenômenos da História, onde inúmeros santos inauguraram o Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo durante a Idade Média; fenômeno não atribuível a nenhum homem, a nenhuma Ordem religiosa, mas diretamente oriundo da ação do Espírito Santo.

De fato, a não ser por um verdadeiro sopro universal do Divino Espírito Santo, não seria possível o surgimento de tantas almas santas ao mesmo tempo.

Em pleno domínio dos bárbaros arianos…

Ao ser eleito Bispo de Sevilha, São Leandro encontrou-se diante do seguinte problema: havia cento e setenta anos, bárbaros hereges exerciam uma função dominadora na Espanha.

Ao contrário do que muitos pensam, a maior parte dos bárbaros não era pagã, mas sim ariana. Quando invadiram o Império Romano, muitas tribos bárbaras já haviam sido visitadas, em suas respectivas regiões, por um Bispo ariano chamado Úlfilas 2, o qual as perverteu para o arianismo.

Desta maneira, enquanto descendentes dos antigos cidadãos do Império Romano, os católicos eram os vencidos, os pobres, estavam por baixo e gemiam sob o jugo dos arianos, os quais, por sua vez, constituíam o povo novo, forte e vencedor.

…a Providência suscita São Leandro de Sevilha

São Leandro recebeu, então, da parte de Deus, a missão de derrubar o domínio ariano. De que maneira ele o fez?

Em primeiro lugar, chorando diante de Deus e pedindo, por meio de Nossa Senhora, os auxílios necessários para a tarefa que deveria realizar de modo admirável. Cônscio da incapacidade humana perante as tarefas apostólicas, São Leandro sabia que o homem não é senão um instrumento de Deus e de Nossa Senhora, os verdadeiros realizadores do apostolado. Assim, as conversões deram-se em número colossal e o poder ariano foi diminuindo graças às suas pregações.

Aspectos fugazes, porém importantes, se desvendam na vida de São Leandro, uma das maiores figuras da hagiografia e da história espanhola.  

Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferências de 26/2/1964 e 27/2/1967

1) Butler, Alban. Lives of the Saints - With Reflections for Every Day in the Year.
2) Educado no Catolicismo, Úlfilas aderiu ao arianismo por ocasião de uma viagem a Constantinopla, onde Eusébio o sagrou bispo. Tendo voltado para o grêmio dos godos, dedicou-se à conversão de seus irmãos de raça à fé ariana.

Pelo apostolado de São Leandro começa a história católica da Espanha

Em 567 subiu ao trono de Toledo um homem de grande energia: Leovigildo. Tratava-se de um soberano faustoso, que em matéria de religião mantinha-se ariano fanático.

No ano de 580, Leovigildo, ingenuamente, convida os seus súditos católicos a aderir à fé ariana, e enfeita a sua proposta com tantas promessas vantajosas e aparentemente substanciais que alguns se deixam iludir. Mas esta política encontrou pela frente a clarividência de um monge notável: São Leandro, o futuro Arcebispo de Sevilha.

Sob a influência de São Leandro, Hermenegildo, filho primogênito de Rei, abjurara o arianismo, o que lhe valeu as maiores violências por parte de seu pai. Mas, num abrir e fechar de olhos, agrupou-se em torno de Hermenegildo um verdadeiro partido, constituído por todos os católicos que estavam cansados das perseguições arianas, pelos Bispos e, sobretudo, por São Leandro. Não demorou a formar-se uma autêntica coligação contra Leovigildo. O Rei intimou o filho a regressar à fé ariana e, perante a sua recusa, rebentou a guerra.

Refugiado na Andaluzia, o jovem chefe católico organiza a resistência, enquanto São Leandro embarca para o Oriente a fim de pedir o auxílio do Imperador. Mas Hermenegildo, embora plenamente consciente do direito que lhe assiste, sofre por ter de lutar contra o próprio pai. Então, a pedido de seu irmão Recaredo, aceita encontrar-se com o Rei para entrar em negociações. Leovigildo abraça-o e declara que está tudo perdoado. Mas, de repente, a um sinal do Rei, os guardas prendem o Príncipe, despojam-no das suas vestes e lançam-no na masmorra.

Começa então uma “paixão” digna dos antigos mártires. Em vão, enviam ao Príncipe bispos e teólogos arianos para convencê-lo a voltar ao credo de seu pai; nada o faz ceder. Durante longos meses sofre o cativeiro, os maus tratos e — ainda mais — a privação da Sagrada Eucaristia. Por fim, louco de cólera, Leovigildo dá a ordem fatal para decapitar Hermenegildo na prisão.

Mas é verdadeiramente o caso de repetir a célebre frase de Tertuliano: “O sangue dos mártires é semente de cristãos”. Não se passara ainda um ano da morte de Santo Hermenegildo, e já em maio de 586 Leovigildo morria no seu palácio de Toledo, sucedendo-lhe o seu filho Recaredo.

O novo Rei deu uma reviravolta completa em toda a política: os Bispos católicos foram chamados do exílio e São Leandro, nomeado Arcebispo de Sevilha, foi recebido na corte com as mais delicadas atenções. Começava a história católica da Espanha.

(Rops, Daniel. A Igreja dos tempos bárbaros. Cap. IV. São Paulo: Quadrante, 1991. p. 211-212.)