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segunda-feira, 9 de abril de 2012

SÃO RAIMUNDO DE PEÑAFORT

Um homem para todas as missões
Diretor espiritual do rei, apóstolo das gentes, célebre canonista, professor, reformador dos costumes, protetor dos pobres, conciliador de litígios, não havia campo de apostolado ao qual ele não se lançasse.
A alguns santos a Providência dá uma missão restrita, bem delimitada. Outros são chamados para acudir às necessidades gerais da Igreja, nos mais diversas campos de apostolado. Eles sustentam a causa de Deus em toda parte, são, por assim dizer, factótuns (faz-de-tudo) de Deus.
Uma vocação universal
Nessa perspectiva, a vida de São Raimundo se torna mais facilmente compreensível. Trata-se de um Santo com uma vocação universal. Chamado pela Providência para as missões mais diversas, ele, com uma versatilidade prodigiosa, “faz de tudo”, quase ao mesmo tempo.
Nasceu em 1175, no castelo de Peñafort, na Catalunha, Espanha. Seus pais eram de nobre estirpe de cavaleiros. Ainda leigo, com a idade de 20 anos, já ensinava filosofia em sua cidade, mais com o intuito de formar os corações do que de instruir os espíritos. O tempo que lhe sobrava, empregava-o em socorrer os infelizes e conciliar divergências entre seus concidadãos.

Aos 30 anos ingressou na Universidade de Bolonha, onde estudou Direito Canônico e Civil com tal êxito que não tardou em doutorar-se e passar de aluno a mestre. As qualidades e virtudes do piedoso doutor faziam dele um dos mais belos ornamentos da famosa Universidade. Em pouco tempo, sua reputação já alcançava países distantes.
Em 1219, o Bispo de Barcelona, Dom Berenger, foi a Bolonha, com o objetivo de levar consigo Raimundo para sua diocese. Bem sabia o Prelado quanto este lhe seria valioso instrumento para reforma dos costumes, reafervoramento do povo e até mesmo do clero da Catalunha. O famoso professor, entretanto, não se mostrava disposto a abandonar seu campo de trabalho, onde podia fazer tanto bem para a salvação das almas.
O Bispo, porém, sabia como tocar as cordas sensíveis do Santo. Após expor-lhe as prementes necessidades da Igreja em Barcelona, afirmou que ele tinha uma particular obrigação de atender primeiro seu país natal. Depois lhe mostrou o perigo de se afastar do caminho de Deus, ao qual ele ficaria mais exposto se seguisse apenas sua própria vontade. E encerrou com o seguinte argumento: em Bolonha, o brilho de sua reputação lhe atraía tão grandes aplausos que não poderia deixar de aumentar desmedidamente suas ocupações, com prejuízo da vida interior.
Por fim, Raimundo se deixou persuadir e transferiu-se para Barcelona, dedicando-se de corpo e alma ao serviço do Altar.
Modelo dos sacerdotes
Nomeado cônego, e pouco depois arqui-diácono, logo tornou-se o modelo dos sacerdotes na igreja de Barcelona, tanto pela inocência de sua vida quanto pela regularidade e exatidão no cumprimento de todos os ministérios.
Empenhou-se para que os atos litúrgicos fossem realizados com a maior dignidade e beleza. Autorizado pelo Bispo, promoveu pela primeira vez a celebração da festa da Assunção de Nossa Senhora, com ofício solene.
Raimundo estava sempre pronto a socorrer os indigentes e auxiliar a todos quantos iam consultá-lo. Em pouco tempo fez-se amado e respeitado por todos. O exemplo de suas virtudes contribuiu mais para a reforma dos costumes que toda a autoridade da qual fora revestido pelo Bispo.
Mas o desejo de levar uma vida mais perfeita, mais penitente e menos exposta aos olhos dos homens, cujos louvores temia, o impelia a procurar um estado de maior dedicação.
Quando professor em Bolonha, testemunhara as grandes virtudes de São Domingos e os milagres que Deus realizava por meio desse Santo. Era grande admirador da vida angélica dos primeiros dominicanos estabelecidos em Barcelona. Dócil à voz de Deus que o chamava a ser como eles, recebeu o hábito religioso de São Domingos na Sexta-Feira Santa de 1222, na idade de 47 anos.
Seu exemplo atraiu para a Ordem Dominicana vários personagens ilustres, como Pedro Ruber, Raimundo de Rosannes e outros piedosos eclesiásticos, cuja vocação e talento deram novo brilho à Ordem em toda a Catalunha.
Homem de grande ciência
Esse novo estado de vida foi para ele um acréscimo de fervor e uma escola de perfeição. As graças que recebia na oração aumentavam-lhe sempre o desejo de se mortificar e tornar-se útil no serviço da Igreja e do próximo.
Os superiores valeram-se sabiamente de tais disposições para fazer frutificar suas qualidades. Tendo ele rogado que lhe impusessem uma severa penitência para expiar, segundo dizia, as vãs complacências que tivera ensinando no mundo, ordenaram-lhe que compusesse um compêndio dos casos de consciência, para facilitar a delicada missão dos confessores.
Frei Raimundo executou esse trabalho com admirável exatidão, apresentando de forma ordenada os “casos de consciência” e dando a solução para cada um deles, com base nos ensinamentos das Sagradas Escrituras, nos cânones das leis eclesiásticas, na doutrina dos Padres da Igreja e nos decretos pontifícios. O Papa Clemente VIII fez grandes elogios a essa obra, afirmando ser ela igualmente útil aos penitentes e necessária aos confessores.
Conhecedor da grande ciência de São Raimundo, o Papa Gregório IX chamou-o a Roma como Penitenciário Papal e lhe deu a incumbência de realizar um trabalho de proporções universais, a compilação da vasta legislação canônica então em vigor.
Dela se desincumbiu o insigne canonista dominicano com o zelo e a competência de costume. Em 1234 apresentou ao Pontífice a obra concluída. Sob o título de Decretais, essa codificação vigorou na Igreja até 1918, quando foi publicado o primeiro Código de Direito Canônico.
Insaciável zelo pelas almas
Em 1238 foi eleito Superior Geral dos Dominicanos. Desejoso, porém, de dedicar-se por inteiro ao apostolado de conquista de almas para Jesus Cristo, pediu e obteve dispensa desse cargo. O zelo da salvação das almas o devorava. Seus pensamentos estavam voltados para fazer novas conquistas para a Igreja, sobretudo entre os infiéis.
Com o objetivo de facilitar a conversão de judeus e muçulmanos, criou centros para o ensino de suas línguas e pediu a São Tomás de Aquino para escrever a Suma Contra Gentiles.
Servindo-se deste poderoso instrumento de apostolado, o Santo pôs-se a campo, e os bons resultados não se fizeram esperar: em uma carta sua ao Superior Geral, datada de 1256, pode-se ler que obteve a conversão de mais de dez mil árabes na Espanha. Esse célebre canonista organizou também missões para a conversão dos judeus e dos muçulmanos.
Não havia, por assim dizer, campo de apostolado ao qual não se lançasse: trabalhar sem esmorecimento para converter os pagãos, ou pelo menos impedir que corrompessem os cristãos; atrair os pecadores à penitência e reconciliá-los no tribunal do confessionário; instruir os fiéis pelo ministério da palavra; apoiar os bons, consolá-los nos seus sofrimentos; obter para os pobres as esmolas e os auxílios dos ricos — nada era demasiado para o desejo de salvar almas, que nele crescia mais e mais.
Navegando sobre um escapulário de lã
São Raimundo é um dos mais esplendorosos exemplos de confirmação das palavras de Cristo: “Aquele que crê em Mim fará também as obras que Eu faço, e fará ainda maiores do que estas” (Jo 14,12).
O Rei Jaime de Aragão era senhor da Ilha de Maiorca, localizada no mar Mediterrâneo a 360 quilômetros de Barcelona. Numa de suas viagens a essa ilha, convidou para acompanhá-lo Frei Raimundo, que na época exercia as funções de capelão da corte. Durante o percurso, o monarca — cujo procedimento moral muito deixava a desejar — tentou forçar a consciência do Santo, exigindo que ele complacentemente fizesse vistas grossas a esse mau proceder.
O homem de Deus resistiu com vigor, chegando a ponto de pedir licença para descer do navio, em pleno mar, e retornar a Barcelona. O Rei negou autorização para essa “loucura” que para o Santo, entretanto, parecia coisa simples, uma vez que Jesus veio até seus discípulos “caminhando sobre as águas do mar” (Mt 14,25). Confiante em Deus, ele respondeu ao monarca:
— Um rei da terra me fecha a passagem, mas o Rei do Céu há de me abrir caminho melhor; ou por outra, Ele próprio é meu caminho!
Porém o Rei, à negativa de Insaciável zelo pelas almas autorização, acrescentou uma ameaça de pena de morte, caso Em 1238 foi eleito Superior o Santo tentasse fugir.
E ao desembarcar na ilha, Frei Raimundo notou que uma escolta armada havia sido incumbida de guardá-lo para impedir sua fuga.
Após, com sua acolhedora bondade, conquistar a confiança dos guardas, manifestou-lhes o desejo de rezar andando pela praia. Eles consentiram. Afinal, pensavam, o que poderia fazer esse bom frade, desarmado, para escapar de nossa vigilância?
Tal raciocínio, inteiramente válido para outros homens, revelou-se ilusório para o indomávelnSanto.
Sob o olhar estupefato dos soldados, ele estendeu seu escapulário de lã sobre as águas do mar, e nele “embarcou”. Após agasalhar-se com parte de seu manto, içou a outra ponta ao seu bastão, constituindo uma vela. O resto... foi só invocar o santo nome de Maria, a Senhora dos ventos, de quem era fiel devoto. Um sopro suave, mas veloz, impulsionou o veleiro de Deus e em menos de seis horas ele chegava ao porto de Barcelona, vencendo milagrosamente a distância de 360 km que separam a Ilha de Maiorca dessa cidade espanhola.
Era alta madrugada quando chegou a seu convento, onde a grande porta abriu-se por si mesma, como braços maternos a acolher um filho que há tempos não a transpunha. Ele dirigiu-se à sua cela conventual, onde até as paredes pareciam exultar de alegria.
Ao amanhecer, com a despretensão característica dos santos, ele foi tomar a bênção do Superior e comunicar que sua missão na corte real estava cumprida.
Do portentoso milagre, só muito depois os irmãos tomaram conhecimento, e por outras vias.
E o Rei, como reagiu?
Caindo em si, ante essa manifestação de um poder sem comparação maior que o seu, passou a seguir fielmente as advertências de Frei Raimundo, tanto no que dizia respeito à direção de sua consciência, quanto no que concernia ao governo do Reino.
Cem anos de vida inocente
Recolhido no convento de Barcelona, São Raimundo cuidou de preparar-se para sua última viagem. Com redobrado fervor, consagrava dias e noites à oração e à penitência.
Chegou afinal o almejado e temido dia do encontro com Deus, 6 de janeiro de 1275. Justamente nesse dia, ele completava 100 anos de idade! Após receber os sacramentos da Igreja, sua grande alma retornou às mãos do Criador, tão inocente quanto delas havia saído. Antes de sua partida para a eternidade, os reis de Castela e Aragão o visitaram com suas respectivas cortes, para receber pela última vez sua bênção.
São Raimundo foi canonizado em 1601, pelo Papa Clemente VIII. Em seu túmulo, operaram-se numerosos milagres, muitos dos quais são mencionados na bula de sua canonização. Sendo o dia 6 de janeiro dedicado à festa dos Reis Magos, a Igreja celebra no dia 7 a entrada gloriosa de sua alma no Céu.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

São Pedro Armengol

Nasceu São Pedro Armengol em meados do século XIII, na Catalunha, sendo então o mais novo rebento da ilustre família dos Condes de Urgel. Seus pais eram minto chegados ao rei de Aragão, o soberano daquela região ibérica, frequentando com liberdade a Corte.
Nessa atmosfera de alta nobreza, o menino Pedro recebeu esmerada educação. Mas, à medida que foi crescendo, ao invés de permanecer nos bons ambientes e de se deixar influenciar pelos ditames e pela moral da Igreja Católica, foi decaindo nos costumes e na piedade. Passou a conviver com más companhias e se desviou das sendas do bem.
Em vão, os pais fizeram todo o possível para retê-lo. Pedro se desclassificou a tal ponto que abandonou a casa paterna, embrenhou-se no meio da última ralé de bandidos, de sem-vergonhas, e ali se perdeu completamente. Com o tempo, chegou a se tornar chefe de uma quadrilha de salteadores de estrada. Ladrão perigoso, assassino e fugitivo, se a polícia real o apanhasse, certamente seria morto.
Fulminante golpe da graça
Aconteceu porém que, estando ele um dia a vagar pelo mato com seus companheiros de perdição, ouviu ao longe um toque de clarim, típico de gente da Corte. Imaginando os preciosos despojos que aquele séquito lhe proporcionaria, Pedro resolve ataca-lo com sua quadrilha.
Mal os dois grupos se encontram, Pedro sai em busca do chefe do destacamento e está prestes a lhe desferir um golpe quando... percebe tratar-se de seu próprio pai.
Como que tocado por fulminante raio, o bandido permanece imóvel, detendo no ar seu braço armado. Ele, e não o pai. recebera o golpe fatal Um golpe da graça divina. Por certo, naquele instante alguém, em algum lugar, devia estar rezando por ele a Nossa Senhora…
A vista da nobreza e da respeitabilidade de seu pai deu a ele a ideia de como tinha caído, de como se tornara a escória da sociedade e, por isso mesmo, indigno do ambiente no qual vivia sua família. “Que diferença” — pensou ele. ‘Meu pai e minha mãe numa situação honrosa, e eu, entre bandidos! De pessoa limpa e decente, transformei-me num canalha!”
Essas reflexões de Índole humana, sugeridas pela graça, foram acompanhadas de outra: ‘Pequei contra Deus! Isto é o mais grave, infinitamente mais grave, em tudo o que fiz. Ó Senhor, como é grande a minha maldade!”
Confuso e envergonhado, Pedro teve verdadeira contrição dos pecados cometidos. Como o filho pródigo do Evangelho, lançou-se aos pés do pai e pediu perdão. Acabou sendo agraciado pelo Rei, deixando para sempre a roda de malfeitores no meio dos quais vivera. Depois, com toda a humildade, procurou um religioso mercedário, a quem confessou os crimes que perpetrara e expôs os remorsos que lhe torturavam a alma.
Na Ordem de Nossa Senhora das Mercês
Uma vez absolvido de seus pecados, Pedro solicitou, por misericórdia, que o admitissem como mercedário. Os frades resolveram aceitá-lo, reconhecendo seu profundo e sincero arrependimento.
Os mercedários são membros de uma Ordem religiosa consagrada a Nossa Senhora sob esta linda invocação: Nossa Senhora das Mercês. Mercês são os favores que Nossa Senhora concede aos seus devotos. Tanto valeria dizer, pois, Nossa Senhora da Bondade, Nossa Senhora da Generosidade ou Nossa Senhora dos Presentes...
Era missão dos mercedários trabalhar pela libertação dos cativos que viviam sob o jugo de infiéis. De fato, no tempo dc Pedro Armengol o Mediterrâneo era infestado de piratas maometanos que assaltavam os navios católicos, não apenas para roubar, mas para capturar tripulantes e passageiros a fim dc transformá-los em escravos. Assim, o norte da África estava repleto desses cativos, tiranizados pelos bárbaros para o resto de suas vidas.
A situação desses infelizes era física e espiritualmente horrenda, posto praticarem os mouros a poligamia e terem uma péssima moralidade, criando deste modo um ambiente venenoso para seus cativos. Porque, tal o mestre, tal o escravo.
Ora, no intuito de cumprir sua heróica missão, os frades mercedários não só se arriscavam a viver em território maometano, como faziam um voto admirável: por amor às almas, oferecerem-se como reféns, para serem trocados por cativos católicos que estivessem no meio dos mouros. Trata-se de uma das mais elevadas manifestações de dedicação que eu conheço. Um homem pode ser grande herói porque assaltou as muralhas de tal cidade, porque combateu como ninguém. etc. Mas, oferecer-se para correr os riscos da escravidão nos domínios maometanos!...
No norte da África
Foi esta, precisamente, a forma de heroísmo abraçada por Pedro Armengol. Convertido, ingressou na Ordem dos Mercedários e se tornou excelente religioso. Passaram-se alguns anos e, certo dia, aconteceu o que tinha de acontecer. O Superior mandou chamá-lo e lhe disse:
— Frei Pedro, o senhor esta designado para ir libertar os cativos na África.
- Pois não  — respondeu ele sem hesitar, certamente pensando no seu intimo: Eu mereço isso pelos meus pecados.”
Atendendo à voz da obediência. Frei Pedro passou um número de anos no norte da África. Numa arriscada existência.
Quando já se preparava para voltar à Espanha, soube que 137 jovenzinhos cristãos, escravizados, jaziam nas casas de seus senhores expostos à depravação e ao risco de perderem a Fé.
Com religioso desvelo. Frei Pedro procurou os mouros e negociou a libertação daqueles cativos. Os infleis exigiram muito dinheiro. Soma tão avultada só poderia vir da Espanha, o que prolongaria ainda mais o tempo da perigosa escravidão dos jovens católicos.
Sem hesitação, Frei Pedro ofereceu-se como refém no lugar deles, até que lhe fosse enviada da Espanha a quantia necessária para o resgate.
Os mouros concordaram, impondo entretanto a seguinte condição:
— Damos a eles um prazo para irem à Espanha, recolherem o dinheiro e no-lo enviarem. Durante esse tempo você fica aqui à nossa disposição. Se o dinheiro não chegar até o dia X. nós o enforcamos.
Pendurado na forca, sem perder a confiança em Nossa Senhora
Nos seus insondáveis desígnios, queria a Providência colocar à prova o ex-salteador de estradas.
Esgotara-se o prazo estipulado pelos maometanos. Furiosos, cumpriram a ameaça: enforcaram Frei Armengol e, acreditando-o já morto, abandonaram-no pendente da corda.
Pouco tempo depois chega o navio com o dinheiro do resgate. Problemas de navegação haviam determinado o atraso.
— Onde está o Frei Armengol — perguntaram os emissários.
A resposta do chefe mouro foi aterradora:
— Chegaram tarde. Ele está no cadafalso, enforcado há três dias, conforme prometi.
Indignados com a crueldade do infiel, os frades quiseram ver o corpo de seu irmão de habito.
Ao chegarem junto ao patíbulo, grande surpresa: Frei Pedro. ainda na forca, estava vivo, embora pálido como um cadáver. (Ele conservaria no rosto, por toda a vida, essa palidez cadavérica: e no pescoço, bem visível,a marca da corda.)
Era um milagre extraordinário!
Por humildade, Pedro Armengol nada disse a respeito desse milagre. De volta à Espanha, porém, o Superior lhe ordenou em nome da santa obediência:
— Frei Pedro, conte o que se passou.
Com a mesma humildade, ele simplesmente respondeu:
-- Nossa Senhora ficou me sustentando o tempo inteiro.
Quer dizer, ele confiara na Santíssima Virgem, e Ela realizou esse estupendo milagre em favor de seu heróico devoto.
Com autorização dos superiores, Pedro Armengol se retirou para um convento nas montanhas, onde viveu solitário, fazendo penitência por sua vida passada e rezando pelos católicos cativos nas mãos dos mouros. Ali cresceu ele em graça e santidade, até o dia cm que “adormeceu no Senhor”. Anos depois, a Santa Sé o canonizou.
Admirável modelo de confiança
Para mim, São Pedro Armegol é o modelo da confiança. Pecador medonho, arrependeu- se. confiou e foi perdoado. Mais ainda: recebeu a vocação religiosa! O bandido fora chamado por Nossa Senhora para abraçar a condição de frade.
Insondável desvelo foi também o atrai-lo para a Ordem das Mercês, onde o antigo Ladrão haveria de correr riscos que lhe dariam a oportunidade de, ao mesmo tempo, expiar seus pecados e fazer muito bem ao próximo.
Subitamente, mais uma prova: ficar como refém, com perigo de morte. A calma da espera, e o navio que não chega...
Vêm os carrascos para matá-lo, ele caminha sereno e tranquilo para o patíbulo. Suspenso na corda, ele percebe naturalmente estar sendo objeto de um milagre.
Outra espera. O que vai acontecer?
Chega o dinheiro do resgate, descem-no da corda. A sua confiança estava preenchida.
Este é o tipo de confiança que todo católico deve ter. Ainda que — segundo as pungentes palavras do salmista — imersos no limo profundo, onde nossos pés não encontram terreno sólido, temos de confiar em Nossa Senhora.