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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Santa Isabel de França

Junto ao trono, a glória da santidade
A dois passos do trono de um rei santo vive uma princesa, sua irmã, igualmente ornada das mais altas virtudes. A santidade levada na existência da corte e no claustro, orvalhada pelo perfume do ambiente medieval, é a moldura da vida desta princesa francesa do século XIII, naqueles idos da “doce primavera da fé”. Trata-se de um lindo exemplo de como Deus glorifica seus eleitos.
Eis um fato pouco conhecido: São Luís, Rei de França, teve uma irmã igualmente santa, canonizada,  cuja memória é celebrada em 22 de fevereiro.
No palácio, uma existência monacal
Em sua Vida dos Santos, o Pe. Rohrbacher nos fornece alguns dados biográficos a respeito dela:
Filha de Luís VIII e Branca de Castela, Isabel de França nasceu em 1225. Com menos de 2 anos de idade perdeu o pai, mas a mãe deu-lhe uma educação completa, auxiliada pela senhora de Buisemont, mulher culta e virtuosa. Desde criança, Isabel mostrou aversão por tudo quanto pudesse afastá-la de Deus, decidindo mais tarde consagrar-se a seu serviço. Assim, quando Luís IX e Branca de Castela insistiram para que se casasse com Conrado, filho de Frederico II [imperador germânico], pois essa união era vantajosa para a França, Isabel recusou-se terminantemente. Uma carta de Inocêncio IV, então no trono pontifício, veio pôr fim a qualquer dúvida sobre o problema: felicitou a jovem por sua resolução e aconselhou-a a perseverar.
Desde então, no próprio palácio, Isabel passou a levar uma vida em tudo semelhante à do claustro, dedicando-se principalmente aos pobres e doentes. Deus enviou à sua serva muitas provas: enfermidades longas e graves; a morte da rainha-mãe, que muito a abalou; o insucesso do irmão na Terra Santa. Quando este voltou, liberto, Isabel deixou o castelo real e fundou em Longchamp uma casa para jovens, da Ordem de São Francisco, depois Convento da humildade de Nossa Senhora, do qual mais tarde foi superiora.
Como abadessa, sempre doente, foi favorecida por graças e êxtases, chegando, antes de falecer, a saber a hora e o dia exatos em que deixaria o mundo.
Santa Isabel de França faleceu em 1270. Revestida com o hábito de Santa Clara, foi sepultada no mesmo convento que fundou, conforme seu desejo. Dizem que seus funerais foram muito solenes. Depois de nove dias seu corpo foi exumado, e não apresentava sinal algum de decomposição.
A 3 de janeiro de 1521, o Papa Leão X permitiu que a Abadia de Longchamp celebrasse sua festa com um ofício próprio.

Em vez de prazeres e orgulhos, oração e cuidado dos pobres
Cumpre assinalar, antes de tudo, que esses dados constituem mais um exemplo para desmentir a lenda contrária às cortes, apresentando-as sempre como lugar de prazeres desregrados, sensualidade, exaltação do orgulho, onde a virtude não floresce.
Vemos aqui dois santos: um deles sentado no trono, e sua irmã nos degraus do sólio régio, ambos tributando a Deus toda a glória de que eram capazes. E não distante deles, brilhava a pessoa de Branca de Castela que, embora não fosse santa, era entretanto insigne por sua austeridade e por vários predicados morais.
Quanto à vida de Santa Isabel, percebe-se que o modo pelo qual a Providência trata seus santos é bem diferente do “final feliz”. Conforme esse estado de espírito, as pessoas consagradas levam existência aprazível, sem dificuldades e provações.
Ora, trata-se aqui de uma princesa que abandona tudo para se dedicar à oração e a servir os pobres. Nota-se, de forma mais ou menos clara, que Isabel carrega uma parte do fardo de São Luís: ela sofre, geme, reza pelo êxito do Rei Cristianíssimo no governo, em sua cruzada e outros empreendimentos. Padece agudamente com o insucesso da expedição militar comandada por ele para libertar Jerusalém e pelo fato de São Luís ter sido preso.
Doente, santificou-se de modo mais rápido
Ela reside no castelo real, onde leva vida de monja. E quando o rei volta, deixa o local e funda um convento. Sua formação religiosa está completa.
Durante esse período, porém, é atormentada por graves doenças que constituem, evidentemente, contratempos às suas obras de caridade e até à suas práticas piedosas. Muitas vezes ela terá tido dificuldade em rezar por causa das enfermidades. Foi doente a vida inteira. Entretanto, ao longo de seus anos adquiriu abundantes méritos e se santificou.
Quis a Providência que Isabel enfrentasse um grande obstáculo o qual, na realidade, foi um meio para atingir a perfeição. Tornando-se doente, ela se santificou mais rapidamente e melhor do que se tivesse desfrutado de  boa saúde. Esse é o fato concreto.
Convento da humildade de Nossa Senhora
Assim, verifica-se quão errado é pensar que todas as obras de apostolado devem correr de forma fácil, atingindo sempre bom resultado, sem encontrar dificuldades internas nem externas. Tal pensamento é equivocado e denota espírito naturalista, dado à mania do happy end exaltado pelo cinema.
Isso nos serve de lição. Às vezes, alguns de nossos empreendimentos apostólicos não logram o êxito que desejávamos, ou até fracassam. Devemos compreender que essas vicissitudes fazem parte de nossa existência neste mundo, são o “pão nosso de cada dia”; diria mesmo que é o modo normal com que a Providência age em relação aos que A servem. Desconfiemos: quando uma obra segue seu caminho sem topar com nenhum contratempo, não é obra de Deus.
Chamo a atenção para o lindo nome do mosteiro que Santa Isabel fundou e escolheu para lugar de seu recolhimento: Convento da humildade de Nossa Senhora.
Esse título nos dá a impressão de que naqueles corredores, nos claustros, nas celas e, sobretudo, na capela, pairava como que um manto da humildade de Nossa Senhora, agasalhando as religiosas na aniquilação de todas suas vaidades, de todo seu orgulho. E, ao mesmo tempo, protegendo-as, propiciando-lhes as alegrias que são um antegozo do Céu.
A notícia da morte, um prêmio recebido de Deus
Por outro lado, é belo considerar como Deus sempre glorifica seus santos. Nesse sentido, há uma impressionante oração de Nosso Senhor, na qual Jesus pede a Deus Pai que O glorifique, porque Ele já dera glória ao Pai Celeste.
Todos os santos são glorificados pelo Altíssimo, ainda que isto suceda no último minuto de sua existência. Santa Isabel soube exatamente em que ano e hora haveria de morrer, e permanecia serena. Atitude bem diversa de certas pessoas que se tomariam de medo se alguém lhes informasse a data de sua morte. Se não o medo, o cálculo otimista: “Que bom se me disser que morrerei com 90 anos de idade. E quando o dia chegar, ficarei um tanto aborrecido, pois saberei que morrerei mesmo, e não atingirei os 100... Ao menos passarei 90 anos sossegados; nos últimos três anos começarei a me preocupar. Mesmo assim, vale a pena!”
Mas, se lhe declaram que vai morrer dentro de 15 dias? Como se arranja?
Infelizmente, a maioria  das  pessoas  demonstram  medo em saber quando irão falecer. Não era esta, porém, a atitude de Santa Isabel de França. Ela considerava a morte uma libertação. Soube da data de seu  passamento como se fosse um prêmio de Deus, e preparou-se para ir ao Céu como uma esposa se atavia a  fim de encontrar-se com seu esposo. Percebe-se, assim, a extrema beleza de que se reveste essa maneira  de morrer.
Diz a Escritura que a morte dos justos é preciosa aos  olhos de Deus (Cf. Sl 115, 15). Realmente, nota-se que  Santa Isabel teve uma morte tranquila, serena, porque  sabia quando Deus iria chegar.
Imaginemos o que se passa no quarto de um moribundo, no exato momento em que exala o último suspiro. Ele é julgado por Deus e naquele dia mesmo pode estar contemplando o Senhor face a face, libertado de tanta miséria e tristeza, tanto infortúnio e risco de salvação eterna!
Assim deve ter sido a morte de Santa Isabel de França. Que ela interceda por nós, peregrinos neste vale de lágrimas, a fim de que alcancemos, nós também, um fim sereno e a eterna bem-aventurança. 

1 ) Mentalidade incutida pelos filmes de Hollywood — espalhados no mundo inteiro, após a II Guerra Mundial — segundo a qual a vida não deve ser encarada com seriedade,  pois tudo tem um “final feliz”. ) Cf. Jo 17, 1-5.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Papa São Fabiano

“O homem da rua sobre quem a Pomba pousou”
A poluição em todas as suas formas, continua problema atual. Mais especialmente tenho em vista aqui a poluição moral inerente à vertiginosa decadência dos costumes, e a poluição mental provocada pela trepidação da vida hodierna. (...)
Uma excursão ao passado
O meio de fugir disso? Uma excursão, por exemplo, ou a audição de alguns belos discursos, a leitura de um romance, contentam a vários. Há os que se satisfazem com menos, isto é, com a ingestão de qualquer comprimido que favoreça a evasão para as profundidades de sonos insondáveis. Entre tantos recursos despoluentes, há também a excursão às extensas regiões do passado, ou seja, a leitura de narrações históricas. No píncaro destas, existe a legenda, com o encanto de sua leveza, de seu simbolismo, de seu esplendor.
Para a decepção da maioria e o possível contentamento de uns poucos, é uma viagem ao passado que proponho neste fim-de-semana. Não ao passado histórico, mas ao passado legendário, tão lato, tão belo, que por alguns lados parece tocar na própria eternidade. Acabo de ler um conto tomado mais ou menos a esmo na Légende Dorée, de Jacques de Voragine. Queres viajar comigo nas regiões etéreas deste conto, leitor?
De um simples passeio para a maior das dignidades
Fabiano era um simples romano como outro qualquer. Um “homem da rua”, como hoje se diria. E sequioso de notícias como são em todos os tempos os seus congêneres.
Ora, havia em Roma, ainda recente uma grossa novidade: morrera o Papa. E estava em gestão uma novidade ainda maior: ia ser escolhido pelo povo o novo Pontífice. Nosso “homem da rua”, segundo o costume, saiu de casa e se misturou na multidão, reunida para a augusta escolha1. Fabiano julgava chegar atrasado, isto é, a tempo somente de conhecer o resultado.
E este veio, bem diverso do que Fabiano podia imaginar. Do alto do Céu baixou uma pomba de esplendorosa alvura, e pousou sobre a sua cabeça. Por esse fato simbólico, o Espírito Santo deixava claro que designava Fabiano. A multidão, piedosamente entusiasmada, escolheu-o Papa. E Fabiano, que saíra à rua para passear, se viu alçado assim à dignidade inigualável de sucessor daquele de quem o Salvador disse: Tu és Pedra, e sobre essa pedra edificarei a minha Igreja. E as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16, 18). E a partir daquele momento a “solicitude de todas as igrejas” ( 2 Cor 11, 28) passou a ser a  única preocupação e a única atividade de sua vida.
Suma veneração pelos mártires
Aqueles remotos tempos se assemelhavam de algum modo aos nossos. A Igreja tinha adversários poderosos e implacáveis. O sangue dos mártires corria às torrentes em toda a vastidão do Império Romano. Também hoje a Igreja tem inimigos poderosos. E, por toda parte, também os católicos são perseguidos. É certo que os adversários de hoje (...) não são brutais como os de outrora. Perseguem com o sorriso hipócrita nos lábios, e a mão estendida para a colaboração dolosa. (...) Hipocrisia ou brutalidade são acidentes. Em substância, o ódio é o mesmo.
Fabiano, cheio de veneração pelos mártires, começou seu Pontificado enviando por todo o Império sete diáconos e sete subdiáconos, para que recolhessem por toda a parte as atas dos martírios. Homem previdente, queria ele legar assim para toda a posteridade, estas narrações de uma heroicidade sem igual, escritas pelo sangue dos homens por amor ao Sangue de Cristo. De sorte que até a consumação dos séculos servissem de adorno à Igreja.
Vencedor de feras
Mas Fabiano não recebera em vão a visita da Pomba. O “homem da rua”, presumivelmente pacato e mediano, transformou-se em herói, e não apenas em colecionador  e compilador de feitos heróicos de outros.
O imperador Filipe levava uma vida cheia de pecados. Sem embargo, quis assistir às vigílias da Páscoa e participar dos Santos Mistérios. 
Fabiano, (...) em lugar de aceitar a presença escandalosa do pecador, (...) impediu que Filipe transpusesse os umbrais sagrados enquanto não confessasse seus pecados e não aceitasse de se colocar no lugar reservado então aos pecadores penitentes dentro da Igreja. Filipe cedeu. 
E Fabiano, pela graça da Pomba [isto é, do Espírito Santo], venceu assim a fera. Feliz da Igreja quando é governada por varões que, fortalecidos pela Pomba, não teme as feras!
Bem entendido, as feras não gostam deste trato. No 13º ano de seu Pontificado, o Imperador Décio mandou decapitar Fabiano. Este é o fim sinistro do “homem da rua” visitado pela Pomba, e transformado por Ela em um vencedor de feras.
Na glória celeste, aos pés de Maria
Fim sinistro?
Consideremos o desfecho da história, tão e tão elevado, que a legenda áurea apenas o deixa discretamente subentendido. No momento em que a cabeça venerável de Fabiano foi cortada, uma corte rutilante de Anjos, provindo das alturas excelsas onde reinam o Padre, o Filho e o Espírito Santo, baixou para receber a alma santíssima do novo mártir. Fabiano subiu, subiu, levado pelos Príncipes celestes. Mas, por mais que ele subisse, a Santíssima Trindade parecia irremediavelmente inacessível. Depois de um glorioso itinerário através das Hierarquias infindáveis dos Anjos que o aclamavam e o elevavam com o cântico de seu afeto, Fabiano, extasiado de felicidade e de glória, foi deposto pelos Anjos aos pés de Nossa Senhora. E assim como através de um telescópio os astros mais distantes parecem aproximar-se de nós, assim também junto ao Coração de Maria, Fabiano se sentia inteiramente saciado pela presença de Deus. Como é doce e glorioso contemplar Deus face a face, aos pés do trono de Maria!
Rogai por nós e pela Igreja!
Nessas alturas celestes terminou o passeio do “homem da rua”, que fora pacatamente à procura de notícias sobre quem tinha sido eleito Papa. E até o fim do mundo haverá homens que digam: “São Fabiano, rogai por nós”. Eu, por exemplo. E tu também leitor.
“Rogai por nós”. Só isto? Rogai, São Fabiano, pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana. (...) Ó, rogai pela Igreja, São Fabiano!
1) Nos primórdios do Cristianismo os papas eram eleitos pela aclamação do clero e do povo congregados nas ruas de Roma para esta finalidade. A partir de 769 ficou estabelecido que o Sumo Pontífice seria escolhido apenas pelo clero romano, mantendo-se a aclamação popular como mera formalidade. Em 1059, o Sínodo de Latrão reservou aos cardeais o direito de eleger o novo sucessor de Pedro (cf. Legenda Áurea, Cia. das Letras, São Paulo).

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Santa Gertrudes

Em 16 de novembro a Igreja celebra a memória facultativa de Santa Gertrudes, uma das maiores místicas de todos os tempos, que recebeu magníficas revelações, especialmente sobre o Sagrado Coração de Jesus.
Alma essencialmente contemplativa
Alguns relatos biográficos a respeito de Santa Gertrudes no-la apresentam como tendo nascido em 1256, na Turíngia (Alemanha). Ao completar 5 anos, foi confiada por seus pais ao Mosteiro de Helfta, o qual seguia a regra beneditina, e onde foi educada em todas as artes da época — letras clássicas, bordado, canto e miniatura — sob a orientação da abadessa Santa Gertrudes de Hackeborn, irmã de Santa Matilde.
Aos 25 anos, certo dia, após recitar as Completas, teve a primeira visão que transformou sua existência. Desde aquele momento tornou-se uma alma essencialmente contemplativa, acentuando sua devoção ao Sagrado Coração de Jesus e à Eucaristia, conformando sua profunda piedade às sucessivas experiências místicas. Sua vida passou a ser um hino perene de amor a Nosso Senhor Jesus Cristo.
Faleceu na Abadia de Helfta, em 17 de novembro de 1301 (ou 1302), e embora nunca tenha sido oficialmente canonizada, desde 1738 sua festa litúrgica tem sido comemorada em toda a Igreja. É também venerada como a padroeira das Índias Ocidentais1.
O Menino Jesus e Nossa Senhora no dia da Purificação
Essa alma privilegiada, em uma de suas visões contemplou o Menino Jesus e Nossa Senhora no dia em que Ele foi apresentado no Templo e sua Mãe cumpriu os preceitos da purificação. Escreve Santa Gertrudes: Rendo-vos graças, ó Criador dos astros, que destes luz e esplendor às luminárias dos céus e cores variadas às flores na primavera. Vós não precisais de nenhum de nossos bens e, entretanto, para nos instruirdes, mandastes, no sumo dia da Purificação, que fosseis vestido como criança, antes de entrardes no Templo.
Eu devia, com todo o cuidado possível, exaltar a inocência imaculada de vossa humanidade sem mancha, e ter por ela uma devoção tão fiel e desinteressada que, caso houvesse em mim a vossa pureza divina com toda a sua glória, a esta deveria renunciar de bom grado, a fim de que vossa inocência fosse mais louvada. Por esta razão, pareceu-me que estáveis revestido de um traje branco, como de um recém-nascido.
Em seguida, considerei com a mesma piedade o abismo de vossa humildade. E então vos vi revestido de uma túnica verde para significar que, no vale da humildade, a graça floresce e prospera sem jamais fenecer.
Como admirasse a ardente caridade que vos levou a criar todas as coisas, eu vos vi ainda trajado de um manto de púrpura, a fim de compreender que a caridade é verdadeiramente este manto régio, sem o qual ninguém pode entrar no Reino dos Céus.
Depois, celebrei essas mesmas virtudes em vossa gloriosa Mãe, e Ela apareceu revestida de trajes semelhantes aos vossos. Então, se essa Virgem bendita, verdadeira rosa sem espinho, lírio branco e imaculado, é adornada de todas as virtudes, pedimos-Lhe incessantemente que interceda por nós e venha em socorro de nossa indigência.
A santidade divina refletida por símbolos
Convém notar que as visões de Santa Gertrudes, como as de outros santos, possuem caráter altamente simbólico. O Menino Jesus se lhe apresentou revestido de túnicas diversas, cada uma significando uma perfeição de sua santidade infinita. Em seguida, ela contemplou Nossa Senhora, que igualmente lhe apareceu com trajes consecutivos diferentes . A santa estabelece uma relação entre as duas visões.
Primeiramente, ela agradece a Deus por ser o Criador de toda a natureza, comunicando às estrelas e aos outros seres materiais uma imensa variedade de aspectos e coloridos que simbolizam suas perfeições.
Essa ideia de que Deus se exprime através dos símbolos vem aplicada, a seguir, a algo de concreto, ou seja, às sucessivas túnicas usadas pelo Divino Infante e pela Santíssima Virgem. Por causa dessa reversibilidade, o pensamento de Santa Gertrudes não parece de uma fácil e imediata compreensão. Tem-se a impressão de que pende de uma coisa para outra. Porém, de fato sua reflexão é muito clara: “Deus nos fala por símbolos; a natureza é disso uma prova. Na revelação, vi coisas que me deram a entender algo a respeito do Menino Jesus e de Nossa Senhora.”
Inocência, humildade e amor de Deus
Diz Santa Gertrudes que o Menino Jesus foi vestido, antes de entrar no Templo, com uma túnica branca para exaltar a inocência imaculada de sua humanidade. E que ela estava disposta a renunciar, não à pureza em si mesma, mas à glória de possuir essa virtude em grau tão excelso que — guardadas as proporções — pudesse lembrar a do Infante Divino, a fim de que a inocência de Jesus fosse a mais enaltecida. Ou seja, para não existir outra que, por assim dizer, desviasse em algo as atenções da infinita candura do Filho de Maria. Em seguida, afirma a vidente que a túnica verde representava a humildade do Verbo Encarnado, porque onde há essa virtude, a graça floresce, como as flores desabrocham nos vales.
E a túnica vermelha significa o amor de Deus, indispensável para se entrar no Céu.
Santa Gertrudes viu também Nossa Senhora com trajes de cores semelhantes, para exprimir que todas as virtudes de seu Divino Filho a Ela se comunicam de um modo régio e incomparável. Assim, Ela participa da santidade do Menino Jesus.
Pedir especialmente a virtude da pureza
Dentro desse quadro, seria de particular conveniência destacarmos a virtude da pureza. De maneira mais patente que em relação a outras virtudes, a castidade se obtém com o auxílio da graça vinda do Céu. Sem um especial amparo de Deus, alcançado através dos rogos de Nossa Senhora, dificilmente o homem consegue praticar a pureza. Quem pretende conquistá-la, reconquistá-la ou conservá-la, utilizando apenas os métodos psicológicos — o que a doutrina católica chama de mortificação dos sentidos — não o logra.
A virtude da pureza é um dom sobrenatural que deve ser pedido humildemente, e assim nos será concedido. Lembremo-nos das palavras de Nosso Senhor no Evangelho: “Para quem bate, abrir-se-á” (cf. Mt 7, 7). Logo, é uma virtude ao nosso alcance, desde que a supliquemos com confiança e determinação. E uma vez obtida, importa rogar a todo momento a perseverança na sua prática, pois trata-se de uma virtude frágil. Sobretudo em matéria de castidade, não há homem que possa fiar-se em sua própria força. Esta consiste, antes, em reconhecer sua fraqueza.
Cônscios dessa debilidade, recomendemo-nos de modo especial à intercessão de Santa Gertrudes, para  que nos consiga essa virtude descida  do Céu, a qual nos torna tão parecidos com Nosso Senhor Jesus Cristo  e sua divina Mãe.  
Para os dados biográficos de Santa Gertrudes, cf. Enzo Lodi, Os Santos do Calendário Romano; Sgarbossa/ Giovannini, Um Santo para cada dia.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

São Pedro Julião Eymard

Amor apaixonado à eucaristia
Para a glória de Deus é preciso ter uma paixão que nos domine a vida e produza os frutos necessários e desejados por Nosso Senhor. O amor só triunfa quando é em nós uma paixão vital, e esta deve ser ardentíssima em relação à Eucaristia. Pois, o que é o amor, senão o exagero?”
Fervorosas palavras de amor eucarístico, brotadas dos lábios deste novo Elias que foi São Pedro Julião Eymard, fundador dos Sacramentinos.
Um santo do qual se poderia afirmar ser uma espécie de nova edição do Profeta Elias, pelo fogo de sua alma, é São Pedro Julião Eymard, fundador dos Sacramentinos. Celebrado pela Igreja no dia 2 de agosto, dele temos os seguintes dados biográficos:
Nascido em 1881 na cidade de La Mure-d’Isére, foi artesão antes de entrar no Seminário maior. Sua família era pobre, e o pai de Pedro Julião opunha-se à vocação sacerdotal do filho. Uma primeira tentativa de chegar ao presbiterato redundou num fracasso devido a uma grave enfermidade. Sem desanimar, algum tempo depois entraria no Seminário de Grenoble, sendo ordenado sacerdote dessa diocese em 20 de julho de 1834, aos 23 anos de idade.
O jansenismo que impregnava o mundo religioso da época, considerava o ser humano como pecador e indigno diante de um Deus transcendente e perfeito. O Padre Eymard, como seminarista e jovem sacerdote foi influenciado por essa espiritualidade de reparação e teve de lutar ao longo de toda a sua vida para encontrar da perfeição interior que o poderia tornar capaz de oferecer a Deus o dom de sua pessoa.
Religioso marista e fundador dos sacramentinos
Terá sido, provavelmente, essa procura da perfeição espiritual, aliada ao desejo de realizar importantes coisas por Deus, que o conduziram à vida religiosa. Em 20 de agosto de 1839 o Pe. Eymard tornou-se membro da Congregação Marista, fazendo profissão dos votos de pobreza, castidade e obediência.
Excelente educador de jovens, São Pedro Julião Eymard distinguiu-se na congregação dos maristas como exímio organizador de associações leigas, formador devotado e um requisitado pregador, alcançando particular êxito em suas homilias sobre a devoção eucarística.
Seu intenso amor ao Santíssimo Sacramento, aliás, motivou-o a escrever uma regra eucarística para a Ordem Terceira de Maria, da qual era o diretor. O Superior Geral não a julgou conveniente, mas a ideia de tal regra estava já inscrita no espírito e no coração do Pe. Eymard.
Fascinado cada vez mais pela espiritualidade eucarística e convencido de sua necessidade para a salvação das almas, retirou-se, sem dificuldades, dos Maristas em 1856 e fundou diversas congregações: a dos Padres do Santíssimo Sacramento, das Servas do Santíssimo Sacramento, dos Padres da Adoração e a Pia União de leigos do Santíssimo Sacramento.
Dom de si mesmo
O Pe. Eymard passou pouco a pouco de uma espiritualidade de reparação para uma piedade centrada no amor de Cristo. Três anos antes de sua morte, fez um retiro em Roma onde se viu inteiramente subjugado pela força do amor de Deus em sua alma, sentindo que tão ardente caridade tomava posse inteira de sua pessoa.
Aos 57 anos, após ter adorado fervorosamente seu Senhor sob o véu das espécies eucarísticas, foi enfim chamado a vê-Lo na plenitude da luz eterna. Era o dia 1º de agosto de 1868.
Canonizado em 1962, as relíquias de São Pedro Julião Eymard são veneradas na Capela de Corpus Christi, da Congregação dos Padres do Santíssimo Sacramento, em Paris.1
Virtude abrasadora
Trata-se, portanto, do fundador de uma ordem com uma finalidade admirável: a adoração perpétua ao Santíssimo Sacramento. Ou seja, nas igrejas dos Sacramentinos, Nosso Senhor, sob a espécie eucarística, acha-se exposto continuamente à adoração dos fiéis, que afluem para render o tributo de sua devoção a Ele, seja durante o dia, seja nas horas silenciosas da noite. Assim, nas grandes e nas pequenas cidades, o Sagrado Coração de Jesus é venerado pelo menos por uma alma que ali está, ajoelhada diante d’Ele e Lhe fazendo companhia.
Pois essa inestimável devoção é fruto da piedade eucarística de São Pedro Julião Eymard. Foi,  na  verdade, um homem de virtude abrasadora, e suas eloquentes palavras sobre o amor sem limites que devemos  render a Jesus Sacramentado constituem páginas maravilhosas da espiritualidade católica, dignas de serem  analisadas.
O amor: que é, senão o exagero?
Afirma ele: A Eucaristia é a mais nobre inspiração do nosso coração. Amemo-la, pois, apaixonadamente. Dizem: mas é exagero tudo isso. Mas o que é o amor senão o exagero? Exagerar é ultrapassar além. Pois bem, o amor deve exagerar. Quem se limita ao que é absolutamente de seu dever, não ama.
 Nosso amor para ser uma paixão, deve sofrer a lei das paixões humanas. Falo das paixões honestas, naturalmente boas, pois as paixões são indiferentes em si mesmas. Nós as tornamos más, quando as dirigimos para o mal, mas só de nós depende utilizá-las para o bem.
Sem uma paixão nada se alcança. A vida carece de objetivo, arrasta-se numa vida inútil.
Nesta passagem, São Pedro Julião Eymard vai de encontro a uma concepção talvez generalizada no seu tempo, segundo a qual a verdade é uma posição responsável e adulta diante dos fatos, e exige a ausência de paixão. Ou seja, somente depois de se libertar de qualquer paixão é que o homem se torna capaz de ver, julgar e agir de modo acertado.
Ora, ele sustenta que há paixões más e boas. Estas últimas, impulsionadas pelo bem, devem conduzir a alma ao extremo do amor a Deus. Então diz: “O que é o amor senão exagerar?”. O santo não afirma que a paixão é necessariamente um exagero, e sim que o amor, continuamente, vai além do que o ambiente no tempo dele qualificava de exagero. Portanto, este exagero deve ser entendido como que entre aspas: “O que é amar, senão fazer o que vocês entendem como exagero?”
Seria, então, uma espécie de choque de São Pedro Julião Eymard contra essa lei do desapaixonamento, comum para o espírito dos seus contemporâneos.
O homem desapaixonado é um mutilado
E continua:
Pois bem, na ordem da salvação é preciso também ter uma paixão que nos domina a vida, e a faça produzir para a glória de Deus todos os frutos que o Senhor espera.
Faço notar o categórico dessa afirmação. Para que nos salvemos, é uma condição que tenhamos esse amor apaixonado. E ele corrobora, ademais, a sua tese de que para a glória de Deus é preciso ter uma paixão que nos domine a vida e produza os frutos necessários e desejados por Nosso Senhor. Portanto, essa produtividade total resulta da colaboração da paixão com as outras faculdades da alma. Isto é eminentemente humano.
Os chineses da última época da monarquia tinham um hábito terrível de cortar as pontas dos pés para se equilibrarem nos seus diminutos tamancos. É algo assustador. Pois bem, ainda mais chocante é cortar uma faculdade da alma e viver sem ela. O homem desapaixonado é um mutilado.
Palavras a serem gravadas com fogo na alma
A seguir, ele escreve:
Amai tal virtude, tal verdade, tal mistério apaixonadamente! Devotai vossas vidas, consagrai vossos pensamentos e trabalhos. Sem isso nada alcançareis jamais. Sereis apenas um assalariado e nunca uns heróis! Todo pensamento que não se termina em uma paixão, que não acaba por tornar-se uma paixão, nada de grande produzirá jamais.
O amor não transfere a ninguém as suas obrigações. O amor tudo faz por si mesmo, é a sua glória.
São afirmações esplêndidas, repassadas de veracidade. De fato, quando um católico não tem essa paixão, torna-se medíocre, preguiçoso, inerte. Desapaixonado, não produz coisa alguma. Pelo contrário, se for movido pela boa paixão, mesmo sem tempo, aceita trabalhos e obrigações, produzindo maravilhas.
Para o homem sem paixão, todo tempo é pouco para nada fazer; enquanto o homem com paixão transforma qualquer minuto numa eternidade.
Palavras de São Pedro Julião Eymard:
Ai de nós, se o amor de Jesus no Santíssimo Sacramento não nos conquistar o coração. Jesus estará vencido. Nossa ingratidão será maior que sua bondade, nossa malícia mais poderosa que sua caridade. Oh, não, meu Salvador, vossa caridade me oprime, me atormenta e me constrange.
Trata-se de um dito apaixonadíssimo, mas uma tomada de atitude lúcida, diante da realidade da frágil natureza humana decaída pelo pecado. Esta, a meu ver, seria uma frase a ser gravada com fogo nos corações, pelos rogos de Maria Santíssima, para fomentar neles esse necessário e ardente amor eucarístico.
Amor apaixonado ao Santíssimo Sacramento
Continua: Nosso Senhor quer estabelecer em nós o amor apaixonado por Ele. Toda virtude, todo pensamento que não acaba por tornar-se uma paixão, nada de grande produzirá jamais. Não é amor a afeição de uma criatura. Ela ama por instinto, porque se sente amada. O amor só triunfa quando é em nós uma paixão vital. Sem isso podem produzir-se atos isolados de amor, mais ou menos frequentes, mas a vida não é tomada, não é dada.
Ora, enquanto não tivermos por Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento um amor apaixonado, nada teremos feito.
Ele insiste na ideia do amor infrutífero, se não for movido pela paixão boa.
Parece-me interessante observar o profundo vínculo entre essa expressão de amor a Nosso Senhor Jesus Cristo sacramentado, nos lábios de São Pedro Julião Eymard, e a manifestação igualmente fervorosa de devoção à Santíssima Virgem, pregada por São Luís Grignion de  Montfort. Os dois são movidos pelo mesmo estado temperamental, a mesma paixão, a mesma piedade. A Oração Abrasada, composta por São Luís Grignion, transmite sentimentos análogos aos que nos colhem ao lermos esse texto do santo fundador dos Sacramentinos.
Essa relação estreita entre as duas devoções é algo magnífica. Ambas se baseiam em pensamentos que continuamente nos apaixonam. Assim como São Luís Grignion de Montfort desejava uma devoção ardente a Nossa Senhora, São Pedro Julião quer uma piedade apaixonada para com a Sagrada Eucaristia. Isto é fogo! Isto é uma alma eucarística, uma alma mariana.
Não temer de ser arrastado pelo amor de Jesus Eucarístico
E São Pedro Julião Eymard vai mais longe. Diz:
Tende um amor apaixonado pela Eucaristia, amai Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento com todo ardor que se ama no mundo, mas por motivos sobrenaturais. Para consegui-lo, começareis por colocar vosso espírito sobre a influência desta paixão, alimentai em vós o espírito de Fé, e persuadi-vos da verdade da Eucaristia, da verdade do amor que Nosso Senhor nela vos testemunha. Tende uma grande ideia, uma contemplação arrebatada do amor e da presença de Nosso Senhor. Assim dareis a vosso amor o fogo que alimentará a chama, o vosso amor será então constante.
Vede Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento, vede o seu amor, e que esse pensamento vos domine, vos arrebate. Por quê? Porque Nosso Senhor se abre a ponto de sempre se dar, sem jamais fatigar-se.
Considerai os santos. Seu amor os transporta, abrasa, faz sofrer, é um fogo que os consome, despende suas forças e acaba por lhes causar a morte. Morte feliz. Mas se não chegarmos todos a este ponto, ao menos podemos amar apaixonadamente Nosso Senhor, deixando que nos domine por seu amor. Há pessoas que amam até a loucura os pais, os amigos, e não sabem amar o bom Deus. O que se faz com a criatura, é o que se deve fazer com Deus. Somente ao Bom Deus é preciso amá-Lo sem medida, cada vez mais.
No juízo não serão tanto os nossos pecados que nos aterrorizarão, e nos serão censurados. Estão irrevogavelmente perdoados. Mas Nosso Senhor nos censurará por seu amor: ‘Criaturas, vós não fizestes de mim a felicidade de vossa vida?! Vós me amastes bastante para não me ofender mortalmente, mas não para viver de Mim?!’. Mas, poderíamos dizer: somos então obrigados a amar assim? Bem sei que o preceito de amar assim não se acha escrito. Não há necessidade. Nada o diz, tudo o clama! A lei está em nosso coração!
Sim, o que me aterroriza é que os cristãos pensarão de boa vontade seriamente em todos os mistérios, e votar-se-ão ao culto de algum santo, e não a Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento. Por quê? Ah, porque não se pode considerar atentamente o Santíssimo Sacramento sem dizer: é preciso que eu O ame, que vá visitá-Lo, não posso deixá-Lo sozinho, Ele me ama demais!
É um texto tão magnífico que as palavras nos fogem para comentá-lo. Comove-nos, cumula-nos de admiração e fervor. São Pedro Julião se exprime com a paixão que ele prega e recomenda. A lei desse amor está inscrita no seu próprio coração e ele a quer transmitir aos homens.
A par disso, oferece uma explicação ao mesmo tempo teológica e psicológica da razão pela qual algumas almas não se entregam como deveriam a essa devoção extrema: evitam de ir aos pés do Santíssimo Sacramento porque O sabem por demais envolvente e arrebatador. Receiam que Ele as atraia e as arraste por seu amor. Então, como que contornam essa situação ao praticarem outros atos de piedade, dando-se ao culto exclusivo desse e daquele santo, em vez de praticar a perfeita adoração ao Coração Eucarístico de Jesus.
Essas são almas que temem o exagero, contentam-se com algo menor porque temem que a graça as convide para a virtude apaixonada.
Pedir a Nossa Senhora o fervor eucarístico d’Ela
Cumpre concluir, então, que esses extraordinários pensamentos de São Pedro Julião Eymard devem produzir efeitos concretos em nossos corações, alimentando neles esse amor  ardoroso à Sagrada Eucaristia.
Procuremos refletir nessas considerações antes da Comunhão, não nos esquecendo de que Maria Santíssima é também medianeira na nossa devoção eucarística. Todas essas verdades consignadas no texto que acabamos de contemplar pulsavam no Coração Sapiencial e Imaculado d’Ela, com uma intensidade perto da qual o ardor de São Pedro Julião não  é senão uma fagulha.
Imaginemos Nossa Senhora no recinto onde seu Filho celebrou a primeira Missa e operou pela primeira vez na História a transubstanciação: como descrever os fulgores de amor e adoração que, naquele instante, inundaram a alma da Mãe de Deus? A caridade de todos os anjos reunidos empalideceria diante desse fervor. Pois então peçamos a Ela que nos conceda, por sua insondável misericórdia, algo do incomparável fogo eucarístico que A consumia.  

1) Para os dados biográficos do santo, cf . Uma breve biografia de São Pedro Julião Eymard, SSS, pelo Revmo .  Pe . Robert Rousseau, SSS, no site  www .blessedsacrament .com .

Revista Dr Plinio n. 101

domingo, 20 de novembro de 2011

Santa Edeltrude

Vigor e beleza da alma medieval
A rainha Santa Edeltrude e suas irmãs — também canonizadas — são luminoso exemplo do que foi outrora a “Ilha dos Santos” (o atual Reino Unido), no alvorecer de uma era onde a virtude heróica se fazia frequente até nos mais altos degraus da sociedade, a partir dos quais se estendia às outras camadas sociais, dando forma àquele conjunto chamado de Cristandade.

No dia 23 de junho a Igreja lembra Santa Edeltrude, Rainha e virgem do século VII. Filha de um monarca do Leste Inglês — um dos sete reinos que constituíam a Inglaterra de então — teve ela três irmãs santas: Saxburga, Edilburga e Virtburga. Como sói acontecer naquela época povoada de heróis da Fé, a virtude resplandecia no seio das famílias, e muitos parentes possuíam em comum, não apenas o sangue, mas também a santidade. Neste caso, poder-se-ia construir um esplêndido templo católico no qual houvesse quatro belos altares em honra dessas irmãs bem-aventuradas.
Ousadia e fundação de mosteiro
A respeito de Santa Edeltrude, alguns autores nos apresentam os seguintes dados biográficos:
Nasceu provavelmente por volta de 630 e morreu em Ely, a 23 de junho de 679. Quando ainda muito jovem, foi dada em casamento por seu pai, Anna, Rei de East Anglia, a um certo Tonbert, príncipe a ele subordinado. Deste primeiro marido, Edeltrude recebeu como dote algumas terras na localidade conhecida como a Ilha de Ely.
A santa viveu cinco anos com Tonbert em perfeita continência. Após a morte prematura do príncipe, viveu um período de paz com sua vocação religiosa. Seu pai, entretanto, quis que ela se casasse novamente e lhe arranjou a união com Egfrido, filho e herdeiro de Oswy, Rei da Nortúmbria.
De seu segundo esposo, que consta ter então apenas 14 anos de idade, recebeu mais terras, desta feita em Hexham. Por meio de São Wilfrido (634-709), monge beneditino e Bispo de York, cedeu ditas propriedades para a fundação do mosteiro de Santo André. São Wilfrido tornou-se amigo e guia espiritual de Santa Edeltrude, aprovando e lhe incentivando a guarda da virgindade. Porém, foi a ele que Egfrido recorreu, quando sucedeu seu pai, para fazer valer seus direitos maritais contra a vocação religiosa de Edeltrude.
Primeiramente, o bispo conseguiu persuadir Egfrido a deixá-la viver por certo tempo em sossego, como freira no convento de Coldingham, fundado pela tia dela, Santa Ebba. Mas ante o perigo iminente de ser levada à força pelo rei, Edeltrude fugiu em direção ao sul do país, com apenas duas companheiras, buscando suas terras em Ely. Ali, favorecida por milagres e misericordiosas intervenções divinas, num lugar cercado de pântanos, areias movediças e pelas águas do rio Ouse, iniciou a fundação do mosteiro de Ely.
Como o lugar ficava na região onde Edeltrude nascera, seus parentes de sangue real lhe forneceram os meios necessários para a execução de seus planos. São Wilfrido ainda não havia retornado de Roma, onde lograra obter do Papa Bento II privilégios extraordinários para aquela fundação, quando Edeltrude morreu vítima de uma epidemia a qual ela mesma havia predito.
Por muitos séculos, o corpo da santa foi objeto de devota veneração na famosa catedral de Ely, construída precisamente no local do antigo mosteiro fundado por ela. O atual edifício católico é considerado uma magnífica mostra dos vários estilos góticos, acrescentados durante diversas renovações desde o século IX, sendo que a última parte — o famoso octógono — foi adicionada em 1400.
Uma das mãos da santa é atualmente venerada na igreja católica de Santa Edeltrude, na Ely Place, em Londres. Trata-se do mais antigo templo católico da capital britânica, e durante a Idade Média era considerado uma espécie de feudo dos bispos de Ely, herdeiros daquelas terras de Santa Edeltrude.
Na Idade Média, ao lado da rudeza, autêntica virtude
Percebemos aqui uma admiração da Inglaterra primitiva, bem como da aurora da Idade Média que contém algo de selvagem e, ao mesmo tempo, de extraordinariamente sobrenatural. Este contraste encerra, a meu ver, uma intensa beleza.
Após a queda do Império Romano do Ocidente, em 476, os povos que surgem têm príncipes e princesas evidentemente com resquícios de barbárie. Quanto ao aspecto, ao porte, ao estilo, não podermos imaginar Santa Edeltrude e suas três irmãs semelhantes às filhas de Luís XV, pintadas por Nattier, sobre um fundo azul claro: Madames Henriette e Adélaïde, frágeis, como se fossem de porcelana, quase evanescentes, vestidas com sedas vaporosas. Devemos figurá-las como damas vigorosas, cujas mãos estavam afeitas a árduos trabalhos domésticos, embora fossem orgânica e autenticamente princesas de grande valor nos países onde surgiam.
Cumpre salientar, aliás, que elas eram por assim dizer os berços de posteriores dinastias, e seus povos, os pontos de partida de futuras civilizações. Como lembrei acima, habitava ali certa grandeza e a semente de uma alta santidade. Haja vista a confluência de muitos bem-aventurados: somente na corte da nossa biografada encontravam-se ao mesmo tempo quatro santas, ademais de um diretor espiritual igualmente santo! Além disso, uma disseminação tal da virtude que foi possível a Santa Edeltrude convencer aos seus dois sucessivos maridos — um príncipe e um rei — de guardarem a continência na vida conjugal.
Admirável perseverança
Juntamente com tais virtudes, não se pode ignorar algumas manifestações de primitivismo. Por exemplo, uma princesa que deixa seu esposo por este querer romper o voto de castidade, refugia-se num convento e o marido não ousa ir atrás dela nem invadir o recinto sagrado, o que, naquele tempo, era julgado um fato explicável. Hoje seria considerado um escândalo, com notícias espalhafatosas nos jornais, etc..
Seja como for, é admirável a perseverança de Santa Edeltrude na prática da castidade perfeita. O abandono da vida da corte, com todas as suas glórias, para adotar o estado religioso, a sabedoria com que ela governou seu mosteiro (num país então pequeno, isso representava algo muito importante para a própria vida da nação), encaminhando as religiosas para o Céu, tudo isso forma um conjunto de traços fisionômicos iluminados pela santidade, e justifica plenamente a devoção que os fiéis possam ter para com ela.
Assim, nada mais aconselhável e rico em benefícios para nossa alma do que nos recomendarmos às orações de Santa Edeltrude, Rainha e virgem, no dia de sua festa.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

São Luís IX, rei da França

Assim como Deus deseja encaminhar o desenvolvimento da Igreja para a realização de seus planos, é natural que esteja nos desígnios d’Ele, correlativamente, estabelecer, proteger e desenvolver a civilização católica. Em virtude dessa disposição divina, desperta o maior interesse uma análise da história à procura das pessoas providenciais, dos problemas, das crises, dificuldades e êxitos que a formação e conservação dessa civilização encontrou diante de si.
Vejamos hoje um de seus períodos-auge, aqueles anos do século XIII nos quais desabrochou um sábio governante e um grande herói da fé: São Luís IX, rei da França.
Santidade e infâmia numa mesma dinastia
Ele era filho de Luís VIII e de uma princesa cercada de uma auréola bem medieval e poética, tanto pelo seu nome como pela origem, pelo estilo e pelas qualidades morais: Branca de Castela.
Parece-me um nome de contos de fadas, que faz pensar num lírio particularmente alvo, brotado no alto da torre de uma fortaleza sobranceira e inexpugnável! Branca de Castela...
Dela nasceu, em 25 de abril de 1215, um filho igualmente lirial, do qual se podem fazer todos os elogios.
Por ocasião da morte de seu pai, em 1227, Luís tinha 12 anos. Com esta idade foi proclamado rei, bem antes do reconhecimento de sua maioridade, que sobreviria apenas em 1235. Neste mesmo ano casou-se com uma princesa de nome também literário, Margarida de Provença. Situada no sul da França, a Provença, além de rica e bela, é uma região de clima suave, terra dos trovadores e da poesia. E assim como a mãe era um lírio desabrochado nos cumes de uma fortaleza, a esposa era uma margarida nascida no meio dos encantos provençais.
Pelo lado materno, era primo-irmão de Luís outro monarca santo, o rei Fernando de Castela, grande herói da reconquista espanhola contra os mouros. Quanto a seus descendentes, São Luís foi pai do rei Filipe III, o Ousado, e avô de um dos piores reis de toda a história, Filipe, o Belo. Quer dizer, uma virtuosa mãe na origem, um primo santo no ramo colateral e um neto iníquo. É a confirmação de uma triste regra no existir das dinastias, segundo a qual a santidade e a infâmia costumam disputar lugar numa mesma genealogia...
Temas candentes no tempo de São Luís
Viveu São Luís numa época em que alguns temas eram candentes, revestindo-se de importância transcendental e ocasionando as mais profundas repercussões na organização da Idade Média. Não se tratava, portanto, de problemas meramente especulativos, nos quais o santo soberano deve ter tomado parte relevante, embora haja carência de dados históricos para situar essa participação.
Para mencionar apenas alguns desses temas, havia, em primeiro lugar, a luta entre o Império e o Papado, que atingia então seu estágio mais delicado.
Luís IX, rei de França — ou seja, da “Filha Primogênita” da Esposa de Cristo — santo, terceiro franciscano, cheio de zelo pela causa da Igreja, acompanhou com apreensão essa querela que envolvia os poderes espiritual e temporal. Infelizmente, não se conhece muito de sua atividade diplomática, nem da força política ou material que tenha empregado para assegurar a preponderância do Papado sobre o Império, questão absolutamente nevrálgica para a Civilização Católica daquela época. Seria preciso esclarecer ainda alguns pontos, para se poder chegar a uma conclusão acertada sobre a atitude do monarca francês nessa controvérsia.
Outro tema interessante é o seguinte: São Luís viveu no ápice da Idade Média. Sabemos que foi contemporâneo de São Tomás, de São Boaventura, e que no tempo dele a sociedade orgânica e corporativa atingiu o máximo de seu desenvolvimento. Ora, gostaríamos de saber se ele teve consciência de todo esse florescimento que se dava na sociedade, e de sua importância.
De modo mais particular é preciso abordar outro ponto.
Sabemos que o regime feudal, para corresponder à concepção católica da sociedade que o engendrou, devia ser constituído pelo inteiro equilíbrio de forças entre suseranos e vassalos. Sobretudo, entre o rei e os nobres. Esse equilíbrio é garantido por dois fatores: é necessário que o rei tenha uma autoridade efetiva e, por isso, que seja bastante vigoroso para impor sua vontade aos senhores feudais. Mas é preciso também que estes últimos sejam bastante fortes para poderem conter os eventuais abusos do monarca. Assim se mantinha a harmonia social na Idade Média.
Tal situação era possível em virtude do ascendente do Papa sobre toda a sociedade, pois, sendo o Pontífice superior aos reis e aos senhores feudais, podia servir de árbitro. E um rei que tinha sobre si esse poder pontifício (maior que a própria tutela exercida pelo Imperador do Sacro Império), não era inteiramente livre para estrangular os vassalos e nobres inferiores.
No tempo de São Luís, esse equilíbrio social parece ter atingido um apogeu. Segundo conceituados historiadores, no século XIV — portanto, no período imediato ao de São Luís — o feudalismo alcançou na Europa a sua posição ideal. Se isto é assim, deve ter havido uma preparação, realizada pela geração anterior, precisamente a que viveu sob a influência direta do virtuoso monarca francês.
Um santo no trono da França
Logo após a morte de Luís VIII, Branca de Castela, tão enérgica quanto jeitosa em política, assumiu a regência do governo. Depois de enfrentar vitoriosamente algumas crises, deixou o caminho livre e bem calçado para que as jovens mãos de seu filho continuassem a magna tarefa de governar a França.
Os contemporâneos de São Luís afirmavam que a melhor distração do rei era cantar no coro da Igreja e conversar a respeito de assuntos religiosos com os cortesãos. Costumava servir comida a 200 pobres, cujos pés lavava. Cuidava de bom grado dos doentes e tinha uma predileção especial em tratar dos leprosos, numa época em que esta doença era epidêmica e dificilmente curável.
Quando se pensa na aparência de um desses pobres enfermos, com as carnes em decomposição, cobertos por um manto grotesco e esfarrapado, agitando um guizo para afugentar as pessoas sãs, e se imagina um rei, no esplendor de seu poder, aproximar-se dele para tratá-lo com todo o carinho e solicitude, pode-se vislumbrar a autenticidade de suas virtudes.
Além de sua admirável caridade e paternal benevolência, São Luís era também louvado pela justiça e equidade com que governava seus súditos. Tornou-se quase legendário o fato de proceder pessoalmente a julgamentos e decisões, sob um grande carvalho nas proximidades de seu palácio, em Vincennes.
Igual retidão marcou também outro episódio de sua vida, no qual esteve em jogo a integridade territorial francesa. Tratava-se de uma rebelião levada a cabo nada menos do que pelo próprio sogro do rei, Raimundo VII, Conde de Tolosa, que se aliara a outro importante nobre francês revoltoso, Hugo de Lusignan, ambos simpatizantes de Henrique III, soberano inglês com pretensões não pequenas de conquista na França.
São Luís, para quem os interesses do reino contavam acima de quaisquer sentimentos familiares, partiu em luta contra seu sogro, derrotou-o e o obrigou a assinar um tratado ratificando os direitos da coroa francesa. Por fim, em 1243 se estabeleceu a chamada “paz de Bordeaux”, pela qual o rei da Inglaterra foi obrigado a ceder terras a São Luís. Aproveitando-se da ocasião propícia, os conselheiros do santo monarca quiseram convencê-lo a exigir mais do que o razoável. Prevaleceu, no entanto, o equilíbrio e a honestidade de São Luís, decidido a exigir apenas aquilo a que tinha direito, isto é, o proporcional à sua vitória.
Diante desse modelo de desprendimento, O ímpio e ganancioso Voltaire fez este interessante comentário: “E impossível ao homem levar mais longe sua virtude...”
Rei cruzado e penitente
Não se pode falar de São Luís IX sem mencionar um dos aspectos mais rutilantes de sua personalidade: o de cruzado.
Depois de enfrentar e vencer as mais duras batalhas no seu reino, viu-se na contingência de conquistar vitória ainda mais árdua, ou seja, aplacar as resistências e as injunções maternas que tentaram demovê-lo da promessa feita de abraçar a cruz. Afinal, prevaleceram suas inabaláveis disposições, e São Luís acabou vestindo a túnica de cruzado e partindo com seus guerreiros para a Terra Santa.
Nessa campanha, semeada de reveses e pontilhada de poucos sucessos, São Luís lutou como herói, mas acabou sendo preso por causa da imprudência de um irmão seu, que não seguiu as ordens do rei sobre a tática a ser empregada na batalha decisiva. No cárcere, São Luís deu provas de heroísmo ainda maior, edificando os próprios inimigos que o mantinham cativo. Após um longo período de sofrimento, recobrou a liberdade e pôde voltar ao seu reino, cujos súditos rezavam e ansiavam por seu feliz retorno.
Sem fundamento, São Luís pensou haver cometido alguma imperfeição, algum pecado, em punição do qual Deus permitira o inglório fracasso daquela Cruzada. Sua delicadeza de consciência e sua profunda piedade o faziam pensar numa reparação, quando lhe chegou o oferecimento de uma preciosa relíquia, vinda diretamente da Terra Santa: um espinho da dolorosa coroa que, na Paixão, cingira a fronte adorável de Nosso Senhor Jesus Cristo.
O que fez São Luís?
Não mandou confeccionar apenas um precioso escrínio, mas ordenou a construção de uma verdadeira jóia de arquitetura, a Sainte Chapelle (Capela Santa), no interior da qual fosse abrigada aquela relíquia de inestimável valor. E Rei cruzado e penitente como se tal não bastasse, resolveu partir para as fronteiras Não se pode falar de São Luís IX sem mencionar um de seu reino com a Itália, onde recebeu pessoalmente o espinho sagrado, a fim de conduzi-lo a pé, em trajes de penitente, até Paris. Tudo isso, em reparação pela suposta falta que ele teria cometido nos campos de batalha, defendendo a Terra Santa.
Eis a verdadeira fisionomia de um santo que era rei! Autêntico monarca, que dizia “ mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa”, quando não tinha culpa alguma. Possuía, sim, um senso moral tão desenvolvido, uma aversão tão completa ao pecado, que se julgava na obrigação de reparar uma pretensa falta, em virtude da qual Deus não havia sido glorificado como merecia.
Foram almas dessa categoria que levaram a Civilização Cristã aos seus dias de maior esplendor. Foram personalidades assim, santas e providenciais, que procuraram realizar neste mundo a sociedade humana perfeita, regida pelas leis de Deus e pelos ensinamentos da santa Igreja.
O santo monarca entregou sua alma ao Criador em 1270, aos 55 anos, após ser atingido pela peste, em plena guerra, durante outra Cruzada que ele comandou. Até chegar ao leito de morte foi um batalhador, a respeito do que haveria muito a dizer noutra oportunidade.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Santo Isidoro de Sevilha

A virtude nas boas maneiras
A compostura, o modo de andar, a gravidade nos gestos, podem não ser apenas meras atitudes externas, mas o reflexo de uma alma virtuosa. Verdade esta frequentemente esquecida pelos adeptos desenfreados do estilo “descontraído” e “espontâneo”, porém lembrada de modo persuasivo nas palavras de Santo Isidoro de Sevilha
Santo Isidoro de Sevilha, Arcebispo, Confessor e Doutor da Igreja. Dele diz o martirológio ter sido insigne pela santidade e doutrina. Engrandeceu toda a Espanha com seu zelo pela fé católica e observância da disciplina eclesiástica. Considerado um dos homens mais doutos de sua época, lutou tenazmente contra os arianos. Irmão de São Fulgêncio, Bispo de Cartagena, de Santa Florentina, religiosa e de São Leandro, a quem sucedeu no arcebispado de Sevilha.
Sábios conselhos de um santo
Faço notar, antes de tudo, a beleza encantadora presente numa floração simultânea de santos como se deu na família de Santo Isidoro. Nas Obras escolhidas deste Doutor da Igreja há um capítulo intitulado Lamentações de uma alma pecadora, do qual destacamos o seguinte trecho:
“Em todos os teus atos, em todas as tuas obras, e em todo o seu trato, imita os bons, emula os santos, tem diante de teus olhos o exemplo dos mártires, considera os exemplos dos justos, imitando-os; que o exemplo dos santos e os ensinamentos dos Padres sejam para ti incentivo de virtude. Tem bom espírito, guarda tua boa fama e não a diminuas com nenhuma ação e não a deixes cair em descrédito.
“Demonstra o que professas em teu porte e andar. Haja em tua apresentação a simplicidade; em teu movimento, a pureza; em teu gesto, a gravidade; em teu passo, a honestidade. Que não demonstres o vergonhoso, o lascivo, o petulante, o insolente, o superficial. O gesto do corpo é o sinal da mente. Teu andar, por conseguinte, não represente tua superficialidade, teu passo não ofenda a ti ou a teu próximo. Não te prestes a ser espetáculo dos outros; não permitas que te denigrem; não te unas a pessoas vãs.
“Evita os maus, rechaça os indolentes. Foge das reuniões excessivas com homens, mormente dos que, por sua idade, são mais inclinados aos vícios. Acompanha-te dos bons, deseja sua companhia. Busca o convívio dos bons, juntate aos santos. Se fores partícipe do seu trato, também o serás de sua virtude. O que caminha com os sábios, será sábio; o que caminha com os estultos, será estulto, pois os semelhantes gostam de reunir-se aos semelhantes. É perigoso viver entre os maus, é pernicioso acompanhar-se daqueles que têm vontade perversa. Tu te nutrirás de sua infâmia se te juntas com os indignos. É melhor sofrer o ódio dos maus que a sua companhia. Assim como muitos benefícios traz consigo o viver com os santos, assim muito mal traz a companhia dos maus, pois aquele que toca um imundo, é por ele contaminado.”
Devemos espelhar o que há de bom em nossa alma
Desse lindo trecho de Santo Isidoro de Sevilha devemos destacar o modo de  apresentação do homem, da forma pela qual convém se  externar aos olhos dos outros. Toda pessoa precisa compor para si um personagem. Ninguém deve ser inteiramente espontâneo — como  pretendem certas pessoas “modernas” — no sentido de que sua presença exterior seja sugerida simplesmente por seus movimentos desalinhados, desataviados, incontrolados .
Em seu modo de ser, de olhar, andar, por seu porte e  seu procedimento geral, o homem necessita procurar espelhar aquilo que há de bom em sua alma. Nem sempre  as qualidades morais transparecem de maneira natural.  Muitas vezes, alguém possui grandes virtudes, mas estas  não se refletem no seu exterior se ele não tomar cuidado  em manifestá-las e reprimir atos espontâneos que possam dar impressão do contrário.
E quanto aos nossos defeitos de alma, temos obrigação de evitar que transpareçam, não por hipocrisia e vaidade, mas por compostura, respeito aos outros e, sobretudo, a Deus, convictos de que o mal não tem direito de  se expor à luz do sol . Portanto, cada um tem necessidade de compor para  si mesmo uma linha de conduta externa, um conjunto de  gestos, de frases, de vocabulário, de modos de olhar, de  ser, que são expressões autênticas de muitos aspectos de  sua alma.
Isto não seria assim se o homem fosse concebido sem  pecado original. Porém, tendo havido a queda de Adão,  é preciso esse esforço. Por isso, nas civilizações que atingem certo grau de perfeição, ensina-se às pessoas a terem porte, maneiras e a constituírem para si seu próprio  personagem. Lembro-me que o inimitável Saint-Simon dizia: “Fulano transpõe os umbrais de uma porta com total inconsequência. A expressão é muito interessante, porque todo limiar de porta que se ultrapassa, em si tem  consequência. O umbral é um marco.
Noutra feita, criticando os modos de determinada pessoa, afirmava ele: “Trata-se de um homem a quem não se  ensinou a dançar . . .”. As danças daquela época — que nada têm de comum com as de hoje — eram de alta compostura, superior finura de porte e apresentação, e proporcionavam ao indivíduo a arte de ter boas maneiras em  tudo. Compreende-se, assim, o pensamento, a doutrina que estavam subjacentes a essas frases de Saint-Simon.
Incentivo à prática da virtude
Afirma Santo Isidoro: “Demonstra o que professas — quer  dizer, o que pensas, o que és — em teu porte e andar”. Como  se pode obter isso sem estudar uma postura e modo de caminhar adequados? Essa recomendação indica ser necessário o controle de si mesmo e que há certas maneiras de andar e de se portar significativas de algo bom e outras de alguma coisa má. Portanto, tal conselho nada tem de mundanismo. Pelo contrário, é um incentivo à prática da virtude.
Continua o Santo: “Seja tua apresentação a simplicidade”. Simplicidade não é o mesmo que simploriedade. Aquela é o modo de ser do indivíduo não complicado nem afetado, sem ademanes e requebros inúteis. O homem simples procura ser útil, e age de maneira ao mesmo tempo  intencional, produto da educação, e autêntica.
O gesto do corpo é o sinal da mente
“Em teu movimento, a pureza”.
Faço notar a beleza desta ideia! Os gestos da pessoa  pura são diferentes dos da impura . Por exemplo, no volver a cabeça para atender alguém e perguntar: “O que  é?”, pode-se perceber às vezes tratar-se de uma alma casta, ou então o contrário. Vê-se, pois, como é profundo o  pensamento de Santo Isidoro.
Ele continua: “Em teu passo haja honestidade”. Ser honesto não significa tão-somente — como se julga hoje  — não furtar. Em latim, honestus quer dizer composto,  apresentando certa beleza, distinção e elegância.
Que não demonstres o vergonhoso, o lascivo, o petulante, o insolente, o superficial. O gesto do corpo é o sinal da mente”.
Este é um magnífico princípio que deve nortear a vida do católico. E o Santo acrescenta: “Teu andar, por conseguinte, não represente tua superficialidade, teu passo não ofenda a ti ou a teu próximo. Não prestes a ser espetáculo dos outros, não permitas que te denigrem”.
Ouçamos as recomendações de Santo Isidoro
Em seguida, Santo Isidoro fala das boas e más companhias. Tais conselhos são muito importantes para combater certo erro moderno, segundo o qual se deve fazer  apostolado introduzindo-se, sem nenhuma ou com pouca prevenção, no meio dos maus. Quando alguém se infiltra entre os ímpios para evangelizar, expõe-se ao risco  de se tornar mau, assim como o convívio com os virtuosos pode tornar bom quem era ruim.
Isso se aplica de modo particular aos movimentos como o nosso, dedicados a atrair as almas para Nosso Senhor Jesus Cristo e a Igreja. Qualquer um poderia dizer: “Se vocês frequentassem os ambientes mundanos, poderiam ter mais relações sociais e assim fazer maior bem”.
Ora, isso todo mundo sabe. Agir assim seria bom em  tese, caso não houvesse inconvenientes: um deles, a fuligem inoculada nas almas de quem voluntariamente vive  nos meios onde se ofende a Deus . . .
Temos aqui, então, comentadas algumas preciosas recomendações de Santo Isidoro de Sevilha, as quais devemos não apenas ouvir, mas praticar, adotando-as no  nosso existir quotidiano como verdadeiros exercícios de  piedade que nos façam crescer em perfeição, no amor a  Deus, a Nossa Senhora e ao próximo.