terça-feira, 20 de março de 2012

ATÉ A MORTE, SE NECESSÁRIO FOR!

A Fé move as montanhas, diz o Salvador, e chega a vencer, com heroísmo, o próprio instinto de conservação. Conheçamos neste artigo um dos mais belos aspectos da história da Igreja.
Roma, sedenta e desenfreada, acorria mais uma vez para embriagar-se com o sangue dos mártires.
O Coliseu, a majestosa mole de pedra construída por Vespasiano, abria seus pórticos para a turba que subia precipitadamente pelas largas escadarias e se acotovelava nas arquibancadas de mármore.
Quase cinqüenta mil espectadores aguardavam impacientes o momento de serem lançados às feras os cristãos.
Subitamente, a multidão emudeceu, e durante alguns instantes reinou um silêncio impressionante: um homem havia sido introduzido na arena e avançava lenta e gravemente em direção ao seu ponto mais central. Logo, porém, ressoou no majestoso edifício um alarido frenético, seguido de uma ensurdecedora salva de palmas. Do fundo das cavernas onde estavam encerradas, as feras responderam com um longo rugido à explosão daquela alegria sangüinária. O mártir, porém, continuava impassível e aguardava com sobrenatural calma o momento supremo.
Ouviu-se um curto toque de trombeta e abriu-se a porta de um dos porões, da qual saltou na arena um enorme leão africano. Faminta por um prolongado jejum e atiçada pelos clamores da multidão, a fera deu uma volta inteira ao circo, agitando nervosamente a cauda, antes de perceber a vítima, que permanecia imóvel no centro da arena, absorta numa oração que só terminaria na eternidade...
Instantes depois, uma poça de sangue e os restos de um corpo destroçado, proclamavam a invencibilidade da verdadeira Fé, cujo Divino Fundador havia ensinado: “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, e depois nada mais podem fazer” (Lc 12, 4).
Quantas vezes esta cena gloriosa e terrível repetiu-se durante os primeiros séculos da Santa Igreja Católica? Foi do Sacrifício do próprio Deus encarnado que Ela havia nascido, e era o sangue dos seus fiéis que faria germinar em todo o orbe as sementes de novos cristãos.
Quantas vezes também, com variantes próprias ao tempo e aos lugares, esta cena repetiu-se ao longo de sua existência duas vezes milenar? Só Deus sabe! Mas é um fato incontestável que em nenhum momento da história da Igreja, deixou de haver homens e mulheres que selaram seu testemunho de fé com o derramamento do próprio sangue: os mártires.
Supremo testemunho de Fé
Mártir: eis uma palavra cuja sonoridade desperta na alma de todo católico um surto de entusiasmo e veneração.
Mártir significa, em grego, testemunha. “O martírio é o supremo testemunho prestado à verdade da Fé; designa um testemunho que vai até a morte” (CIC, 2473).
“Vós sereis minhas testemunhas até as extremidades da terra” (At 1, 8), havia dito o Mestre a seus discípulos. E estes proclamaram, quando foram chamados a juízo pelo Sinédrio, por causa de Cristo: “Nós somos testemunhas”! (At 5, 32).
Este testemunho levado até as últimas conseqüências, acendeu nos primeiros séculos da Igreja um entusiasmo até então desconhecido, e fez um incontável número de católicos, como Santo Antônio Maria Claret, exclamar: “Oxalá pudesse eu, com o sangue de minhas veias, selar as verdades que proclamo!” 1.
Não há maior amor
Inácio, o santo bispo de Antioquia, foi condenado, sob o imperador Trajano, a ser lançado às feras por professar a Fé de Jesus Cristo. Sacerdotes e fiéis multiplicavam seus esforços para livrá-lo do suplício. Porém, ele rogava: “Deixai-me fazer o meu sacrifício, enquanto o altar está preparado! Nem as chamas, nem a cruz, nem os dentes dos leões me causam medo. É por meio deles que chegarei até Deus”. No meio do anfiteatro, exclamou antes de ser devorado pelas feras: “Eu sou o trigo de Cristo e desejo ser moído pelos dentes dos leões para tornar-me um pão agradável a meu Senhor Jesus!”
O que levou Santo Inácio e milhões de outros cristãos a enfrentar a morte para não renegar a verdadeira Fé?
Explica São Tomás de Aquino que, no martírio, o cristão é movido por uma ardente caridade 2. E afirma o teólogo dominicano Pe. Lumbreras, comentando a Suma Teológica, que o mártir “demonstra que ama a Deus sobre todas as coisas”, pois “despreza a vida na defesa da Fé e dos ensinamentos de Jesus Cristo” 3.
Diante de Pilatos, Jesus havia respondido: “Vim ao mundo para dar testemunho da Verdade” (Jo 18, 37); e “obediente ao Pai Celeste até a morte” (Fil 2, 8), o Filho Unigênito levou seu testemunho até derramar, no alto do Calvário, a última gota de seu Sangue divino.
Considerando que a própria vida é o bem mais prezado pelo homem, São Tomás conclui que “o martírio é, entre os atos humanos, o mais perfeito em seu gênero, como sinal de maior caridade, pois segundo São João (15, 13), não há maior amor do que dar a própria vida pelos seus amigos” 4.
Ato de fortaleza
Que espanto para os incrédulos, contemplar ao longo da História este exército interminável de católicos que caminham para o martírio como quem vai a um banquete, e “enfrentam a morte num ato de fortaleza”! (CIC, 2473).
Esta virtude heróica da fortaleza que, por amor a Deus, leva o cristão a enfrentar a morte com o desdém e a sobranceria de quem tem a certeza do Céu, fez Santo Agostinho exclamar admirado: “Oh bem-aventurados mártires! Oh soldados fortíssimos! Com que elogios explicarei a fortaleza de vossos corpos?” 6
É unicamente graças ao Espírito de Fortaleza prometido pelo Salvador (cfr. Jo 15, 26-27) que uma indefesa donzela como Santa Inês ou um menino inocente como São Tarcísio foram “fortes na guerra” (Hb 11, 34) e manifestaram uma tão grande intrepidez que espantou até os próprios perseguidores da Fé.
A glória
Recompensa “demasiadamente grande” (Gen 15, 1) a que recebem estes heróis da Fé! Explica o Pe. Lumbreras que “o martírio confere a graça santificante, apaga os pecados e perdoa a pena — inclusive a temporal — a estes devida; o mártir sobe diretamente ao Céu, sem passar pelo Purgatório (...). Recebe, finalmente, um prêmio acidental, (...) a aureola dos mártires” 7.
Por isso, canta a Igreja noTe Deum: “O exército dos mártires canta os vossos louvores”. Sim, é o exército invencível daqueles que “lavaram seus vestidos e os embranqueceram no sangue do Cordeiro” (Ap 7, 14); são os escolhidos por Jesus para lutarem e vencerem com Ele (cfr. Ap 17, 14) e que depois, pelos séculos dos séculos, estarão junto ao trono de Deus, abrigados sob seu Tabernáculo (cfr. Ap 7, 15).
O martírio hoje e sempre
Em recente documento, o Santo Padre assim proclamou a perene atualidade do testemunho de Fé levado até as últimas conseqüências:
“O fiel que tenha considerado seriamente sua vocação cristã, dentro da qual o martírio aparece como uma possibilidade prenunciada na Revelação, não pode excluir esta perspectiva do horizonte da própria vida. Estes dois mil anos depois do nascimento de Cristo estão marcados pelo persistente testemunho dos mártires (...). À admiração pelo seu martírio associe-se, no coração dos fiéis, o desejo de poderem, com a graça de Deus, seguir o seu exemplo caso o exijam as circunstâncias” 8.
* * *
“Tende confiança, Eu venci o mundo!” (Jo 16, 33) havia proclamado o Redentor a seus apóstolos na véspera de sua Paixão. Este brado divino ecoará sempre vivo através dos séculos como o cântico de vitória da Santa Igreja Católica, o Corpo Místico de Cristo. A Igreja, pura e imaculada, não cessa de estender o Reino de Deus, crescendo sempre em santidade e glória, a despeito de todas as tormentas e perseguições que Satanás possa levantar contra Ela. E nós, católicos do século XXI, participamos da invencibilidade da Igreja na medida em que sejamos membros vivos d’Ela, unidos à Rocha inabalável contra a qual o inferno nunca prevalecerá. E pela mediação da Virgem Santíssima, a Rainha dos mártires, certos estamos de receber a fortaleza do Espírito Santo que “ajuda a nossa fraqueza” (Rom 8, 26) para levar nosso testemunho de Fé até a morte se preciso for.
1) J. M. Gil, Epistolário Claretiano, I.
2) Cfr. Suma Teológica, 2-2,q 124, a2, ad2
3) Introd. q 124, in Suma Teológica, vol. IX, BAC.
4) Suma Teológica, 2-2,q 124, a3,c
5) Suma Teológica, 2-2, q.124 a2,c
6) Ep. 8 ML: 4, 252
7) Suma Teológica, vol IX, apêndice ao tratado da fortaleza, 3. BAC
8) Incarnationis mysterium, 13.

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