sexta-feira, 18 de maio de 2012

Bom Ladrão: a história e a lenda

Os Evangelhos narram os últimos minutos de vida do Bom Ladrão, porém, nada mais se sabe a respeito de sua vida, desde a infância até a hora da crucifixão. Onde faltam os dados históricos, surgem as lendas encantadoras e piedosas, como esta narrada a seguir.

Era de madrugada quando um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito, e fica lá até que eu te avise, porque Herodes há de buscar o menino para matá-lo”.
José logo arreou o jumento e fez os preparativos para a longa viagem. Maria envolveu cuidadosamente seu Filho para protegê-lo do frio da noite, e a Sagrada Família se pôs em marcha rumo à distante terra dos Faraós.
Encontro com bando de assaltantes
Após cruzar as fronteiras da Iduméia, considerando-se já salvo da perseguição de Herodes, José viu levantar-se no deserto, a curta distância, uma nuvem de poeira. Observando com atenção, percebeu tratar-se de uma quadrilha de bandidos. Sem demora, abrigou-se com Maria e Jesus atrás de uns terebintos.
— Paremos aqui um minuto — disse Lamec, o chefe do bando.
Após alguns instantes, percebendo haver pessoas por perto, os bandidos empunharam as armas, temendo uma emboscada. Lamec, porém, exclamou com voz imperiosa:
— Não se precipitem! Parece ser uma família de bem, havemos de respeitála, conforme prometi a Javé.
— Muito agradecido pela proteção. Sou um pobre pai de família, estou indo com minha esposa ao Egito. Não temos dinheiro; antes, os poucos víveres que trazíamos estão quase acabados.
— Senhor — disse Lamec — nada temais de nós.
Coisa surpreendente! Aqueles homens embrutecidos pela vida criminosa, sentindo-se envolvidos pela candura, suavidade e bondade daquela jovem Senhora cujo rosto contemplavam com enlevo, foram-se pondo de joelhos diante d’Ela e do Menino. Somente um deles, Barchaim, permaneceu de pé, em atitude arrogante.
— Senhora, se quiserdes, rogo-vos acompanhar-nos ao nosso alojamento, que não dista muito deste lugar. Lá, minha esposa Sela vos servirá de bom grado, e o mesmo faremos todos nós — propôs Lamec.
Agradecendo o convite, Maria seguiu com José e o Menino o caminho indicado pelo chefe do bando.
Sela, a esposa de Lamec, tinha um filho de dois anos de idade, chamado Dimas, o qual padecia de uma doença repugnante: todo o seu corpo estava cheio de chagas purulentas.
Chegando à entrada da gruta onde se refugiavam os bandoleiros, Lamec gritou:
— Sai, Sela! Nada temas. Vem e serve, como senhora tua, Maria de Nazaré.
Sela saiu do seu esconderijo, e, ao ver a Virgem e o Menino, ficou tão deslumbrada que foi logo prostrar-se diante de Maria, dizendo-lhe radiante de alegria:
— Eis aqui vossa escrava; em que posso servir-vos? Descendo do jumentinho e fitando nela seus olhos transbordantes de ternura, a Virgem respondeu-lhe:
— Só te peço que me dês um pouco de água para banhar meu Filhinho, a quem a poeira e o terrível calor do deserto fazem sofrer.
Sela apressou-se em trazer uma tina cheia de água cristalina.
— Aqui está, Senhora. Dizei-me o que mais desejais, pois meu coração se alegra em ser vossa servidora.
A recompensa da admiração e do serviço
Então Maria banhou naquela água pura e fresca seu Filho Jesus, o qual sorria de satisfação.
Enquanto isso, Sela tinha ido buscar Dimas. Ao vê-lo chegar prostrado num berço de palhas, o Menino Jesus olhou compassivamente para ele. Depois tirou do berço dois pauzinhos, com os quais fez uma pequenina cruz e, por gestos, deu a entender que ela deveria ser entregue ao seu amiguinho doente.
Após mais algum tempo, Maria e José agradeceram ao casal de bandidos a boa acolhida, despediram-se e partiram.
Sela ficou triste ao vê-los sair. “Nunca mais poderei esquecer-me do olhar dessa senhora, da bondade de seu marido, da ternura desse menino!” — disse a Malec. Acompanhou-os com o olhar, enquanto aos poucos eles iam desaparecendo no deserto. Ao retornar à gruta, parecia-lhe ter acordado de um sonho maravilhoso. Somente um doce sentimento de alegria, no mais fundo de seu coração materno, lhe garantia não ter sido um mero sonho, mas uma promissora realidade.
Agora ela precisava cuidar de seu filho chagado. Olhando para a tina, ela não conteve uma exclamação de espanto. A água na qual tinha sido banhado o Menino Jesus estava muito mais cristalina do que quando saíra da fonte! Tomou imediatamente o filho e mergulhou-o naquela água. Quando o retirou, ele estava perfeitamente são!
A gratidão de Sela e de Malec foi indizível. Olhando estupefatos para a pele reluzente do pequeno Dimas, todos os bandidos, esquecendo por um instante a vileza de suas vidas, puseram-se a chorar e disseram: “Este menino será abençoado entre todos nós!”
Todos, menos um... Barchaim não participou da alegria geral. Tinha ele a ambição de assumir o comando da quadrilha, e o filho de Malec era seu concorrente.
Passaram-se os anos, Dimas cresceu... aprendendo o “ofício” de bandido. Robusto, hábil e ousado, assumiu com facilidade a chefia do bando, após a morte do pai. Barchaim separou-se deles e formou sua própria quadrilha de assaltantes.
Tudo corria bem na vida criminosa de Dimas, até que um dia, tendo entrado na casa de um centurião romano, a fim de roubar armas para seu bando, foi preso e levado para a masmorra da fortaleza.
O carcereiro revistou-o e, nada encontrando a não ser uma cruz feita de dois insignificantes arbustos, deixou-a com ele, por não ter valor algum.
Dimas sabia bem que dali sairia apenas para sofrer a mais infamante das mortes. Olhando para aquela pequena cruz, da qual ele, inexplicavelmente, nunca quis se separar, de repente sentiu inúmeras recordações que lhe vinham ao espírito: a gruta, sua mãe Sela, a bela Senhora com seu Filho, sua doença repugnante, a tina de água, o milagre... Uma voz de deboche interrompeu suas cogitações.
— Uma cruz, Dimas... Não precisas desta. Em breve, terás uma muito maior...
Era Barchaim, seu antigo companheiro de banditismo, o qual havia sido preso na véspera, quando tentava roubar alguns vasos sagrados do Templo.
Dimas não lhe deu atenção. Num gesto inusitado, osculou a cruzinha sumamente comovido, retirou-se para um canto e, pela primeira vez em sua vida, pôs-se a orar. Pouco tempo depois, ouviu um tumulto que crescia na rua, imprecações, gritos, entre os quais conseguiu distinguir esta frase:
— Crucifica-o! Crucifica-o!
“Hoje estarás comigo no Paraíso”
Antes mesmo de poder aproximar-se da grade para ver quem era esse infeliz, entraram vários guardas, agarraram Dimas e Barchaim e os empurraram violentamente para fora, cada qual com uma cruz. Ei-los a caminho do Monte Calvário, seguindo o outro condenado, que eles não conheciam.
Dimas sofria tanto que não conseguia ver nada além do chão e da face de ódio dos carrascos. Afinal, chegaram ao alto do monte. Após terríveis torturas, foram crucificados os três condenados. Dimas à direita, o desconhecido no centro, Barchaim à esquerda.
Dimas procurava ver a fisionomia do terceiro crucificado. Afinal, conseguiu. Um rosto desfigurado por golpes violentos, marcado pelos sofrimentos, coberto de sangue... Era irreconhecível. Mas — coisa maravilhosa! — apesar de tudo isto transparecia nele uma luz, uma bondade que o bandido julgava ter visto em outra ocasião. Em certo momento, o desconhecido abriu os olhos e fitou-os nele. Ah! Esses olhos cheios de compaixão, Dimas logo os reconheceu, e sentiu-se comovido no mais íntimo de seu coração. Mas, antes de poder dizer qualquer palavra, ouviu Barchaim blasfemar:
— Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e a nós também.
Então, cheio de santa indignação, Dimas o repreendeu, dizendo:
— Nem sequer tu, estando no mesmo suplício, temes a Deus? Nós, em verdade, estamos nele justamente, pois pagamos a pena merecida por nossas culpas. Este, porém, nenhum mal fez.
Voltando-se novamente para o terceiro crucificado, Dimas leu a seguinte inscrição, numa tabuleta sobre sua cabeça: “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”. Sim — pensou — mas ele não é apenas rei; é muito mais, é o Messias! Ele curou-me das chagas corporais, pode curar-me também das chagas dos pecados. E implorou em alta voz:
— Senhor, lembrai-vos de mim quando estiverdes em vosso Reino! Então, Jesus com uma voz de infinita misericórdia, respondeu:
— Em verdade te digo que hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.

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