sábado, 29 de setembro de 2012

São Patrício

 No dia dezessete de março, comemora-­se a festa de São Patrício.
No livro de Hello1, “A fisionomia dos santos”, há alguns dados biográficos magníficos a respeito da figura dele.
São Patrício é, sem dúvida alguma, um dos santos de vida mais extraordinária que se conhece. Aos doze anos foi raptado por piratas e levado para a Irlanda.”
Vale lembrar que quem era rapta­do por piratas tornava­-se escravo.
Ali foi feito pastor, recebendo o dom da oração. Ajoelhava-se no meio do campo e rezava, cercado por seus animais.”
Esmeralda encastoada no mar
A grama da Irlanda é extraordinariamente verde e cobre grande parte do país. Por isso, os poetas antigos diziam que a Irlanda era como uma esmeralda encastoada no mar, ao norte da Europa.
Imaginemos a bonita cena: São Patrício, pequeno, mas já com fisionomia de santo, pastorzinho pobre e humilde, rezando sobre a relva esplendidamente verde da Irlanda, e os animais fazendo círculo em torno dele, para protegê-lo ou a contemplá-lo. Cenas semelhantes eram comuns na hagiografia da Idade Média, constituindo fioretti2, servindo para iluminuras, vitrais de catedral, etc. A história e a fantasia nelas se reúnem para a realização de um aspecto magnífico do poder da oração, bem como da candura, da inocência, quando fortalecida por carismas vindos de Deus.
“Depois de seis anos, ele sai dessa região, fazendo várias viagens cheias de peripécias, mas se tornou novamente escravo.”
Depois de seis anos dessa forma pastoril tão encantadora, ele consegue fugir, mas se torna escravo de novo.
“Enfim, chegou ao mosteiro de São Martinho de Tours. E como sempre sentira que sua vocação estava na Irlanda, partiu para evangelizá-la. Mas tal era a via estranha pela qual Patrício era conduzido que, apesar de seus desejos, de sua santidade, de seu zelo e do chamamento sobrenatural por ele recebido, fracassou completamente. Foi tratado como inimigo.”
Provação dos santos
Vemos como Deus prova os seus santos, fazendo com que caminhem por uma série de lados, sem conseguirem o objetivo que o próprio Deus tem em vista. Em determinado momento, esse objetivo lhes vem às mãos.
Compreendemos, assim, que nosso Movimento sofra dificuldades, como é natural que em nosso apostolado tenhamos revezes. Os santos progridem assim. Os não­-santos progridem rapidamente nas suas obras de pseudoapostolado; o verdadeiro apostolado somente é feito por quem é santo ou, pelo menos, tende para a santidade e a admira com todas as veras de sua alma.
“Ainda não chegara a hora, a Irlanda não estava pronta. Patrício volta à Gália onde passa três anos sob a direção de São Germano de Auxerre. Depois se retira para a solidão da ilha de Arles.”
Quanto esse homem viaja e quantas curvas tem sua vida antes de voltar para a Irlanda! Ele vai para a Gália, onde aprende com um santo as vias da vida espiritual, torna­-se eremita, depois se distancia ainda mais da Ir­landa porque se dirige para Roma...
“...onde o Papa São Celestino lhe dá a bênção apostólica. E ele retoma então o caminho da Irlanda, aí aportando em 432. Logo dirigiu-se à assembleia geral dos guerreiros da Hibérnia.”
Hibérnia era o antigo nome da Irlanda.
Pregou a Fé com destemor
Imaginemos como seria bonita, em meio à natureza suave da Irlanda, uma assembleia geral de guerreiros para deliberar a respeito das coisas da nação. Os guerreiros eram os nobres que compareciam a essas assembleias revestidos de suas armas. E quando havia dificuldades nas votações, brigavam entre si utilizando essas armas. Era regime de barbárie. Às assembleias comparecia também o colégio dos druidas, sacerdotes pagãos da Gália e da Irlanda, que pertenciam, então, à mesma raça.
Ali se apresentou São Patrício, que atacou de frente o centro religioso e político da nação. Perante todos os seus inimigos agrupados, pregou ele a Fé. Que destemor! Nada de meias medidas, de panos quentes, de recuos; ele era um santo e tinha o poder dos santos. “
A partir desse momento, as maravilhas se sucederam com rapidez. Houve conversões de famílias reais inteiras.”
Anjos no Céu se inclinam para ouvir os bardos da Terra
Naturalmente, “famílias reais” significam federações de tribos. Não podemos pensar, por exemplo, em princesas como as filhas de Luís XV pintadas por Nattier, mas em nossa Paraguaçu 3: as “princesas reais” de então eram umas Paraguaçus louras, mas autênticas Paraguaçus.
Enfim, devemos imaginar a selvageria dessas hordas e São Patrício dizendo-lhes todas as verdades. Ele desperta admiração; os guerreiros começam a ficar pensativos, depois contritos, as mulheres a mudar de atitude. Famílias reais inteiras são batizadas, seguidas das respectivas tribos. Que cena linda!
 “A Irlanda se transforma rapidamente na ilha dos santos. Naquela terra onde outrora fora escravo, Patrício anda agora como conquistador triunfante. Reis, povos e também poetas vêm a ele.”
A Irlanda é uma das mais antigas pátrias da poesia.
A cítara, uma pequena harpa, com a qual cantavam os bardos irlandeses e do País de Gales, faz parte da bandeira da Irlanda. O maior cantor que houve na Irlanda tornou-­se cristão.
“O Homero da Hibérnia inclinou os velhos heróis ante o estandarte do Deus desconhecido. Então, diz um velho autor, os cantos dos bardos ficaram tão belos, com a conversão lucraram tanto em sua beleza, que os Anjos de Deus se inclinavam na beira do Céu para escutá-los.”
Como é linda essa ideia de os bardos cantando na Terra; e no Céu, aberto como se fosse uma clarabóia, revoadas de Anjos ouvindo aquelas vozes. Isso tem uma indiscutível poesia, com um aroma e uma força de atração verdadeiramente extraordinários.
Como bem disse certa vez Montalembert4, a Idade Média foi a “doce primavera da Fé”. Tudo isso se parece com a primavera: é uma energia que surge, com todo o dinamismo para crescer, vencendo todos os obstáculos, iluminando tudo como o sol nascente, ou como uma boa estação do ano que vai entrando.
Como é diferente o dinamismo desse apostolado com a situação que hoje vemos!
Ameaça a um chefe pirata
“Entretanto, as invasões dos piratas desolavam a Irlanda. Patrício escreveu a Corotido, chefe da quadrilha.”
Esses piratas vinham da Dina­marca, da Noruega e da Suécia — quão mudadas daquele tempo para cá! — e eram chamados reis do mar. Nações inteiras, em naus — com proas monumentais, velas bonitas — singravam com rapidez os mares e desciam em hordas pelas praias, devastando os povos, as plantações. Então, para um tal Corotido, ou Corótido — não sei como se pronuncia — nosso santo escreveu o seguinte:
“Patrício, pecador ignorante, mas coroado Bispo de Hibérnia...”
Quão linda a ideia de que o bispo é coroado como um rei!
“... refugiado entre as nações bárbaras por causa de seu amor a Deus, escrevo de próprio punho estas letras para serem transmitidas aos soldados do tirano.
“A misericórdia divina que eu amo não me obriga a agir assim, para defender aqueles mesmos que não há muito me fizeram cativo e trucidaram os servos e as servas de meu pai?”
Quer dizer, ele enfrentou perigos e mostrou os desígnios de misericór­dia da Providência.
Ele prediz que a realeza de seus inimigos será menos estável que a nuvem e a fumaça.
“Em presença de Deus e dos seus santos — acrescenta Patrício — atesto que o futuro será tal qual eu previ.”
Ele, portanto, os ameaça dizendo que não adianta atacar, porque vão perder o que estavam querendo conquistar.
“Alguns meses depois, Corotido, acometido de alucinação mental, morria no desespero.”
Podemos imaginar o desespero de Corotido, matando pessoas e depois se golpeando a si mesmo, porque ficara louco. Era o resultado da maldição de São Patrício.
“Os inimigos de Patrício caíam mortos, os amigos ressuscitavam. Os túmulos pareciam um domínio sobre o qual ele tinha direito.”
Assim se converte um povo! Se pudéssemos imitar São Patrício, co­mo tudo seria mais simples! Não precisaríamos nem de burocracia, nem de máquinas. Bastaria irmos à sepultura de Dom Vital e de outras pessoas virtuosas para ressuscitá-los. E muita coisa mudaria. Mas a nós isso não foi dado.
Quando se tem esse direito sobre os túmulos, abre-se e fecha­-se a porta da morte dessa forma, o que mais é necessário?
Poder sobre os demônios
“Quando de sua chegada à Irlanda, os demônios, diz um historiador do século XII, fizeram um círculo com que cingiam toda a ilha para lhe barrarem a passagem. Patrício levantou a mão direita, fez o sinal da cruz e passou adiante.”
Lindo tema para uma iluminura: um barquinho em cuja proa está São Patrício, fragilzinho, tendo um pé colocado para frente e outro para trás, um halo de santidade, e uma sarabanda de demônios correndo. Para pintar os demônios, pediríamos o auxílio da arte moderna que realmente os representa como eles são. E ao lado, outro quadrinho: São Patrício dando uma bênção, e os demônios, com fogo saindo de suas pernas, caem de ponta-­cabeça dentro do mar; e monstros marinhos fugindo espavoridos de todos os lados — porque os demônios até aos monstros causam horror. Outras cenas: o barquinho de São Patrício ancorando sereno; ele descendo, amarrando a pequena embarcação e penetrando na Irlanda. Lamento não saber pintar iluminuras para representar coisas dessas.
“Depois derrubou o ídolo do sol, ao qual as crianças, como ao antigo Moloch, eram oferecidas em sacrifício.”
Isso eu gostaria muito mais de pintar: um ídolo horrendo, em pé, numa atitude sanguinária, diante do qual há adoradores infames; uma mãe que entrega espavorida seu filhinho; ao lado, restos de cadáveres de crianças mortas; e São Patrício que chega. Segundo quadro: o santo faz uso da palavra com veemência. Terceiro: ele derruba o ídolo. Quarto: a população festeja.
Assim é que se tocam as coisas para frente. Mas para isso é preciso ser santo.
O bastão de São Patrício enxotou serpentes da Irlanda
Certa vez perguntaram a Napoleão — pode-se imaginar quão cretino era o indivíduo que fez tal indagação — por que ele não se fazia aclamar como deus. Napoleão respondeu: “Olhe, meu caro, depois de Jesus Cristo, só há um jeito para alguém ser deus: tomar a cruz, subir ao Calvário e fazer-se crucificar. E eu não tenho vontade disso. Porque depois d’Ele ninguém toma a sério outro deus.” É bem verdade. Assim também, para fazer essas coisas é preciso ser santo. Se quiséssemos verdadeiramente ser santos, talvez pudéssemos realizá-­las.
Continua Hello:
“Atribui-se ao bastão de São Patrício o poder de enxotar as serpentes.”
Parece que esses animais são desconhecidos na Irlanda, e sua ausência é atribuída a uma bênção particular: a bênção do bastão que São Patrício segurou nas mãos.
Por que não pedimos um pouco dessa relíquia para o Brasil? Positivamente, é falta de imaginação. Poder-se-ia andar tranquilamente pelos matos, com a cruz de São Patrício na ponta de um bastão.
Propulsor, em escala mundial, da vida da Igreja
“A figura desse santo assemelha-se um pouco a um navio que se distancia da pátria: durante algum tempo pode ser visto distintamente; mas depois, ele parece desaparecer quando o céu e o mar se confundem no horizonte. Assim também São Patrício, no céu e nos mares da Irlanda.”
Essa história coloca diante de nossos olhos uma dessas figuras de fundadores e evangelizadores de povos, de homens da destra de Deus.
Há certas pessoas que Deus escolhe a fim de fazer um apostolado circunscrito e pequeno. Para isso são eficientes e poderosas, pois o Deus lhes dá as graças necessárias. Porém, tais pessoas não são muito salientes por suas obras. No período de evangelização da Europa, houve um grande número de santos e de santas que fundaram cristandades em lugares onde haveria de futuro dioceses — alguns desses santos se tornaram diretamente seus bispos — e foram patronos desses locais.
Seus sepulcros ficam nesses lugares, onde se celebram seus cultos, às vezes com peregrinações. Dir­-se­ ia que eles são animadores desse aspecto riquíssimo da Igreja, como de toda grande sociedade, que é a vida regional.
Mas há outros santos que são propulsores da vida da Igreja, em escala mundial. E esses são propriamente os homens da destra de Deus. Os obstáculos parecem insignificantes diante deles. Tais santos realizam coisas que nunca ninguém poderia imaginar, fazendo acelerar muito a marcha da História e o progresso da Igreja. Isto se pode dizer de São Patrício e também da nação irlandesa.
A Revolução conspurca até as coisas mais esplêndidas
Os irlandeses participaram da ação missionária do império de Carlos Magno, evangelizando a França, a Holanda e, sobretudo, a Alemanha. A Irlanda foi um ponto de irradiação extraordinário da Religião Católica nesta época, mais ou menos como, séculos depois, a Península Ibérica, da qual partiu a evangelização de toda a América Latina, parte da África e regiões da Ásia.
Tal qual aconteceu com a Península Ibérica, depois se apagou a glória internacional da Irlanda, mas algo de sua fidelidade restou. Espanha e Portugal — este último em medida infelizmente menor — têm resistido a toda espécie de tentativas para obrigá-los a apostatar. Na Espanha houve até resistência a uma terrível revolução comunista, e a Irlanda sofreu perseguições atrozes, mas não apostatou, como prêmio pelo fato de ter sido uma nação apostólica, e continua firme para a glória de Deus.
Isso é bonito, edificante, e eleva os nossos corações.
 Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferências de 18/3/1966 e 16/3/1967
1) Ernest Hello, escritor francês. 1828­ 1885. Não possuímos referência exata da ficha original usada por Dr. Plinio.
2) Termo retirado da coletânea de histórias de São Francisco de Assis intitu­ lada I Fioretti (As florzinhas).
3) Índia tupinambá, esposa de Diogo Álvares Correia (Caramuru).
4) Charles de Montalembert, 1810­1870.
 

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