sexta-feira, 5 de outubro de 2012

VENERÁVEL PIERRE TOUSSAINT

Os Santos todos, sem exceção alguma, são pessoas de personalidade extraordinária. É por isto que alcançaram a santidade? Não. A realidade é exatamente o contrário: na busca da perfeição, tornaram-se pessoas de destaque.
Não há, praticamente, quem nunca tenha ouvido falar de São Francisco de Assis, fundador dos franciscanos; de Santa Teresa de Ávila, a reformadora do Carmelo; de Santo Antônio de Pádua, taumaturgo; de São Tomás de Aquino, o teólogo, ou ainda de São Luís, rei de França, para mencionar só estes.
Todos eles, além de grandes Santos, são pessoas dotadas de uma personalidade extraordinária. Isso pode induzir alguém à conclusão de que a santidade é privilégio exclusivo de homens ou mulheres “fora de série” como eles.
É certo esse conceito?
Não. Além de errado, é prejudicial, pois leva o católico a assumir uma atitude de falsa humildade: “Sou fraco, não passo de um homem comum, as vias da perfeição não são para mim”.
Ora, todo cristão deve procurar pôr em prática o preceito do Divino Mestre: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). E o Catecismo da Igreja Católica deixa bem claro que nenhum batizado pode julgar-se excluído do chamado à santidade: “Todos os fiéis cristãos, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade” (2012).
No exemplo dado a seguir, pode-se ver como a santidade está ao alcance de todos.
A vida do Venerável Pierre Toussaint é mais empolgante do que qualquer romance ou novela épica. Ele não fundou uma Ordem religiosa, nunca fez um milagre, estava longe de ser um teólogo e mais ainda de ser um grande soberano. Era, pois, “um homem comum”? Muito menos do que isso: era um escravo!
Mas, na sua escravidão, aceitava com alegria a vontade de Deus e levou a dedicação à sua senhora a ponto de — tendo todas as possibilidades lícitas de tornar-se homem livre — permanecer desinteressadamente a seu serviço durante muitos anos.
Espirituoso, alegre e gentil
No lado ocidental da ilha de Hispaniola, onde aportara outrora Colombo pela primeira vez à busca do Novo Mundo, os franceses fundaram São Domingos (atual Haiti), que foi por muito tempo a mais próspera das colônias francesas. Atraídos pela riqueza dessas terras, muitos membros da pequena nobreza vieram da metrópole para fazer fortuna na colônia. Entre eles, Jean Bérard, o qual obteve rápida prosperidade por meio de suas grandes plantações na cidade de Saint Marc.
Nessa época, em 1766, nasceu Pierre Toussaint. Desde muito tempo, sua avó Zenobe e sua mãe Úrsula, prestavam significativos serviços, como escravas, à família Bérard; uma levando os filhos de sua ama a Paris, para lá receberem uma melhor educação, e outra servindo de camareira íntima da família. Pierre logo se tornou muito estimado, por sua alegria e gentileza. Declara uma amiga da família:
Lembro-me de Toussaint entre os escravos, vestido com uma jaqueta vermelha, muito espirituoso, entusiasta de música e dança, e devotado à sua senhora que era jovem e alegre.” O casal Jean e Marie Bérard dedicavam-lhe afeição a ponto de designar sua própria filha para ser madrinha dele.
Mas, os ventos da Revolução Francesa já tinham começado a soprar na França e em suas possessões de além mar. Em São Domingos, uma rebelião estava a ponto de irromper. Antevendo o perigo, em 1787 a família Bérard partiu para a então pequena, mas já rica, Nova York. Levaram consigo cinco escravos, entre os quais Pierre e sua irmã Rosalie.
Dedicação levada ao extremo
Passado um ano, Jean Bérard retornou à ilha para supervisionar suas terras e negócios. São Domingos já estava em plena revolta, nada havia a fazer ali, ao menos por enquanto.
Então ele, perspicazmente, encaminhou o devotado Pierre para o ofício de cabeleireiro. “Nisso deve ter entrado a mão da Providência” — diria Toussaint mais tarde, ao considerar quanto o exercício dessa profissão lhe foi útil para dar vazão à sua imensa caridade.
Com efeito, os infortúnios começaram a abater-se sobre a outrora rica e jovial Marie Bérard. Por assim dizer num só golpe, ela perdeu o marido, vítima de pleurisia, a imensa fortuna representada por suas terras em São Domingos e, para cúmulo de desgraça, seus bens em Nova York, devido à falência da firma na qual estavam depositados.
Para ela, a “mão da Providência”, doravante, seriam as hábeis mãos de Pierre Toussaint... Vendo-se na situação de único homem da casa, ele assumiu o encargo de arrimo da família.
Sempre alegre e bem-humorado, percorria as ruas de Nova York, oferecendo seus serviços de exímio cabeleireiro às refugiadas francesas e às damas da sociedade americana. Sua singular habilidade profissional, seu trato respeitoso e gentil, e seu fino tirocínio em escolher para cada senhora o modelo de penteado mais adequado, logo lhe proporcionaram fama na cidade.
Os resultados financeiros eram bastante compensadores. Como usufruía deles o escravo Pierre Toussaint?
Com esses ganhos, ele tinha a alegria de... proporcionar à sua ama, agora viúva e desamparada, a mesma vida confortável de que ela até então havia desfrutado! Levou o enlevo e dedicação à sua senhora até um ponto atingido por poucos filhos em relação a seus próprios pais. Quando esta se casou novamente, ele passou a sustentar os recém-casados, pois logo seu marido perdeu o emprego de músico, devido ao fechamento compulsório dos teatros de Nova York.
Toussaint poderia facilmente conseguir a alforria e ajuntar para si um bom pecúlio, mas preferiu continuar a serviço de Marie Bérard.
Sua ama morreu pouco tempo depois, aos 32 anos de idade. Foi ele, servo bom e fiel, quem providenciou um sacerdote para ministrar-lhe os últimos sacramentos. Em seu leito de morte, ela concedeu a liberdade a Pierre Toussaint, proclamando que não havia recompensa terrena suficiente para retribuir-lhe os serviços prestados.
Já na condição de homem livre, esse católico modelar permaneceu prestando serviços gratuitos ao viúvo de sua falecida senhora, Gabriel Nicolas, até que este mudou-se para o sul do País.
Somente então Toussaint considerou-se desimpedido para, ele próprio, contrair núpcias. E já era tempo, pois alcançara 45 anos. Assim, em 1811, casou-se com Juliette Noël, também ex-escrava. Ela se revelou uma digna esposa dele, passando a ser a eficiente auxiliar e a incentivadora de suas obras de caridade.
“Um consumado gentil-homem”
Toussaint permaneceu no ofício de cabeleireiro até o fim de sua longa vida. Era sempre muito amável e cortês com suas clientes. Para alegrá-las, tocava às vezes algumas peças no violino, instrumento dócil em suas habilidosas mãos.
E elas o consideravam “um consumado gentil-homem”. Não por causa de roupas finas e bem-talhadas, que ele não tinha. Menos ainda por uma vasta cultura, maneiras elegantes e apurada educação mundana. Ele era um escravo negro, num país de acentuada discriminação racial!
Exemplo de santidade ao alcance de todos
O que, pois, lhe mereceu tão elevado conceito?
Um conjunto de diversos fatores: sua fé católica, posta em prática na vida quotidiana, o desejo de agradar a Deus, o coração transbordante de bondade cristã e as qualidades morais cultivadas de modo excelente por quem continuava a ser um “homem comum”. Com perfeita modéstia, conhecia ele o que lhe era próprio e sabia dar a cada qual o tratamento devido.
Esse “conjunto de fatores diversos” tem um nome: santidade!
— Mas ele não foi canonizado! — poderia alguém objetar.
Não foi, e talvez não seja. Sobre este assunto, compete ao Papa pronunciar-se com o dom de infalibilidade que lhe foi concedido pelo Espírito Santo. Todo cristão é chamado à santidade, isso é o essencial.
“Quão nobre e incomum era o seu caráter!” — depõe uma senhora que o conheceu de perto. E acrescenta: “Era, porém, o seu ‘todo’ que me impressionava; sua perfeita benevolência cristã, sua fé íntegra, seu amor e caridade, seu notável tato e finura de sentimentos, e sua justa apreciação daqueles que o circundavam. Sua religiosidade era fervorosa e sincera, a qual ele nunca abandonou por razões mundanas.”
Isso é a descrição de uma vida nas vias da santificação!
Pois então, esse nível de prática da virtude está ao alcance e todos os homens e mulheres, sem exceção. Se um simples escravo iluminou com sua fé e aqueceu com sua caridade todos os lugares por onde passou, por que não podemos também nós, “pessoas comuns”, fazer o mesmo?
Pioneiro das obras de caridade em Nova York
Para sua clientela, o bondoso cabeleireiro era um confidente seguro e bom conselheiro. Nunca revelava os segredos que lhe eram confiados. Certa vez, indagado por uma bisbilhoteira a respeito de assuntos particulares de outrem, ele replicou: “Toussaint faz penteados, não é portador de notícias”. Para outras perguntas indiscretas, ele jeitosamente respondia: “Eu não tenho boa memória...”
O progresso na vida espiritual aumentava em seu coração generoso o desejo de fazer o bem aos necessitados. Assim, ele ampliou seu campo de ação beneficente. Levantou fundos para ajudar crianças abandonadas, construir orfanatos e igrejas. Durante vinte anos, foi o sustentáculo do Lar das Crianças de São Patrício. Quando a febre amarela ceifava na cidade milhares de vidas, ele cuidava dos doentes para ajudá-los a recobrar a saúde ou, não sendo isso possível, a morrer com dignidade.
Desta forma, Pierre Toussaint acabou sendo um dos pioneiros das obras de caridade na próspera Nova York.
Não se deve, todavia, pensar que tudo isso provinha de uma mera filantropia. Era fruto, sobretudo, de décadas de frequência diária à Missa, na Igreja de São Pedro (a única católica na cidade) e de sua ardorosa devoção a Nossa Senhora, a qual defendia constantemente, embora estivesse rodeado por não-católicos. Mesmo sendo leigo — e um ex-escravo! — havia pessoas que lhe pediam a bênção.
“Ele irradiou uma fé sereníssima e alegre”
No dia 30 de junho de 1853, com 87 anos, esse católico exemplar entregou sua bela alma a Deus, em odor de santidade. Estando já no leito de morte, alguém lhe perguntou:
— O senhor deseja alguma coisa?
— Nada nesta terra — respondeu.
Seu corpo venerável está sepultado na Catedral de São Patrício. Por ocasião de sua visita a essa catedral, em 1995, João Paulo II pronunciou estas luminosas palavras: “O que há de tão extraordinário neste homem? Ele irradiou uma fé sereníssima e alegre, sustentada diariamente pela Eucaristia e visitas ao Santíssimo Sacramento. Em face da constante e dolorosa discriminação, ele compreendeu, como poucos haviam compreendido, o significado das palavras de Nosso Senhor: ‘Pai, perdoai-lhes, pois eles não sabem o que fazem’. Nenhum tesouro é tão sublime e transformante como a luz da fé”.
Não há dúvida de que é pequeno o número dos cristãos chamados à importante missão de teólogo, de rei ou de fundador de alguma Ordem religiosa, ou algo do gênero. Todos, entretanto, podem fazer como o venerável Pierre Toussaint: irradiar Cristo em seus próprios ambientes, e rumar para a santidade.
Por isso, todos têm muita coisa a aprender deste ex-escravo, que foi apropriadamente definido como a “imagem de Deus esculpida em ébano”.

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