terça-feira, 19 de novembro de 2013

Santo Edmundo Campion

Mártir da fidelidade ao Papado
Os séculos XVI e XVII foram tempos difíceis para a Igreja na Inglaterra. A outrora cognominada Ilha dos Santos encontrava-se imersa em problemas de índole política que logo transcenderam para a esfera eclesiástica, com as mais graves repercussões.
Em 1534, Henrique VIII se autonomeou Chefe Supremo da Igreja na Inglaterra e declarou réu de morte a quem não reconhecer essa autoridade. Ao ano seguinte, foram decapitados dois dos mais proeminentes opositores ao Ato de Supremacia: São John Fisher e São Thomas More. Os mosteiros, conventos e confrarias foram dissolvidos. Uma implacável perseguição se desatou contra os que permaneciam fiéis ao Papa. Foi nessas circunstâncias históricas que nasceu em Londres, no dia 25 de janeiro de 1540, Edmundo Campion.
Aluno brilhante, orador eloquente, professor estimado
Filho de pais abastados, o pequeno Edmundo era dotado de inteligência ímpar e de grande facilidade para o estudo das letras, o que fazia abrir-se diante dele um futuro brilhante. Teve um tal progresso no colégio que, com apenas 13 anos, foi o estudante escolhido para fazer, em latim, o discurso de boas-vindas à Rainha Maria I, quando esta entrou solenemente em Londres, em 1553.
O donaire e a vivacidade do menino cativaram os presentes. Entre estes estava Sir Thomas White, fundador do Colégio São João de Oxford, que o tomou sob sua proteção e levou para essa instituição, a fim de educá-lo e formá-lo.
Edmundo não defraudou seu benfeitor. Coroou seus estudos com brilho, correspondendo às esperanças do mestre. Por sua privilegiada inteligência e grande eloquência, era sempre o orador escolhido para discursar nas ocasiões importantes. Como professor, destacou-se de tal forma que alunos de outros cursos vinham assistir às suas aulas como simples ouvintes. Foi nomeado proctor (chefe dos inspetores de disciplina da Universidade). Em pouco tempo tornou-se estimado e popular entre os estudantes a ponto de “fazer escola”: formou-se em Oxford um grupo de estudantes denominados “os campionistas”, porque o imitavam na maneira de falar, nos gestos, nos modo de ser e até de vestir-se.
Encontro com a rainha Isabel I
Algum tempo depois de sua coroação como rainha, Isabel I visitou Oxford com uma grande comitiva, para passar alguns dias entre os estudantes da célebre Universidade. Tinha por objetivo arregimentar para a sua causa jovens universitários ou professores de grande talento. A visita durou seis dias e constou de vários atos acadêmicos, entre os quais uma homenagem do corpo docente. O orador escolhido foi Edmundo Campion, então com 27 anos de idade.
A rainha escutou-o com muita satisfação, fez-lhe os mais lisonjeiros oferecimentos e colocou-o sob a tutela de seu chanceler, William Cecil, que mais tarde referiu-se a ele como sendo “um dos diamantes da Inglaterra”.1
Começa a batalha pela fidelidade
Quase que por instinto, Campion rejeitava as reformas implantadas na esfera espiritual por Henrique VIII e seus sucessores. Inebriado, porém, pelas possibilidades de uma brilhante carreira, deixou-se levar pelos acontecimentos e prestou o Juramento de Supremacia em 1564, reconhecendo a rainha como governadora suprema da Igreja na Inglaterra. Quatro anos mais tarde, recebeu das mãos do bispo anglicano de Gloucester a ordenação diaconal.
Entrementes, o futuro mártir dedicara-se aos estudos de filosofia aristotélica, de teologia natural e dos Santos Padres, e não tardou a tomar consciência de sua falta. Profundamente perturbado pelos remorsos, procurou um sacerdote católico, fez uma boa confissão e assumiu publicamente sua condição de filho da Igreja.
Tinha ele clara noção de que sua atitude o obrigaria a abandonar a carreira acadêmica, mas não hesitou em fazer esse sacrifício. Também não ignorava que, se permanecesse na Inglaterra nessas circunstâncias, estaria exposto a grandes riscos. Por isso deixou Oxford e mudou-se em 1569 para Dublin.
Um novo porvir: o sacerdócio e o martírio
No ano seguinte, o Papa São Pio V promulgou a bula Regnans in Excelsis, excomungando a rainha Isabel I. Após esse ato pontifício, os ânimos se acirraram, e a situação de Edmundo tornou-se especialmente delicada. Os irlandeses o viam com maus olhos, por ter se dedicado a escrever uma História desse país sob o ponto de vista inglês; os católicos o olhavam com suspeitas, pelo fato de ele ter sido ordenado diácono anglicano; e os anglicanos e luteranos o detestavam por ser um “papista”.
Não teve outra alternativa senão voltar à Inglaterra, com o nome de Mr. Patrick e disfarçado de lacaio. Chegou a Londres a tempo de testemunhar o juízo de um dos primeiros mártires oxfordianos: São João Storey, jurista, executado em 1571 por sua fidelidade ao Romano Pontífice. Percebeu, então, o quanto a Santa Igreja em sua nação necessitava de almas dispostas a uma doação total, para sustentar na Fé os católicos e manter o estandarte da catolicidade erguido naquela terra outrora conhecida como a Ilha dos Santos.
Este fato despertou em sua alma a vocação ao sacerdócio, com a disposição de sacrificar tudo, inclusive a vida, se preciso fosse, em defesa da Igreja de Cristo. O martírio passou a fazer parte de suas cogitações e de seu futuro.
No seminário em Douai
Decidido a corresponder sem tardança ao chamado do Divino Mestre, empreendeu uma viagem para Flandres, num momento crítico em que todos os viajantes eram suspeitos. Após muitas peripécias, conseguiu chegar ao seminário de Douai, fundado e dirigido pelo padre William Allen, o futuro Cardeal, também oxfordiano. Neste seminário, que foi ponto de partida para muitos santos e mártires, ele estudou Teologia, Exegese e Divindade. A cópia da Suma Teológica usada por Campion em seus estudos existe até hoje, mostrando as anotações por ele feitas à margem do argumento de São Tomás sobre o “batismo de sangue”, isto é, o martírio.
Martírio parecia ser o único tema de conversa no seminário de Douai, naquela época. Todos se julgavam indignos de tão grande privilégio, mas contavam com o auxílio da graça. Convictos da realidade expressa na famosa frase de Tertuliano: “O sangue dos mártires é semente de cristãos”,2 estavam realmente dispostos a tudo.
Santo Edmundo permaneceu aí nove anos e recebeu as ordens menores e o subdiaconato. Mas tinha o coração sempre atormentado por ter prestado o Juramento de Supremacia. Desconfiando de suas próprias forças, colocava sua confiança “nAquele que conforta” (Fl 4, 13), e empenhava-se, ao mesmo tempo, em preparar sua alma na humildade. Almejava, para isso, uma vida de austera disciplina e obediência. Acreditava que assim talvez se tornasse “digno do verdugo e da forca por seu Deus”.3
Sacerdote jesuíta
Partiu então para Roma, como peregrino, e solicitou ingresso na Companhia de Jesus. O Superior Geral, padre Everardo Mercuriano, o recebeu como noviço e o designou para Brunn, na Província da Áustria. Mais tarde foi transferido para Praga, onde estudou por mais cinco anos e recebeu a ordenação sacerdotal em 1578.
Começou para Santo Edmundo uma fase de intensas atividades de apostolado. Era constantemente chamado para pregar e atender Confissões nas cidades próximas, e não deixava de dar assistência aos fiéis nos hospitais e nas prisões.
Um dia, recebeu uma carta do Cardeal Allen, comunicando-lhe que havia organizado uma incursão de missionários na Inglaterra e que ele, padre Edmundo, fazia parte do grupo. “O Geral acedeu às nossas súplicas; o Papa, verdadeiro pai de nosso país, consentiu; e Deus nos permitiu que nosso querido Campion, com seus dotes extraordinários de sabedoria e graça, nos fosse afinal restituído”.4 Aproximava-se o almejado martírio... Seus companheiros do Colégio de Praga deram-lhe um pergaminho com a profética inscrição: “Padre Edmundo Campion, mártir”.
Cem mil conversões em um ano!
Em 18 de abril de 1580, partiu de Roma, com a bênção do Papa Gregório XIII, uma pequena caravana de missionários, entre eles três jesuítas: padre Robert Persons, superior, padre Edmundo Campion e o irmão Ralph Emerson. Receberam estes, também, a bênção de São Felipe Neri, no Oratório, e os incentivos de São Carlos Borromeu em Milão, por onde passaram.
Sua missão era puramente espiritual: procurar as ovelhas perdidas, recuperar os católicos que vacilavam ou contemporizavam sob o regime persecutório, afervorar as almas fiéis. Jamais poderiam imiscuir-se em problemas políticos, menos ainda participar de confabulações, ou mesmo simples conversas, contrárias à rainha.
Não foi sem grandes riscos e dificuldades que conseguiram cruzar o Canal da Mancha e entrar disfarçados em Dover, pois espiões ingleses em Roma haviam enviado notícias da sua partida, e em toda a Inglaterra a força policial estava mobilizada para impedir a entrada desses “fora da lei” em seu território.
Os católicos ingleses, animados pela chegada dos sacerdotes, encarregaram-se de hospedá-los e dar-lhes condições de exercer seu ministério apostólico. Puderam eles, assim, durante mais de um ano, desempenhar suas funções sacerdotais, sempre em situação de risco. Disfarces, nomes falsos, precários esconderijos, apreensões nos momentos de buscas policiais, tudo isso fazia parte da rotina dos heroicos missionários.
Campion pregava com frequência sobre o primado de Pedro. Celebrava a Santa Missa, atendia Confissões, dava conselhos, alentava os fracos, “tudo como nas catacumbas”,5 diz um de seus biógrafos. Mais ainda, trazia de volta ao Rebanho de Cristo inúmeras ovelhas desgarradas. “Cem mil conversões em um ano!”, exclama o mesmo autor.6
O “jesuíta sedicioso”
Refugiado em York, padre Campion escreveu, em latim, sua mais famosa obra: Decem Rationes (As dez razões para ser católico), logo divulgada por todo o país. No dia 29 de junho de 1581, apareceram sobre os bancos da igreja de Santa Maria de Oxford 400 exemplares dessa obra, lá deixados por uma mão desconhecida...
Em resposta a essa audaciosa iniciativa dos missionários, a rainha ofereceu grande soma pela captura deles, sobretudo do padre Campion. Em 16 de julho, festa da Virgem do Carmo, ele e o irmão Emerson estavam em uma casa de Lyford Grange, para ministrarem os Sacramentos. Disfarçado entre os fiéis, entrou lá um espião, chamado George Eliot. Tal qual Judas o Infame, saiu logo depois de receber a Sagrada Comunhão, para denunciar os missionários a quem lhe pagava o salário de seu vil ofício.
Não tardaram a chegar os agentes do governo, que vasculharam a casa e prenderam os ministros de Deus. Amarrados aos cavalos e cavalgando de costas, foram conduzidos a Londres, onde entraram sob manifestações de escárnio de um pequeno populacho. No chapéu do padre Edmundo estava afixada uma inscrição: “Campion, o jesuíta sedicioso”.
Julgamento e condenação
Na Torre de Londres, iniciou-se processo do padre Campion. A rainha quis falar pessoalmente com ele. Ofereceu-lhe a vida, a liberdade, honrarias e até mesmo a Diocese de Cambridge, com a condição de que ele reconhecesse sua supremacia espiritual no Reino da Inglaterra. O destemido varão recusou todas essas ofertas. Deu-se, então, prosseguimento ao inquérito. Embora submetido a terríveis torturas, o padre Campion defendeu-se com tanto acerto que os acusadores não encontravam meios de incriminá-lo. Foi preciso recorrer ao depoimento de falsas testemunhas.
Num ridículo julgamento realizado em Westminster, no dia 20 de novembro, é decretada a sentença de morte na forca, seguida de estripação e esquartejamento. Santo Edmundo e seus companheiros condenados, o padre Sherwin e o também jesuíta Briant, acolheram-na com o cântico jubiloso do Te Deum laudamus e de um versículo do salmo 117: “Este é o dia que o Senhor fez: seja para nós dia de alegria e felicidade” (v. 24).
George Eliot, o delator, procurou o santo missionário no calabouço para pedir-lhe perdão. E foi perdoado imediatamente.
O martírio
Caía uma chuva fina e fria sobre Londres, na manhã de 1º de dezembro de 1581. Os três condenados foram conduzidos ao patíbulo amarrados numa esteira de vime arrastada por cavalos. Ao passar o arco de Newgate, Santo Edmundo conseguiu erguer a cabeça o suficiente para saudar uma imagem de Nossa Senhora que ali se encontrava em seu nicho.
Chegando a Tyburn, onde estavam levantadas as forcas, Campion subiu com toda a firmeza que lhe permitiam seus membros deslocados pelas torturas. Ouviu-se um murmúrio de admiração entre espectadores, seguido de um longo silêncio. Começou ali uma nova colheita de conversões, entre as quais a de um jovem que se fez jesuíta e sofreu, 14 anos depois, idêntico martírio: Santo Henrique Walpole.
Já com a corda colocada no pescoço, o padre Campion foi pela última vez interrogado por um conselheiro da rainha, que lhe exigiu uma confissão pública de suas “traições”.
A História registra suas derradeiras palavras: “Se ser católico é ser traidor, me confesso como tal. Mas se não, tomo a Deus — ante cujo Tribunal vou agora apresentar-me — como testemunha de que em nada ofendi a rainha, nem a Pátria, nem qualquer pessoa, para merecer o título ou a morte como traidor”.7 Rezou por fim o Pai-Nosso e a Ave Maria, e pediu aos católicos presentes que rezassem o Credo enquanto ele expirava. Entregou, assim, sua alma ao Criador, como mártir da fidelidade à Cátedra de Pedro.
1WAUGH, Evelyn. Edmundo Campion. San Francisco: Ignatius Press, 2005, p. 68.2 TERTULLIANO. Apologget., 50; PL 1, 534.3 BRICEÑO J., SJ, Pe. Manuel. San Edmundo Campion. In: ECHEVERRÍA, L., LLORCA, B., REPETTO BETES, J.L. (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2006, vol. 12, p.19. 4 WAUGH, Op. cit., p. 87. 5 BRICEÑO J., SJ, Op. cit., p. 21. 6 Idem, ibidem. 7 Idem, p. 23.

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