quarta-feira, 27 de novembro de 2013

São Domingos Sávio

A boa formação de uma criança e de um adolescente deve proporcionar-lhes um equilibrado e sadio impulso para a maturidade. Sobretudo, para alcançarem o ideal de perfeição moral a que todo homem é chamado. Como a seguir veremos, luminoso exemplo dessa educação bem assimilada encontramos em São Domingos Sávio, discípulo predileto do grande São João Bosco.
Comentários de Plinio Correa de Oliveira a respeito de São Domingos Sávio, discípulo de São  João Bosco, evocando não tanto seus traços biográficos, quanto ressaltando sua fisionomia  moral.
Obra-prima da educação salesiana
Faleceu ele antes de seu mestre, aos 11 anos de idade,  e foi considerado a obra-prima da educação dada pelo  célebre apóstolo da juventude. Menino eminentemente  piedoso, exímio cumpridor dos seus deveres, conservou  sempre uma castidade exemplar, tendo sido proclamado  pelo Papa Pio XI como o padroeiro da pureza, depois de  São Luís Gonzaga.
Essas reflexões se prendem a uma recordação pessoal,  que me parece oportuno registrar.
Há alguns anos, a convite do Arcebispo de Mariana,  Dom Helvécio Gomes de Oliveira, desloquei-me até essa  histórica cidade de Minas para fazer uma conferência sobre São Domingos Sávio. Após o almoço, disse ao reitor  do Colégio salesiano onde a sessão se realizaria à tarde: — Peço que o senhor me consiga uma biografia de São  Domingos, pois apesar de sabê-lo canonizado, ignoro os  pormenores de sua vida.
Com muita solicitude ele me procurou uma biografia  do Santo, porém bastante resumida. Comecei a lê-la e me lembro que o biógrafo acentuava diversas qualidades comuns aos bons meninos. Assim, São Domingos Sávio era  muito devoto, obediente aos seus superiores, de modo especial a São João Bosco, além de fazer apostolado junto a  seus colegas, sendo um exemplo de zelo pelas almas.
 Os birichini de São João Bosco
Contudo, pensei: “Infelizmente, com esses dados, não me é possível proferir uma conferência que não seja uma repetição de tantas outras realizadas ou preparadas, a  respeito de vários bem-aventurados...”. Com efeito, naquela época encontrava-se certos formulários para sermão ou exposição de vidas de santos, que diziam: “São  tal, mudando a data e o nome, serve para tais e tais santos”.
Ora, ao ler o opúsculo que o reitor me conseguira,  percebi que escapara ao biógrafo o traço mais marcante  e acentuadamente contra-revolucionário da vida de São  Domingos Sávio, que, creio eu, indicava o “segredo” de  sua santidade.
Para que esse traço fique bem explicitado, importa considerarmos o fato de que nosso santo viveu em meados do século XIX, um período em que a Revolução atingia um auge, e o espírito revolucionário, portanto, lograva grande concessão da parte dos adolescentes que principiavam a frequentar escolas. 
De um lado. De outro, temos que São João Bosco lecionava para os birichini, apelativo dado na região de Turim aos meninos de famílias modestas. Nesse sentido, é esplêndida a vocação dos salesianos: ensinar sobretudo para as classes populares, instruindo-lhes nos misteres profissionais em estabelecimentos para essa finalidade. Eram meninos com grande vitalidade e efervescência, mas tendentes a travessuras e à falta de seriedade (a qual, aliás, se alastrara  por todas as camadas sociais).
Admirável apóstolo da seriedade
Nesses ambientes São Domingos Sávio mostrou-se um admirável apóstolo  da seriedade, manifestando uma sabedoria superior à existente em meninos de sua geração. E na medida  própria à mentalidade de uma criança, possuía uma compreensão invulgar de tudo quanto deveria fazer. De  maneira que não praticava uma ação  nem dizia uma palavra que não revelassem uma reflexão séria — nas proporções de um menino, insisto — baseada na fé  e profundamente sobrenatural. Por isso ele difundia em torno de si uma atmosfera  de compostura, de seriedade,  de  calma,  sem  fazer  com  que  os  meninos  deixassem de ser  autênticas  crianças. De outro lado, proporcionava-lhes assim um meio eficaz de se oporem à mania do brinca-brinca, da falta de educação, da  ausência de cerimônia e boas maneiras.
“Morte ao pecado mortal”
Essa característica de São Domingos Sávio se faz notar num episódio de sua vida, do qual tomei conhecimento quando li outra biografia dele, escrita pelo próprio São João Bosco. Este escreveu:
Domingos veio ver-me no dia anterior ao início da novena da Imaculada Conceição, em 1854, e teve comigo o seguinte diálogo. Disse ele:
— Eu sei que a Virgem concede grande número de graças a quem faz bem suas novenas.
— E tu o que queres fazer nesta novena, em honra da Virgem?
— Quisera pedir muitas coisas.
— Quais, por exemplo?
— Antes de tudo quero fazer uma confissão geral de minha vida, para ter bem preparada a minha alma. Depois procurarei cumprir exatamente as florzinhas que cada dia da novena se darão nas boas noites.
“Florzinhas” (fioretti em italiano) significavam pequenos propósitos a praticar, recomendados na “boa noite”,  gênero de alocução famosa que Dom Bosco dirigia aos  seus alunos. Consistia geralmente de breves comentários  de algum fato do dia, ocorrido no interior ou fora do colégio. Continua a narração, com a pergunta de São João  Bosco:
— E não tens mais nada?
— Sim, eu tenho uma coisa: quero declarar morte ao pecado mortal.
— E o que mais?
— Quero pedir muito, muito à Santíssima Virgem e ao Senhor que me mandem antes a morte do que deixar-me cair no pecado venial contra a modéstia.
Ou seja, contra a virtude da castidade. E São João  Bosco acrescenta:
“Deu-me então um papelzinho em que ele tinha escrito esse propósito e manteve suas promessas porque a Santíssima Virgem o ajudava. São Domingos Sávio tinha, nessa ocasião, doze anos de idade.
Ressalta-se, assim, na estrutura de alma de uma criança, o traço distintivo de São Domingos: extraordinariamente sério, consequente, lógico em tudo. Ao mesmo  tempo, alegre, de espírito sadio e maduro.
Reflexão ratificada pelos devotos de São Domingos
Dando-me  conta  desse  cunho  característico  de  São  Domingos Sávio, comecei a minha conferência em Mariana dizendo que me achava diante de todo o corpo docente de um colégio salesiano, numa sessão que se realizava sob a presidência de um Arcebispo também salesiano e, portanto, exporia minha impressão pessoal, submetendo-a ao juízo deles. Acrescentei que a leitura de uma vida de São Domingos Sávio deixara em meu espírito essa  idéia: merecia ele ser chamado perfeitamente de apóstolo da pureza das crianças, mas deveria também ser denominado seu apóstolo da seriedade.
Desenvolvi o tema, mostrando a importância do papel da seriedade para se alcançar a perfeição espiritual: não basta ser sério para ser santo, porém não se pode ser santo sem ser sério.
Tão logo enunciei a tese de que São Domingos era o modelo da seriedade entre as crianças, houve um aplauso geral iniciado pelo Arcebispo e todos os professores, seguido naturalmente pelo público. Naquela época, São Domingos Sávio estava sob o foco das atenções, pois era recém-canonizado e os salesianos difundiam muito a devoção a ele. Sua vida, portanto, era bem conhecida de seus  irmãos de vocação e devotos. A ratificação daquela tese concedida por esse corpo docente salesiano, com tal ênfase, demonstrava-me a veracidade da minha observação.
Como vivemos num tempo em que a falta de seriedade se torna cada vez mais aguda e crítica, parece-me de importância capital rogarmos a São Domingos Sávio que seja nosso padroeiro para a seriedade, e nos alcance do Sagrado Coração de Jesus, pelas mãos de Maria Santíssima, uma perfeita prática dessa virtude da qual ele é um excelso modelo.

 Plinio Correa de Oliveira Extraído de conferências em 9/3/1971 e 9/3/1973

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