sábado, 15 de março de 2014

BEATA ELISABETH DA TRINDADE

Do cerne do convívio celeste, esta mística carmelita parece sorrir para nós, convidando-nos a seguir suas pegadas na experiência trinitária, na Terra e na eternidade.
Criança inteligente e precocemente contemplativa, de espírito firme, com apenas sete anos de idade encontrava-se visitando o Cônego Isidoro Angles, muito amigo da família. Em certo momento, cansada de brincar e da infantil conversa com a irmã e as amigas, a menina aproximou-se do sacerdote e sussurrou-lhe ao ouvido:
― Monsieur Angles, eu serei freira. Quero ser freira!
― Que diz essa traquinas? ― perguntou sua mãe, sobressaltada.
Muito intuitiva, havia percebido ela terem essas palavras uma seriedade não condizente com a idade de sua filha. Conhecia bem Elisabeth e pressentia a realização desse desejo manifestado com tanta firmeza. Passou a noite atormentada e, no dia seguinte, procurou o cônego e perguntou-lhe, ansiosa, se acreditava seriamente naquela vocação. A resposta traspassou-a como uma espada o coração:
― Sim, creio.
Vitória sobre um temperamento irascível
  Nascida em 18 de julho de 1880, no acampamento militar de Avor, perto de Bourges, onde seu pai era capitão, Maria Elisabeth Catez foi batizada quatro dias depois. Menina de gênio forte e impetuoso, personalidade decidida, olhar chamejante, buliçosa, faladeira e muito carinhosa, Elisabeth uniu-se com enorme afeto à irmã, Margarida, três anos mais nova, que tinha uma índole oposta: era tranquila e até tímida.
Quando contava apenas sete anos, Elisabeth viu falecer o pai em seus braços, vítima de um ataque cardíaco. Esse fato marcou-a profundamente e deu-lhe uma sensível experiência da efemeridade das coisas terrenas. Poucos meses depois, a viúva mudou-se com suas duas filhas para um apartamento de onde se podia ver, a pequena distância, o Carmelo de Dijon.
Possuindo um caráter violento e irascível, desde a mais tenra idade, aquela criança batalhava por dominar-se, com uma vontade de ferro. Sua irmã testemunha a esse respeito: “à força de lutar consigo mesma, chegou a uma doçura angelical. Lembro-me dela bem pequena com verdadeiros acessos de cólera, gritando e batendo os pés... Esta menina tão difícil transformou-se numa jovem de grande serenidade”.
Numa carta dirigida à mãe, em 1º de janeiro de 1889, bem demonstra esse desejo de vencer o próprio temperamento: “Ao desejar-lhe um feliz Ano Novo, tenho a alegria de prometer-lhe que serei bem comportadinha e obediente; que não lhe darei mais oportunidade para que se zangue; que não chorarei mais e que serei uma mocinha exemplar para que a senhora sinta prazer em tudo”.
Meses depois, em nova carta à mãe, escreve: “Espero que bem em breve terei a felicidade de fazer a Primeira Comunhão; por isso, serei ainda mais bem comportada porque pedirei a Deus Nosso Senhor que me torne ainda melhor”.
De fato, em19 de abril de 1891, dia em que recebeu o anelado Pão dos Anjos, o temperamento da jovem Catez transformou-se de forma súbita e profunda. Depois da cerimônia, confidenciou a Maria Luiza Hallo, sua íntima amiga: “Não tenho fome; Jesus alimentou-me”.  Aquele primeiro contato com Jesus escondido na Sagrada Hóstia fora decisivo para seu itinerário espiritual. A partir de então, “o mestre tomou posse total do seu coração”,  afirma o Padre Philipon. 
No próprio dia em que recebeu a Eucaristia pela primeira vez, fez uma visita ao Carmelo e sentiu profunda emoção quando a priora, Madre Maria de Jesus, lhe explicou que o nome Elisabeth significa “Casa de Deus”. Tais palavras marcaram indelevelmente a menina, chamada a um convívio singular e profundo com a Santíssima Trindade — com os “meus Três”, como ela mesma diria mais tarde —, habitando com especial intensidade em sua alma.
Harmonia entre a vida mística e a vida social
Dotada de peculiares dons musicais, Elisabeth começou a estudar no Conservatório de Dijon, aos oito anos, onde foi várias vezes galardoada. Com apenas treze, recebeu o primeiro prêmio de piano, num concerto que repercutiu na imprensa local e a tornou conhecida na cidade como instrumentista de talento.
Além do Conservatório, não frequentou escola. Como era costume nesse tempo, as meninas recebiam educação em casa, com professoras contratadas pelas famílias. Ademais, o estudo do piano lhe tomava muito tempo e era constantemente convidada para concertos ou soirées musicais.
A senhora Catez e suas filhas mantinham um grande círculo de amizades. Na França do século XIX, ainda perfumada pela doceur de vivre, o relacionamento social proporcionava inúmeros prazeres inocentes, tais como sessões musicais, jogos de tênis, piqueniques e excursões às montanhas ou a encantadoras cidadezinhas francesas. Todas essas atividades mantinham Elizabeth e suas amigas constantemente ocupadas, dentro de um ambiente de uma alegria difícil de imaginar hoje em dia.
Assim, passeios, música e muitas outras diversões faziam parte do dia a dia de Elisabeth. Ela se encantava com as montanhas e bosques, com os jogos, as igrejas e as vilas francesas. Desfrutava também intensamente das frequentes viagens que a família fazia pelo sul da França. Era feliz no meio de uma sociedade que em nada impedia a prática da virtude nem criava dificuldades para a vida interior daquela contemplativa adolescente.
A própria Elisabeth narra um acontecimento decisivo para seu itinerário espiritual ocorrido nessa época, pouco antes de completar catorze anos: “Um dia, durante a ação de graças, senti-me irresistivelmente impelida a escolher Jesus como meu único esposo; e sem mais dilações, uni-me a Ele pelo voto de virgindade. [...] minha resolução de ser toda sua tornou-se mais definitiva ainda”.
Terminadas as viagens de férias, a primogênita dos Catez regressava a Dijon carregada de saudades do Carmelo, cujo carrilhão escutava com gosto, cujo jardim divisava de sua janela e para cuja capela dirigia seus pensamentos. Um impulso místico a transportava para aqueles muros benditos, tão próximos e ao mesmo tempo tão distantes.
Anseio pelo encontro com o Esposo
Depois do verão de 1898, cumpridos os 18 anos, Elizabeth tomou a firme determinação de entrar no Carmelo. Contudo, deparou-se com um obstáculo intransponível: a negativa peremptória da mãe, à qual, embora sofrendo enormemente, submeteu-se com resignação. Apenas quando completasse 21 anos, maioridade da época, seria autorizada a realizar seu anseio.
Os anos de espera não fizeram senão favorecer uma evolução espiritual em Elisabeth, apoiada nos grandes mestres do Carmelo, especialmente Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz e Santa Teresa de Lisieux, falecida há pouco, em 1897. Com especial força ressoaria na alma da futura religiosa a leitura da História de uma alma, que já circulava por toda França.
Durante uma missão redentorista, realizada em Dijon em 1899, nasceu no coração de Elizabeth o desejo de ser vítima expiatória, de obter almas para seu Esposo, de ajudá-Lo a carregar a Cruz. Registrou esses propósitos em seu Diário Espiritual, no último dia da missão, concluindo nestes termos: “Oh! Meu Esposo, meu rei, minha vida, meu amor supremo, sustenta-me sempre neste caminho da cruz que escolhi para compartilhá-lo, pois sem Ti nada posso!”.  
Em junho desse ano, a senhora Catez autorizou a filha a visitar as carmelitas e Elizabeth apresentou à priora do Carmelo seu pedido de admissão. Daí em diante, foi se afastando cada vez mais da vida social. Ainda comparecia a algumas reuniões, mas seu espírito nelas estava ausente.
Em princípios de 1900, participou dos exercícios espirituais pregados por um jesuíta, o padre Hoppenot. No dia do encerramento, 27 de janeiro, anotou ela no mesmo Diário Espiritual: “Entreguei-me de tal modo ao bom Mestre, abandonei-me a Ele, confidenciando-lhe todos os meus desejos mais caros. Só quero o que Ele quer. Sou a sua vítima. Que faça de mim o que Lhe aprouver. Que me tome no momento que quiser, pois estou pronta e vivo na expectativa disso”.
Surgiram ainda vários empecilhos para retardar a entrada de Elisabeth no Carmelo, mas, por fim, seu anseio se tornou realidade em 2 de agosto de 1901. Simples postulante, sentia-se já carmelita e todas as coisas no convento a encantavam. O jardim, os claustros, a regra, o recolhimento, o silêncio... tudo de tal maneira lhe falava de Deus que ela chegou a afirmar: “Só um tênue véu parece separar-nos, Ele está a ponto de aparecer”. 
Na festa da Imaculada Conceição desse mesmo ano tomou o hábito de noviça, e menos de dois anos depois, em 11 de janeiro de 1903, fez a profissão religiosa.
Purificada pelo sofrimento
Ora, no noviciado retiraram-se essas graças primaveris. A alma da esposa de Cristo, a Ele oferecida como vítima por amor, começava a ser acrisolada na dor e na provação. “Às radiantes claridades de postulante sucederam-se, para Sóror Elisabeth da Trindade, as trevas de uma noite profunda”, atesta a priora da época, Madre Germana de Jesus. “É impossível dizer o que sofreu, então, esta inocente filha, pouco antes imersa numa paz que parecia inalterável”. 
 “A mão divina”, esclarece o padre Philipon, “não lhe poupará as purificações supremas pelas quais Deus costuma introduzir as almas heroicas na paz imutável da união transformante, e elevá-las acima de todo gozo e de toda dor”. 
Deste modo, a jovem risonha e buliçosa, acostumada a haurir com entusiasmo dos inocentes prazeres da vida, aprendia a aceitar com conaturalidade os mais terríveis sofrimentos.
O segredo mais íntimo
Analisando o itinerário espiritual de Elisabeth da Trindade, o teólogo dominicano já mencionado, Marie-Michel Philipon, descreve pormenorizadamente a atuação dos dons do Espírito Santo sobre ela e afirma ter sido o da sabedoria ― o mais divino de todos os dons ― que lhe permitiu participar, no mais alto grau possível nesta Terra, do conhecimento experimental que Deus tem de si mesmo no Verbo, dando origem ao Amor.
Elisabeth se sentia como filha adotiva da Trindade, em uma completa conaturalidade com Ela, de maneira a todos os seus atos provirem de sua alma e, ao mesmo tempo, de Deus. Vivia constantemente, por assim dizer, no próprio coração da Trindade e deste centro indivisível sua alma contemplava todas as coisas em suas razões mais elevadas, mais divinas.
Tudo nesta Terra — inclusive a dor e o sofrimento — ficava num segundo plano para ela. Possuía, “por instinto, o senso das coisas eternas e divinas, e precisaria violentar-se para descer ao nível das ninharias em que se arrastam numerosas almas, mesmo religiosas ― que se dizem contemplativas ― e que não sabem esquecer suas misérias e seu nada”. 
Tal era o segredo mais íntimo de Elisabeth, manifestado em sua vida e em seus escritos. Sua grande ambição era “dizer a todas as almas que fonte de força, de paz e de felicidade encontrariam se consentissem em viver nessa intimidade” das pessoas divinas.
“Laudem gloriæ”
A espiritualidade trinitária de Sóror Elisabeth fazia-lhe possuir, como vimos, uma como que visão antecipada dos hábitos da eternidade, enchendo-a de paz e tornando sua vida deiforme.
Ora, antes de chegar à visão beatífica, a alma dessa privilegiada carmelita precisava subir ainda mais um degrau rumo à perfeita união com o Amado. E esse processo iniciou-se, fortuitamente, durante uma conversa espiritual com outra religiosa a propósito de um curto trecho das epístolas de São Paulo: “ut simus in laudem gloriæ eius” ― “ser o louvor de sua glória” (Ef 1, 12).
Por uma graça toda especial, aquelas palavras do Apóstolo das Gentes desvendaram-lhe o cerne de sua espiritualidade e a essência de sua missão nesta Terra. Dera início a uma nova etapa em sua vida, na qual o lema Laudem gloriæ passou a ser seu antonomástico. Sóror Elizabeth vai usá-lo inclusive como assinatura, a fim de marcar esse rico período caracterizado por um completo abandono à Providencia Divina. “Para ser louvor de glória — dirá ela — é preciso morrer a tudo que não é Ele, a fim de só vibrar sob seu toque”.
Difícil é compreender, para quem está pouco acostumado aos arcanos da mística, toda a profundidade espiritual e teológica contida nesse brevíssimo lema. Ele reflete um elevadíssimo estágio de vida interior, no qual a alma transcende até à própria busca da santidade para se preocupar exclusivamente com a glória divina. Não se trata mais de ir em pós dos meios para alcançar o Céu, mas de iniciar já nesta Terra “o Sanctus na pátria dos bem-aventurados”. 
“Janua Cœli”
Dentro desta antecipada prelibação celeste, detinha-se com frequência a meditar nas relações de Maria com a Trindade. Imaginava o Pai inclinando-se sobre Ela, desejando que fosse Mãe no tempo d’Aquele de quem é Pai na eternidade. E vislumbrava o Espírito de Amor ― o qual preside todas as operações de Deus ― n’Ela engendrando o Verbo encarnado, a partir de seu Fiat.
O desejo de ser escrava do Senhor, a exemplo de Nossa Senhora, lhe encantava. Foi por sua íntima união com a Trindade que Maria abrira aos homens a “porta do Céu” ― Janua Cœli ―, trazendo ao mundo o Salvador.
Quando já estava muito doente, Sóror Elisabeth pedia à Virgem Santíssima que velasse por sua saída do Carmelo para o Céu, assim como a havia protegido em sua entrada ao convento. Maria ia ser a porta aberta propiciadora do seu encontro definitivo com a Santíssima Trindade. “Janua Cœli deixará passar Laudem gloriæ”, ouviram-na dizer nas últimas horas de sua agonia.
“Vou à vida, à luz, ao amor”
Na primavera de 1905, Elisabeth começou a sentir os primeiros sintomas de uma doença incurável na época: o mal de Addison.
Sabendo-se a caminho da morte, cresceu nela desejo de fazer o bem às almas, unindo-as à Trindade Santíssima. Multiplicaram-se, então, os escritos de despedida e as cartas de conselhos espirituais. A pedido da priora, anotou algumas meditações de seu último retiro, feito em agosto de 1906, nas quais transparece a perspectiva da eternidade, onde parecia já viver sua alma: “Quão bela é a criatura assim despojada, libertada de si própria! [...] Ela sobe, eleva-se acima dos sentidos, da natureza; ultrapassa-se a si mesma; domina toda alegria e toda tristeza, e tudo transpõe para só descansar quando tiver penetrado no interior d’Aquele que ela ama”.
Em fins de outubro desse ano, a doença agravou-se irremediavelmente. Ela sabia aproximar-se a hora tão ansiada de viver com “seus Três”, e nos últimos dias de agonia, repetia, “com voz encantadora” estas palavras: “Vou à luz, à vida, ao amor...”. 
A superiora não a abandonava dia e noite, e foi testemunha de como suportou com paciência e serenidade a separação desta vida terrena. Desfigurada de dor, chegou a ficar irreconhecível. No dia 9 de novembro, às cinco e quarenta e cinco da manhã, virou-se do lado direto, inclinou a cabeça para trás e sua figura se iluminou. Os olhos, fechados há vários dias, se abriram, parecendo vislumbrar algo por cima da cabeça de Madre Germana que, ajoelhada à sua cabeceira, rezava. Assim partiu para encontrar-se com “seus Três”.
*     *     *
Depois da sua morte, Sóror Elisabeth continua sendo um exemplo de alta espiritualidade e singular vida trinitária, convidando-nos a seguir suas pegadas na experiência da vida em Deus. Mais que ensinamentos teológicos ela transmitiu para os séculos futuros uma rica vivência mística, amadurecida de forma impressionante em apenas alguns anos no Carmelo e abundantemente relatada em cartas e outros escritos.
Esse legado para o futuro é assim descrito pelo Papa João Paulo II, na homilia da sua beatificação: “À nossa humanidade desorientada, que já não sabe encontrar a Deus ou que O desfigura, que procura uma palavra na qual fundamente sua esperança, Elisabeth dá o testemunho de uma abertura perfeita à Palavra de Deus que ela assimilou, a ponto de nutrir dela verdadeiramente sua reflexão e sua oração, de encontrar nela todas as suas razões de viver e de se consagrar ao louvor de sua glória”.  
Daí que sua mensagem se difunda hoje com uma singular força profética.


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