quinta-feira, 29 de maio de 2014

Beato Stefano Bellesini, OSA

Quem visitar o norte da Itália conhecerá o maior centro educacional, científico, financeiro e político do país. Bem nessa região se situa Trento, a capital do Trentino-Alto Ádige, que ainda guarda o aspecto do tempo em que o importante Concílio do século XVI deu vigoroso impulso à Igreja, afirmando-a como Corpo Místico de Cristo.
Dominada pelo Castelo do Bom Conselho, Trento foi também o berço, para a vida terrena, de um membro desse Corpo Místico:  Luigi Giuseppe Gioacchino Bellesini — o Beato Stefano Bellesini —, cuja festa se celebra no dia 3 de fevereiro. Na sua pessoa, a célebre cidade trentina teceria laços com uma humilde e pitoresca cidade do Lazio, Genazzano, também dominada e tornada célebre por outro Bom Conselho, o de Maria, cujo belo ícone é conservado na Basílica-Santuário.
Na perspectiva deste ano sacerdotal, conheçamos alguns aspectos da vida desse virtuoso pároco, que bem figura ao lado do Santo Cura d’Ars — seu contemporâneo e apenas doze anos mais jovem.
Um mundo novo a ser descoberto
Nascido em 25 de novembro de 1774, Luigi foi batizado na mesma igreja onde se celebrara o Concílio havia dois séculos.
Seus progenitores, o casal Bellesini, pertenciam à burguesia acomodada de Trento e gozavam de muito prestigio. O pai, Giuseppe, de caráter reservado, era bom notário, honrado, justo e piedoso. A mãe, Maria Orsola Meichlpeck, belga de família ilustre, dedicava-se totalmente ao esposo e aos filhos. E, contrariamente às senhoras da boa sociedade de seu tempo, ocupava-se pessoalmente dos afazeres domésticos.
Junto com seu irmão Angelo, Luigi frequentava desde criança o convento dos agostinianos na Piazza Duomo, pois o prior, o padre Fulgenzio Meichlpeck, era seu tio. Para o caçula dos Bellesini, havia naquele convento de São Marcos um mundo novo a ser descoberto: gostava de entrar no claustro, passear pela colunata secular e respirar aquele ar de fé, entre as melodias dos pássaros e dos salmos. Aquele ambiente fez desabrochar no coração do menino um grande chamado para a vida religiosa.
Quando a mãe levou Angelo para ser examinado pelo pároco de Santa Maria Maior, a fim de verificar se estava maduro para a Primeira Comunhão, Luigi, que os acompanhava, estava ansioso para ser também interrogado. O sacerdote, observando o pequeno, o examinou e lhe pareceu mais preparado que o irmão, admitindo-o junto aos outros meninos. A mãe objetou, pois ele tinha apenas sete anos, e naquele tempo comungar nessa idade era impensável. Ao que o pároco argumentou: “O desejo de Deus não se mede com a idade”.1
Começando os estudos, Luigi recebia a ajuda do primogênito da casa — Giuseppe, que se havia ordenado sacerdote e vivia com a família —, especialmente no latim e no grego. Admirava especialmente este irmão, pois desejava ser sacerdote, mas não como ele: queria ser religioso.
Do noviciado ao sacerdócio
Não tinha cumprido ainda os quinze anos o jovem Bellesini quando em Paris caiu a Bastilha e os ecos da Revolução se espalharam por toda a Europa. Trento foi também atingida pelos ventos de revolta e o anseio pelo gozo desenfreado da vida.
Mas Luigi não se deixou levar pelos novos ares. Conservando-se “inimigo de tudo o que se opusesse à conveniência e à decência”,2 ia maturando na alma um anseio: a plena consagração a Deus. E para isto, a vida agostiniana lhe parecia o melhor ideal.
Aos 17 anos foi aceito como noviço no convento de São Marcos, onde foi apresentado como sendo “de costumes angélicos, devoto, obediente, assíduo aos Sacramentos, de vida calma e edificante para os próprios religiosos”.3 Seu coração ficou marcado pelas palavras do cerimonial de recepção de hábito: “De agora em diante, deve considerar-se morto para o mundo, deve renunciar a todo afeto, até mesmo o mais casto, deve viver sobre a terra como um Anjo do Céu”.4 A partir de então, recebeu o nome de Stefano.
De Trento foi transferido para Bolonha e, em 30 de maio de 1794, havendo cumprido um ano de noviciado, regressou a São Marcos, onde professou solenemente.
No outono do mesmo ano, viajou até Roma para fazer o curso de Filosofia no convento de Santo Agostinho. Começavam para ele o que chamaria depois de “primeiros anos lógicos”, durante os quais passava longas horas estudando, sem se entregar à dissipação. Após um ano de estudos escolásticos, retornou para Bolonha a fim de cursar Teologia, e o fez merecendo os mais insignes elogios.
Quando as tropas de Napoleão invadiram os Estados Pontifícios, Stefano teve de deixar Bolonha e regressar a Trento, refugiando-se novamente em São Marcos. Desejava tão ardentemente receber as Ordens Sacras que, ainda débil e convalescente de uma grave enfermidade contraída nas vésperas, fez-se levar de maca para a cerimônia de ordenação sacerdotal, pois não queria adiá-la. Era 5 de novembro de 1797.
Pai e mestre dos pobres
Na primeira década do século XIX, as guerras napoleônicas tornavam especialmente instável a situação política da Itália e conturbavam a existência das instituições religiosas. Em 1809 foram supressos vários conventos, entre os quais o de São Marcos. Padre Stefano decidiu então executar um plano que há tempos vinha elaborando: ser apóstolo da juventude por meio de escolas gratuitas para todas as classes sociais, o que era uma grande novidade em seu tempo.
Começou usando a própria casa da família, o Palazzo Bellesini. Lá reuniu meninos e meninas que, além de nada pagarem, recebiam pão e o que mais necessitassem. Tornou-se ao mesmo tempo mestre e pai de cada jovem. Queria que seus alunos tivessem não só boa instrução escolar, mas também sólida formação cristã, e selecionava os professores segundo esse critério.
Quando ruiu o império napoleônico e os austríacos retomaram o governo da região, foi nomeado Inspetor Geral das escolas da Província de Trento, cargo retribuído com um bom salário, como categorizado funcionário do Estado. Padre Stefano desempenhou essa função com o zelo de um santo, empenhando-se de modo especial em preservar a juventude da corrupção.
De volta à vida religiosa
Em 18 de junho de 1815, a batalha de Waterloo marcou o fim do tufão napoleônico, que havia varrido o continente europeu. Em pouco tempo, a situação retomava uma relativa normalidade. Não tardou em chegar a Trento a notícia de que Pio VII retornara a Roma e que os monges começavam a se reinstalar nos respectivos conventos. O padre Stefano viu chegado o momento de voltar à vida comunitária, para a qual havia feito os votos solenes. Mas, como em Trento as portas continuavam fechadas aos filhos do grande Agostinho, em 1817 decidiu partir secretamente para Roma, deixando para trás êxitos e honras.
Sem passaporte, cruzou a fronteira de Ferrara a pé, trazendo na mão apenas o breviário. Passou rezando, quase sem ser notado pelos guardas, mas sua fuga se tornou conhecida pelo governo austríaco o qual, com a promessa de um maior salário e um emprego honorífico, tentou induzi-lo a voltar. Às promessas somaram-se as ameaças: se não reassumisse seu posto, ser-lhe-iam confiscados todos os bens. Mas, nem as promessas nem a ameaça conseguiram demovê-lo de sua resolução!
Em Roma, o padre geral, conhecendo sua capacidade de tratar com os jovens, nomeou-o mestre de noviços. Mas seu desejo era ir logo para Genazzano, onde pressentia que a vida comunitária seria a mais perfeita. Chegou a perguntar-se quais eram os desígnios da Providência que o faziam esperar tanto...
Mestre de noviços exemplar
Embora dotado de forte temperamento, padre Stefano era um excelente mestre de noviços.
Afável com todos, manso, jovial, humilde, espirituoso, suas palavras eram simples e cheias de bom senso. Nas mortificações, era sempre o primeiro, comendo pouquíssimo, tomando vinho só de vez em quando e dormindo em duras tábuas. Mas, dotado de forte temperamento, não deixava de corrigir quando necessário; sabia levar o culpado a reconhecer a própria falta, e dava-lhe os conselhos acertados.
De Roma, padre Stefano foi transferido para Città della Pieve, aonde chegou à vigília de Natal de 1822. Durante sua permanência naquele convento, também como mestre de noviços, sofreu muito com os protestos e bofetões do prior — homem cáustico e temperamental —, que o repreendia na frente de todos. Aceitava as humilhações mansamente, sem palavra de lamento ou desagrado, cumprindo as penitências e ainda fazendo com que os noviços compreendessem as razões do superior.
Entretanto, os grandes de Città della Pieve vinham pedir-lhe conselhos, a começar pelo Bispo, que sempre se confessava com ele.
Por fim, Genazzano!
Alimentando na alma a aspiração de praticar com toda perfeição a regra agostiniana, sempre rezava uma Ave Maria com os noviços em suas intenções, mas eles ignoravam quais eram. Um dia, alguns o fizeram revelar: orava afincadamente para que Deus iluminasse seus superiores a instituírem uma perfeita vida comunitária em qualquer um dos mosteiros da ordem. Mas predisse também que esse cenóbio exemplar seria o de Santa Maria do Bom Conselho, em Genazzano.
De fato, por volta de 1826, o novo Papa Leão XII decidiu que o convento agostiniano de Genazzano seria habitado por aqueles que espontaneamente solicitassem permissão para irem para lá. E o padre Stefano foi dos primeiros a fazer o pedido.
Era novembro quando se integrou na vida comunitária desse convento chamado a ser modelar. Ali, além de continuar com o cargo de mestre de noviços, foi também nomeado sacristão. Foram numerosos os testemunhos sobre seu empenho pelo decoro da igreja e do culto e seu desvelo pela formação dos neófitos. Relatam-se também alguns prodígios por ele operados. Por exemplo, a lamparina que fez acender sozinha ou a inesperada cura de um noviço, pelo qual intercedera junto à Madonna.
Último ofício: pároco do Santuário
No ato capitular da Ordem, de 24 de junho de 1831, foi eleito pároco do Santuário, aos 57 anos de idade. Em vez de pensar em um merecido repouso, sentiu um renouveau de juventude, e multiplicou seus afazeres, inclusive pedindo ajuda aos amigos de Roma e Trento para uma população pobre, faminta e sobrecarregada de impostos.
Era uma gente franca e de fundo religioso, mas cheia de superstições, até mesmo ignorante. Era preciso entrar no meio deles à busca das almas. Genazzano ainda o recorda como o “pai dos pobres e consolador dos aflitos”. Mais de uma vez doou sua roupa aos pobres. No inverno carregava lenha sobre suas costas — sempre doloridas, devido à hérnia que carregava há anos —, para esquentar as frias choças. Levava-lhes também água, lamparinas e, uma vez, deu seu próprio catre para um enfermo que dormia no chão.
Fez para eles um compêndio do Catecismo, fácil de memorizar, que expunha com precisão os artigos da Santa Fé, adaptados à compreensão do povo. Seu confessionário era muito frequentado e todos se admiravam de sua paciência. Tudo isso sem abandonar o cuidado dos noviços, dos quais continuava sendo mestre.
A vida do Beato Stefano consistia em ser “tutto a tutti5: tudo a todos, a começar pelos seus noviços. E a fonte de energia inesgotável para tudo isso eram um contínuo estado de oração e uma ardente e filial devoção à sua querida Mãe do Bom Conselho.
Vítima de sua própria caridade
Em princípios de 1840, uma peste que grassava por toda Itália começou a fazer seus estragos na cidade. Incansável no atendimento aos doentes, o padre Stefano substituía outros ministros de Deus que se mostravam tímidos e medrosos, indo aonde o chamassem.
Com tanto trabalho, sua saúde já estava algo debilitada. Sofreu duas quedas que lhe deixaram uma ferida na perna e o levaram à cama, com febre. Mas assim que melhorou, seguiu com o ofício de atender os enfermos, até que a peste também o atingiu.
No dia 2 de fevereiro, festa da Purificação de Nossa Senhora e da Apresentação do Menino Jesus no Templo, seu estado de saúde agravou-se. Na hora da Missa solene, o superior estava indeciso se deixava as funções na igreja para acompanhá-lo em seu trânsito, que parecia estar próximo. Mas o doente lhe dissera que não se preocupasse; só quando tudo terminasse começaria sua agonia.
Ele havia implorado à Mãe do Bom Conselho que sua morte ocorresse na festa da Purificação. Chegado o dia, pediu que lhe acendessem uma vela benta, que lhe dessem seus óculos, e tomou nas mãos um manuscrito volumoso, escrito por seu punho e letra, começando a recitar as preces. Rezou a novena da Purificação e quis iniciar o Rosário e a Coroinha de Nossa Senhora da Correia. O padre Francieri, que o assistia, aconselhou-o a não se cansar. Ele respondeu: “Como? Hoje, que me apresentarei para beijar os pés de Maria Santíssima, vou fazê-lo sem haver rezado sua Coroa, a Coroinha e sem ter feito a meditação habitual?”.6
Terminada a oração, cruzou os braços no peito, apertando forte um crucifixo. Havia posto duas imagens da Mãe do Bom Conselho na cabeceira de seu leito, ao lado esquerdo, e para aquele lado fixou seu olhar. Enquanto cantava-se o Magnificat na igreja, entrou em agonia e pouco depois expirou.
Obediente em vida e depois da morte
Na manhã seguinte foram as exéquias, numa igreja repleta, todos desejando tocar no corpo e obter alguma relíquia. À tarde realizou-se o sepultamento no túmulo comum dos religiosos, detrás do coro, sem caixão ou outro distintivo.
Passados sete meses foi exumado. Do sepulcro não saía nenhum mau odor. O corpo estava flexível, inteiro, exceto o nariz; a carne estava fresca, a chaga da perna se tornara destacada e a faixa que a envolvia ainda estava avermelhada. O cadáver, que deveria ser posto numa caixa de madeira pequena demais para contê-lo, moveu-se sozinho e se encaixou perfeitamente. O Cardeal Pedecini, que estava presente, exclamou: “O padre Stefano, como foi sempre obediente em vida, mostra-se obediente até depois de morto”.7
Voltou a ser sepultado, desta vez em um sepulcro expressamente aberto na nave de Nossa Senhora do Bom Conselho, entre os altares do Espírito Santo e da Assunção, iniciando então uma onda de milagres.
Pio IX introduziu o pedido da causa de Beatificação e, em 1873, foi feito um reconhecimento de seu corpo, ainda incorrupto. Mais tarde, seus despojos — já não em boas condições, por causa de uma infiltração de água na antiga sepultura — foram levados para uma capelinha construída em sua honra, na Basílica-Santuário. Foi beatificado em 27 de dezembro de 1904, por São Pio X.
A Mãe do Bom Conselho quis manter junto a Si, na vida e na morte, aquele que viveu marcado pela égide do “Bom Conselho”, exemplo e estímulo para uma verdadeira devoção a Ela. 
 1 RICCARDI, Duilio. Un santo fra poveri e ragazzi. Vita del B. Stefano Bellesini. Milão: Editrice Àncora Milano, 1970, p.20.
2 Idem, p.24.
3 Idem, p.28.
4 Idem, p.28-29.
5 STELLA, Vico. Una vita per gli altri: Beato Stefano Bellesini, parroco agostiniano,(1774-1840). Genazzano-Roma: Santuario Madre Del Buon Consiglio, s.d., p.36.
6 Idem, p.43.
7 Idem,  p.44.
Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos -  Revista Arautos do Evangelho n.98 fev 2010

Nenhum comentário: