sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Venerável Antonieta Meo

Há certas almas que se Deus, em sua misericórdia, não as chamasse para junto de Si quando ainda em tenra idade, se extraviariam como ovelhas desgarradas, expondo-se a serem devoradas pelos lobos ferozes da perdição e do mal. Cabe perguntar-se, por exemplo, o que teria acontecido com os Santos Inocentes se Deus não os tivesse levado quando ainda nem tinham possibilidade de manchar sua alma com o pecado? Quem pode garantir que muitos deles, tornando-se adultos, não estariam bradando no Pretório de Pilatos: “Crucifica-O!”? Entretanto, todos fazem parte do coro dos mártires e cantam eternamente nos Céus a glória de Deus, junto com Santo Inácio de Antioquia, Santo Estêvão, Santa Inês e todas as almas bem-aventuradas.
Mas deixemos para trás as maravilhas da Igreja nascente e voltemos nossos olhos para uma menina do século passado, à qual Deus deu uma vocação bem diversa da maioria das crianças: compreender e amar, sendo ainda muito pequena, o valor expiatório do sofrimento.

Terrível diagnóstico
Nennolina — como era carinhosamente chamada pela família — nasceu em Roma, no dia 15 de dezembro de 1930. Quarta filha de Maria e Miguel Meo, foi batizada no dia 28 do mesmo mês, festa dos Santos Inocentes, em sua paróquia, a Basílica da Santa Cruz de Jerusalém, onde se conservam algumas das principais relíquias da Paixão. Impossível não ver algo de simbólico nestes detalhes, para uma alma destinada a brilhar pela inocência abraçada à cruz...
A infância de Antonieta transcorria como a de qualquer outra menina. Recorda Margarida, sua irmã mais velha, ter sido ela “alegre, muito vivaz e travessa, como são as crianças nessa idade”.1 Em outubro de 1933, os pais a matricularam no Colégio das Irmãs Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, ao lado de sua casa. Gostava de estar entre as religiosas, a ponto de dizer: “Eu me divirto muito na escola... iria até a noite!”.2 Todavia, a razão mais profunda desta alegria ela a externou numa de suas mensagens a Jesus: “Vou com entusiasmo, porque aí se aprendem muitas coisas bonitas sobre Ti e teus Santos”.3
Decorria tranquila a vida na casa da família Meo, até que, completados os quatro anos, os pais perceberam estar Nennolina com o joelho esquerdo inchado. No início pensaram ser consequência de uma queda em alguma brincadeira, mas vendo que não melhorava, submeteram-na a exames médicos, cujo resultado foi um terrível diagnóstico: osteossarcoma!
“Hoje vou fazer missão na África”
Depois de inúmeros tratamentos inúteis e penosos, em fevereiro de 1936 a pequena recusava as dolorosas injeções de cálcio prescritas pelos especialistas. Para convencê-la da necessidade de tomá-las, a mãe recordou-lhe o quanto Jesus sofreu mais que ela quando O flagelaram e coroaram de espinhos, e instou a menina a oferecer-Lhe suas dores. A partir de então, ela aceitava o tratamento sem chorar. Mais ainda: para dominar-se, esforçava-se por cantar e rir quando o procedimento era mais penoso.
Dois meses depois, tornou-se necessário amputar-lhe a perna esquerda. A frágil criança suportou com valentia as dores da intervenção e consolava os pais, muito chocados e abatidos pelo acontecido. Com inteira consciência, apesar de tão jovem idade, oferecia a Deus seus padecimentos pela Igreja, pelo Papa, pela paz no mundo, pela salvação dos pecadores, pelos missionários e pelas crianças da África. Nos momentos dos curativos especialmente dolorosos, repetia algumas vezes: “Hoje vou fazer missão na África”.4
Em setembro de 1936, Antonieta pôde retomar sua vida de estudante. Necessitando utilizar um aparelho ortopédico, sentia muita dificuldade para andar. No início nem conseguia brincar com seus colegas. Porém, oferecia a Jesus todos esses sacrifícios: “Cada passo que dou, que seja uma palavrinha de amor!”.5
Anelo da Primeira Comunhão
À vista da gravidade da doença, os pais de Nennolina decidiram antecipar sua Primeira Comunhão. E para prepará-la bem, a mãe ensinava-lhe, todas as noites, uma parte do Catecismo. Durante uma dessas sessões, teve início seu conhecido costume de escrever cartinhas a Nosso Senhor.
Tudo começou quando, por sugestão da mãe, escreveu à superiora do convento onde estudava, pedindo para fazer a Primeira Comunhão no Natal daquele ano. A partir desta primeira, as cartas não mais cessaram. Antonieta as enviava a Deus Pai, a Jesus, ao Espírito Santo, a Nossa Senhora, e até mesmo a Santa Inês e a Santa Teresinha do Menino Jesus.
Não sabendo ainda escrever, ela as ditava para sua mãe. Mas tão logo aprendeu a desenhar seu nome, passou a assiná-las com uma inocência enternecedora: Antonieta e Jesus. E as deixava junto a uma imagem do Menino Jesus que ficava aos pés de sua cama, porque, assim, “de noite Ele as leria”.6
A primeira carta a Nosso Senhor é de 15 de setembro daquele ano: “Jesus, vem logo ao meu coração que eu Te abraçarei com muita força e Te darei um beijo. Ó Jesus, quero que Tu fiques sempre no meu coração”.7 As mensagens anteriores à Primeira Comunhão sempre expressam seu ardente desejo de recebê-Lo: “Caríssimo Jesus-Eucaristia, saudações e carícias, caro Jesus, e beijos. Não vejo a hora de receber-Te em meu coração, para amar-Te mais”.8 E em outra ocasião escrevia: “Querido Jesus, dize a Deus Pai que estou contente por Ele ter-me inspirado a fazer a Primeira Comunhão no dia de Natal, pois é precisamente o dia em que nasceu Jesus na Terra para nos salvar e para morrer na Cruz”.9
Surpreendente profundidade mística e teológica
Analisando o conteúdo de suas cartinhas encontramos termos e expressões de uma profundidade mística e teológica surpreendente. Elas “são feitas de pensamentos soltos e muitas vezes com erros de gramática como os das crianças. Não obstante, atrás dessas palavras tão simples, que revelam um diálogo de amor com as Pessoas Divinas, atrás da gramática incorreta e do ditado despojado e elementar, entrevê-se, como em filigrana, a intensidade de um amor que é conhecimento experiencial”,10 como estas: “Caro Deus Pai, que belo nome: Pai; quero dizê-lo com todo o respeito, vejo que quando o digo, não o digo com todo o respeito com que deveria dizê-lo”;11 “Caro Espírito Santo, Tu, que és o Amor do Pai e do Filho, ilumina meu coração e minha alma e abençoa-me, caro Espírito Santo; eu Te quero tanto, caro Espírito Santo; quando eu for crismada, dá-me os teus sete dons. [...] Tu que és o Amor que une o Pai ao Filho, une-me à Santíssima Trindade”.12
À semelhança de Santa Teresinha do Menino Jesus, Antonieta desejava sofrer pela conversão dos pecadores. Assim, escreveu certa vez a Nosso Senhor: “Dá-me almas, eu Te peço, para que as faças boas, e com as minhas mortificações eu farei que elas se tornem boas”.13 Ardia também seu coração de desejos de reparar os pecados cometidos contra o Divino Redentor: “Caro Deus Pai, eu sei que teu Filho sofreu muito, mas dize-Lhe que eu, para reparar nossos pecados, farei muitos sacrifícios”.14 Poucos meses depois, insistia: “Caro Jesus, ofereço todos os meus sacrifícios em reparação dos pecados que os pecadores cometerem”.15
Demonstrando seu profundo desagrado perante aqueles que não amam a Deus e o desejo de fazê-los mudar de atitude, escreve: “Caro Deus Pai, minha mãe me disse que amanhã vão reunir-se muitas pessoas que querem chamar-se sem Deus; que nome feio! Deus é Deus também daqueles que não O querem; faze que essas pessoas se convertam e dá-lhes tua graça”.16
Afeto e retidão de alma
Suas mensagens a Deus Nosso Senhor são verdadeiras cachoeiras de afeto filial. Ela as concluía com caudais de beijos e abraços, como esta, que foi a última, ditada à sua mãe quando se sentia muito mal: “Quero repetir-Te que Te amo muito, muito. [...] Tua menina Te manda muitos beijos”.17 Ou esta, na qual manifestava o desejo de consolar Nosso Senhor Crucificado, na Semana Santa: “Eu sei que Tu sofreste tanto na Cruz e, nesta semana da Paixão, quero sofrer contigo, quero sofrer pelas almas que necessitam, para que se convertam. Querido Jesus, eu Te quero muito, mas muito, ó Jesus, e quero ser tua lâmpada e tua açucena, o lírio que representa a pureza da alma e a lâmpada que representa a chama de amor que nunca Te deixa sozinho”.18
Entristecia-se profundamente quando cometia alguma falta e apressava-se em reconhecê-la: “Eu Te quero tanto, mas hoje eu disse uma mentira, e queria ser perdoada, e o peço a Ti de todo o coração, porque sinto uma grande dor”.19 Sua retidão de alma dava-lhe compunção até mesmo por pequenas veleidades infantis: “Caro Jesus Menino, arrependo-me de todo coração do capricho que tive e Te peço perdão de todo o coração, e amanhã farei muitos pequenos sacrifícios para reparar”.20
A esta alma tão inocente, a este coração tão puro, bem podem ser aplicadas as palavras de Mons. João Scognamiglio Clá Dias: “A criança não conhece a mentira, a falsidade nem a hipocrisia. Sua alma se espelha inteiramente em sua face; sua palavra traduz com fidelidade seu pensamento, com uma franqueza emocionante. Ela não tem as inseguranças da vaidade ou do respeito humano. Em uma palavra, ela e a simplicidade constituem uma sólida união”.21
A alegria dos Sacramentos e a Bênção Papal
Afinal, chegou o tão almejado Natal de 1936, dia da Primeira Comunhão, que ela recebeu cheia de ardor. A cerimônia realizou-se à noite e, apesar das dores causadas pelo aparelho ortopédico, Nennolina permaneceu ajoelhada por mais de uma hora após a Missa, rezando com as mãozinhas juntas. E em maio de 1937 recebeu o Sacramento da Crisma.
A amputação de sua perna não fora suficiente para deter o avanço do câncer. Às dores da enfermidade somavam-se as dos duros tratamentos aos quais era submetida. Aproximavam-se a passos rápidos seus últimos dias. A tosse e a asfixia muito raramente a abandonavam. Não tendo forças sequer para permanecer sentada, viu-se obrigada a guardar o leito. No entanto, quando alguém lhe perguntava como se sentia, respondia sorrindo:
— Estou bem!
Apesar desses suplícios, jamais deixava de rezar as orações costumeiras da manhã e da noite. Sua mãe, que pediu a um sacerdote para trazer-lhe todos os dias a Sagrada Eucaristia, relata: “As horas que se seguiam à Comunhão eram sempre mais tranquilas”.22
Quando se sentia um pouco melhor, ditava mais cartas a Jesus. A última — que acabou indo parar nas mãos do Papa Pio XI —, ela a ditou com dificuldade à mãe, em 2 de junho de 1937: “Caro Jesus crucificado, eu Te quero muito e Te amo muito, eu quero estar no Calvário contigo e sofro com alegria porque sei que estou no Calvário. Caro Jesus, eu Te agradeço porque me mandaste esta doença, que é um meio para que eu chegue no Paraíso. Caro Jesus, dize a Deus Pai que amo muito também a Ele. Caro Jesus, dá-me a força para suportar as dores que Te ofereço pelos pecadores...”.23
Conta-nos sua mãe que, nesse momento, Antonieta foi acometida por um violento ataque de tosse e vômitos. Contudo, tão logo se recuperou quis continuar a carta interrompida: “Querido Jesus, dize ao Espírito Santo que me ilumine de amor e me encha com seus sete dons. Querido Jesus, dize a Nossa Senhora que A amo muito e quero estar junto a Ela”.24 Dominada por um ímpeto de inconformidade, à vista dos extremos sofrimentos da filha, a mãe amassou a folha e jogou-a numa gaveta.
Alguns dias depois, o professor Aminta Milani, protomédico pontifício, veio examinar Nennolina e ficou abismado por ver quanta dor sentia sem exalar a mínima queixa. Seu pai falou-lhe a respeito das cartas que ela costumava ditar à mãe e o médico manifestou desejo de ver a mais recente. Leu-a naquela folha de papel amassada e pediu autorização para levá-la, pois queria mostrá-la ao Santo Padre. No dia seguinte, foi visitar a menina um enviado de Pio XI, com o encargo de dar a Nennolina a Bênção Apostólica, e este relatou que Sua Santidade ficara comovido ao ler a cartinha.
Do Calvário à glória
Em meados de junho a doença agravou-se ainda mais. Antonieta respirava com dificuldade, sendo preciso extrair-lhe líquido dos pulmões. No dia 23, um auge de dores: o cirurgião fez a resseção de três costelas, aplicando apenas anestesia local, pois aquele organismo já extremamente debilitado não suportaria nada mais forte. Testemunha impotente dos tormentos da filha, sua mãe, contendo as lágrimas, procurava consolá-la com perspectivas de um próximo restabelecimento. E relatou sua resposta: “Ela me olhou e disse com ternura: ‘Mamãe, alegre-se, fique contente... Dentro de dez dias, menos um pouco, sairei daqui’”.25 Com estas palavras, Antonieta anunciava com precisão o dia e a hora de sua morte.
A essas alturas, decidiu o pai chamar um sacerdote para administrar-lhe a Unção dos Enfermos.
— Sabes o que são os Santos Óleos? — perguntou-lhe.
— O Sacramento que é dado aos moribundos — respondeu ela, sem titubear.
— Algumas vezes faz também recuperar a saúde do corpo — argumentou o pai, querendo amenizar seus sofrimentos.
Diante de tal argumento, ela o recusou, pois queria sofrer por Jesus. Quando, porém, o sacerdote explicou-lhe que o Óleo Santo aumenta a graça, ela disse:
— Então, eu quero.
Estendeu com serenidade as mãozinhas para serem ungidas e respondeu com devoção a todas as preces prescritas pela Liturgia.
Quando despontavam no horizonte os primeiros clarões do Sol, em 3 de julho de 1937, Antonieta Meo abriu os olhos e sussurrou: “Jesus, Maria... Mamãe, Papai...”.26 Em seguida, fixando o olhar diante de si, sorriu e deu seu último e longo suspiro.
Aquela alma inocente foi encontrar-se com o Inocente, a quem ela tanto amou nesta vida e por quem carregou com tanta alegria sua cruz, para gozar de sua glória na eternidade.
1 DI PIETRO, Raffaele. La tua Nennolina. Roma: Basilica di Santa Croce in Gerusalemme, 2004, p.2.
2 Idem, ibidem.
3 PONTIFICIUM OPUS A SANCTA INFANTIA. Venerável Antonieta Meo.
4 DI PIETRO, op. cit., p.9.
5 PONTIFICIUM OPUS A SANCTA INFANTIA. Venerável Antonieta Meo.
6 BORRIELLO, L. Antonieta Meo (Nennolina). In: BORRIELLO, L. et al. (Dir.). Dicionário de mística. São Paulo: Paulus; Loyola, 2003, p.82.
7 MEO, Antonieta. Carta de 15/9/1936, apud FALASCA, Stefania. As cartinhas de “Nennolina”. In: 30 DIAS. Na Igreja e no mundo. Roma. Maio, 2010: www.30giorni.it/articoli_ id_22673_l2.htm.
8 MEO, Antonieta. Carta de 23/12/1936, apud BORRIELLO, op. cit., p.83.
9 MEO, Antonieta. Carta de 17/12/1936. In: Antonietta Meo. Nennolina: www.nennolina.it.
10 BORRIELLO, op. cit., p.83.
11 MEO, Antonieta. Carta de 4/2/1937, apud BORRIELLO, op. cit., p.83.
12 Idem, Cartas de 29/1/1937; 26/4/1937, p.84.
13 Idem, Carta de 12/11/1936.
14 Idem, Carta de 23/11/1936.
15 Idem, Carta de 9/4/1937.
16 Idem, Carta de 6/2/1937, p.83.
17 MEO, Antonieta. Carta de 2/6/1937, apud DI PIETRO, op. cit., p.6-7.
18 MEO, Antonieta. Carta de 16/3/1937. In: Antonietta Meo. Nennolina: www.nennolina.it.
19 MEO, Antonieta. Carta de 6/9/1936, apud BORRIELLO, op. cit., p.84.
20 Idem, Carta de 9/12/1936.
21 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. “Se não vos tornardes como meninos não entrareis no Reino dos Céus”. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Ano C. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2012, v.V, p.124.
22 DI PIETRO, op. cit., p.6.
23 MEO, Antonieta. Carta de 2/6/1937, apud BORRIELLO, op. cit., p.84.
24 MEO, Antonieta. Carta de 2/6/1937, apud DI PIETRO, op. cit., p.6-7.
25 DI PIETRO, op. cit., p.7-8.
26 Idem, p.9.

Irmã Mary Teresa MacIsaac, EPRevista ArautosdoEvangelho - Dezembro 2013

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