domingo, 1 de março de 2015

SÃO VICENTE FERRER

“O vento sopra onde quer...” (Jo 3, 8). Em sua famosa conversa noturna com Nicodemos, usou Jesus esta imagem para explicar àquele príncipe dos judeus como age o Espírito Santo nas almas. Deus tem seus desígnios para cada homem e a todos outorga as graças adequadas para alcançar a santidade, mas concede a alguns, além destas, carismas destinados a auxiliar os demais a se aproximarem d’Ele. São as chamadas graças gratis datæ — dadas gratuitamente —, por serem concedidas ao homem “acima do poder de sua natureza e de seus méritos pessoais”.1
A respeito delas, ensina o Apóstolo: “A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum. A um é dada pelo Espírito uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, por esse mesmo Espírito; a outro, a fé, pelo mesmo Espírito; a outro, a graça de curar as doenças, no mesmo Espírito; a outro, o dom de milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas” (I Cor 12, 7-10).
No entanto, como o Espírito “sopra onde quer”, há na História almas escolhidas que recebem não apenas um, mas vários destes carismas para melhor guiar o povo de Deus em épocas especialmente conturbadas. Um destes eleitos é o grande São Vicente Ferrer.
Sinais de uma eminente vocação
Não é raro Deus anunciar com sinais sobrenaturais a chegada de uma alma de escol ao mundo. Tal se passou com a família Ferrer. Faltando pouco para nosso Santo vir à luz, seu progenitor, o notário valenciano Guillermo Ferrer, sonhou que assistia ao sermão de um famoso dominicano, em meio ao qual este o felicitava, pois dentro em breve seria pai de um filho notável em letras e em santidade, insigne pregador, revestido também do hábito dominicano.
Todavia, os sonhos não passam de sonhos... Para não dar margem a dúvidas, quis a Providência manifestar-Se de modo mais palpável. A mãe, que já tivera outros filhos, se sentia muito mais leve nesta gestação, porém, ouvia latidos vindos de seu ventre. Preocupada, temendo tratar-se de um mau presságio, foi pedir conselho ao Bispo de Valência, do qual ouviu o vaticínio de que o nascituro “seria como um destacado mastim para guardar o rebanho do povo cristão, despertando-o, com seus latidos, do sono dos pecados e afugentando os lobos infernais”.2
A 23 janeiro de 1350 nasceu o pequeno Vicente. Vivo e inteligente, não gostava das brincadeiras comuns às outras crianças e as reunia em torno de si, para lhes fazer uma “pregação” infantil. Aos 12 anos, já dominando a gramática e a lógica, iniciou seus estudos de filosofia e teologia. Jovem modelar, frequentava muito a igreja, era honesto, jejuava duas vezes por semana, fazia longas meditações sobre a Paixão de Cristo, rezava o Ofício da Cruz e as Horas de Nossa Senhora, e mostrava-se caritativo para com os pobres e os religiosos.
O “livro” que inspirava seus sermões
Vizinho do mosteiro da Ordem Dominicana, não hesitou quando o pai o incentivou a nele ingressar. Tomou o hábito a 5 de fevereiro de 1367 e professou no ano seguinte. Inimigo do ócio, entregou-se aos estudos e à oração, na mais estrita observância à regra. Ainda era diácono e já pregava tão bem que vinham pessoas de longe para ouvi-lo. Ordenado sacerdote em 1374, alternava os estudos e a docência, entre Barcelona, Toulouse e Lérida, por deliberação de seus superiores.
Aos 28 anos recebeu o título de mestre em teologia. Conhecia de tal modo a Bíblia que a citava “com a mesma facilidade como que o faria se a tivesse sempre diante dos olhos”.3 Dominava também a exegese dos Santos e as línguas latina e hebraica. De regresso a Valência, destacava-se na Ordem como professor, escritor, pregador e conselheiro. Entretanto, quando alguém lhe perguntou em que livro encontrava tão belos pensamentos para seus sermões, limitou-se a apontar o Crucifixo.
“Maldito! Eu já te conheço”
O demônio fez de tudo para dissuadi-lo da via de perfeição por ele abraçada. Em certa feita, por exemplo, apresentou-se ele diante do Santo com a aparência de um venerável ermitão, convidando-o a não ser tão radical na prática da virtude. “Tem por certo”— dizia-lhe — “de que nenhum homem pode evitar cair uma ou outra vez em algumas leviandades, cedo ou tarde. É melhor então que isto aconteça na idade florida do que na velhice”. Frei Vicente enfrentou-lhe com o sinal da Cruz, invocou o nome de Deus e de Nossa Senhora, e disse com grande coragem: “Vai para onde mereces, maldito! Eu já te conheço. Não sabes que Deus está com seus servos e os conduz pela mão para que não tropecem? A Ele consagro não apenas minha velhice, como também minha juventude”.4 Ao ouvir isto, o demônio desapareceu dando grandes urros.
Não obstante, dias depois voltou à carga, revestido de uma horrível figura e prometendo armar--lhe tantas ciladas que de nenhum modo poderia escapar do inferno. “Não te temo” — contestou o Santo — “enquanto está comigo o meu Senhor Jesus Cristo”. O demônio seguiu com sua carga: “Não estará Ele sempre contigo, pois não há nada mais difícil do que perseverar na graça até a hora da morte; e quando Cristo te deixar, então eu te farei conhecer as minhas forças”. Frei Vicente não se intimidou: “Meu Senhor Deus que me deu a graça para começar, me dará para perseverar em seu serviço”.5
Em outra ocasião, pedia ele a graça de se manter na perfeita castidade até o fim da vida. De repente, ouviu uma voz a dizer-lhe que em breve perderia a virgindade, deixando-o muito triste e desconsolado. Mas logo se voltou para a Rainha do Céu, pedindo que lhe mostrasse quem fora o mensageiro de tão más notícias. “Apareceu subitamente Nossa Senhora com grande esplendor, dentro de sua cela, e o consolou, avisando-lhe tratar-se de um dos assaltos do demônio, diante dos quais ele não devia perder a confiança, pois Ela, que podia mais do que todas as fúrias infernais, jamais o desampararia”.6
No Sacro Palácio de Avignon
Em 1378 eclodira o Cisma do Ocidente. Falecido Gregório IX, em Roma, um conturbado conclave — celebrado em meio a pressões e distúrbios nas ruas — elegeu como Papa Urbano VI. Poucos meses depois, doze Cardeais reunidos em Agnani declararam inválida esta eleição e escolheram para ocupar o Sólio Pontifício o Cardeal Roberto de Genebra, que, tomando por nome Clemente VII, instalou sua corte em Avignon.
Qual era o Papa legítimo e qual o antipapa? Hoje basta consultar qualquer bom manual de História para sabê-lo. Na época, contudo, a situação distava muito de estar clara. Em ambos os lados grassavam ambições e interesses políticos, embora florescessem também a boa-fé e o fervor religioso verdadeiro. Santos, Bispos e monarcas expunham fundadas razões que os levavam a apoiar Urbano VI ou o antipapa Clemente. A Europa Cristã se dividia entre a obediência a Roma ou Avignon.
“É difícil avaliarmos hoje a perturbação que tal anarquia causava nas almas”,7 comenta um historiador. O Cisma repercutia na Cristandade inteira. “Em quantas Dioceses, paróquias e mosteiros, não se via levantarem-se Bispo contra Bispo, pároco contra pároco, abade contra abade! Ninguém podia estar seguro da sua Fé nem da validade da sua obediência”.8
Morto Clemente em 1394, sucedeu-lhe no trono de Avignon o Cardeal Pedro de Luna, com o nome de Bento XIII. Austero, piedoso e convencido de sua legitimidade, este antipapa logo chamou Frei Vicente Ferrer para ser seu capelão e confessor, nomeando-o também Mestre do Sacro Palácio e penitenciário da corte papal.
Frei Vicente, que apoiava com sinceridade o direito de Bento XIII ao Sólio Pontifício, aceitou o convite e transferiu-se para Avignon. Mas ao mesmo tempo que o problema do Cisma se agravava, crescia também a amargura de Frei Vicente. Certas atitudes do Papa Luna o decepcionaram profundamente. Ademais, o ver aumentar a divisão entre aqueles que deveriam estar unidos em Cristo o levou a uma grave enfermidade, que em três dias conduziu-o às portas da morte.
Em contínua oração, pedia a Deus que tirasse daquela situação a Santa Igreja. Apareceu-lhe então o Divino Redentor, acompanhado de Anjos, de São Domingos e São Francisco. Revelou-lhe Ele que dentro de alguns anos terminaria o Cisma e que o havia escolhido para a missão de pregar contra os vícios do tempo, conclamando o povo à conversão: “Tem constância e não temas a ninguém, pois ainda que não te faltarão adversários e muitos te invejarão, Eu serei sempre tua ajuda para que possas vencer todos os obstáculos e percorrer grande parte da Europa, pregando meu Evangelho; e, por fim, morras santamente nos confins da terra”. Tocou-lhe a face com a mão, dizendo: “Levanta-te, meu Vicente!”,9 curando-o de imediato.
Missionário por mandato divino
Frei Vicente levantou-se com a determinação de cumprir a missão recebida, propugnando a integridade do Evangelho e a unidade da Igreja. Apesar da relutância de Bento XIII, partiu de Avignon a 22 novembro de 1399 para, com o beneplácito de seus superiores, ser missionário, em obediência ao mandato divino.
Percorria a pé veredas e estradas. Apenas quando se enfermou de uma perna passou a utilizar-se de um burrinho em suas andanças. Pregou em vários países: Espanha, Portugal, França, Suíça, Alemanha, Itália e Inglaterra.
Uma profunda vida interior alimentava suas pregações, que versavam sobre os Novíssimos, sobretudo o Juízo Final. Invectivava a mentira, o perjúrio, a blasfêmia, a calúnia, a usura, a simonia, o adultério, e tantos outros vícios daquela sociedade dissoluta. Seu lema era “Temei a Deus, e dai-lhe glória, porque é chegada a hora do seu julgamento” (Ap 14, 7), porque o temor reverencial a Deus não é senão outro nome do amor.
Verdadeiras multidões — doutos, incultos, nobres, plebeus, leigos ou religiosos — se comprimiam para ouvir suas prédicas, não tardando a se fazer sentir seus frutos: ladrões devolviam o que haviam roubado; inimigos se reconciliavam; homicidas e salteadores se emendavam; ovelhas desgarradas retornavam à Santa Igreja, e não poucas pessoas abandonavam o mundo e se consagravam a Deus. Levava consigo um séquito de confessores de várias nações para atender os penitentes. Ele mesmo costumava confessar-se antes da celebração da Missa solene, na qual pregava.
Numa época em que muitos pregadores procuravam brilhar nos sermões com argumentações acadêmicas ou composições retóricas vazias que não moviam os fiéis, a palavra de São Vicente era, pelo contrário, “como um látego de fogo que abrasava e iluminava”.10 Fogo da caridade que “sacudia as consciências meio adormecidas, e por isso ele era, por excelência, o Santo oposto à tibieza”.11
Pregava nas praças e em campo aberto, pois as igrejas eram pequenas para conter os milhares de assistentes. Falava com voz possante e sonora, rica em matizes que faziam sentir a força da presença de Deus e sua graça. Perscrutava com olhar penetrante os ouvintes, valia-se de sua portentosa imaginação para melhor atrair a atenção, desdobrava seus raciocínios com conceitos claros e precisos. Tudo isso favorecido por um prodigioso conhecimento das Sagradas Escrituras, cujos ensinamentos ele aplicava aos fatos concretos e às circunstâncias reais de seu tempo.
Carismas especiais
Palavra de sabedoria e de ciência, carismas de milagres, curas, profecia, discernimento dos espíritos, glossolalia, exorcismo... Impossível enumerar todos os fatos de sua vida que ilustram cada um destes carismas!
Numa época em que nem se podia sonhar com os nossos modernos microfones, Frei Vicente usava sua potente voz para se fazer ouvir de longe. Mas seus biógrafos registram, a este propósito, casos inexplicáveis naturalmente. Destes, um dos mais eloquentes é o de um monge do Mosteiro dos Bernardos que, estando a oito léguas — mais de 45 km — do local onde falava o Santo, ouviu e anotou um de seus sermões.
Após cada pregação curava os enfermos, abençoando-os e pronunciando estas palavras: “Estes sinais acompanharão os que crerem: imporão as mãos aos enfermos e eles ficarão curados. Jesus Cristo, Filho de Maria, saúde e Senhor do mundo, assim como te trouxe a Fé Católica, nela também te conserve e te torne bem-aventurado, e queira livrar-te desta enfermidade”.12
Tal como os Apóstolos no dia de Pentecostes, falava sempre em sua própria língua — o idioma valenciano — e todos o entendiam perfeitamente, em qualquer país ou reino onde pregasse, bem como exorcizava o demônio à sua passagem. Certo dia, lançaram-se sobre a multidão dos fiéis três cavalos expelindo fumaça pelas narinas, movidos por demônios furiosos, que viam aquelas almas escaparem de suas garras. Foram eles escorraçados pela força da autoridade de São Vicente.
Previa o futuro próximo ou remoto. Um dos episódios mais famosos é o de um valenciano que lhe pediu para abençoar seu sobrinho, Alonso de Borja, ainda criança. Disse-lhe Frei Vicente: “Mandai para a escola este menino, porque virá a ser Papa e me honrará muito”. Alguns anos depois, o jovem Alonso foi cumprimentá-lo e ouviu esta profecia: “Alegro-me, filho, por teu bem. Serás Sumo Pontífice e me canonizarás no devido tempo”.13 De fato, anos mais tarde, ele foi ordenado Bispo de Valência, veio a ser o Papa Calisto III e teve o privilégio de canonizar o Santo...
“Nunc dimittis servum tuum, Domine”
Obediente ao encargo recebido, não deixou de pregar até mesmo quando estava já idoso, cansado e com achaques. Precisava ser ajudado a subir nos estrados, mas parecia recuperar as energias quando começava a falar.
Por fim, a tão almejada unidade da Igreja se deu no Concílio de Constança, no qual a influência de São Vicente muito contribuiu para o fim do Cisma. Ali se realizou o conclave que elegeu o Papa Martinho V, em 11 de novembro de 1417, a cuja obediência se submeteu toda a Cristandade. Dir-se-ia que o Santo fez seu o Cântico de Simeão — “Nunc dimittis servum tuum, Domine” (Lc 2, 29) —, pois, decorridos apenas dois anos, morreu em Vannes, na Bretanha, a 5 de abril de 1419, tal como predissera Jesus.
Trinta e seis anos depois, o já mencionado Calisto III o elevou à honra dos altares. Havendo cumprido sua missão com denodo e galhardia, é uma glória para a Espanha, para a Ordem dos Pregadores e para Igreja, pois “exceção feita dos Apóstolos, provavelmente ninguém excedeu São Vicente Ferrer como pregador”.14
1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q.111, a.1.
2 ANTIST, OP, Vicente Justiniano. Vida y historia del apostólico predicador Sant Vicente Ferrer. In: SÃO VICENTE FERRER. Biografía y Escritos. Madrid: BAC, 1956, p.99.
3 Idem, p.104-105.
4 Idem, p.108.
5 Idem, p.109.
6 Idem, ibidem.
7 DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja da Renascença e da Reforma - I. A reforma protestante. São Paulo: Quadrante:1996, p.35.
8 Idem, ibidem.
9 ANTIST, op. cit., p.116.
10 MILAGRO, OP, José María. San Vicente Ferrer. In: ECHEVERRÍA, Lamberto de; LLORCA, SJ, Bernardino; REPETTO BETES, José Luis (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2003, v.IV, p.96.
11 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 4 abr. 1966.
12 ANTIST, op. cit., p.121.
13 Idem, p.137.

14 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Como um profeta do Antigo Testamento. In: Dr. Plinio. Ano XVI. N.181 (Abr., 2013); p.2.
Revista Arautos do Evangelho - abril 2014

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