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sábado, 19 de novembro de 2016
quarta-feira, 16 de julho de 2014
Santos anjos custódios
Protetores e advogados
do homem
O anjo custódio nos
foi dado não apenas para as horas de perigo e provação, como também para rezar
e interceder por nós a todo instante. Ele é nosso mediador e advogado junto ao
trono do Altíssimo e roga continuamente em favor do seu protegido. Portanto,
aconselha-nos Plinio Correa de Oliveira, é de todo congruente implorarmos sempre esse
patrocínio do nosso anjo da guarda.
Para nos socorrer nos perigos e lutas da vida
Enquanto o otimismo
moderno, devido à mentalidade obsessiva do happy
end (“final feliz”), é muito propenso a achar que em nada existe luta,
dificuldades e perigos, a Igreja, pelo contrário, nos ensina que esta vida é um
combate semeado de riscos materiais e espirituais. Por isso, a Providência
Divina dispôs um anjo para velar sobre cada um de nós. E o fez com tanta
munificência que há também um anjo para cada cidade e nação, além daquele que
tutela a própria Santa Igreja Católica, o Arcanjo São Miguel. Não será
descabido pensar que, provavelmente, para grupos, famílias de almas,
sociedades, etc., existem igualmente anjos da guarda, de tal forma que todos os
seres são amparados por um espírito angélico.
Destas considerações
decorre uma primeira lição, de caráter sobrenatural, que nos leva a compreender
como é errada a posição condenada por Dom Chautard1, daqueles que dizem: “Sou
muito capaz, inteligente, jeitoso, esperto; por causa disso, desde que não me
sobrevenham obstáculos muito grandes, não preciso nem na minha vida espiritual,
nem na material, do auxílio de Deus. Dou conta por mim mesmo daquilo que
preciso fazer.”
Ora, se o Altíssimo
delegou um ente celeste para acompanhar e proteger cada um de nós, é porque a
todo momento e para tudo o que fazemos, necessitamos do auxílio d’Ele.
Distorções de uma falsa piedade
Por outro lado, em
conseqüência das concepções de uma piedade errônea, em muitas pinturas que
representam o anjo da guarda em ação, há sempre uma criancinha, insinuando
vagamente que tal amparo se destina apenas às crianças. Portanto, apenas estas
últimas acreditam em anjo, e um espírito “emancipado”, mais “evoluído”, nele
não crê nem precisa de ajuda.
Lembro-me de ter
visto uma estampa onde aparecia um bonito riacho, tendo à margem graciosas
plantinhas, e uma criança rechonchuda, tez rosada, com ar de quem recentemente
saíra da cama e fora lavada, frisada e enfeitada. Ela passa sobre uma ponte
onde existe uma tábua quebrada na qual poria o pé, mas o anjo da guarda, atrás
dela, a protege.
Tem-se a impressão de
que aquilo é o mundo das imaginações da criancinha, e indica o estado de
espírito com que ela atravessa a ponte. Com muito favor, poder-se-ia pensar que
o anjo da guarda faz o mesmo com adultos. Então, para evitar desastre de
automóvel, doenças, pequenos acidentes, etc., é bom recorrer ao anjo da guarda.
Em suma, este serve para as necessidades materiais; quanto às espirituais, não
se fala da proteção angélica. Razão pela qual muitos pedem a cura de alguma
enfermidade, outros, que favoreça uma reconciliação e coisas do gênero. Poucos
têm noção de que os anjos da guarda nos foram dados sobretudo para aquilo que
existe de mais importante: velar por nossa alma, lutar e agir conosco para
vencermos nossas dificuldades espirituais.
Nunca estamos sós
E contudo, quanto
conforto nos daria nas horas das tribulações, tentações, em que nos sentimos
sozinhos, termos a certeza de que um anjo da guarda está junto de nós! Embora
não o sintamos nem o percebamos, ele não nos abandona um minuto sequer, e se
acha à espera de nossas orações para agir por nós. Muitas vezes ele atua sem
que o peçamos, mas fa-lo-á ainda mais se implorarmos sua assistência.
Enquanto tecemos
essas considerações, o recinto em que nos encontramos está repleto de anjos da
guarda que velam por nós, além do anjo destinado a amparar o conjunto do nosso
movimento, a ser verdade o que acima cogitamos a respeito das famílias de
almas, sociedades, etc.
Compreendemos, assim,
quanta alegria desfrutaríamos se tivéssemos essa idéia sempre presente em nosso
espírito! Ao fazermos apostolado, ao passarmos por problemas interiores, por
aborrecimentos e contrariedades de toda ordem, nos sentimos sós. Tal solidão é
uma ilusão: junto a cada um está o seu anjo da guarda. Não obstante imaginarmos
que entre nós e ele há uma distância como entre o céu e a terra, ele de fato
está perto, rezando, vigiando, protegendo o homem cuja guarda lhe foi confiada
por Deus.
Nosso intercessor particular
A compenetração dessa
verdade proporciona alento à vida espiritual, pois sentimos a mão de Deus nos
acompanhando a cada passo. E ilustra as afirmações de Nosso Senhor no
Evangelho: não cai um fio de cabelo de nossa cabeça nem uma folha de árvore,
não morre um passarinho sem a permissão do Criador. Quer dizer, a conexão entre
a missão do anjo da guarda e a doutrina católica sobre a Divina Providência é
admirável, própria a estimular em nós a virtude da confiança, pois nesta
crescemos ao termos sempre presente que o anjo custódio nos foi dado não apenas
para as horas de perigo e provação, como também para rezar e interceder por nós
a todo instante.
O anjo da guarda é
nosso mediador e advogado junto ao trono do Altíssimo e roga continuamente por
nós. Portanto, é de todo congruente pedirmos a ele que nos obtenha graças e
afaste de nós os perigos.
Estímulo e conforto para nossas almas
Os antigos, aliás,
possuíam profunda noção da presença e da intercessão dos anjos custódios, e por
isso construíam igrejas em seu louvor, e alguns lugares onde eles apareciam se
tornavam objeto de peregrinação. Por exemplo, a Abadia do Monte Saint-Michel,
na Normandia. São Miguel Arcanjo é o padroeiro da nação francesa, e também o de
Roma, depois que se fez presente no alto do outrora mausoléu do Imperador Adriano,
e onde hoje se vê o castelo chamado Sant’Angelo. Em outras ocasiões, viam-se
anjos secundando os católicos em seus confrontos contra hereges e adversários
da ortodoxia cristã.
Haveria mil coisas a
se considerar a respeito do papel dos anjos, baseando-se na Bíblia e na
história da Cristandade. Infelizmente, tudo isso é pouco ou nada recordado.
Razão pela qual é extremamente belo rememorarmos essas verdades e tê-las sempre
em vista para o estímulo e conforto de nossas almas.
Modelo de santidade para o protegido
Restar-me-ia
apresentar uma última reflexão, a qual submeto ao juízo da Igreja por se tratar
de uma opinião pessoal, que me parece conveniente e razoável.
Deus tudo faz com
conta, peso e medida, de modo ordenado, e não é provável que a designação de um
anjo da guarda para atender uma pessoa se produza de maneira automática. De
fato, não é possível imaginar uma espécie de ponto de táxi de anjos no Céu, à
espera de que nasça um homem e, a um aceno de Deus, o anjo A ou o X se dirige à
Terra e começa a proteger aquele novo ser humano... Essa forma de agir em Deus
não nos soa como própria de sua infinita sabedoria.
Mais inclinado sou a
pensar que Deus delega a cada pessoa um anjo da guarda cuja santidade tem
relação com a luz primordial2 daquela alma. De maneira que o anjo é um celeste
modelo das virtudes que ela deve praticar ao longo da vida terrena. Se
pudéssemos ver nosso anjo da guarda, contemplaríamos provavelmente a
personificação de nossa luz primordial, ou seja, algo que seria de certo modo
parecido conosco, mas num grau de beleza ontológica e sobrenatural
inconcebível.
O “alter ego” de cada homem
Compreendemos, então,
a simpatia, a afinidade e o desejo de servir que teríamos para com ele e,
reciprocamente, o vínculo especial do anjo da guarda conosco. Quer dizer, o
anjo custódio é o celeste alter ego, o outro “eu mesmo” de cada protegido. Esta
é uma razão particular para que, antropomorficamente falando, tenhamos ainda
mais facilidade de compreender como o anjo da guarda nos ampara. Imaginemos que
encontrássemos alguém necessitado de ajuda, sumamente parecido conosco: não é
verdade que nos apressaríamos em socorrê-lo, impelidos por essa semelhança?
Ora, é o que sucede entre o anjo da guarda e cada um de nós.
Plinio Correa de
Oliveira – Extraído de conferência em 2/10/1964
1)
Autor da obra “A alma de todo apostolado”, muito recomendada por Dr. Plinio.
2)
Segundo o pensamento de Dr. Plinio, posto que todo homem é criado para louvar a
Deus, concede Ele a cada pessoa uma luz primordial, isto é, uma aspiração para
contemplar as verdades, virtudes e perfeições divinas de um modo próprio e
único, pelo qual dará sua glória particular ao Criador.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Um amigo fiel para todas as horas
Pe Carlos Werner Benjumea,EP
“Já não tenho em quem confiar”, afirma um grande número de pessoas por
sentirem-se desoladas, abandonadas e, até mesmo, traídas por aqueles dos quais
esperavam receber maior apoio e solidariedade. Às vezes, são pessoas unidas
pelos fortes laços da natureza as que defraudam e ferem os corações de seus
mais próximos.
Uma realidade tão cruel atrai a compaixão… O principal remédio, sem dúvida, é a
oração, mas não haverá algo mais a fazer para ajudar nossos irmãos e irmãs
nessa situação dramática, tão difundida por toda parte? O ideal seria cada um
deles ter um conselheiro fiel sempre à disposição, que, por pura amizade, os
orientasse, consolasse, encorajasse. Um amigo de verdade, em quem pudessem
depositar toda a sua confiança.
Eis uma utopia, um problema
para o qual parece não haver solução, pelo menos em termos humanos. Com efeito,
onde encontrar tantas pessoas assim?
Entretanto, muitos de nós, se
olharmos para trás, para o tempo dourado de nossa infância, quando, ajudados
por nossas mães, começávamos a rezar nossas primeiras orações, talvez nos
lembremos de alguém que sabíamos estar sempre ao nosso lado, e a quem
chamávamos de “zeloso guardador”. Um ser ao qual talvez tenhamos muito recorrido,
e cuja figura ficou depois empoeirada nalgum canto de nossas recordações.
Tomo, pois, a liberdade de lhe
recordar, leitor, a existência desse amigo invisível, mas presente constante e
fielmente ao nosso lado, poderoso e amável, que vive sempre na contemplação de
Deus e, ao mesmo tempo, nunca deixa de cuidar de nós: o Anjo da Guarda.
Desde o início de sua vida até
o momento de passar para a eternidade, todo ser humano é cercado pela proteção
e intercessão de um anjo designado por Deus para o guiar, proteger e orientar.
Assim, cada um de nós tem um Anjo da Guarda.
Provavelmente, quase todos nós
aprendemos em casa, ou nas aulas de catecismo, a clássica oração: “Santo Anjo
do Senhor, meu zeloso guardador, já que a ti me confiou a piedade divina,
sempre me rege, guarda, governa e ilumina. Amém”. Apesar disso, talvez tenha
escapado alguma vez de nossos lábios uma pergunta, repassada mais de admiração
do que de dúvida: “Então eu tenho mesmo um anjo incumbido por Deus de cuidar de
mim?” É realmente admirável o fato de cada um de nós possuir um anjo cuja missão
específica é favorecer-nos em tudo quanto se relacione com nossa salvação
eterna, mas é essa a realidade: Deus “os fez mensageiros de seu projeto de
salvação”, afirma o Catecismo da Igreja Católica. E diz São Paulo: “Não são
todos os anjos espíritos ao serviço de Deus, o qual lhes confia missões para o
bem daqueles que devem herdar a salvação?” (Hb 1,14).
“Grande é a dignidade das almas
— exclama São Jerônimo —, quando cada uma delas, desde a hora de seu
nascimento, tem um anjo destinado para sua custódia!”
É muito reconfortante saber que
um ser superior à nossa natureza está continuamente a nosso lado; que ele, puro
espírito, mantém-se na contemplação incessante de Deus e, ao mesmo tempo, vela
por nós, quer-nos todo o bem, e seu objetivo é levar-nos para a felicidade
perfeita e infindável do Céu.
Quando nos damos conta da
presença desse incomparável guardião, estabelecemos com ele uma amizade firme e
íntima, como descreve o grande escritor francês Paul Claudel: “Entre o anjo e
nós existe algo permanente. Há uma mão que, ainda quando dormimos, não solta a
nossa. Sobre a terra onde nos encontramos, compartilhamos o pulso e o latejar
do coração desse irmão celeste que fala com o nosso Pai”.
Se tivéssemos maior confiança
nesse celeste protetor, nesse bom amigo que nunca falha — ainda quando dele nos
afastamos, por nossa má conduta —, seríamos capazes de recobrar a paz e o
equilíbrio dos quais tanto precisamos!
Eles estão a nosso lado, incansáveis,
solícitos, bondosos
A Bem-Aventurada Hosana
Andreasi, de Mântua (Itália), ainda com seis anos de idade, tomara o gosto de
passear pelas margens do Rio Pó, extasiada com a beleza do panorama. Um dia
encontrava-se sozinha nesse lugar, quando de repente viu surgir diante de si um
belo jovem, alto e forte. Nunca o havia visto antes... Surpresa, mas não amedrontada,
ouviu o recém-chegado dizer com voz clara, ao mesmo tempo suave e firme: “ vida e a morte consistem em amar a Deus”.
Sua surpresa aumentou quando o “jovem” a ergueu do chão e, olhando-a
diretamente nos olhos, acrescentou: “Para
entrar no Céu, você precisa amar muito a Deus. Ame-O. Tudo foi criado por Ele,
para que as pessoas O amem”. Foi este o primeiro de numerosos encontros que
Hosana teve, até seu falecimento (em 1505), com seu Anjo da Guarda.
Casos como esse, de
relacionamento intenso com os anjos, não são nada raros. Santa Gemma Galgani
(18781903), por exemplo, teve a constante companhia de seu anjo protetor, com
quem mantinha um trato familiar. Ele lhe prestava todo tipo de ajuda, até mesmo
levando suas mensagens para seu confessor, em Roma.
Ainda mais próximos de nós,
encontramos os episódios freqüentes ocorridos com São Pio de Pietrelcina
(1887-1968), grande incentivador da devoção aos Anjos da Guarda. Em diversas
ocasiões ele recebeu recados dos Anjos da Guarda de pessoas que, à distância,
necessitavam de algum auxílio dele.
O Beato João XXIII, outro
grande devoto dos anjos, dizia: “Nosso desejo é que aumente a devoção ao Anjo
Custódio”.
Nossos anjos guardiães estão ao
lado de cada um de nós, incansáveis, solícitos, bondosos, prontos para nos
ajudar em tudo quanto precisarmos — inclusive em nossas necessidades materiais,
mas especialmente para nos proporcionar os bens espirituais, auxiliando-nos a
caminhar na via da virtude.
* * *
Estimado leitor, queira Deus
que esses pensamentos, tirados da Revelação e do tesouro da Santa Igreja,
possam nos ajudar a nos tornarmos mais próximos desses fiéis amigos celestiais,
consolando-nos e animando-nos. E aumentar nossa vontade de conhecê-los sem os
sagrados véus da fé, quando nos encontrarmos lá no alto, no Reino dos Céus.
Os outros anjos...
Se os demônios tanto nos
perseguem, por que não recorrermos ao Anjo da Guarda, pedindo sua proteção?
Certamente, crescer no relacionamento com ele significará estar mais defendido
das ações dos espíritos malignos, e ser mais ajudado na luta contra as
tentações.
Diz São João da Cruz: “Os anjos,
além de levar a Deus notícias de nós, trazem os auxílios divinos para nossas
almas e as apascentam como bons pastores (…) amparando-nos e defendendo-nos dos
lobos, os demônios”.
Confiando-nos inteiramente aos
nossos Anjos da Guarda, não precisamos temer os demônios. Afinal, estes últimos
nada conseguem contra o poder daqueles.
sábado, 13 de outubro de 2012
Cecy Cony
Filha de um capitão do exército, Cecy Cony nasceu em 1900 na cidade de Jaguarão (RS).
Aos 5 anos, viu surgir pela primeira vez a seu lado o seu Anjo da Guarda, para salvá-la de uma situação de grande apuro. A partir de então, este divino protetor, guia e conselheiro permaneceu junto dela de modo sensível durante 30 anos: em todos os momentos ela sentia sua benéfica presença. De 1935 em diante, ele não deixou de estar continuamente junto dela, mas não mais de maneira sensível.
Aos 13 anos Cecy recebeu o apelo de Jesus para a vida religiosa. Mas, por circunstâncias diversas, somente aos 26 entrou como postulante na Congregação das Irmãs Franciscanas, em São Leopoldo (RS). Dois anos depois recebeu o véu de noviça, tomando o nome de Irmã Maria Antônia. Um ato de oferecimento que ela rezava diariamente revela o estado de sua alma: “Meu Jesus, eu me ofereço para ser privada de todas as consolações espirituais e sofrer todas as cruzes que Vos aprouver mandar-me. Disponde de mim segundo a vossa vontade. Quero e espero ser toda vossa. Meu Jesus, eu Vos quero só a Vós e a mais nada”.
Deus não tardou em manifestar que essa oblação tinha sido aceita: caíram sobre ela sofrimentos indizivelmente dolorosos, no corpo e na alma, que ela suportou generosamente.
Em 24 de fevereiro de 1933 fez os votos perpétuos de pobreza, obediência e castidade. Em tudo, Irmã Maria Antônia foi perfeito modelo de boa religiosa.
Uma grande vitória, inspirada pelo Anjo da Guarda
Desde a mais tenra infância a gaúcha Cecy Cony experimentou a presença sensível de seu anjo da guarda, a quem ela chamava “Novo Amigo”. Esse companheiro fiel a guiou e instruiu, e, por vezes, encorajou a fazer difíceis sacrifícios, como o narrado a seguir.
Jovens e velhos, ricos e pobres — a cidade de Jaguarão inteira estava atarefada, preparando a festa do Divino Espírito Santo. Seu estandarte era conduzido em procissão de porta em porta, dando aos moradores oportunidade de beijar a bela imagem da pomba, e oferecer uma contribuição para aumentar o brilho das festividades.
Como é bom viver numa cidade protegida pelo Espírito Santo! E que honra, quando seu estandarte pára diante de minha casa, poder dar-lhe um beijo e oferecer algumas moedas para a festa! — pensava a pequena Cecy Cony, considerando todos esses preparativos.
Insulto a Deus
Porém, suas inocentes e alegres cogitações foram contundidas por uma chocante notícia que pôs em polvorosa todos os habitantes de Jaguarão. No quartel do Exército, localizado no centro da cidade, o coronel comandante mandou um sargento avisar que a procissão devia seguir adiante, pois lá não entraria o estandarte do Espírito Santo.
Esse fato causou uma forte impressão em Cecy. “Como esse coronel pode ser tão ruim assim? Os pobres soldados ficaram privados da oportunidade de receber a bênção do Espírito Santo e dar uma modesta contribuição para a festa. Mas, muito pior do que isso, foi o insulto a Deus!” Acabrunhada com tais pensamentos, e não conseguindo adormecer à noite, ela ficou imaginando um meio de reparar tão grave ofensa.
Inspirada pelo “Novo Amigo”
Todos temos um Anjo da Guarda que está sempre junto de nós, ajudando, guiando e protegendo. Mas Cecy era favorecida por uma graça especial: ela tinha um convívio sensível com o seu Anjo, ouvia, por assim dizer, sua voz e sentia com frequência sua mão protetora! Quando o viu pela primeira vez, aos cinco anos de idade, ela não sabia o que era um Anjo, por isso deu-lhe o nome de “Novo Amigo”.
Estando, assim, tomada de tristeza e sem conseguir adormecer naquela noite, ela sentiu a mão de seu Novo Amigo pousando com doçura sobre sua cabeça, como promessa de ajuda, e enchendo-a de paz. Dormiu, então, serenamente.
No dia seguinte, na hora do café da manhã, sentiu de novo a mão de seu Anjo da Guarda enquanto sua voz lhe sussurrava a ideia de pedir a cada soldado do quartel uma contribuição para a festa, e, em compensação por eles não terem podido beijar o estandarte do Espírito Santo, deixar cada um oscular a medalha que ela trazia ao pescoço.
Começou então uma pequena batalha em sua mente: “Como eu vou parecer esquisita, parando os soldados na rua e pedindo-lhes dinheiro!...”
Como resposta, o Anjo inspirou-lhe outro pensamento: “Mesmo se isso me deixar embaraçada, preciso fazer, para dar alegria ao Espírito Santo. Tenho de começar hoje mesmo, do contrário não sobrará muito tempo para coletar o dinheiro e entregar ao padre antes do dia da festa”.
Impelida pela inspiração do Novo Amigo, Cecy decidiu-se entrar logo em ação. Ela tinha ganhado do pai vinte réis (moeda da época) para comprar um par de sapatinhos brancos. Obteve, então, licença da mãe para ir olhar as vitrines das lojas, a fim de escolher os que mais lhe agradassem. Isso na certa lhe daria oportunidade de encontrar alguns soldados pela rua.
“Senhor soldado, por favor!”
Chegando ao centro da cidade, a menina postou-se numa movimentada esquina. E — olha lá! — um soldado vinha caminhando na sua direção, mas... Seu coração começou a bater mais rápido, ela se sentiu completamente intimidada. Não seria melhor esse soldado desaparecer dali?
Mas seu Novo Amigo, apoiando gentilmente a mão em seu ombro, deu-lhe firmeza e encheu-a de coragem. O soldado estava agora apenas a três passos... — Senhor soldado, por favor!
— Pois não, bela menina, às suas ordens! O que deseja?
Animada por essa polidez, Cecy iniciou o pequeno discurso que havia cuidadosamente preparado:
— Estou me sentindo muito triste pelo fato de o coronel não ter permitido que o estandarte do Espírito Santo entrasse no quartel. E os coitados dos soldados não puderam saudar o estandarte nem fazer uma oferenda. Por isso estou pedindo a cada um uma pequena contribuição, e vou entregar tudo ao Pároco antes do dia da festa.
— Contribuo com muito prazer, menininha. Aqui está minha oferta — respondeu o militar, colocando na palma da mão de Cecy uma moeda de prata.
Cheia de contentamento por esse bom êxito inicial, ela continuou seu trabalho e, no fim de um dia fatigante, viu que havia recolhido trinta réis e alguns centavos. Parecia ser uma imensa quantia! Nenhum soldado havia dado só uma moeda de cobre (um tostão), embora fosse o que ela pedia. Alguns deram até duas de prata.
Nova batalha
De volta à casa, guardou cuidadosamente a pilha de moedas numa gaveta, planejando trocá-las por uma nota de 30 réis e enviá-la ao padre antes da festa. Surgiu porém, outro problema: não existia nota de 30 réis, ela tinha de escolher entre uma de 20 ou uma de 50. Como seria maravilhoso se pudesse enviar uma nota de 50!
Ocorreu-lhe, então, uma generosa ideia. Em vez de comprar o par de sapatos brancos, ela poderia, com os 20 réis que havia recebido de seu pai, completar o que faltava para a nota de 50.
Em resposta a esse pensamento, veio outro que parecia mais razoável: “Não vai ficar bem estar na festa toda vestida de branco e com sapatos pretos... Além disso, o Espírito Santo ficará feliz com o oferecimento feito pelos próprios soldados”.
Assim, acabou julgando ser mais conveniente comprar os sapatos brancos, e estava já enrolando cuidadosamente as moedas num bonito papel de presente, quando sentiu de novo a mão do Anjo sobre o ombro, sugerindo-lhe um ato de generosidade: ela devia oferecer o dinheiro destinado à compra dos belos sapatos brancos, Deus lhe pedia esse sacrifício!
Sem mais hesitações, Cecy foi ver seu pai, disse-lhe que não desejava mais comprar os sapatos novos e perguntou se poderia ficar com o dinheiro. Ele concordou.
Grande vitória, imensa recompensa
Então ela trocou as moedas por uma nota de 50 réis “novinha em folha”, colocou-a num envelope, fechou com cola e escreveu: “Oferecimento de um grupo de soldados para a festa do Divino Espírito Santo”. Depois foi à matriz e deixou o envelope sobre uma mesinha da sacristia, pois nem o padre nem o sacristão estavam lá. E jogou as moedinhas restantes num cofre, antes de sair da igreja.
Aquela batalha estava encerrada, com uma grande vitória!
Na véspera da festa, ela teve a discreta alegria de ler na lista de contribuições: “Um grupo de soldados — 50 réis”. Na cidade, ninguém soube da participação de Cecy nessa oferenda. Ela, porém, se achava imensamente recompensada por saber que Nosso Senhor estava contente com ela, e por sentir sempre a doce presença de seu Novo Amigo.
(Adaptado do capítulo 17 de “Devo narrar minha vida”, sua autobiografia, editada pelo Pe. João Batista Reus, SJ (...). Publicada pela primeira vez em 1949, esta obra foi traduzida para o inglês e o alemão, com os títulos respectivamente de “Under Angel Wings” e “Ich sah meinen Engel”).
sábado, 24 de setembro de 2011
São Pio de Pietrelcina
Esse santo moderno arrebatou multidões, fez incontáveis milagres e foi duramente incompreendido.
Esse é um dos homens extraordinários que Deus envia à terra de vez em quando, para a conversão dos homens”, disse ao Papa Bento XV um Bispo do Uruguai, logo após visitar o Pe. Pio. Com estas palavras, o Prelado soube dar à figura do frade capuchinho sua inteira dimensão: é uma das visitas que Deus faz à Humanidade em determinadas épocas, para indicar-lhe o caminho da salvação.
Com sua imensa popularidade e seus assombrosos dons sobrenaturais, São Pio de Pietrelcina foi, acima de tudo, uma alma crucificada, oferecida como vítima voluntária pelo mundo, escondida em um permanente colóquio com o Senhor. É dessas íntimas profundidades que emerge a força pela qual ele chegou a identificar-se por inteiro com Nosso Senhor. Os estigmas da Paixão são o selo exterior dessa união mística entre o Criador e sua criatura.
Aos cinco anos, recebeu a vocação
Francisco Forgione de Nunzio nasceu em 25 de maio de 1887, em Pietrelcina, pequeno povoado vizinho de Benevento, no sul da Itália. Seus pais, Grazio e Maria Giusepa, levaram-no à pia batismal no dia seguinte, na igreja de Santa Maria dos Anjos, onde fez depois sua Primeira Comunhão, aos 12 anos.
Era tido por um menino retraído porque raras vezes brincava com os demais. Quando lhe pediam explicações a este respeito, respondia que “eles blasfemavam”. Seus silêncios correspondiam a precoces mas profundas meditações, a momentos de oração entremeados da prática de austeridades as quais já apontavam para a vocação que desde os 5 anos ele percebia claramente: ser capuchinho.
Em Janeiro de 1903, com 16 anos, entrou como noviço na Ordem dos Frades Menores em Morcone. Terminado o ano de noviciado, emitiu os votos simples, e em Janeiro de 1907 fez a profissão solene.
Com as frequentes mudanças de convento durante os estudos necessários para a ordenação, seu precário estado de saúde piorou a ponto de ser-lhe necessário voltar para a casa paterna, por ordem de seus superiores, para convalescença. Mesmo assim, não abandonou a vida regular de oração e meditação, unido em espírito a seus irmãos de hábito que permaneciam no mosteiro.
Em Janeiro de 1910, pediu para ser ordenado sacerdote prematuramente, pois temia morrer a qualquer momento. Em agosto desse ano recebeu a ordenação na capela do Arcebispo de Benevento. Teve de voltar em seguida para a casa da família, onde permaneceu até 1916.
Dom de “ler as almas”
Em setembro desse ano, seus superiores notaram uma pequena melhora em seu estado de saúde e decidiram mandá-lo para o convento de Santa Maria das Graças, situado em San Giovanni Rotondo. Foi uma alegria para ele poder dedicar-se à vida de comunidade e seguir a regra dos capuchinhos.
O dia 25 de maio de 1917 merece especial registro em sua longa e santa vida. Ele completava 30 anos. Enquanto rezava no coro da igreja, foi agraciado com os estigmas da crucifixão de Jesus, os quais permaneceram nele por mais de 50 anos.
No convento, começou exercendo a função de diretor espiritual e mestre dos noviços. Além desse encargo, confessava os habitantes do povoado que frequentavam a igreja conventual. Foram estes que, pouco a pouco, notaram as características especiais do novo padre: suas Missas às vezes duravam três horas, pois com frequência entrava em êxtase, e os conselhos que ele dava no confessionário revelavam alguém que “lia as almas”.
Certa vez chegou uma jovem de Florença, muito atribulada, pois um familiar próximo tivera a desgraça de cometer suicídio, jogando-se no Rio Arno. Já havia ouvido falar do padre de San Giovanni, e depois da Missa dirigiu-se à sacristia para falar com ele. Apenas este viu a moça, inteiramente desconhecida dele, disse-lhe com doçura:
— Da ponte ao rio demora alguns segundos...
A jovem, surpresa e chorando, só pôde responder:
— Obrigada, padre.
Fatos maravilhosos como esse se repetiam todos os dias. Chegavam incrédulos que saíam arrependidos de sua falta de Fé. Pessoas tomadas de desespero recuperavam a confiança e a paz de alma. Enfermos retornavam curados a seus lares.
“É preciso amar a Igreja, mesmo quando ela pune”
Seu grande instrumento de apostolado era o sacramento da Confissão. Certa vez alguém lhe perguntou:
— O que é a Confissão, padre?
— A Confissão é o banho da alma, meus filhos. É preciso lavá-la pelo menos a cada oito dias.
O Pe. Pio tinha também o dom da bilocação, ou seja, o de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Assim o narra o General Luigi Cardona, o qual, ao receber uma foto do Santo, recordou: “Este! Este é o frade que, sem autorização, sem ser anunciado, sem ser visto por ninguém, entrou em meu escritório naquela noite em que eu tinha tomado a decisão de suicidar-me e estava com o revólver já carregado em minhas mãos. Foi ele quem me dissuadiu de fazer isso, e quando me viu já convencido e arrependido, desapareceu tal como havia chegado”.
Em vista dos estigmas e da popularidade que ele ia alcançando, o superior do convento julgou conveniente enviar ao Vaticano um relato ilustrado por fotografias. Em resposta, a Santa Sé, como medida de prudência, solicitou-lhe proibir o Pe. Pio de celebrar Missa em público e de atender confissões.
Como reagiu ele? Como só um santo sabe fazê-lo. Um de seus companheiros relata: “Ao receber a notícia, deixou entrever umas lágrimas e um gesto de profunda dor. Retirou-se para a tribuna do coro e ficou rezando até meia-noite aos pés do crucifixo. Logo ele próprio diria: ‘A igreja é uma mãe à qual é preciso amar, e mais ainda quando nos pune... Por muito grande que seja a prova à qual o Senhor nos quer submeter, nunca jamais percam o ânimo; corram com filial abandono aos braços de Cristo’.”
Posteriormente, o Papa Pio XII revogou as proibições, e deu seu pontifício apoio às actividades apostólicas desse digno filho de São Francisco.
A companhia do Anjo da Guarda
Um traço revelador do privilegiado contato dele com o mundo sobrenatural é a estreita relação que manteve durante toda a vida com seu Anjo da Guarda, ao qual ele chamava de “o amigo de minha infância”. Era seu melhor confidente e conselheiro. Quando ele ainda era menino, um de seus professores decidiu pôr à prova a veracidade dessa magnífica intimidade. Para tanto, escreveu-lhe várias cartas em francês e grego, línguas que o Pe. Pio então não conhecia. Ao receber as respostas, exclamou estupefato:
— Como podes saber o conteúdo, já que do grego não conheces sequer o alfabeto?
— Meu Anjo da Guarda me explica tudo.
Graças a um amigo como esse, junto ao auxílio sobrenatural de Jesus e Maria, o Santo pôde ir acrisolando sua alma nos numerosos sofrimentos físicos e morais que nunca lhe faltaram.
Casa de Alívio do Sofrimento
Não contente com sua inteira dedicação ao bem das almas, o Pe. Pio projectou a construção de um hospital para remediar também os padecimentos corporais. Sabendo que o sofrimento do corpo acarreta o da alma, tinha ele por objetivo fundar uma instituição de caridade na qual os espíritos e os corpos encontrassem alívio para mais facilmente se aproximarem de Deus. Graças ao entusiasmo comunicado por ele a seus filhos espirituais, as obras deixaram de ser mero projeto tão logo acabou a guerra na Europa.
A época não era boa para arrojos em empreendimentos de alto custo... Mas a fama de santidade do fundador atraía as doações. Assim, os recursos financeiros chegavam sempre justamente a tempo, deixando desconcertados os que baseavam seus cálculos apenas nas cautelas humanas.
O grande hospital foi inaugurado em maio de 1956. Entre os mais de 30 mil fiéis presentes, destacavam-se numerosas autoridades civis e eclesiásticas. A obra, fruto dos contínuos padecimentos do Pe. Pio, foi por este baptizada com o nome de Casa Sollievo della Sofferenza (Casa de Alívio do Sofrimento).
Milagre para o futuro Papa
Entre os incontáveis devotos do Pe. Pio contava-se certo sacerdote polonês que em 1947, quando estudava em Roma, tinha ido confessar-se com ele. Chamava-se Karol Wojtyla. Quinze anos mais tarde, quando participava das primeiras sessões do Concílio Vaticano II como Vigário Capitular de Cracóvia, escreveu uma carta ao frade capuchinho, pedindo orações por uma colaboradora sua, a Dra. Wanda Poltawska, mãe de quatro filhos e atingida por um câncer de garganta que demandava uma cirurgia considerada já como inútil.
Dez dias depois o Pe. Pio recebeu nova missiva do futuro Papa, desta vez de agradecimento, pois a mulher se vira curada subitamente, antes da cirurgia, causando estupor aos médicos que dela tratavam. Ambas as cartas figuram no processo de canonização do frade estigmatizado.
No final, a glorificação
As humilhações, contrariedades e sofrimentos pontilharam toda a vida de São Pio de Pietrelcina, ressaltando sua condição de vítima propiciatória, e, no correr do tempo, não fizeram mais do que conferir-lhe uma inefável semelhança com a Vítima por excelência, Nosso Senhor Jesus Cristo. Até o fim, continuou ele suas atividades de apostolado, de modo especial o atendimento de confissões, guiando para Jesus e Maria todas as almas que dele se aproximavam.
Com o passar dos anos, cresciam as manifestações de fervor popular em torno da venerável pessoa desse já ancião e fatigado filho de São Francisco. E a Santa Sé foi lhe dando mostras cada vez mais expressivas de confiança e benevolência.
Em setembro de 1968, entre a interminável afluência de peregrinos e de personalidades de todo o mundo, o Pe. Pio recebeu o chamado para a eternidade. No dia 22, domingo, celebrou sua última Missa. Pouco depois, renovou sua profissão religiosa e sua consagração ao Senhor.
Nas primeiras horas de 23 de setembro, tendo recebido os sacramentos, São Pio de Pietrelcina entregou a Deus sua virtuosa alma. Segurava em suas mãos o santo Rosário, devoção que ele jamais deixou de cultivar.
Uma incalculável multidão de fiéis desfilou durante quatro dias diante de seus restos mortais. Em 16 de junho de 2002, o Vigário de Cristo o elevou à glória dos altares.
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