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terça-feira, 7 de junho de 2016

São Francisco Xavier: uma reflexão

Eis uma linda cena da vida de São Francisco Xavier:
Era noite. Dentro de um barquinho em mar revolto, todos estavam aflitos e São Francisco rezando. Enquanto a nau era sacudida de todos os lados, o Santo ia percorrendo em espírito os nove Coros de Anjos, reverenciando os Patriarcas, recomendando-se aos Profetas, numa visita serena, calma, pedindo ajuda a cada um. As pessoas atônitas, olhando para aquela tranquilidade, encontravam nela os meios de resistência.
É a atitude de um grande Santo que, por ter em abundância o espírito da Igreja, enfrenta os perigos da existência como um cavaleiro medieval enfrentava os riscos da guerra. O cavaleiro era ávido de perigos e de aventuras, porque sabia defender assim a causa para a qual fora suscitado.
Esta é a posição do varão católico quando se encontra em perigo: não é apavorar-se, mas crescer na confiança.

Plinio Correa de Oliveira -Extraído de conferência de 21/9/1973

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Um milagre na vida de dois jovens beneditinos

Muitos fatos nas vidas dos Santos, contados na sua singeleza, têm um sabor de historietas encantadoras, mas, no fundo, possuem altíssimo significado, e nos falam da confiança invencível.
Ilustra muito bem essa verdade o episódio ocorrido na vida de São Mauro e São Plácido, dois jovens discípulos de São Bento, narrado por São Gregório Magno. Conta-nos este que São Plácido, o mais novo deles, estava se afogando nas águas de um rio. Vendo o religioso em perigo, São Bento ordenou que São Mauro o fosse resgatar. Este não hesitou um instante e, obedecendo à ordem do Superior, lançou seu escapulário nas águas e andou sobre ele, como sobre um tapete. Chegou até São Plácido, o tirou do rio e os dois retornaram andando na superfície líquida, de volta para junto de São Bento.
Muitos dirão: “Milagre da obediência!”

Sem dúvida. Entretanto, também a confiança tem seu prêmio próprio. Ela é uma forma de obediência. É uma espécie de pressentimento interior, nascido de uma ação da graça, que nos faz sentir com inteira certeza que algo desejado pelos melhores lados de nossa alma se realizará. Essa é a definição da confiança.
Plinio Correa de Oliveira

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

São Cláudio de La Colombière


Confessor e confidente de Santa Margarida Maria Alacoque, São Cláudio de La Colombière foi escolhido por Deus para propagar o amor e a confiança, por meio da devoção ao Sagrado Coração de Jesus.

No ano de 1675, um novo superior foi designado para a casa dos jesuítas em Paray-le-Monial. Sendo ele confessor extraordinário das vizinhas freiras da Visitação, foi estar com a superiora, Madre de Saumaise, a fim de se pôr à disposição do mosteiro. Esta lhe apresentou toda a comunidade e, enquanto o sacerdote dirigia às religiosas breves palavras de incentivo à prática da virtude heroica, uma delas, Irmã Margarida Maria Alacoque, ouviu uma voz interior lhe dizendo:

— Eis aí quem te envio!

Fazia poucos anos que pertencia a freira à Congregação e já havia sido beneficiada pelo Sagrado Coração de Jesus com numerosas visões e revelações. Naquele momento, porém, passava ela pelo drama da dúvida. Seus superiores e algumas autoridades eclesiásticas a consideravam “uma visionária”, levando-a a se perguntar se não estaria sendo vítima da ilusão ou enganada pelo demônio.  

O Divino Mestre fizera-lhe, então, uma promessa: “Eu te mandarei meu fiel servo e amigo perfeito”.1 Tratava-se do padre Cláudio de La Colombière, que Jesus enviava naquele momento à Irmã Margarida, para confirmar-lhe “em seus caminhos e para torná-lo participante de grandes graças do seu Sagrado Coração”.2

Formação em colégios da Companhia

Da infância do padre de La Colombière, pouco se conhece. Nasceu a 2 de fevereiro de 1641, na aldeia de Saint Symphorien, mas aos nove anos mudou-se com a família para Vienne, onde os beneditinos de Saint Andrés-le-Bas lançaram em sua alma as primeiras sementes de sua ardorosa devoção à Sagrada Eucaristia e lhe ministraram a Primeira Comunhão.

Pouco depois de ter chegado à cidade, começou a estudar gramática com os padres jesuítas e, três anos depois, mudou-se para Lyon, a fim de cursar Humanidades, no colégio da Companhia. Foi também nessa cidade, na qual morou por cinco anos, que começou a tomar contato com a obra do grande Francisco de Sales, através das Irmãs da Visitação de Bellecour, em cujo convento falecera o santo fundador.

Cumpridos já dezessete anos, enquanto passava alguns dias de férias na casa dos pais, Cláudio decidiu tornar-se jesuíta. De temperamento reservado, um pouco tímido e muito afetuoso, custou-lhe separar-se da família. Mas o fez de bom grado e por completo, compreendendo consistir a verdadeira felicidade na entrega a Deus por um amor exclusivo.

Mais tarde afirmaria: “Jesus Cristo prometeu cem por um, e posso dizer que nunca fiz nada sem ter recebido, não cem por um, mas mil vezes mais do que havia abandonado”.3

Do noviciado ao sacerdócio

Corria o ano de 1658, quando Cláudio ingressou no Noviciado de Avignon. Ali se alternaram provas e alegrias, períodos de aridez com outros marcados por uma luz transbordante. Dois anos depois, proferiu os primeiros votos e, havendo concluído o curso de Filosofia, dedicou-se ao magistério no colégio da Companhia, conforme determinavam as regras, antes de prosseguir os estudos para o sacerdócio.

Por sua grande capacidade intelectual, estro literário e modo de fazer os sermões, o Superior Geral decidiu enviá-lo, em 1666, para estudar Teologia no Colégio de Clermont, em Paris. Ali se revelou exímio orador e excelente professor de retórica. Seu valor acadêmico e o exemplo ilibado de vida religiosa valeram-lhe o cargo de preceptor dos filhos de Colbert, o célebre Ministro do Tesouro de Luis XIV. Teve, assim, de frequentar os ambientes da corte, fazendo neles muitos amigos e dando mostras de grande talento, fino trato e elevada educação, além de se destacar pela firmeza de princípios e exímia virtude.

A Terceira Provação

Em 6 de abril de 1669, Cláudio recebeu as sagradas ordens e cinco anos depois chegou para ele o tempo chamado por Santo Inácio de “Escola do Afeto”.

A sabedoria do fundador bem via quanto os largos anos de estudo, magistério e apostolado podiam ser para seus filhos espirituais motivo de diminuição do fervor inicial, contaminado por aspirações mundanas, quando não por sentimentos de vanglória pelos êxitos obtidos. Por isso, estabeleceu que cada jesuíta passasse por este novo período de noviciado, também chamado de Terceira Provação, antes de fazer a profissão solene. Nesse tempo, sob a orientação paternal de um instrutor, o religioso fazia um balanço de sua vida, visando desapegar-se de toda preocupação humana para deixar-se levar inteiramente pela luz divina.

A Casa São José, em Lyon, foi o lugar onde o padre Cláudio atravessou esse período, durante o qual fez um voto particular de cumprimento exímio das regras do Instituto, “sem reservas”, dispondo-se a aceitar com alegria as determinações da Santa Obediência e romper de uma vez por todas as cadeias do amor-próprio. Ao mesmo tempo consolidou-se em sua alma a confiança — também sem reservas — na misericórdia divina, sem a qual ser-lhe-ia impossível manter-se fiel aos propósitos feitos em prol da própria santificação e da dos outros.

Esse tempo de solidão e recolhimento fê-lo também desapegar-se de todos os relacionamentos humanos, aos quais era extremamente sensível, para ter Nosso Senhor como único e verdadeiro amigo: “Meu Jesus [...] tenho certeza de ser amado, se vos amo. [...] Por mais miserável que eu seja, não me tirará vossa amizade nenhum indivíduo mais nobre que eu, nem mais culto ou mais santo”.4

Antes mesmo de concluir o tempo regulamentar, foi admitido aos votos solenes, feitos quando completava 34 anos, em 2 de fevereiro de 1675. Logo em seguida, recebeu o encargo de superior da casa dos jesuítas em Paray-le-Monial. Sua alma estava com a têmpera ideal para empreender a grande missão que o aguardava.

Três corações unidos para sempre

O padre de La Colombière não sabia o que encontraria nessa pequena cidade, mas seus superiores, inteirando-se das visões de Santa Margarida Maria Alacoque e das polêmicas que haviam gerado, o escolheram exatamente por causa do seu equilíbrio de alma. Padre Cláudio era perfeitamente capaz de sustentar os bons critérios frente às controvérsias criadas, dentro e fora do convento.

De fato, sem se importar com as críticas e juízos desfavoráveis, logo viu a mão de Deus nas visões de Irmã Margarida Maria e a tranquilizou e apoiou, recebendo, como recompensa, recados e favores do Divino Mestre.

Um deles ocorreu, certa vez, durante a Missa celebrada para a comunidade, quando a religiosa viu, na hora da Comunhão, o Sagrado Coração de Jesus como uma fornalha ardente e dois outros corações abismando-se n’Ele: o do padre de La Colombière e o seu próprio, enquanto ouvia estas palavras: “É assim que meu puro amor une esses três corações para sempre. Esta união destina-se à glória de meu Sagrado Coração. Quero que descubras seus tesouros, ele fará conhecer seu preço e utilidade. Para tanto, sejais como irmão e irmã, partilhando igualmente os bens espirituais”.5

Apressou-se ela em transmitir o fato ao sacerdote e depois relatou sua reação. “As mostras de humildade e as ações de graças com que ele recebeu essa comunicação e várias outras coisas que lhe transmiti da parte de meu soberano Senhor e que lhe diziam respeito, comoveram-me e foram-me mais proveitosas que todos os sermões que eu poderia ouvir”.6

Apostolado da confiança e do reafervoramento

No curto período de dezoito meses de sua permanência em Paray-le-Monial, quiçá tenha feito o padre de La Colombière mais pelas almas que em todos os anos anteriores de sua vida.

O jansenismo, então em pleno auge na França, minava nos corações a confiança na bondade de Nosso Senhor e de sua Mãe Santíssima, e afastava os fiéis dos Sacramentos, sobretudo da Sagrada Comunhão.

O apostolado feito por São Cláudio em suas cartas, pregações e direções espirituais ia justamente no sentido contrário: promovia a confiança em Maria e a devoção ao Santíssimo Sacramento. Atraiu assim muitas ovelhas desgarradas, trazendo-as de volta ao redil do Salvador.

Fundou uma Congregação Mariana para nobres e burgueses, na qual agrupou os cavalheiros católicos da cidade, bem como reorganizou a dos alunos do colégio da Companhia. Reestruturou o hospital dos peregrinos e indigentes, e pregou missões nos povoados vizinhos, com grandíssimos frutos de reafervoramento.

“Eis o Coração que tanto amou os homens”

Mas sua máxima missão foi participar, por desígnio do próprio Jesus, na chamada “Grande Revelação” feita a Santa Margarida Maria, em um dia da Oitava de Corpus Christi de 1675, quando rezava diante do Santíssimo Sacramento: a difusão da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, bem como a instituição de sua festa e da consagração reparadora.

Assim transcreveu a santa as célebres palavras proferidas por Nosso Senhor, enquanto lhe mostrava seu Divino Coração: “Eis o Coração que tanto amou os homens, que não poupou nada até esgotar-Se e consumir-Se, para manifestar-lhes seu amor. E como reconhecimento, não recebo da maior parte deles senão ingratidões, desprezos, irreverências, sacrilégios, friezas que têm para comigo neste Sacramento de amor. E é ainda mais repugnante, porque são corações a Mim consagrados”.7  

Em seguida, pediu-lhe o Senhor que a primeira sexta-feira após a Oitava de Corpus Christi fosse consagrada como festa especial para honrar seu Coração, com um ato público de desagravo e comunhões reparadoras. Acrescentou a promessa formal de conceder copiosos favores espirituais para quem praticasse tal devoção.

A religiosa alegou sua indignidade e incapacidade de realizar a missão, e recebeu esta resposta: 

“Dirige-te a meu servo Cláudio e dize-lhe, de minha parte, que faça todo o possível para estabelecer esta devoção e dar esse gosto a meu Divino Coração; que não desanime diante das dificuldades que encontrará, pois estas não faltarão, mas ele deve saber que é todo poderoso quem desconfia de si mesmo para confiar unicamente em Mim”.8

Assim, na sexta-feira seguinte, São Cláudio, Santa Margarida e a comunidade da Visitação de Paray-le-Monial celebraram, pela primeira vez, a Festa do Sagrado Coração de Jesus, consagrando-se inteiramente a Ele.

Missão junto à Duquesa de York

Quando estava no auge de suas atividades em Paray-le-Monial, o padre de La Colombière recebeu ordem de partir para Londres, como capelão da Duquesa de York, Maria de Módena, que era católica fervorosa e só consentira em se casar com o Duque, irmão de Carlos II, após ser autorizada pelo governo inglês a ter sempre um sacerdote junto a ela.

Por meio da santa vidente, o Coração de Jesus recomendou a São Cláudio algumas atitudes a serem observadas em sua nova missão: não se assustar com a investida dos infernos contra seu carisma para atrair as almas, mas confiar inteiramente na bondade de Deus, pois seria Ele seu sustentáculo; usar de doçura e compaixão para com os pecadores; ter o cuidado de nunca separar o bem de sua fonte.9

Sua partida foi muito dolorosa para Santa Margarida, valendo-lhe uma censura de Nosso Senhor: “Não te basto Eu, que sou teu princípio e teu fim?”.10

De sua parte, São Cláudio permaneceu fiel ao voto e aos propósitos feitos no período da Terceira Provação, mantendo-se, “sem reservas”, afastado da vida da Corte. Sendo capelão da Duquesa de York, vivia no palácio Saint James, mas fazia-o num regime de profundo recolhimento e grandes mortificações. Preocupava-se apenas em propagar a devoção à Sagrada Eucaristia e ao Sagrado Coração de Jesus, apesar das dificuldades criadas pela hostilidade contra a Igreja.

Acabou, entretanto, por converter famílias inteiras e atrair para a vida consagrada muitos membros da aristocracia londrina. Alguns destes os encaminhou para instituições religiosas na França; outros, os reuniu na própria Londres, num mosteiro clandestino, por ele fundado, próximo da Catedral de São Paulo.

Foi por essa época que Titus Oates acusou injustamente os jesuítas e outros membros da Igreja de estarem tramando o assassinato de Carlos II, a fim de substituí-lo por seu irmão, o Duque de York, convertido ao catolicismo. Embora o próprio rei considerasse absurda essa denúncia, ela deu origem a violentas perseguições contra os católicos, injustamente acusados de terem participado no chamado “complô papista”.

A pretexto de tais acontecimentos, São Cláudio foi denunciado e encarcerado pelo crime de proselitismo religioso. Cumpria-se, assim, a premonição que tivera quatro anos antes, quando se havia visto “coberto de ferros e correntes, e arrastado a uma prisão, acusado, condenado por ter pregado Cristo crucificado”.11

As péssimas condições da enxovia onde foi lançado terminaram de minar sua saúde, já debilitada por uma tuberculose incipiente. Ali teria morrido em pouco tempo, se não tivesse sido libertado por força de uma intervenção de Luís XIV.

Consumação do holocausto

Chegou de volta à França em meados de 1679, quase sem forças. Depois de recuperar um pouco a saúde, dirigiu-se para o Colégio da Santíssima Trindade, em Lyon, onde outrora fizera seus primeiros estudos, para assumir o cargo de diretor espiritual dos alunos de Filosofia. Ali, embora fisicamente muito desgastado, não deixava de propagar a devoção ao Divino Coração, defendendo-a contra os inúmeros ataques e incompreensões de que era objeto.

No inverno de 1681, retornou a Paray-le-Monial, cujo clima parecia resultar-lhe um pouco mais benéfico. À vista, porém, do intenso frio daquela rigorosa estação, pensou-se em trasladá-lo para Vienne, onde ficaria os cuidados de seu irmão, arcediago daquela Diocese. Mas o superior da casa mandou-lhe permanecer, após ter recebido São Cláudio um bilhete de Santa Margarida, com este recado do seu Divino Amigo: “Ele me disse que quer o sacrifício de sua vida aqui”.12

O holocausto não tardaria muito em ser consumado. Em 15 de fevereiro de 1682, com apenas 41 anos de idade, Cláudio de La Colombière foi encontrar-se com Aquele de quem fora servo fiel e amigo perfeito nesta Terra. Algumas horas depois dos funerais, Irmã Margarida, cujo coração permanecia unido ao seu, no Sagrado Coração de Jesus, pôde fazer esta recomendação: “Deixem já de afligir-se; invoquem-no com toda confiança porque ele pode socorrer-nos”.13

Contudo, a grande missão de São Cláudio só se realizaria plenamente muitos anos depois, em 8 de maio de 1928, quando Pio XI elevou à suprema categoria litúrgica a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, por meio da encíclica Miserentissimus redemptor.

Um ano mais tarde, Cláudio de La Colombière seria beatificado pelo mesmo Papa. E coube a João Paulo II, em 31 de maio de 1992, a honra de incluir no catálogo dos santos o nome deste sacerdote jesuíta, tão amado pelo Divino Coração de Jesus. ²

1 DUFOUR, Gérard. Na Escola do Coração de Jesus com Cláudio de La Colombière. São Paulo: Loyola, 2000, p.7.
2 SANTA MARGARIDA MARIA ALACOQUE. Autobiografia. São Paulo: Loyola, 1985, p.59.
3 SÃO CLÁUDIO DE LA COLOMBIÈRE. Oeuvres, II, 99, apud GUITTON, SJ, Jorge. El Beato Cláudio La Colombière: su medio y su tiempo. Bilbao: El Mensajero del Corazón de Jesús, 1956, p.26.
4 SÃO CLÁUDIO DE LA COLOMBIÈRE. Reflexões cristãs, Oeuvres, V, 429, apud GUITTON, op. cit., p.121.
5 DUFOUR, op. cit., p.14-15.
6 SANTA MARGARIDA MARIA ALACOQUE, op. cit., p.61.
7 SANTA MARGARIDA MARIA ALACOQUE, Ouevres complètes, VI, 118 s, apud GUITTON, op. cit., p.156.
8 Idem, p.157.
9 Cf. DUFOUR, op. cit., p.19.
10 SANTA MARGARIDA MARIA ALACOQUE, Autobiografia, op. cit., p.68.
11 GUITTON, op. cit., p.116.
12 DUFOUR, op. cit., p.20.
13 ECHEVERRÍA, Lamberto de. San Cláudio de La Colombière. In: ECHEVERRÍA, L., LLORCA, B., BETES, J. (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2003, v.II, p.340.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

São Clemente Maria Hofbauer


Exemplo de constância e confiança diante das aparentes contradições no cumprimento do chamado divino.

 A vida de São Clemente Maria Hofbauer se reveste de um interesse particular, pelo fato de nos servir como exemplo de confiança e perseverança no meio das adversidades.
Com efeito, sua existência se compõe de dois aspectos. Primeiro, uma longa trajetória de ziguezagues, na qual ele, homem inteligente e dotado de maravilhoso poder de atração e de persuasão, parecia fadado a uma vida quebrada, errada, fracassada. Dir-se-ia que a Providência o chamou para algo superior, mas orientou seus passos num rumo diverso, fazendo-o conhecer, larga e dolorosamente, as vias de um ziguezague aparentemente incompreensível.
O segundo aspecto é o da vitória sobre o primeiro. Após uma série curiosa de circunstâncias, tudo se transforma nos dez últimos anos da vida de São Clemente. Ele se viu transferido para Viena, cidade-chave dos acontecimentos políticos e sociais europeus do seu tempo, e ali esse homem, até então posto à margem, exerceu profunda influência nas almas de pessoas igualmente chaves, e realizou assim a missão para qual fora suscitado por Deus.
Após sua morte, em idade não muito avançada, multiplicaram-se os milagres operados por sua intercessão. Abriu-se o inquérito de sua existência, sua santidade foi comprovada e a Santa Sé o canonizou. É o grande São Clemente Maria Hofbauer.
Vejamos a sua história.
Piedoso desde menino
Ele nasceu no território do antigo Império Austro-Húngaro, cuja capital era Viena, debaixo de certo ponto de vista o centro de gravidade da Europa. Seu pai, de origem tcheca, era um homem de condições bastante modestas, e mudou-se com a família para Viena, à procura de melhores oportunidades. O jovem Clemente contribuía para aumentar o orçamento doméstico: levantava-se de madrugada e, nas primeiras horas do dia, punha-se a distribuir pães pelas ruas de Viena que despertava.
Pelo que consta em suas biografias, foi desde menino muito piedoso e devoto da Santíssima Virgem. Freqüentava os sacramentos, e levava uma existência modelar, ocupada, semeada de trabalhos, na qual a graça lhe falava e atuava na alma.
Assim, enquanto entregava os pães, Clemente refletia, dava-se a meditações cujo fundo, pode-se entrever, era essencialmente religioso e que o amadureciam para, em determinado momento, encontrar sua vocação.
 Eremita nas florestas européias
Após algum tempo desse cotidiano de esforços e reflexões, e ainda durante seus afanosos dias, através da ajuda de benfeitores que se interessaram por ele, São Clemente pôde cursar a universidade, e se mostrava aluno muito estudioso.
Certa ocasião a graça lhe bate à porta da alma: “Tu serás ministro de Deus. Interrompe teu curso acadêmico e dirige seus passos para a vida sacerdotal”. E no intuito de prepará-lo para ingressar nessas novas vias, Nosso Senhor o inspirou a se tornar eremita. Naquele tempo, a Europa era muito menos povoada, havia regiões silvestres mais abundantes do que em nossos dias, e os desejosos de se retirarem do mundo iam viver nas florestas, como outrora viviam os eremitas nas tebaidas do Egito.
Na congregação redentorista
Após um tempo de isolamento, São Clemente Hofbauer movido pela graça procura outro eremita que habitava pela mesma região, e lhe disse: “Irmão Hübl (era o nome do amigo), façamos uma peregrinação a Roma, a pé, porque lá nos espera um maior chamado de Deus”.
Hübl aceitou. Partiram, atravessando aqueles desfiladeiros, vales e montanhas, correndo toda espécie de perigos, até alcançarem a Cidade Eterna, onde se hospedaram numa pensão qualquer. No dia seguinte, pela manhã, decidiram ir à Missa. São Clemente disse ao companheiro: “Roma é tão grande, tem centenas de igrejas, e não sabemos a qual ir. Então, a igreja cujo sino ouvirmos em primeiro lugar, é aquela onde assistiremos a Missa. Vamos esperar que ali haja algo da Providência para nós.”

Dali a pouco, no meio do silêncio de uma Roma ainda sonolenta, o eco de um sino se fez ouvir. Os dois logo se puseram a caminho em direção ao local de onde partia o som, e encontraram uma pequena igreja. Entraram e se sentiram inundados de consolação ao participar da celebração eucarística. Todo o ambiente lhes pareceu muito piedoso. Era uma igreja dos padres redentoristas, filhos de Santo Afonso de Ligório.
Ao término da Missa, São Clemente e o amigo procuraram se informar a respeito da instituição que cuidava daquele templo, e lhes explicaram tratar-se de uma obra destinada a difundir em todas as classes sociais a doutrina católica e a religião, por meio da oratória e da pregação.
São Clemente sentiu que era aquele o chamado de Deus. Solicitou um encontro com o superior daquela comunidade, e expôs a este os seus anseios.
— Ora, então o senhor acaba de encontrar o que procura — respondeu-lhe o padre. — A vocação que deseja abraçar é essa, ela realiza seus desejos.
— Quer dizer que o senhor nos aceita como noviços redentoristas?
— Aceito!
Seria normal que ambos estivessem de pleno acordo, e o amigo fosse um poderoso auxiliar para São Clemente. Pelo contrário, tornou-se naquele momento um fardo. Se São Clemente desistisse, provavelmente ter-se-ia mudado a história da congregação redendorista e de uma importante obra da Igreja. Não desistiu. Insistiu, perseverou, convenceu o amigo e os dois ingressaram na ordem redentorista
Precioso ensinamento para nós. Se quisermos andar depressa rumo a santidade, carreguemo-nos de fardos. Suportemos tudo, sejamos amáveis para com os ingratos, e o nosso objetivo caminhará em direção a nós. A distância rumo ao céu se encurta, se aceitarmos escolhos nas nossas costas. Aceitemos as atrapalhações, como Nosso Senhor Jesus Cristo aceitou a cruz.
De cidade em cidade, fazendo o bem
Entram na congregação redentorista, são ordenados padres, e recebem do superior geral a incumbência de fundar uma casa e fazer apostolado em Varsóvia, na Polônia. Ali, acompanhados de um terceiro, hospedam-se nas dependências de um convento quase em ruínas, onde quatro padres de uma ordem em extinção lhes deram abrigo. O lugar era uma velha tapera. São Clemente e os dois companheiros começaram a trabalhar, a pregar missões, e atraíram o povo. O velho convento encheu-se de gente, o fervor reverdeceu nas almas, e a vida de piedade se desenvolvia naquela região.
Foi o bastante para incomodar as autoridades civis e anticlericais sob cujo governo eles se achavam. Não demorou para que viesse um decreto ordenando o fechamento do convento. São Clemente consulta o geral dos redentoristas, e recebe a resposta: “Partam para a Suíça, procurem as cidades católicas e ali se estabeleçam. Se forem expulsos de um lugar, dirijam-se para outro. E assim vão passando de cidade em cidade, fazendo o bem”.
Não é difícil compreender que vida de ziguezague e de vaivens que tal programa anunciava. E assim foi, literalmente. Estabeleciam-se numa cidade, pregavam, colocavam a vida religiosa do povo em ordem, e, pouco depois, uma ordem do governo local os expulsava.
Anos e anos de apostolado transcorreram dessa maneira. Por toda a parte aonde ia, São Clemente fazia o bem, e muito bem. Mas, a Providência permitia que logo fosse removido, à semelhança de uma plantação que o agricultor é obrigado a transferir de terra para terra, sem que nenhuma produza todos os frutos que se era de se desejar. São Clemente passou, na aparência, fazendo ninharias fracassadas ao longo de mais ou menos vinte anos de sua vida.
No centro do movimento romântico
Afinal de contas, depois de percorrem as cidades católicas da Suíça, recebem ordem do superior geral de retornarem a Viena.
De volta à capital do império, São Clemente começou a prestar assistência religiosa nessa e naquela igreja, num convento e noutro, e, a partir daí, a ter uma certa influência nos meios católicos vienenses.
As vias da Providência, através de sendas tortuosas, o encaminharam para aquela situação. Depois de tanto labutar em terrenos menos férteis, São Clemente Maria Hofbauer se viu posto no próprio centro de um movimento que, naquele tempo, ia tomando conta da Europa, e que tinha em Viena um de seus principais focos de irradiação: o chamado movimento romântico. De tal maneira que alguns homens, cujos nomes se acham nos compêndios de Filosofia, tornaram-se comensais de São Clemente, porque foram por este convertidos.
O apostolado do santo tomava envergadura e alcançava ótimos resultados. Aquelas celebridades anunciavam sua conversão e passavam a ser excelentes católicos, militantes, empenhando-se em atrair outros para a Igreja.
Por razões de vida social, esses intelectuais eram ligados a pessoas da nobreza de Viena e, sobretudo, de Budapeste. Assim, estabeleceram-se assíduas relações entre São Clemente Hofbauer e os nobres húngaros, donde também resultaram inúmeras conversões.

Com isso, o movimento romântico mudou de figura e passou a ser organizado por São Clemente, de propósitio, para dar uma orientação católica aos rumos do império austro-húngaro. Ele procurou constituir uma obra, não predominantemente de padres, mas de leigos postos em situações estratégicas na vida social e política, alguns com altos cargos diretivos, que tinham por missão trabalhar no respectivo meio de maneira a formar um grupo católico de irradiação. Através dessa influência, poderiam alcançar o objetivo que os norteava, ou seja, alicerçar a sociedade nos fundamentos da doutrina católica apostólica romana.
Ação de presença no apostolado
É interessante salientar um aspecto do apostolado de São Clemente Maria Hofbauer: o modo como ele convertia as pessoas.
Pelas narrações de sua vida, percebe-se que São Clemente era uma inteligência pouco acima da média, em comparação — note-se — com os filósofos e pensadores inteligentíssimos que se deixavam convencer por ele. Então, alguns redentoristas, curiosos de saber o “método” empregado pelo santo, procuravam esses convertidos e lhes perguntavam como as coisas tinham se passado, se eles haviam se tocado por um jogo da razão ou por uma ação da graça.

 Resposta: “Pela razão e pela graça. Clemente argumenta muito bem. Mas, além disso (e vem aqui o papel da graça), há algo nele de indefinido que nos toca no mais fundo da alma, fazendo-nos compreender a argumentação dele e, ao mesmo tempo, nos comovendo a respeito dessa argumentação. De maneira que ele não é um mero professor que atrai e convence, mas também um formador que move para a ação”.
Os inquiridores insistiam: “Como assim, algo indefinido?”
Os outros diziam: “Pelo modo de Clemente falar, pela sua personalidade imponente e influente, pela sua extrema bondade. Enfim, porque ele é ele. Não sabemos explicar exatamente como é, mas é assim! E estamos persuadidos.”
São Clemente tinha, portanto, sua boa e santa influência afirmada. A missão para a qual a Providência o suscitara estava cumprida. Pouco depois ele entregaria sua alma ao Criador. Obediente à vontade divina, submeteu-se aos sofrimentos dos caminhos tortuosos. Mas, após ter provado todo o seu desinteresse e sua submissão caminhando nessa via sem sentido, num momento tudo se lhe abriu para que realizasse seu chamado.
Esta é, para todos nós, a grande lição da vida de São Clemente Maria Hoffbauer.