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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

São João Berchmans

Quando São Tomé inquiriu Nosso Senhor acerca do rumo que deveriam tomar seus discípulos para seguir suas pegadas, Jesus não indicou outro caminho senão a Si mesmo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 16, 6). Ensinava assim o Mestre que Ele personificava a doutrina que pregava. Nesse sentido, algo análogo pode ser dito dos fundadores das Ordens Religiosas, cuja espiritualidade própria a cada carisma é o sendeiro por onde seus filhos devem trilhar para o cumprimento da sua vocação.
Exemplo paradigmático foi Santo Inácio de Loyola, que almejou a santidade com todas as veras de seu coração e soube “formar a mentalidade de seus seguidores de acordo com o que hauriu da Igreja, encaminhando-os à perfeição. E os jesuítas, por sua vez, procuravam se conformar a Santo Inácio, tendo não poucos alcançado de fato a heroicidade de virtudes”.1 Um desses foi São João Berchmans.

terça-feira, 24 de junho de 2014

São Luís, Rei de França

Cavaleiro e religioso, patriarca e rei, seu maior título de glória é o de ter vivido sempre sob o olhar de Deus e a serviço da Divina Majestade.
É difícil não se maravilhar contemplando a diversidade de figuras formadas num caleidoscópio pela luz ao atravessar alguns pedaços de vidro colorido, por ela como que transformados em cristais e pedras preciosas.
Ora, essa forma de beleza, ao mesmo tempo una e multiforme, bem pode simbolizar a riqueza de certas almas bem-aventuradas, cujo peregrinar por esta Terra desvenda aspectos de espírito tão variegados quanto os policromos desenhos apresentados por esse singelo instrumento.
São Luís IX, rei e patrono de França, é uma dessas almas fecundas em santidade sob as mais variadas facetas. A vastidão de seus empreendimentos e a diversidade de aspectos da sua vida inspiraram um famoso escritor francês a afirmar que nele “não se sabe o que mais admirar, se os atos do cavaleiro, do religioso, do patriarca, do rei ou do homem”.1
Nascido em pleno século XIII, coube a ele governar um dos principais reinos da Europa em circunstâncias bem diferentes das atuais. Naquele tempo fazia parte dos encargos do Soberano, por exemplo, conduzir o exército para a guerra e lutar pessoalmente à frente de suas tropas. Teria sido incompreensível, como afirma Daniel-Rops, que um rei tão poderoso não tomasse parte no empreendimento das Cruzadas. Entretanto, acrescenta o historiador francês, “ao fazê-lo, devolveu-lhes a dignidade, a pureza de intenção e de comportamento que há tempos havia perdido”.2
Ele pode ser considerado, antes de tudo, um homem que queria viver sob o olhar de Deus. Raramente se viu pessoa tão compenetrada de pertencer mais ao Céu que à Terra. Ao ponto de Joinville, seu fiel amigo e biógrafo, resumir assim a sua vida: “Este santo homem amou a Deus de todo o seu coração, e O tomou como modelo em suas obras”. 3
Rei aos 12 anos de idade
Luís IX nasceu em 25 de abril de 1214, na cidade de Poissy, próxima de Paris. Era o quarto filho de Luís VIII, cognominado Leão, e de Branca de Castela.
Foi, sobretudo, desta virtuosa princesa que o santo rei recebeu os principais ensinamentos da nossa Religião: o amor a Deus e à Santíssima Virgem, o apreço pela virtude e a aversão ao mal. Quando ela tomou em seus braços o menino logo após seu Batismo, osculou-o no peito, dizendo: “Filhinho, que agora és um templo do Espírito Santo, conserva-o sempre imaculado e jamais o manches por um pecado”. Esta boa mãe não hesitava em repetir-lhe, com muita sinceridade, que preferia vê-lo morto a sabê-lo manchado por um pecado mortal.
Corriam serenamente os anos da educação de São Luís, quando em 8 de novembro de 1226, voltando de uma campanha vitoriosa contra os cátaros do sul da França, Luís VIII faleceu, aos 40 anos de idade. Além da grande dor pela perda do esposo e pai, esse acontecimento acarretava sérias consequências, pois o herdeiro do trono contava apenas 12 anos!
Entretanto, o rei havia manifestado aos nobres cavaleiros, reunidos em torno de seu leito mortuário, suas últimas recomendações: “Que Luís, meu filho, seja prontamente conduzido a Reims, para lá ser coroado. Que ele esteja sob os cuidados e a tutela de Branca, minha querida esposa, e que o Condestável Montmorency seja para ela um bom conselheiro”.4 A derradeira ordem de Luís VIII não tardou em ser cumprida: em 30 de novembro de 1226, São Luís foi coroado rei de França.
O governo da família e do reino
Branca de Castela assumiu a regência e enfrentou, com energia e sagacidade, as perigosas ameaças da Inglaterra, as orgulhosas pretensões da nobreza feudal e uma nova revolta dos hereges albigenses.
Finalmente, em 1234, aos 20 anos de idade, São Luís assumiu o governo do Reino Cristianíssimo. Todavia, manteve a mãe a seu lado, numa posição de confiança e poder, continuando a mostrar-se filho obediente e respeitoso. Foi ela quem concertou o casamento do jovem rei com Margarida de Provença, celebrado em 27 de maio de 1234. Desta união nasceram-lhes 11 filhos, aos quais o próprio São Luís encarregava-se de dar cuidadosa e esmerada educação.
Instruía-os, sobretudo, à noite, depois de recitar as Completas. Fazia-os entrar em seu quarto e os motivava a uma vida virtuosa, contando-lhes histórias de santos, bons reis e imperadores, e recomendando-lhes haurir deles os exemplos de virtudes.
Ocupava-se de modo especial em transmitir aos filhos o hábito da oração, a assistência à Santa Missa, a recitação das Horas Litúrgicas e a devoção a Nossa Senhora; exortava-os a jamais se descuidar da vida espiritual e a desprezar desprezar os prazeres e as vaidades mundanas.
Um testemunho desses santos ensinamentos ficou registrado para a História na Carta Testamentária deixada a seu filho Filipe: “Começo por querer ensinar-te a amar ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com todas as forças; pois sem isto não há salvação. Filho, deves evitar tudo quanto sabes desagradar a Deus, quer dizer, todo pecado mortal, de tal forma que prefiras ser atormentado por toda sorte de martírios a cometer um pecado mortal”.5
Esse mesmo espírito de Fé marcou o seu longo reinado, durante o qual a bênção de Deus acompanhou-o visivelmente, proporcionando o bem-estar público, a paz e a prosperidade. Apoiou as corporações de ofício e regulou os costumes, dando estrutura e estabilidade às organizações da plebe. Foi um alentador de todas as formas de autonomia, mas soube ao mesmo tempo ser, sem despotismo, o centro enérgico e vivo do reino.
Justiça sem demoras nem burocracias
São Luís tornou-se célebre por seu proverbial espírito de justiça e equidade. Para coibir as transgressões e excessos dos juízes, oficiais e outros cargos públicos, nomeava juízes extraordinários a fim de examinar sua conduta e rever seus julgamentos. Premiava os que exerciam com honra e responsabilidade seus O governo da família e do reino encargos. E aos que agiam mal, aplicava exemplar punição.
E, coisa espantosa para os homens dos nossos dias, ele mesmo julgava, sem demoras nem burocracias, os pleitos que eram levados ao seu conhecimento sob o famoso carvalho de Vincennes. Ouçamos a Joinville, em sua linguagem singela e franca, nos traçar um esboço dessas sessões:
“Acontecia com frequência de, após a Missa, ele ir sentar-se no bosque de Vincennes, debaixo de um carvalho, e nos fazer sentar ao seu redor. E todos quantos tinham alguma questão a resolver vinham falar-lhe, sem empecilhos de guardas nem nada do gênero. Ele então lhes perguntava: ‘Alguém quer apresentar uma queixa?’. Levantavam-se logo os que tinham reclamações a fazer. Dizia-lhes ele: ‘Calai-vos todos, sereis atendidos um após o outro’. Em seguida, designava Monseigneur Perron de Fonteinnes e Monseigneur Geffroy de Villete e dizia a um deles: ‘Resolva-me este litígio’. E quando percebia alguma coisa a corrigir nas palavras daqueles que falavam em seu nome, ou em nome de alguma das partes, ele mesmo fazia a retificação”. 6 Perron de Fonteinnes e Geffroy de Villete eram juristas de reconhecida competência.
Justiça e misericórdia alternavam-se em suas decisões. O próprio irmão de Luís IX, Carlos d’Anjou, que mandara prender injustamente um cavaleiro, foi intimado a comparecer em Vincennes e ali se apresentou acompanhado por seus melhores especialistas. Mas o cavaleiro tinha como advogados, por ordem do rei, os mais ilustres conselheiros jurídicos da Coroa, e obteve a justa reparação.
Vida privada de religioso
Detentor dos mais altos títulos de nobreza, esse rei de França preferia assinar simplesmente “Luís de Poissy”, pois nessa cidade recebera o Batismo e considerava sua maior dignidade o ter sido batizado. Em meio a todas as suas obrigações de soberano, recitava todos os dias as Horas Litúrgicas e lia com assiduidade a Sagrada Escritura e os Padres da Igreja.
Confessava-se com frequência e exigia, como penitência, que o confessor o açoitasse com um flagelo trazido por ele mesmo. Segundo alguns autores, levava sua devoção a este Sacramento a ponto de não permitir ao sacerdote chamá-lo de “majestade”, pois no Tribunal da Reconciliação ele não era rei, mas filho, e o Ministro de Deus não era súdito seu, mas pai.
Seu amor a Deus e aversão ao pecado tornavam-no capaz de suportar quaisquer males. Um dia perguntou a seu fiel amigo e conselheiro:
— Joinville, o que preferes: contrair a lepra ou cometer um pecado mortal?
— Prefiro cometer trinta pecados mortais a contrair a lepra!
— Falas como um insensato — contestou o rei —, pois não há lepra tão vil como a de estar em pecado mortal. É verdade que, ao morrer, o homem livra-se da lepra do corpo; mas quem cometeu pecado mortal não tem certeza, na hora da morte, se seu arrependimento é suficiente para obter o perdão de Deus. Assim, peço-te que, por amor a Deus e a mim, prefiras padecer em teu corpo a lepra e toda outra doença, a ter em tua alma o pecado mortal.7
Seu amor ao próximo e sua solicitude para com os pobres eram reflexo do desvelo da Divina Providência. Conta-se que, numa abadia próxima a Paris, havia um monge no qual a lepra já devastara toda a face. O santo rei o visitava regularmente. Em certa ocasião, levou-lhe perdizes de sua cozinha para alimentá-lo melhor e ajudou-o a comer, colocando os pedaços de carne em sua boca.
Insigne fruto desse fervor é um monumento que atravessou os séculos, causando até hoje admiração em todos quantos o visitam: a Sainte-Chapelle. Construída para abrigar uma relíquia da coroa de espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo, ela é um resumo da fé e grandeza dessa alma régia! Quando em 1239 chegou a terras francesas a preciosa relíquia, o piedoso monarca foi recebê-la nas proximidades de Sens e depositou-a provisoriamente na Capela de São Nicolau. Inaugurada em 1248 a Sainte-Chapelle, instalou-a nessa capela-relicário por ele idealizada com tanta veneração.
Um vencido admirado pelo vencedor
A esta alma tão cheia de fé e convicta de sua filiação divina, era-lhe impossível não viver unida de modo radical à Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, de acordo com as necessidades e critérios da época.
Assim, em agosto de 1248, partiu do porto de Aigues Mortes, ao som do Veni Creator Spiritus, comandando a VII Cruzada, e em junho do ano seguinte conquistou a cidade de Damieta, no Egito.
Após nove meses de penosas marchas, o exército cristão chegou a Mansurá em fevereiro de 1250. Um imprudente ataque a essa cidade, comandado pelo irmão do rei, Roberto de Artois, acarretou consequências desastrosas. Seguiu-se uma série de batalhas nas quais São Luís se distinguia por sua coragem, e os adversários eram repelidos. Em breve tempo, porém, os francos tiveram de enfrentar dois terríveis inimigos: primeiro a fome, depois a peste provocada pelo apodrecimento de grande quantidade de cadáveres. O próprio rei foi atingido pela enfermidade e feito prisioneiro em abril de 1250.
Durante pouco mais de um mês de cativeiro sob o domínio do sultão do Cairo, a todos causava admiração por sua coragem, piedade e grandeza de alma.
Depois do pagamento de um vultoso resgate e da entrega da cidade de Damieta, o santo rei e os demais cruzados foram libertados e embarcaram para São João de Acre. São Luís permaneceu no Oriente por mais quatro anos, que aproveitou para estabelecer vantajosas alianças e fortalecer as cidades cristãs da Síria.
Morte da mãe e partida para Túnis
Na primavera de 1252, chegou-lhe a notícia do falecimento de sua mãe, Regente do Reino. Após derramar uma torrente de lágrimas, rezou, ajoelhado diante de um altar: “Dou-vos graças, ó meu Deus, por me terdes dado tão boa mãe. [...] Vós sabeis que eu a amava acima de todas as criaturas, mas como é preciso, antes de tudo, que se cumpram os vossos decretos, que vosso nome seja bendito nos séculos dos séculos”.8
A morte de Blanca de Castela impôs ao rei a obrigação de voltar à França, onde ele desembarcou em abril de 1254. Os anos subsequentes foram empregados na administração e organização do reino. Em 1258 consegue que Henrique III, da Inglaterra, assine um acordo de paz com o reino de França.
Em julho de 1270, partiu para Túnis, na África. Enumeram-se várias razões para a escolha dessa cidade como primeiro objetivo da nova Cruzada. Todavia, para São Luís, a principal causa era sua esperança de converter à Fé Cristã o sultão daquelas terras.
Após tomar facilmente a cidade de Cartago, o rei decidiu aguardar a chegada de Carlos d’Anjou com suas tropas, para atacar Túnis com o máximo de forças. Mas logo a situação tornou-se insustentável para os cruzados, reduzidos à inação sob o escaldante calor africano, com escassez de água potável e em precárias condições de higiene. Não tardou a alastrar-se uma epidemia que ceifou o exército.
Com a saúde já muito debilitada, o rei foi um dos primeiros a ser prostrado pelo terrível mal. Durante um mês de sobrevida, empregou os últimos esforços para instruir seus filhos, em especial Filipe, o herdeiro. Nos últimos dias, quase não conseguia falar. Na véspera de sua morte, pediu a Sagrada Comunhão; em seguida, quis ser colocado no chão, sobre cinzas e com os braços em cruz, e ouviram-no murmurar: “Senhor! Entrarei em vossa casa e vos adorarei no vosso santo tabernáculo”.9 Ditas estas palavras, cerrou os olhos e “rendeu ao Criador o seu espírito, na mesma hora que o Filho de Deus morreu na Cruz para a salvação do mundo”.10 Era o dia 25 de agosto de 1270.
Assim passou desta vida para a eternidade aquele que, vivendo sempre sob o olhar de Deus, dedicou toda a sua existência ao serviço e louvor da Divina Majestade.
1 CHATEAUBRIAND, François-René de. Oeuvres Complètes de M. le Vicomte de Chateaubriand. Études Historiques. Paris: Pourrat Fréres, 1836, t.VI, p.178.
2 DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja das Catedrais e das Cruzadas. São Paulo: Quadrante, 1993, v.III, p.522-523.
3 JOINVILLE, Jean de. Histoire de Saint Louis, Credo et Lettre à Louis X. Paris: Firmin Didot Frères, Fils et Compagnie, 1874, p.11.
4 LEVRON, Jacques. Saint Louis. Paris: Le Livre Contemporain, 1957, p.17.
5 ACTA SANCTORUM AUGUSTI 5 [1868], 546. Do Testamento Espiritual de São Luís a seu filho, apud LITURGIA DAS HORAS. Aparecida: Vozes; Paulinas; Paulus; Ave-Maria, 1999, v.IV, p.1227.
6 JOINVILLE, op. cit., p.34.
7 Idem, p.15-16.
8 MICHAUD, Joseph-François. História das Cruzadas. São Paulo: Américas, 1956, v.V, p.151.  
9 Idem, p.260.
10 JOINVILLE, op. cit., p.407.

 Revista Arautos do Evangelho n.116 ago 2011

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Beato Stefano Bellesini, OSA

Quem visitar o norte da Itália conhecerá o maior centro educacional, científico, financeiro e político do país. Bem nessa região se situa Trento, a capital do Trentino-Alto Ádige, que ainda guarda o aspecto do tempo em que o importante Concílio do século XVI deu vigoroso impulso à Igreja, afirmando-a como Corpo Místico de Cristo.
Dominada pelo Castelo do Bom Conselho, Trento foi também o berço, para a vida terrena, de um membro desse Corpo Místico:  Luigi Giuseppe Gioacchino Bellesini — o Beato Stefano Bellesini —, cuja festa se celebra no dia 3 de fevereiro. Na sua pessoa, a célebre cidade trentina teceria laços com uma humilde e pitoresca cidade do Lazio, Genazzano, também dominada e tornada célebre por outro Bom Conselho, o de Maria, cujo belo ícone é conservado na Basílica-Santuário.
Na perspectiva deste ano sacerdotal, conheçamos alguns aspectos da vida desse virtuoso pároco, que bem figura ao lado do Santo Cura d’Ars — seu contemporâneo e apenas doze anos mais jovem.
Um mundo novo a ser descoberto
Nascido em 25 de novembro de 1774, Luigi foi batizado na mesma igreja onde se celebrara o Concílio havia dois séculos.
Seus progenitores, o casal Bellesini, pertenciam à burguesia acomodada de Trento e gozavam de muito prestigio. O pai, Giuseppe, de caráter reservado, era bom notário, honrado, justo e piedoso. A mãe, Maria Orsola Meichlpeck, belga de família ilustre, dedicava-se totalmente ao esposo e aos filhos. E, contrariamente às senhoras da boa sociedade de seu tempo, ocupava-se pessoalmente dos afazeres domésticos.
Junto com seu irmão Angelo, Luigi frequentava desde criança o convento dos agostinianos na Piazza Duomo, pois o prior, o padre Fulgenzio Meichlpeck, era seu tio. Para o caçula dos Bellesini, havia naquele convento de São Marcos um mundo novo a ser descoberto: gostava de entrar no claustro, passear pela colunata secular e respirar aquele ar de fé, entre as melodias dos pássaros e dos salmos. Aquele ambiente fez desabrochar no coração do menino um grande chamado para a vida religiosa.
Quando a mãe levou Angelo para ser examinado pelo pároco de Santa Maria Maior, a fim de verificar se estava maduro para a Primeira Comunhão, Luigi, que os acompanhava, estava ansioso para ser também interrogado. O sacerdote, observando o pequeno, o examinou e lhe pareceu mais preparado que o irmão, admitindo-o junto aos outros meninos. A mãe objetou, pois ele tinha apenas sete anos, e naquele tempo comungar nessa idade era impensável. Ao que o pároco argumentou: “O desejo de Deus não se mede com a idade”.1
Começando os estudos, Luigi recebia a ajuda do primogênito da casa — Giuseppe, que se havia ordenado sacerdote e vivia com a família —, especialmente no latim e no grego. Admirava especialmente este irmão, pois desejava ser sacerdote, mas não como ele: queria ser religioso.
Do noviciado ao sacerdócio
Não tinha cumprido ainda os quinze anos o jovem Bellesini quando em Paris caiu a Bastilha e os ecos da Revolução se espalharam por toda a Europa. Trento foi também atingida pelos ventos de revolta e o anseio pelo gozo desenfreado da vida.
Mas Luigi não se deixou levar pelos novos ares. Conservando-se “inimigo de tudo o que se opusesse à conveniência e à decência”,2 ia maturando na alma um anseio: a plena consagração a Deus. E para isto, a vida agostiniana lhe parecia o melhor ideal.
Aos 17 anos foi aceito como noviço no convento de São Marcos, onde foi apresentado como sendo “de costumes angélicos, devoto, obediente, assíduo aos Sacramentos, de vida calma e edificante para os próprios religiosos”.3 Seu coração ficou marcado pelas palavras do cerimonial de recepção de hábito: “De agora em diante, deve considerar-se morto para o mundo, deve renunciar a todo afeto, até mesmo o mais casto, deve viver sobre a terra como um Anjo do Céu”.4 A partir de então, recebeu o nome de Stefano.
De Trento foi transferido para Bolonha e, em 30 de maio de 1794, havendo cumprido um ano de noviciado, regressou a São Marcos, onde professou solenemente.
No outono do mesmo ano, viajou até Roma para fazer o curso de Filosofia no convento de Santo Agostinho. Começavam para ele o que chamaria depois de “primeiros anos lógicos”, durante os quais passava longas horas estudando, sem se entregar à dissipação. Após um ano de estudos escolásticos, retornou para Bolonha a fim de cursar Teologia, e o fez merecendo os mais insignes elogios.
Quando as tropas de Napoleão invadiram os Estados Pontifícios, Stefano teve de deixar Bolonha e regressar a Trento, refugiando-se novamente em São Marcos. Desejava tão ardentemente receber as Ordens Sacras que, ainda débil e convalescente de uma grave enfermidade contraída nas vésperas, fez-se levar de maca para a cerimônia de ordenação sacerdotal, pois não queria adiá-la. Era 5 de novembro de 1797.
Pai e mestre dos pobres
Na primeira década do século XIX, as guerras napoleônicas tornavam especialmente instável a situação política da Itália e conturbavam a existência das instituições religiosas. Em 1809 foram supressos vários conventos, entre os quais o de São Marcos. Padre Stefano decidiu então executar um plano que há tempos vinha elaborando: ser apóstolo da juventude por meio de escolas gratuitas para todas as classes sociais, o que era uma grande novidade em seu tempo.
Começou usando a própria casa da família, o Palazzo Bellesini. Lá reuniu meninos e meninas que, além de nada pagarem, recebiam pão e o que mais necessitassem. Tornou-se ao mesmo tempo mestre e pai de cada jovem. Queria que seus alunos tivessem não só boa instrução escolar, mas também sólida formação cristã, e selecionava os professores segundo esse critério.
Quando ruiu o império napoleônico e os austríacos retomaram o governo da região, foi nomeado Inspetor Geral das escolas da Província de Trento, cargo retribuído com um bom salário, como categorizado funcionário do Estado. Padre Stefano desempenhou essa função com o zelo de um santo, empenhando-se de modo especial em preservar a juventude da corrupção.
De volta à vida religiosa
Em 18 de junho de 1815, a batalha de Waterloo marcou o fim do tufão napoleônico, que havia varrido o continente europeu. Em pouco tempo, a situação retomava uma relativa normalidade. Não tardou em chegar a Trento a notícia de que Pio VII retornara a Roma e que os monges começavam a se reinstalar nos respectivos conventos. O padre Stefano viu chegado o momento de voltar à vida comunitária, para a qual havia feito os votos solenes. Mas, como em Trento as portas continuavam fechadas aos filhos do grande Agostinho, em 1817 decidiu partir secretamente para Roma, deixando para trás êxitos e honras.
Sem passaporte, cruzou a fronteira de Ferrara a pé, trazendo na mão apenas o breviário. Passou rezando, quase sem ser notado pelos guardas, mas sua fuga se tornou conhecida pelo governo austríaco o qual, com a promessa de um maior salário e um emprego honorífico, tentou induzi-lo a voltar. Às promessas somaram-se as ameaças: se não reassumisse seu posto, ser-lhe-iam confiscados todos os bens. Mas, nem as promessas nem a ameaça conseguiram demovê-lo de sua resolução!
Em Roma, o padre geral, conhecendo sua capacidade de tratar com os jovens, nomeou-o mestre de noviços. Mas seu desejo era ir logo para Genazzano, onde pressentia que a vida comunitária seria a mais perfeita. Chegou a perguntar-se quais eram os desígnios da Providência que o faziam esperar tanto...
Mestre de noviços exemplar
Embora dotado de forte temperamento, padre Stefano era um excelente mestre de noviços.
Afável com todos, manso, jovial, humilde, espirituoso, suas palavras eram simples e cheias de bom senso. Nas mortificações, era sempre o primeiro, comendo pouquíssimo, tomando vinho só de vez em quando e dormindo em duras tábuas. Mas, dotado de forte temperamento, não deixava de corrigir quando necessário; sabia levar o culpado a reconhecer a própria falta, e dava-lhe os conselhos acertados.
De Roma, padre Stefano foi transferido para Città della Pieve, aonde chegou à vigília de Natal de 1822. Durante sua permanência naquele convento, também como mestre de noviços, sofreu muito com os protestos e bofetões do prior — homem cáustico e temperamental —, que o repreendia na frente de todos. Aceitava as humilhações mansamente, sem palavra de lamento ou desagrado, cumprindo as penitências e ainda fazendo com que os noviços compreendessem as razões do superior.
Entretanto, os grandes de Città della Pieve vinham pedir-lhe conselhos, a começar pelo Bispo, que sempre se confessava com ele.
Por fim, Genazzano!
Alimentando na alma a aspiração de praticar com toda perfeição a regra agostiniana, sempre rezava uma Ave Maria com os noviços em suas intenções, mas eles ignoravam quais eram. Um dia, alguns o fizeram revelar: orava afincadamente para que Deus iluminasse seus superiores a instituírem uma perfeita vida comunitária em qualquer um dos mosteiros da ordem. Mas predisse também que esse cenóbio exemplar seria o de Santa Maria do Bom Conselho, em Genazzano.
De fato, por volta de 1826, o novo Papa Leão XII decidiu que o convento agostiniano de Genazzano seria habitado por aqueles que espontaneamente solicitassem permissão para irem para lá. E o padre Stefano foi dos primeiros a fazer o pedido.
Era novembro quando se integrou na vida comunitária desse convento chamado a ser modelar. Ali, além de continuar com o cargo de mestre de noviços, foi também nomeado sacristão. Foram numerosos os testemunhos sobre seu empenho pelo decoro da igreja e do culto e seu desvelo pela formação dos neófitos. Relatam-se também alguns prodígios por ele operados. Por exemplo, a lamparina que fez acender sozinha ou a inesperada cura de um noviço, pelo qual intercedera junto à Madonna.
Último ofício: pároco do Santuário
No ato capitular da Ordem, de 24 de junho de 1831, foi eleito pároco do Santuário, aos 57 anos de idade. Em vez de pensar em um merecido repouso, sentiu um renouveau de juventude, e multiplicou seus afazeres, inclusive pedindo ajuda aos amigos de Roma e Trento para uma população pobre, faminta e sobrecarregada de impostos.
Era uma gente franca e de fundo religioso, mas cheia de superstições, até mesmo ignorante. Era preciso entrar no meio deles à busca das almas. Genazzano ainda o recorda como o “pai dos pobres e consolador dos aflitos”. Mais de uma vez doou sua roupa aos pobres. No inverno carregava lenha sobre suas costas — sempre doloridas, devido à hérnia que carregava há anos —, para esquentar as frias choças. Levava-lhes também água, lamparinas e, uma vez, deu seu próprio catre para um enfermo que dormia no chão.
Fez para eles um compêndio do Catecismo, fácil de memorizar, que expunha com precisão os artigos da Santa Fé, adaptados à compreensão do povo. Seu confessionário era muito frequentado e todos se admiravam de sua paciência. Tudo isso sem abandonar o cuidado dos noviços, dos quais continuava sendo mestre.
A vida do Beato Stefano consistia em ser “tutto a tutti”5: tudo a todos, a começar pelos seus noviços. E a fonte de energia inesgotável para tudo isso eram um contínuo estado de oração e uma ardente e filial devoção à sua querida Mãe do Bom Conselho.
Vítima de sua própria caridade
Em princípios de 1840, uma peste que grassava por toda Itália começou a fazer seus estragos na cidade. Incansável no atendimento aos doentes, o padre Stefano substituía outros ministros de Deus que se mostravam tímidos e medrosos, indo aonde o chamassem.
Com tanto trabalho, sua saúde já estava algo debilitada. Sofreu duas quedas que lhe deixaram uma ferida na perna e o levaram à cama, com febre. Mas assim que melhorou, seguiu com o ofício de atender os enfermos, até que a peste também o atingiu.
No dia 2 de fevereiro, festa da Purificação de Nossa Senhora e da Apresentação do Menino Jesus no Templo, seu estado de saúde agravou-se. Na hora da Missa solene, o superior estava indeciso se deixava as funções na igreja para acompanhá-lo em seu trânsito, que parecia estar próximo. Mas o doente lhe dissera que não se preocupasse; só quando tudo terminasse começaria sua agonia.
Ele havia implorado à Mãe do Bom Conselho que sua morte ocorresse na festa da Purificação. Chegado o dia, pediu que lhe acendessem uma vela benta, que lhe dessem seus óculos, e tomou nas mãos um manuscrito volumoso, escrito por seu punho e letra, começando a recitar as preces. Rezou a novena da Purificação e quis iniciar o Rosário e a Coroinha de Nossa Senhora da Correia. O padre Francieri, que o assistia, aconselhou-o a não se cansar. Ele respondeu: “Como? Hoje, que me apresentarei para beijar os pés de Maria Santíssima, vou fazê-lo sem haver rezado sua Coroa, a Coroinha e sem ter feito a meditação habitual?”.6
Terminada a oração, cruzou os braços no peito, apertando forte um crucifixo. Havia posto duas imagens da Mãe do Bom Conselho na cabeceira de seu leito, ao lado esquerdo, e para aquele lado fixou seu olhar. Enquanto cantava-se o Magnificat na igreja, entrou em agonia e pouco depois expirou.
Obediente em vida e depois da morte
Na manhã seguinte foram as exéquias, numa igreja repleta, todos desejando tocar no corpo e obter alguma relíquia. À tarde realizou-se o sepultamento no túmulo comum dos religiosos, detrás do coro, sem caixão ou outro distintivo.
Passados sete meses foi exumado. Do sepulcro não saía nenhum mau odor. O corpo estava flexível, inteiro, exceto o nariz; a carne estava fresca, a chaga da perna se tornara destacada e a faixa que a envolvia ainda estava avermelhada. O cadáver, que deveria ser posto numa caixa de madeira pequena demais para contê-lo, moveu-se sozinho e se encaixou perfeitamente. O Cardeal Pedecini, que estava presente, exclamou: “O padre Stefano, como foi sempre obediente em vida, mostra-se obediente até depois de morto”.7
Voltou a ser sepultado, desta vez em um sepulcro expressamente aberto na nave de Nossa Senhora do Bom Conselho, entre os altares do Espírito Santo e da Assunção, iniciando então uma onda de milagres.
Pio IX introduziu o pedido da causa de Beatificação e, em 1873, foi feito um reconhecimento de seu corpo, ainda incorrupto. Mais tarde, seus despojos — já não em boas condições, por causa de uma infiltração de água na antiga sepultura — foram levados para uma capelinha construída em sua honra, na Basílica-Santuário. Foi beatificado em 27 de dezembro de 1904, por São Pio X.
A Mãe do Bom Conselho quis manter junto a Si, na vida e na morte, aquele que viveu marcado pela égide do “Bom Conselho”, exemplo e estímulo para uma verdadeira devoção a Ela. 
 1 RICCARDI, Duilio. Un santo fra poveri e ragazzi. Vita del B. Stefano Bellesini. Milão: Editrice Àncora Milano, 1970, p.20.
2 Idem, p.24.
3 Idem, p.28.
4 Idem, p.28-29.
5 STELLA, Vico. Una vita per gli altri: Beato Stefano Bellesini, parroco agostiniano,(1774-1840). Genazzano-Roma: Santuario Madre Del Buon Consiglio, s.d., p.36.
6 Idem, p.43.
7 Idem,  p.44.
Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos -  Revista Arautos do Evangelho n.98 fev 2010

segunda-feira, 26 de maio de 2014

São João Crisóstomo

“A Palavra de Deus tem uma força irresistível. Ela é a mais poderosa arma que existe; arma de conquista, arma de transformação muito mais poderosa do que a bomba atômica! Um orador sacro bem preparado, que transmita a palavra revelada, tem nas mãos um verdadeiro tesouro de influência e de possibilidades para fazer o bem”.1
O comentário acima, feito pelo Fundador e Superior Geral dos Arautos do Evangelho, bem explica a importância da vida de São João Crisóstomo. Realmente, poucos pregadores sacros se notabilizaram como ele ao longo da História. Sua vida e sobretudo sua morte são testemunho da eficácia de sua palavra: os ímpios sentiram necessidade de fazer calar aquela “boca de ouro”, sob risco de ver nos braços da Esposa Mística de Cristo todo o Oriente, já nos primeiros séculos do Cristianismo.
O sonoro cognome de Crisóstomo — Boca de Ouro, em grego — é muito adequado a este grande Santo que soube apresentar a doutrina católica de forma inflamada e convincente, para defender a integridade da Fé e da Moral, naqueles conturbados tempos.
 Não se podia conhecê-lo sem amá-lo
Nasceu por volta do ano 349 na Antioquia, então a segunda cidade do Império Romano do Oriente; nela conviviam pagãos, maniqueus, gnósticos, arianos, apolinários, judeus e cristãos. Seu pai, Secundus, comandante das tropas imperiais no Oriente, faleceu logo após o nascimento do filho e foi sua mãe, Anthusa, viúva aos vinte anos de idade, que ficou com o encargo de educar o recém-nascido.
Cedo o menino mostrou grande inteligência e foi encaminhado a dois famosos professores, um dos quais Libânio, considerado o maior orador de seu século. Recebeu educação religiosa do Bispo São Melécio que, pelo seu caráter sério, brando e atraente, cativou o discípulo a ponto de fazê-lo desistir dos estudos clássicos e dedicar sua vida à busca da perfeição espiritual. Deste Santo Bispo recebeu Crisóstomo o Batismo e o leitorado, aos 20 anos de idade. Poderia o jovem João ter-se deixado levar por seu nascimento ilustre e pelos raros talentos recebidos da Providência, tornando-se talvez um dos primeiros homens do Império. Mas, depois de provar “quão suave é o Senhor”, as honras do mundo não o atraíam e seu único desejo era consagrar-se a Deus na solidão. Entregou-se a uma vida de austeridade e oração, e estudou profundamente a Sagrada Escritura. Dominando seu temperamento colérico, adquiriu a mansidão evangélica, à qual juntou uma amável modéstia, uma terna caridade para com o próximo e uma conduta cheia de sabedoria.
Após quatro formativos anos de convívio com São Melécio, retirou-se a um lugar deserto, onde viveu como anacoreta sob a direção de Diodoro, mais tarde Bispo de Tarso. Ali escreveu várias obras de cunho literário e espiritual. Com a saúde enfraquecida por vigílias e jejuns, viu-se forçado em 381 a retornar a Antioquia, onde reassumiu a função de leitor junto a seu zeloso mestre, que conferiu-lhe a ordenação diaconal. Vivia ainda o jovem João os albores de sua vida espiritual, encontrando grande conforto e apoio na amizade do companheiro de estudos, São Basílio de Cesareia.
Fértil atividade pastoral como pregador
Nesse mesmo ano de 381, falecia São Melécio. O novo Bispo de Antioquia, Flaviano, viu-se desde logo ligado a Crisóstomo por laços de santa amizade. Ordenou-o sacerdote em 386 e o nomeou seu pregador.
No período de 12 anos em que exerceu essa função, difundiu-se sua fama de orador sacro. Seus ardorosos sermões, sempre ouvidos com avidez e frequentemente interrompidos por calorosos aplausos, versavam sobre as Sagradas Escrituras. Entretanto, ele não visava obter aplausos: servia-se do púlpito para levar as almas a Deus e Deus às almas. Assim, não poupava críticas aos maus costumes da época, tanto os do povinho miúdo que o aplaudia, quanto os dos poderosos que, de início, o admiravam.
Valendo-se de sua extraordinária facilidade de expressão, da profundidade de pensamento, da maneira nobre e brilhante de apresentá-lo, Crisóstomo formava com sólidos princípios seu rebanho. Sem nenhuma preocupação mundana, opunha-se fortemente às interpretações excêntricas, místicas e alegóricas da chamada Escola de Alexandria, então em voga.
Nesse período de atividade pastoral como pregador, desenvolveu sua mais intensa produção teológica literária. A julgar apenas por esses anos, de 386 a 398, São João Crisóstomo já poderia ser considerado digno de figurar entre os primeiros doutores da Igreja. Entretanto, honras maiores lhe estavam reservadas e, para alcançá-las, deveria ele aceitar a Cruz do Divino Redentor sobre seus ombros.
Reformando o Clero de Constantinopla
Mergulhada nos abundantes prazeres que a prosperidade econômica lhe proporcionava, Constantinopla abrigava a faustosa Corte dos imperadores romanos do Oriente. Como em todos os tempos, muitas vezes, onde há riquezas, luxo e ostentação rareiam as virtudes cristãs. Tendo falecido o Arcebispo Nectário, quis o imperador Arcádio elevar a essa dignidade o santo pregador. Assim, em 28 de fevereiro de 397 ele recebeu de Teófilo, Patriarca de Alexandria, a ordenação episcopal e tomou posse da Sé constantinopolitana.
O presbítero João viu-se inesperadamente na arrogante metrópole, colocado à cabeça do Episcopado bizantino, num ambiente em que predominavam as aparências e o poder, com frequência conquistado à base de maquinações secretas.
Segundo Paládio da Galácia, um de seus mais importantes biógrafos, São João deu início ao seu governo varrendo a escada de cima, ou seja, “começou por derrubar o edifício da falsidade a fim de alcançar os 2 alicerces da verdade”. E deparou-se com o próprio Patriarca Teófilo que, ao observá-lo tão íntegro e franco em suas homilias, tomou-se de antipatia por ele.
Registra Paládio no Dialogus que Teófilo “tão hábil em discernir os pensamentos e as intenciones ocultas”3, ao não encontrar em Crisóstomo algo que coadunasse com seu próprio modo de ser relativista e laxo, promoveu toda espécie de hostilidade contra o novo Arcebispo, pois “preferia ele dominar os de caráter fraco a ouvir os sábios e prudentes”4.
No entanto, São João, fiel à sua consciência, começou a moralizar os costumes do clero, desde os relativos à prática da castidade até os concernentes à posse e uso de bens materiais. Muitos dentre os numerosos monges da diocese preferiam passar mais tempo fora que dentro de seus mosteiros. Crisóstomo convenceu-os a retornarem ao recolhimento.
Bondoso com os ricos e com os necessitados
Como fizera em Antioquia, pregou contra os costumes mundanos e a ridícula extravagância das modas, sobretudo às viúvas, às quais recomendou vivamente que vivessem de acordo com as leis do decoro impostas por sua peculiar situação. Essas advertências provocaram ressentimentos em algumas damas da Corte, que se queixaram à Imperatriz.
O povo, entretanto, ouvia enlevado as palavras nobres, belas e, ao mesmo tempo, severas do “Boca de Ouro”. Tanto mais quanto viam em sua conduta pessoal a prática exemplar daquilo que pregava. Preocupado com os mais necessitados, construiu vários hospitais para os pobres e estrangeiros; suas esmolas eram tão abundantes que foi chamado de João, o esmoler.
Com os pecadores, hereges e pagãos era bondoso a ponto de alguns, com falso zelo pela Religião, o censurarem; ele, porém, agindo com paternal doçura exortava todos à penitência e conversão: “Se cairdes mil vezes no pecado, vinde a mim, e sereis curados”5. No entanto, quando se tratava de manter a disciplina, era firme e pertinaz, evitando sempre a rudeza nas palavras. Organizou as viúvas e as virgens consagradas para viverem em comunidade, sob a direção de Santa Olímpia jovem viúva que empregou sua enorme fortuna e sua vida ao serviço de Deus e do próximo.
Nosso Santo tinha outros grandes amigos entre os ricos. Brison, oficial de justiça a serviço da Imperatriz Eudóxia, o auxiliava nas instruções aos fiéis e sempre lhe manifestou verdadeira amizade. A própria imperatriz dava-lhe muitos sinais de admiração e até de devotamento: frequentava seus sermões, seguia as procissões, oferecia peças ornamentais para o culto e fazia outras demonstrações de consideração. Do imperador, conseguiu a promulgação de leis favoráveis à cristianização de todo o Império.
Atritos com a Corte Imperial
Para destruir a influência desse homem de Deus, o demônio valeu-se astuciosamente de pequenos incidentes nos quais transparecem a inveja, o egoísmo e a intriga organizada. Serviu-se primeiro de Eutrópio, ajudante de câmara do imperador. Esse homem, que no início admirava de coração o santo Bispo, cometia enormes abusos de poder, perseguindo todos quantos pareciam ameaçar-lhe a posição. São João tentou várias vezes dissuadi-lo dessa má conduta, mas sem resultado. Quando, afinal, Eutrópio caiu em desgraça, procurou refúgio na catedral, para escapar de seus numerosos inimigos. Ignorando todas as ofensas e desconsiderações recebidas desse oportunista, São João intercedeu por ele mais uma vez, o que não agradou à Corte.
Pouco depois a Imperatriz Eudóxia, cuja influência sobre o Imperador Arcádio aumentara muito após a queda de Eutrópio, cometeu grave injustiça contra uma viúva e Crisóstomo tomou o partido da mais fraca, o que deixou a soberana ofendida. Somou-se a isso o atrito com o ariano Gainas, comandante dos mercenários godos do exército imperial, que requisitou uma igreja em Constantinopla para alojar seus soldados. Crisóstomo opôs-se energicamente a essa insolente pretensão.
Estabeleceu-se assim entre a Corte Imperial e o Palácio Episcopal uma atitude de distanciamento que prenunciava uma catástrofe. Situação grave para São João Crisóstomo, sobretudo porque a claque dos cortesãos sentia-se reforçada pelo advento de novos aliados, dentre os quais alguns eclesiásticos: Severiano, Bispo de Gabala, que se jactava de rivalizar com o Crisóstomo em eloquência; Antíoco, Bispo de Ptolemaida; e, por algum tempo, Acácio, Bispo de Beroea. Todos eles preferiam a vida cheia de atrativos da Corte à simplicidade de suas dioceses.
No entanto, a fama de santidade, o fervor apostólico, a prudência e sabedoria do varão de Deus granjearam-lhe a confiança das regiões vizinhas. E ele foi convidado por vários Bispos a presidir um sínodo regional em Éfeso, com o objetivo de indicar um novo Arcebispo e depor alguns Bispos acusados de simonia.
Sínodo do Carvalho e primeiro exílio
Em sua ausência, ficou à frente da Igreja de Constantinopla seu rival, Severiano, a quem o próprio Crisóstomo confiara algumas funções eclesiásticas, na tentativa de conquistar-lhe a amizade. Mas, sempre prepotente e ambicioso, o Bispo de Gabala entrou em conflito com o ecônomo da catedral.
A situação se complicou quando Teófilo, Arcebispo de Alexandria, foi chamado à capital pelo imperador para defender-se de certas acusações perante um sínodo — mais tarde conhecido como “Sínodo do Carvalho”, em referência ao subúrbio da Calcedônia no qual foi realizado —, o qual Crisóstomo presidiria. Teófilo compareceu acompanhado de 29 Bispos, seus sufragâneos e mais outros sete. Iniciada a assembleia, apresentou uma longa lista de infundadas acusações contra São João, o qual, repentinamente passava de juiz a réu. Obviamente, o Santo recusou-se a reconhecer a legalidade dessa manobra e deixou de comparecer às reuniões. À vista de sua ausência após três convocações, foi declarado deposto da sé episcopal e condenado ao exílio.
Como era de se esperar, o povo revoltou-se e exigiu sua volta. Temendo supersticiosamente uma punição divina, a Imperatriz Eudóxia, que nos bastidores manobrava os acontecimentos, ordenou que o reempossassem. Ele retornou e Teófilo viu-se constrangido a fugir de Constantinopla. Mas a derrota de Eudóxia teve como resultado aumentar mais ainda seu profundo rancor.
A “Boca de Ouro” calou-se para os ouvidos humanos
Decorridos apenas dois meses, novo incidente veio agravar a situação. Em frente à Igreja de Santa Sofia, havia sido erigida uma estátua de prata da imperatriz. Os jogos públicos promovidos nos festejos de inauguração prejudicaram as funções litúrgicas e arrastaram o povo a desordens e a extravagantes manifestações de superstição.
Com o zelo e a coragem que o caracterizavam, o Arcebispo elevou do púlpito a voz contra tais abusos, perpetrados sob a direção do Inspetor dos Jogos, um maniqueu. Mas a imperatriz, num acesso de vaidade, tomou isso como um ultraje à sua pessoa. Enfurecida, convocou novamente os inimigos de São João Crisóstomo para destituí-lo. Baseados em certos cânones de um sínodo ariano realizado em 341, os Bispos partidários da imperatriz obtiveram do imperador um decreto de banimento de São João Crisóstomo. Assim, no ano 404 ele foi conduzido para seu segundo exílio.
Inicialmente as tropas o levaram para um lugar isolado e rude, na fronteira oriental da Armênia, onde, porém, ele conseguia manter correspondência com discípulos e amigos. Dali escreveu ao Papa Inocêncio I que, indignado pelo procedimento traiçoeiro daqueles maus Bispos, destituiu vários deles e dirigiu confortantes palavras de apoio ao injustiçado.
Receando um possível retorno do incômodo varão de Deus, decidiram seus inimigos transferi-lo, em 407, para Pithyus, lugar situado nos extremos limites do Império, perto do Cáucaso. Os cruéis sofrimentos da caminhada sob forte sol e chuvas, agravados pelos maus tratos da soldadesca, levaram ao esgotamento total seu corpo já alquebrado. Assim, em 14 de setembro desse ano a “Boca de Ouro” calou-se para os ouvidos humanos e abriu-se para cantar glórias e louvores a seu Criador e Redentor no Céu.
Parte importante do tesouro da Santa Igreja
“A partir do século V, Crisóstomo foi venerado por toda a Igreja cristã, oriental e ocidental, pelo seu testemunho corajoso em defesa da Fé e pela sua dedicação generosa ao ministério pastoral. O seu magistério doutrinal e a sua pregação, como também a sua solicitude pela Sagrada Liturgia, mereceram-lhe depressa o reconhecimento de Padre e Doutor da Igreja”,6 conforme palavras do Papa Bento XVI.
De fato, sua vasta obra — dividida  em opúsculos, homilias e cartas — representa importante parte do tesouro inapreciável da Santa Igreja. Há mais de 1.600 anos sua voz ressoa em todo o orbe. A amplíssima bibliografia existente a seu respeito e as incontáveis edições de seus escritos dão testemunho da perenidade dos altos ensinamentos legados por ele à humanidade. São Pio X o proclamou patrono dos oradores sacros, em 1907.
1 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Homilia de domingo da XV semana do Tempo Comum. Caieiras, 13 jul. 2008.
2 PALÁDIO DA GALÁCIA. Dialogus cum Theodoro. c.5: MG 47, 21.
3 Idem, MG 47, 20.
4 Idem, MG 47, 21.
5 Saint Jean Chrysostome, Archevêque de Constantinople – Sa vie et extraits de ses écrits. Lille: Lefort, 1852, p.41.
6 BENTO XVI. Carta por ocasião do 16º centenário da morte de São João Crisóstomo, n.3, 10/8/2007.

Ir. Angela Maria Tomé - Revista Arautos do Evangelho set 2013


domingo, 6 de abril de 2014

São Bento - O primeiro mosteiro beneditino


Na áspera e fria gruta de Subiaco, no meio de escarpados rochedos, começou a história da Europa moderna.
Como seria a vida de um estudante, em Roma, quando São Bento ali morava, há mil e quinhentos anos?
Certamente bastante mais árdua do que hoje. Não havia computador, nem Internet, nem calculadora. O papel ainda nem tinha sido inventado. Os livros eram escritos em rolos de pergaminho, à mão, e copiados por escravos. Para fazer anotações, os romanos utilizavam pequenas tábuas cobertas por uma camada de cera. Escreviam sobre elas com um estilete de ferro (“stylus” que originou a palavra “estilo” em português). Quando enchiam a “folha” e necessitavam reutilizá-la, faziam “tabula rasa”, ou seja, raspavam a cera e escreviam de novo. Não devia ser fácil fazer anotações nas aulas, com esse sistema. E mais complicado ainda guardá-las. Quase tudo ficava por conta da memória do aluno, que tinha de ser excelente.
Quanto ao mais, a vida de um estudante não devia ser muito diferente da de hoje. A escola era a iniciação para a vida. Como sempre, havia bons e maus companheiros. Pois já naqueles remotos tempos, a vida dos estudantes estava bem longe de ser um paraíso de inocência.
A degradação de costumes dos colegas de São Bento, aos 14 ou 15 anos de idade, causava-lhe horror, e ele começou a pensar em sair de Roma, a fim de salvar sua alma.
Um dia, estando ele diante de um afresco até hoje existente na igreja de San Benedetto in Piscinula (que era então a casa de um patrício — como eram chamados os nobres romanos — local onde o jovem Bento morava), fez o propósito de se entregar a Deus.
Decidiu fugir. Mas, para onde ir?
Seguiu ele o conselho de Nosso Senhor, não se preocupando com o dia de amanhã, e partiu sem rumo definido. Confiou-se à Providência Divina, que foi conduzindo seus passos até um lugar afastado, longe do convívio humano: Sublac (hoje, Subiaco). Ali, na encosta de uma escarpada montanha, encontrou uma caverna de difícil acesso onde fez sua morada. Era ao mesmo tempo cela (quer dizer, “quarto”) e lugar de oração.
Entretanto, como subsistir sozinho, num lugar tão isolado, sem qualquer auxílio humano? São Bento não sabia. Confiava em Deus: “Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo” (Mt 6, 31-32).
Providencialmente, um monge das redondezas, chamado Romano, encontrou São Bento naquele local e prometeu ajudá-lo. E generosamente passou a dividir seu alimento diário com o novo eremita. Romano subia ao alto da montanha, colocava o pão em um cesto amarrado a uma corda e o descia até a morada do jovem contemplativo. Bento viveu assim, durante três anos, num isolamento completo.
Foi essa gruta áspera, fria e escura o primeiro mosteiro em que São Bento viveu, no meio dos imensos e escarpados rochedos que o leitor pode contemplar nas fotos destas páginas. O panorama é grandioso e belo. E sem dúvida, na contemplação dessa maravilha saída das mãos de Deus, São Bento elevou sua alma às mais altas considerações espirituais.
Ao sair de Roma, São Bento talvez nem tivesse pensado em fundar uma Ordem religiosa. Queria, sim, salvar sua alma. Mas Deus, desde toda a eternidade, já havia considerado com predileção aquele seu filho e o escolheria para ser o pai de uma família espiritual que formaria a Europa cristã, saída das cinzas do Império Romano.
Podemos imaginar com que solicitude a Providência moldou aqueles rochedos, quando criou o mundo, para que séculos mais tarde, seu filho Bento tivesse um lugar onde se recolher, dando início à sua grande obra. A providencialidade de Deus foi a ponto de fazer com que o monge Romano encontrasse aquele jovem e cuidasse de seu sustento diário.
Por vezes, na nossa vida, pode acontecer de sermos tentados a duvidar da Divina Providência: será que Deus, lá no alto dos céus, vai se preocupar comigo, com o meu sustento de cada dia? A realidade é que Deus olha por seus filhos e filhas, como se cada um fosse único e não houvesse mais ninguém no universo, a não ser aquele ou aquela: “Olhai como crescem os lírios do campo! — dizia Nosso Senhor aos Apóstolos — Não trabalham nem fiam. Pois Eu vos digo: nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, como não fará muito mais por vós, homens de pouca fé?” (Mt 6, 28-30).

É essa providencialidade de Deus que, pelos séculos afora, proclamam os benditos rochedos de Subiaco, o primeiro mosteiro beneditino, onde São Bento fez seu noviciado. 
José Antônio Dominguez Revista Arautos do Evangelho n.43. jul 2005