quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Santo Elói

Santo Elói distinguiu-se no seu  tempo pelas qualidades sui generis  que  o  caracterizaram,  tendo sido sua vida semeada de fatos interessantíssimos dos quais nos  dá conhecimento uma biografia escrita pelo Pe. Rohrbacher. Desta, algumas passagens merecem ser aqui  comentadas.
Hábil ourives e diretor das finanças do reino
Escreve o ilustre hagiógrafo:
“Santo Elói foi dotado de invulgar personalidade. Viveu de 588 a 659. Natural de Limoges [França], revelou desde criança grande aptidão para os trabalhos manuais. Encaminhado para a profissão de ourives, tornou-se um dos mais hábeis artistas de seu tempo. Famoso é o caso da confecção do trono do Rei Clotário, que o queria ímpar e incrustado de pedrarias. Com o ouro recebido para tal fim, Elói fez não um, mas dois tronos igualmente preciosos.”
A ideia de um santo confeccionar  um trono para um monarca, contribuindo com sua arte para a pompa  real, talvez contrarie não poucos espíritos  modernos,  adeptos  de  uma  simplicidade  equivocada.  Mais ainda os chocariam a iniciativa de Santo Elói de fazer algo aparentemente  inútil: dois tronos em vez de um só . . .
“O rei então o nomeou seu ourives e diretor da Moeda.”
Tais cargos tendiam a ser conexos  naquele  tempo,  porque  as  moedas  eram de ouro e quem exercia a função de ourives do rei poderia igualmente  ser  escolhido  para  dirigir  a  economia.
Como se vê, não era fácil a existência de alguns personagens daquela época .
Grande político e diplomata
“Sucedendo a Clotário seu filho Dagoberto, Santo Elói tornou-se grande amigo do soberano, revelando-se então insigne conselheiro, hábil político e diplomata.”
Vemos assim a ascensão de Santo  Elói: de ourives passou a diretor da  Moeda e, em seguida, diplomata.
“Afirma-se que os enviados de príncipes estrangeiros avistavam-se primeiro com ele, antes de se dirigirem ao monarca. Sua influência junto a Dagoberto era suficientemente grande para que o santo pudesse repreendê-lo contra sua moral, bastante relapsa, e também quanto ao seu modo desmazelado de trajar-se.”
Esta circunstância da vida de Santo Elói deu origem à conhecida canção popular francesa Le bon Roi Dagobert (ver quadro abaixo) . Percebe-se, entretanto, que o bom Rei Dagoberto não era tão louvável assim, merecendo  algumas  censuras .  Mas,  possuía  esta  qualidade:  simpatizava-se  com  Santo  Elói,  apreciava-o  e  devotava-lhe grande amizade. Mais ainda.  Quando o santo conselheiro lhe chamava a atenção, o rei acatava a reprimenda com submissão e alegria.
Muito interessante o fato de Santo Elói corrigir o Rei quanto ao desmazelo de seus trajes, querendo assim  que  ele  se  vestisse  com  distinção e bom-gosto . Essa atitude do homem de Deus pode chocar certos espíritos contemporâneos. Pois, segundo esta, um  rei deve usar roupas comuns e baratas, e desejar desfazer-se das galas e  preeminências que cercam seu cargo.
Artífice de relicários e fundador de mosteiros
Continua a biografia:
“O tempo que lhe sobrava de seu trabalho na corte, de suas orações e obras de caridade, empregava-o em honrar com sua arte as relíquias dos santos.”
Hoje em dia vemos muitas pessoas aplicarem seu tempo livre em ninharias . O passatempo de Santo Elói  era fazer relicários!
Imaginemos uma sala de estilo românico, pressagiando o gótico, cujas  porta e janela dão para um pátio . A  tarde começa a se confundir com o  anoitecer .  Nosso  Santo,  terminado  seus  afazeres,  senta-se  junto  a  uma mesa de ourives no palácio real, acende as velas de alguns candelabros, e continua a trabalhar nos lavores e polimentos de um bonito relicário, ornado de pedras preciosas,  no qual ele guardará os restos de um  bem-aventurado  de  sua  devoção .  Nessa tarefa, emprega ele toda a sua  piedade e todo o seu talento artístico! É uma cena maravilhosa.
E  se  pensarmos  que,  na  linguagem atual, Santo Elói era o Ministro da Fazenda daquele rei, que diferença em relação a certos estadistas  contemporâneos!
“Atribuem-se-lhe os relicários de São Germano de Paris, São Denis, São Severino, São Martinho, Santa Colomba e Santa Genoveva. Além desses trabalhos, Santo Elói fundou numerosos mosteiros.”
Cumpre  assinalar  o  extraordinário vigor de Santo Elói e sua intensa  atividade . Afinal, era diplomata, político, ecônomo, ourives, artífice de  relicários e ainda encontrava tempo  e meios de fundar mosteiros! Foi um  desses  homens  dos  quais  emanam  mil obras, todas repletas de pensamento e santidade .
Zelo, sabedoria e bondade
“Tendo sido ordenado sacerdote, foi sagrado Bispo, ocupando a Sé episcopal de Noyon. Como muitos outros prelados da época merovíngia, foi um grande organizador, um apóstolo repleto de zelo, sabedoria e bondade.”
As fecundas ações deste homem  de  Deus  evocam  as  de  São  Martinho de Tours,  comentadas por nós  em oportunidade anterior. Quer dizer, nas épocas de estruturação e organização da Cristandade medieval, a Providência suscitou vários santos que empreenderam inúmeras obras  admiráveis . Um deles foi Santo Elói .
“Sua atividade irradiou-se para Flandres, Holanda e, segundo afirmam, Suécia e Dinamarca.”
 Isso  significa  uma  alta  e  árdua  missão, pois naquele tempo a Suécia  e a Dinamarca eram ainda habitadas  por povos bárbaros . E até lá propagou-se o zelo apostólico do grande  Santo Elói .
Velado por uma santa
Após essa vida de intenso serviço a Deus e ao próximo, ele receberia afinal o prêmio por suas virtudes.  E o Pe . Rohrbacher registra esse tocante fato:
“Era grande sua fama, a tal ponto que, sabendo-o agonizante, a Rainha Santa Batilde fez longa viagem para vê-lo antes de morrer. Mas chegou a Noyon no dia seguinte ao de seu falecimento.”
Portanto,  a  magnífica  existência  de Santo Elói se encerra e logo se verifica esta bela cena: a Rainha Batilde, santa ela mesma, tendo notícia  de que o Bispo de Noyon se achava à  beira da morte, desloca-se por estradas difíceis, correndo riscos, protegida por um grande séquito, rezando  para encontrar Santo Elói ainda vivo . Naturalmente, desejava receber  algum conselho dele . Porém, alcança Noyon quando aquele já entregara sua alma a Deus. 
Podemos imaginar a chegada de Santa Batilde à cidade, o cortejo de  autoridades e de  pessoas  do  povo  que vão recebê-la e lhe transmitem  a notícia da morte de Santo Elói. A  Rainha se dirige imediatamente para junto do esquife, venera os restos  mortais e eleva suas preces — por ele e a ele. É uma santa ao lado do  cadáver de outro santo!
Eis  um  maravilhoso  epílogo  para uma vida pontilhada de episódios  também maravilhosos, numa época  repleta de maravilhoso.

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