sábado, 10 de dezembro de 2011

A expansiva piedade de São Crispim de Viterbo

Hino de exaltação à virtude da humildade, a vida deste santo italiano constitui uma iluminura na qual se retrata a inocência medieval aliada à santidade franciscana.
Alguns  episódios  da  vida  de  São Crispim de Viterbo [ver quadro anexo], irmão leigo capuchinho, despertam nossa admiração  pela extrema piedade que neles se revela.
Fez da cozinha conventual um lugar de devoção mariana
Nascido em 1668, foi consagrado desde a idade de 5 anos a Nossa Senhora, por quem  teve  especial devoção durante toda a sua existência. Tendo ingressado na Ordem dos  capuchinhos, quis ficar entre os irmãos leigos, tomando como modelo São Félix de  Cantalício.
No  mosteiro,  trabalhava  nos  jardins,  fazia compras, cuidava dos doentes, passando as noites em oração e nas práticas de penitência.  Ao ser encarregado da cozinha, nesta erigiu um altar à  Santíssima Virgem. Aí era visitado por grandes senhores,  cardeais e pelo próprio Papa Clemente XI que, certa vez,  ali foi venerar a imagem da Mãe de Deus.
Chamo a atenção para a piedade contagiosa de um autêntico irmão leigo capuchinho. Era tão comunicativa que os grandes da época, tanto os da Igreja quanto os da sociedade temporal, dirigiam-se a esse altar erguido na cozinha do mosteiro, atraídos que eram pela devoção do santo.
Nossa Senhora concedeu-lhe o dom dos milagres. Certa vez, tendo curado uma pessoa chegada ao Sumo Pontífice, o médico afirmou: “Vossos remédios têm mais virtude que os nossos”. E o santo respondeu: “Senhor, sois um médico sábio e a cidade de Roma vos reconhece como tal. Mas, a Santíssima Virgem é muito mais sábia do  que vós todos, médicos do mundo!”
O bom odor de Jesus Cristo, em Orvieto
Como irmão encarregado da despensa do convento, logo tornou-se estimado na cidade de Orvieto. O governador conversava com ele, e o Cardeal-Bispo da sua diocese detinha a carruagem em que ia para se entreter com o pobre frade na rua.
Imagine-se tais cenas encantadoras! Orvieto, já então  cidade de certa importância na Itália, com sua linda catedral gótica, cuja fachada reluz ornada de lindos mosaicos  coloridos. Fim de tarde, os trabalhos de todas as corporações encerrados, o movimento da cidade vai diminuindo, os sinos começam a tilintar, convidando os fiéis para a bênção do Santíssimo Sacramento ou para as Vésperas.  Envolto numa penumbra azulada, ergue-se o palácio do  Governo. Ali, também desobrigado de seus afazeres diários, o governador descansa e se entretém, sem empáfia,  sem petulância, mas com naturalidade, com o humilde  frade capuchinho. Embevecido, o magistrado dá graças a  Deus por receber a visita do santo religioso.
Percebe-se, nesse contato, a beleza da lei dos contrários harmônicos; regozija-nos ver um grande personagem enlevado na conversa com um pequeno, embora,  do ponto de vista sobrenatural, este último seria talvez  maior que aquele.
O frade sai do palácio e segue seu caminho pelas ruas  tortuosas da cidade. De repente, um ruído de ferros e de  ferraduras, e uma carruagem se detém ao lado dele. A  carruagem do Cardeal. Distinguindo-a, o frade mantém  os olhos baixos, em atitude de respeito e reverência. Porém, o Príncipe da Igreja abre a porta do carro e diz:
— Entre, Frei Crispim, vamos conversar um pouco...
— Oh! Eminência!
— Que notícias o senhor me conta?
O frade narra-lhe alguns fatos da vida do convento, ou  então, com toda a naturalidade, comenta:
— Tive uma visão assim...
O Cardeal é todo ouvidos, imerso em admiração.
Creio não ser difícil compreender como nos aproveita  à alma recompormos cenas como essas, pois constituem  o sabor de um passado no qual, segundo expressão de  São Paulo, sentia-se o “bom odor de Nosso Senhor Jesus  Cristo” (Cor , 15), tão diferente dos cheiros perniciosos que vão se espraiando no mundo hodierno.
Na hora da morte, não quis “atrapalhar” a festa de seu padroeiro
O resultado dessa expansiva piedade foi que os habitantes de Orvieto não o deixavam ir-se embora. Nas vezes em que o transferiram de convento, o povo negou-se a dar esmolas para os religiosos. Quer dizer, era preciso fazer voltar Frei Crispim, senão os frades passariam  fome...
Durante anos seguidos foi insultado por uma religiosa  à porta da qual vinha bater. Dela, dizia sempre o santo:  “Deus seja louvado, pois há em Orvieto uma pessoa que  me conhece e me trata como mereço!” Pois o justo cai sete vezes (Pr 24, 16) e, portanto, não se deve considerar isento de ouvir  rabugices e desaforos.
Frei Crispim ficou gravemente enfermo poucos dias  antes da festa de São Félix de Cantalício, seu padroeiro. Como os frades lhe dissessem que logo compareceria diante de Deus, respondeu-lhes que isso só ocorreria  após a comemoração de São Félix, pois sua morte atrapalharia a festa do santo.
O santo irmão leigo capuchinho faleceu em Roma, em  maio de 1750.
Contrastes que formam a beleza da Civilização Cristã
Sem dúvida, uma existência admirável, que nos proporciona não apenas um motivo de enlevo, um exemplo  a ser imitado, mas também um ensinamento que merece  ser ressaltado.
Com efeito, no ambiente em que ele viveu, houve toda uma floração de irmãos leigos capuchinhos, talvez não  tão eminentes na virtude, mas todos daquela escola que  engendrou São Félix de Cantalício e o nosso próprio santo, constituindo uma nota de exaltação da humildade.
Dir-se-ia que esses religiosos eram ecos da paz, da serenidade de alma, da bondade características da cristandade medieval, dessa Idade Média entretanto tão gloriosa pela sua pompa e por suas batalhas. E é justamente nesse encontro harmônico de contrastes que reside a  quintessência da beleza. Se quisermos compreender o esplendor da Idade Média combativa, consideremos a serenidade de um São Crispim de Viterbo ou de um São  Félix de Cantalício. Se desejarmos entender a bondade  desses dois santos, contemplemos a pugnacidade peculiar àquela época histórica.
Desse conjunto de contrastes harmônicos depreende-se a grandiosa beleza da Civilização Cristã. 

*São Crispim de Viterbo foi canonizado pelo Papa João Paulo II em 20 de junho de 1982. Era a primeira canonização realizada por aquele Pontífice. Na homilia que este então pronunciou, após salientar os traços mais significativos da piedade do santo, concluiu:
Desejo, enfim, destacar sua devoção a Maria Santíssima, ao mesmo tempo terna e vigorosa. Chamava-A “senhora minha Mãe”, e sob sua proteção desenvolveu sua vida de cristão e religioso. À intercessão da Mãe de Deus confiou súplicas e necessidades humanas que encontrava ao longo de seu caminho enquanto pedia esmolas. E quando lhe rogavam orasse por casos e situações graves, dizia: “Deixe-me falar um pouco com minha Senhora Mãe, e depois volte”. Resposta singela, porém inteiramente imbuída de sabedoria cristã, que revelava confiança total na solicitude materna de Maria.
A vida oculta, humilde e obediente de São Crispim, rica em obras de caridade e sabedoria estimulante, encerra uma mensagem para a humanidade de hoje, que espera o exemplo alentador dos Santos, como o esperava na primeira metade do século XVIII.
Filho autêntico de São Francisco de Assis, à nossa geração muitas vezes ébria por seus êxitos, oferece ele uma lição de entrega humilde e confiante a Deus e a seus desígnios de salvação, de amor à pobreza e aos pobres, de obediência à Igreja, e de confiança em Maria, sinal grandioso da misericórdia divina no obscuro céu de nosso tempo, conforme a mensagem alentadora brotada de seu Coração Imaculado. (...)
São Crispim interceda pela Igreja e por toda a humanidade, tão necessitada de amor, justiça e paz.
(Cf. L’Osservatore Romano, ed. esp. de 27 de junho de 1982)

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