domingo, 29 de março de 2015

São José Cafasso

Dom Bosco tentava descrever aos meninos do Oratório um de seus sonhos, no qual lhe aparecera São 1 Domingos Sávio, mostrando-lhe o Paraíso:
— Que belo estava ele! Parecia um... um... Anjo!
O Santo Fundador havia interrogado seu discípulo, já na glória, acerca de sua obra.
— Quanto ao passado — respondeu ele —, muito já foi feito por tua Congregação. Olha aquele número incontável de jovens.
— Sim, parecem bem contentes! — comentou Dom Bosco.
— Todos eles foram salesianos. Portanto, foram salvos por ti ou por teus sacerdotes e clérigos, ou ainda por outros que encaminhaste nas vias de sua vocação.
Grande glória é ter contribuído para a salvação de tantas almas! Entretanto, poderia também contemplar com gáudio a legião dos bem-aventurados da família salesiana um varão, a respeito do qual afirmou São João Bosco: “se fiz algo de bom, o devo a este digno eclesiástico, em cujas mãos depositei todas as deliberações, estudos e ações da minha vida”.2
Quem será este? Deixemos que Dom Bosco mesmo no-lo apresente.
Uma amizade que se estreitaria ao longo dos anos
Agitado como um formigueiro encontrava-se o pequeno vilarejo de Murialdo, pertencente a Castelnuovo, no Piemonte: era a festa da Maternidade de Maria, do ano 1827. Enquanto alguns terminavam a arrumação da igreja e os preparativos para a Santa Missa, outros participavam, na praça, dos entretidos e inocentes jogos comemorativos.
Um rapaz de 16 anos, contudo, permanecia afastado daquela movimentação e atraiu a atenção de um menino do povo, de apenas 12 anos. Pela batina percebia-se ser um seminarista, “pequeno na estatura, olhos cintilantes, ar afável, rosto angelical”.3 Cheio de vivacidade e fascinado por tal figura, o jovenzinho resolveu aproximar-se para fazer-lhe um convite:
— Senhor cura, deseja presenciar algum dos espetáculos de nossa festa? De boa vontade eu o conduzirei aonde o senhor quiser.
Cheio de bondade, o rapaz interessou-se pelos estudos e pela catequese de seu pequeno interlocutor. E como este renovou o convite, respondeu-lhe:
— Meu caro amigo, para os clérigos, os únicos espetáculos que existem são as celebrações na igreja, as quais devem ser sempre atraentes e frequentadas com assiduidade. Estou só esperando que abram as portas da igreja para entrar.
— É verdade — redarguiu o menino, empolgado —, mas há tempo para tudo: para ir à igreja e para divertir-se.
Rindo-se da réplica vivaz, o jovem seminarista treplicou com palavras próprias a consolidar naquela alma infantil a admiração inicial:
— Quem abraça o estado eclesiástico se entrega ao Senhor, e nada do mundo deve interessar-lhe tanto quanto aquilo que possa resultar em maior glória d’Ele e proveito das almas.
Maravilhado, João Bosco — assim se chamava o menino — quis saber o nome daquele homem de Deus, cujas palavras e compostura manifestavam de modo tão claro seu espírito sobrenatural. Soube, então, que seu nome era José Cafasso, seminarista de quem “muito já tinha ouvido falar, como de um espelho de virtude”.4
Estava iniciada uma amizade que, no decorrer dos anos, só se estreitaria. Mais tarde, pouco antes de ser ordenado sacerdote e sentindo-se pouco preparado para este passo decisivo, Dom Bosco encontrou no amigo a segurança para não duvidar de seu chamado, como ele mesmo confessa: “não havendo, porém, quem cuidasse diretamente da minha vocação, aconselhei-me com o padre Cafasso, que me recomendou seguir adiante e confiar na sua palavra”.5
No entanto, o grande Fundador dos Salesianos não foi o único a se beneficiar dos inspirados conselhos de São José Cafasso. Este, compreendendo bem quanto um clero santo pode fazer nascer uma sociedade santa, dedicou toda a sua vida a formar os que têm a vocação de servir de exemplo: os sacerdotes.
O Colégio Eclesiástico São Francisco de Assis
Nascido em Castelnuovo, em 1811, no seio de uma família católica, aos 14 anos José Cafasso começou o estudo das disciplinas eclesiásticas; e em 1833, tendo tão só 22 anos, obteve dispensa para ser ordenado sacerdote antes da idade canônica. A alegria desse dia a conservou perpetuamente. “Vivo feliz — repetia durante sua vida apostólica — de ser sacerdote; este é o caminho mais seguro para elevar-se muito alto, ao Paraíso, e conduzir para lá muitos outros”.6
A sinceridade e radicalidade de sua entrega ao ministério manifestaram-se depois da cerimônia de ordenação, ao prostrar-se aos pés de um Crucifixo dizendo: “Senhor, Vós sois minha herança, minha delícia, a vida de meu coração para sempre. Mas, ó Senhor, não só desejo ser todo vosso, como também fazer-me santo já. Busque o mundo, se quiser, a vaidade, os prazeres e as grandezas terrenas; eu não procuro nem almejo outra coisa senão santificar-me, e seria o mais feliz dos homens se me tornasse logo um grande santo”.7
Visando adestrar-se, para dignamente exercer tão alto ministério, passou a frequentar o Colégio Eclesiástico São Francisco de Assis, onde, sob orientação do padre Luís Guala, sacerdotes jovens aprofundavam sua formação antes de assumirem uma responsabilidade pastoral. O aluno logo se tornou mestre e, em pouco tempo, diretor. Lá permaneceu até sua morte, transformando o estabelecimento num foco de renovação espiritual.
Com efeito, afirmou o Papa Bento XVI em uma catequese dedicada ao nosso Santo, aquele não foi apenas um colégio onde os jovens sacerdotes “aprendiam a confessar e a pregar, mas era também uma verdadeira escola de vida sacerdotal, onde os presbíteros se formavam na espiritualidade de Santo Inácio de Loyola e na teologia moral e pastoral do grande Bispo Santo Afonso Maria de Ligório. [...] Uma feliz expressão de São João Bosco resume o sentido do trabalho educativo realizado naquela comunidade: ‘No colégio aprendia-se a ser sacerdote’”.8
Pastores de profundo zelo e rica vida interior
São José Cafasso empenhou-se em formar virtuosos e experimentados presbíteros que soubessem dirigir as almas no confessionário e, especialmente, edificá-las pelo exemplo de sua conduta. “Desgraçado o dia no qual o povo possa dizer: o sacerdote é como eu; nosso pároco, meu confessor é como eu... Pregai, gritai, clamai se quiserdes, todavia mais vale o exemplo do que toda a lógica do mundo”.9
“O tipo de sacerdote que Cafasso enEm Castelnuovo iniciou-se uma amizade que, no decorrer dos anos, controu no colégio” — só se estreitaria acrescenta Bento XVI Acima: Vista atual da cidade de Castelnuovo; em destaque São João Bosco e São José Cafasso — “e que ele mesmo contribuiu para fortalecer, sobretudo como Reitor, era o do verdadeiro pastor, com uma rica vida interior e um profundo zelo no cuidado pastoral: fiel à oração, comprometido na pregação, na catequese, dedicado à celebração da Eucaristia e ao ministério da Confissão, segundo o modelo encarnado por São Carlos Borromeu e por São Francisco de Sales”.10
Insistia o padre Cafasso que a alma de um sacerdote não pode permanecer indiferente ante o Sacrifício Eucarístico. E aconselhava os sacerdotes a não só celebrarem diariamente sua própria Missa, mas assistirem a uma segunda quando possível.
Inculcava-lhes também a necessidade do exame de consciência e da frequência ao Sacramento da Penitência, dos quais se nutre a vida espiritual. Para melhor estimulá-los à Confissão semanal, fazia-os notar a lição de humildade que assim davam aos fiéis, por verem ajoelhar-se como réu quem há pouco era juiz.
“Não aumentemos seu desgosto duvidando do perdão”
Naquele tempo em que o jansenismo procurava afastar as almas do Paraíso, fazendo-as ver em Deus um tirano e não um Pai, a melhor arma para combater o erro era incutir a confiança na misericórdia e na bondade divina.
Ninguém estava mais convicto destes atributos do Salvador do que São José Cafasso; de maneira suave e segura, sabia infundir em todos esta certeza: “Se ofendemos ao Senhor, não aumentemos desgosto sobre desgosto, duvidando do perdão; se injuriamos sua santidade e justiça, honremos ao menos sua misericórdia; e enquanto o mundo inteiro canta sua bondade, nosso coração seria o único que hesita em tributar-Lhe este louvor?”.11
Para incentivar os padres a serem muito cuidadosos na prática destas virtudes, costumava contar-lhes o fato a seguir. Na véspera de sua execução, um condenado à morte negava-se a receber os auxílios da Igreja. Inquirido sobre as razões desta recusa, o infeliz explicou que, quando era jovem, ouvira um sermão no qual o pregador — comentando o Evangelho sobre a pergunta feita a Cristo se são poucos os homens que se salvam (cf. Lc 13, 23-24) — afirmara que, entre os numerosos fiéis ali presentes, provavelmente apenas dois ou três alcançariam o Céu. Vendo ao seu redor pessoas tão melhores que ele, o pobre homem sentiu-se excluído deste reduzido grupo de predestinados, e por isso se entregara às suas paixões, terminando na cadeia à espera do patíbulo, crendo-se condenado não só pelos homens, como também por Deus.
E se algum aluno objetava que, segundo as palavras de Jesus, a porta do Céu é por demais estreita e o seu caminho muito apertado (cf. Mt 7, 14), o professor lhe respondia com seu característico bom humor: “desde que possamos passar, parece-me suficiente, não há necessidade de caberem dois ao mesmo tempo”.12
Virtude que se refletia no seu exterior
A fama de santidade de São José Cafasso cresceu desde a juventude e nunca foi maculada. De temperamento vivaz, soube adquirir inteiro domínio de si, a ponto de manter-se em paz em meio às contradições e tribulações da vida. A tranquilidade era o seu segredo. Não obstante, ria com gosto entre seus alunos e sabia fazer gracejos e ditos inesperados, pois a virtude em nada prejudicara seu espírito alegre, mas o sublimara.
“Se um sacerdote não é casto, de nada vale, nem para si nem para os demais”.13 Exprimia assim sua convicção profunda e seu amor à virtude angélica. Nas aulas de Moral, tratava com o maior recato os pecados contra a bela virtude, deixando entrever sua repugnância até em mencioná-los.
Só uma intensa vida de oração e a devoção a Maria Santíssima podiam sustentar vida tão santa. Tinha especial fervor na recitação do Breviário, formulando uma intenção particular em cada hora litúrgica: “em Matinas, as necessidades atuais da Igreja; em Laudes, a conversão de algum pecador; em Prima, o sufrágio de alguma alma do Purgatório; em Tercia, uma grande pureza de intenção; em Sexta, uma profunda humildade; em Noa, a virtude da pureza; nas Vésperas, uma santa morte; e em Completas, a própria libertação das penas do Purgatório”.14
“Durante mais de 30 anos de convívio com ele” — escreveu São João Bosco — “não me lembro de tê-lo visto passar um só instante que se pudesse chamar de ocioso. Terminado um trabalho, começava imediatamente outro. Seu único repouso consistia em trocar de ocupação quando se sentia oprimido pela fatiga. Quando, por exemplo, estava cansado de pregar, ia rezar; quando se cansava de escrever, ia visitar os enfermos, confessar nos cárceres ou em qualquer outro lugar”.15 Estes eram os incontáveis “repousos” do padre Cafasso...
Tudo isto se refletia em seu exterior. Seu olhar cintilante — pelo qual tanto se sentira atraído o pequeno João Bosco — era eficaz para corrigir e animar aqueles em quem pousava. Apesar de, por uma deformidade na coluna, ter o ombro direito mais elevado que o esquerdo, seu porte era majestoso e imponente, produzindo até uma forte impressão sobrenatural.
Zelo pastoral pelos encarcerados e condenados à morte
São José Cafasso se dedicava ao ministério da Confissão muitas horas ao dia. “Procuravam-no Bispos, sacerdotes, religiosos, leigos eminentes e pessoas simples: a todos ele sabia oferecer o tempo necessário”.
Nenhuma das prisões de Turim deixou de se beneficiar da caridade de Dom Cafasso. Nem a repugnância que experimentava ao entrar nestes estabelecimentos, nem as maldições, blasfêmias e insultos com os quais era por vezes recebido, o afastavam deste meritório apostolado. Quando, em certa ocasião, avançou contra ele um feroz homicida que se encontrava preso, o santo sacerdote o deteve erguendo o Crucifixo e dizendo: “Eu nada valho, mas este merece tudo”.17
Aos arrependidos, condenados à morte, sabia infundir a confiança na salvação eterna. Quando um destes lhe perguntou se, com tantos crimes, ainda era possível salvar sua alma, ele respondeu: “Não só possível, mas absolutamente certo. [...] Mesmo se estivesses na antecâmara do inferno e tivesses fora só um fio de cabelo, este me bastaria para livrar-te das garras do demônio e levar-te ao Paraíso”.18
Ele acompanhou até o patíbulo 70 condenados à pena capital, depois de os ter confessado e de lhes ter administrado a Eucaristia, pois “nem um só deles morreu impenitente”. 19 Pio XII o proclamou, por este motivo, padroeiro dos cárceres italianos.
Quem se humilhar será exaltado
Contava somente 49 anos este varão chamado a servir de exemplo para aqueles que devem servir de exemplo, quando se viu próximo da hora derradeira, sobre a qual, ao fazer o Exercício da Boa Morte, escrevera: “Estando para terminar minha missão sobre a Terra, entrego a Deus a grande vocação com que Ele quis honrar-me”.20
Próximo já de render sua alma ao Criador exclamou: “Hei de morrer, mas consola-me o pensamento de que, com minha morte, haverá na Terra um ministro indigno a menos, e outro sacerdote, cheio de zelo e de fervor, virá compensar minha frieza e distração... Desejo e rogo ao Senhor que, quando tenha descido ao sepulcro, faça desaparecer da Terra minha memória; e aceito, como penitência por meus pecados, tudo quanto se diga no mundo contra mim, após o meu falecimento”.21
O Divino Juiz não podia atender esta humilde oração... São José Cafasso foi elevado à honra dos altares e hoje permanece como modelo perene para todos os sacerdotes, em especial para os comprometidos na Confissão e na direção espiritual.
“Ele não foi pároco como o cura d’Ars” — afirma dele Bento
XVI, na já mencionada audiência —, “mas foi sobretudo formador de párocos e sacerdotes diocesanos, aliás de sacerdotes santos, entre os quais São João Bosco. Não fundou, como os outros santos sacerdotes do século XIX do Piemonte, institutos religiosos, porque a sua ‘fundação’ foi a ‘escola de vida e de santidade sacerdotal’ que realizou, com o exemplo e o ensinamento”.22
1 Cf. PILLA, SDB, Eugenio. I sogni di Don Bosco. Nella cornice della sua vita. Siena: Cantagalli, 1961, p.389-392.
2 SÃO JOÃO BOSCO. Memorie dell’Oratorio di S. Francesco di Sales. Dal 1815 al 1855. Roma: Istituto Storico Salesiano, 1991, v.IV, p.119.
3 Idem, p.51.
4 Idem, p.52.
5 Idem, p.109.
6 SALOTTI, Carlos. San José Cafasso. Buenos Aires: Paulinas, 1948, p.29.
7 Idem, p.30.
8 BENTO XVI. Audiência geral, de 30/6/2010.
9 SALOTTI, op. cit., p.116.
10 BENTO XVI, op. cit.
11 SALOTTI, op. cit., p.72.
12 Idem, p.74.
13 Idem, p.45.
14 Idem, p.40.
15 SÃO JOÃO BOSCO, apud SALOTTI, op. cit., p.40.
16 BENTO XVI, op. cit.
17 SALOTTI, op. cit., p.225.
18 Idem, p.227.
19 Idem, p.223.
20 Idem, p.30.
21 Idem, p.276.
22 BENTO XVI, op. cit.


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