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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

São Gregório de Narek

Dentro dos muros de um mosteiro, nas misteriosas terras orientais da Armênia antiga, escolheu este monge a melhor parte: aprendeu a conversar, no tempo, com o Senhor das Alturas, para gozar de seu convívio na eternidade.
Existe algum nexo entre o homem contemporâneo, cercado de avançados meios de comunicação, e um monge armênio do século X, vivendo em estrito recolhimento num mosteiro perto do Lago de Van - hoje pertencente à Turquia -, rodeado de montanhas quase sempre nevadas? O que há de tão original e profundo no pensamento de São Gregório de Narek para ter sido declarado Doutor da Igreja?
Decerto perguntas como estas terão passado pela mente de quem leu a notícia divulgada há um ano pela Sala de Imprensa da Santa Sé.1 Vamos juntos tentar descobrir a resposta.
O ser humano precisa se comunicar
Todos nós temos um desejo muito forte de nos comunicar com os demais. O homem é um "animal político", na definição de Aristóteles; segundo São Tomás, um "animal social".3 Isto se explica pelo fato de termos nascido todos com uma ­particularidade denominada por Cícero "instinto de sociabilidade".4
Paradigmática é a historia de Helen Keller, famosa norte-americana que ficou cega e surda antes de completar dois anos de idade, devido a uma grave enfermidade. Desprovida dos principais sentidos, vivia ela como que apartada do mundo. Depois de aprender, ainda criança, com sua preceptora, Anne Sullivan, a se comunicar por meio do tato, conseguiu aos poucos desenvolver um universo de potencialidades latentes em sua alma e acabou por tornar-se educadora, escritora, conferencista e advogada.

sábado, 13 de dezembro de 2014

São Remígio de Reims

Patriarca de uma nova era
A 16 de março do ano 455, o imperador Valentiniano III sucumbia sob os golpes de dois soldados da Guarda Imperial, no Campo de Marte. Com sua morte, extinguia-se a dinastia dos Teodósios, última estirpe a reinar sobre Roma, e apressava-se o fim de um Império já em declínio.
A partir daquele dia, o trono dos césares seria disputado durante mais de vinte anos por governantes efêmeros, joguetes das manobras políticas ou das paixões humanas desenfreadas. Velho e desgastado, o Estado Romano se desagregava antes de cair definitivamente, minado em seu interior, corroído em suas bases pela decadência dos costumes, bem como pela desorganização política, militar e financeira. “Entre os romanos já não havia educação, mas corrupção moral e intrigas, a vida de família estava destruída”.1
De outro lado, as sucessivas invasões dos bárbaros do norte haviam enfraquecido o poderio e a coesão da Roma de outrora. No entanto, “não foram os bárbaros que destruíram o Império, ele mesmo se aniquilou; os estrangeiros foram meros executores da sentença de morte pronunciada pela Ordem moral contra o mundo antigo”.2
Naquela crucial quadra histórica, a Divina Providência suscitou varões como São Severino, Santo Isício, Santo Avito de Vienne — e, mais tarde, Santo Agostinho de Cantuária, São Bonifácio ou São Columbano —, que haveriam de ser germens de uma nova era nascida dos escombros do Império Romano do Ocidente.
A figura desses homens de Deus, aureolada pela fama de suas virtudes — e quantas vezes por numerosos milagres! — exercia poderosa influência entre os bárbaros. Guerreiros de aspecto aterrador, eram eles homens ávidos por conhecer as verdades sobrenaturais e, ao tomar contato com os prelados e os religiosos, despertavam para a luz matinal da Religião Cristã, a qual lhes aparecia com o esplendor da aurora.
Bispo de Reims aos 22 anos
Remígio nascera em Laon, no ano 437, de nobre família galo-romana. Desde muito cedo, sua inteligência e uma especial facilidade para a oratória despertaram a admiração de seus mestres e condiscípulos. A fama de sua eloquência espalhou-se a tal ponto que, em 459, quando o Bispo de Reims faleceu, foi ele escolhido para substituí-lo.
A atuação desse jovem de apenas 22 anos à frente de tão importante sé episcopal revelou, em pouco tempo, o acertado da escolha. “São Remígio era um Bispo de uma ciência notável e primeiro tinha se impregnado do estudo da retórica, mas de tal maneira se distinguia também pela santidade, que se igualava a Silvestre nos milagres”3 — descreve São Gregório de Tours em sua célebre Historia Francorum.
A caridade e doçura do jovem Prelado logo conquistaram os corações dos fiéis, pelos quais se desdobrava, aliviando a todos os que solicitavam seu auxílio, quer com esmolas materiais, quer com o consolo e a instrução do espírito. Todavia, sem abandonar o cuidado daqueles, pelo Batismo, já pertencentes ao redil de Cristo, São Remígio ardia no desejo de conquistar novas almas.
A tribo dos francos sálios
Ao norte de Reims, no atual território da Bélgica, havia se estabelecido a tribo dos francos sálios. Em sua origem, talvez, a mais modesta dentre as germânicas, no decorrer dos anos ela alcançou preponderância em todos os campos, sobretudo na arte militar. Suas qualidades não passaram despercebidas ao olhar atento do Bispo de Reims, o qual via pairar sobre esse povo um especial desígnio de Deus. Impelido pelo seu coração de apóstolo, desejava ele atraí-lo para o seio da Igreja.
Remígio fixara sua atenção, sobretudo, no rei Childerico, quem, em 464, retornara junto aos seus após ter passado oito anos exilado na Turíngia. Durante dezesseis anos de paciente apostolado, esforçou-se por atrair a alma do chefe franco para abraçar a Fé Católica. Este, contudo, resistia. Se, por um lado, mantinha bom relacionamento com os eclesiásticos e lhes dava seu apoio, por outro, continuava ferrenhamente apegado a seus deuses.
Certo dia, entretanto, chegou à sé episcopal de Reims a notícia de que Childerico acabava de falecer, na força da idade, sem haver manifestado nenhum desejo de receber o Batismo. Todos os esforços de Remígio caíam de súbito por terra! Tantas esperanças acumuladas ao longo de quase duas décadas desfaziam-se como uma miragem... Ter-se-ia enganado? O sonho, tanto tempo acariciado, não teria sido apenas uma quimera, fruto de sua imaginação?
Clóvis sucede a seu pai, Childerico
Muitos outros missionários teriam desanimado ante esse aparente fracasso. Não, porém, o Bispo de Reims. Sua alma, exercitada na virtude, possuía a têmpera do herói e a confiança do profeta. Longe de desalentar o enérgico Prelado, a morte do rei dera-lhe ainda mais audácia.
Childerico deixara como sucessor o filho Clóvis, um adolescente de 15 anos, que os francos se apressaram em proclamar rei. Tornava-se indispensável, logo de início, ganhar-lhe a amizade, bem como inculcar-lhe um santo respeito pela Igreja e por seus representantes.
Remígio dirigiu-lhe, então, uma missiva na qual se harmonizavam o afeto do pai e a autoridade do mestre: “Primeiramente, deveis cuidar que o juízo do Senhor não vos abandone, e que vosso mérito se mantenha na altura aonde o levou vossa humildade; porque, segundo o provérbio, as ações do homem se julgam pelo seu fim. Deveis rodear-vos de conselheiros dos quais possais vos ufanar. Praticai o bem, sede casto e honesto. Mostrai-vos cheio de deferência para com vossos Bispos, e recorrei sempre a seus conselhos. [...] Diverti-vos com os jovens, mas deliberai com os anciãos, e, se quereis reinar, mostrai-vos digno”.4
Essa sua carta era o primeiro passo de uma longa caminhada que levaria o jovem rei às fontes batismais da Catedral de Reims.
Um coração fechado para a graça
Durante dez anos, Clóvis contou com a amizade e o apoio de São Remígio para governar o seu reino. E apesar do coração do chefe franco não dar sinais de abrir-se para a graça, nesse período, a influência do Bispo sobre ele aumentava e se robustecia. “O rei pagão aprendia a inclinar-se diante da superioridade moral do sacerdote de Cristo. [...] O homem a quem a voz popular atribuía a ressurreição de um morto ia tornar-se instrumento da ressurreição de um povo”.5
Em 491, Clóvis ficara viúvo. Remígio mediu o risco que corriam os interesses da Igreja se ele resolvesse casar-se com uma princesa pagã ou, pior, afeita à heresia ariana. Sabia o quanto a superstição de Basina, esposa de Childerico, havia constituído um obstáculo para a conversão deste. Por isso, em combinação com Avito, Bispo de Vienne, Remígio propôs ao rei franco casar-se com Clotilde, filha do rei dos burgúndios, que era cristã e fora, desde a infância, educada pelo próprio Avito.
Clóvis aceitou. No ano seguinte, celebraram-se as núpcias na cidade de Soissons, sob os auspícios e as bênçãos do Bispo de Reims. Agora este tinha uma poderosa aliada dentro da própria residência real. Com efeito, cheia de fervor, Clotilde compreendera conferir-lhe sua união com Clóvis a missão de convertê-lo e, por isso, “não cessava de recomendar-lhe que conhecesse o verdadeiro Deus e abandonasse os ídolos”.6
A almejada conversão
O tão anelado dia chegou na primavera de 496, quinze anos após a ascensão de Clóvis à realeza. Segundo nos conta São Gregório de Tours, a rainha fez então vir em segredo São Remígio para “incutir no rei a palavra da salvação”.7
Começando por mostrar-lhe a inutilidade dos ídolos, o santo Prelado de Reims instruiu o rei nas verdades da Fé. Falou-lhe de Nosso Senhor Jesus Cristo, de seus milagres e de seus divinos ensinamentos enquanto Clóvis escutava-o embevecido. Quando, porém, ouviu relatar a dolorosa Paixão de Jesus, com espontânea energia e rusticidade o monarca teria se tomado de cólera e exclamado: “Ah! Por que não estava eu lá com os meus francos?”.8
Seus francos, com efeito, arrebatados de sobrenatural entusiasmo, perceberam os avanços de seu soberano rumo à conversão, e haviam decidido seguir seu exemplo. Quando, pois, este os convocou, a fim de comunicar-lhes sua resolução, bradaram a uma só voz: “Nós rejeitamos os deuses mortais, piedoso rei, e estamos prontos a seguir o Deus imortal que Remígio anuncia”.9
“Remígio, não temas!”
Tudo estava pronto para a cerimônia do Batismo realizar-se no dia seguinte, solenidade do Natal do Senhor. Entretanto, naquela noite Remígio tremia... Uma dessas provações características das vias proféticas abatia-se sobre ele, fazendo surgir em seu interior uma angustiante pergunta: em seu grande empenho pela conversão do rei franco, trabalhara de fato exclusivamente para a glória de Deus? Ou teria se esforçado movido por meras preocupações terrenas?
De repente, um raio de luz iluminou o local onde o homem de Deus rezava em completa escuridão, e uma voz forte fez-se ouvir: “Remígio, não temas!”.10 Nesse momento, ele pôde contemplar, numa visão, as gloriosas consequências desse Batismo, para a Gália e para a Igreja. Sim, o santo Bispo não se enganara, esse acontecimento ia dar origem a uma nação eleita, que viria a ser durante séculos sustentáculo do Papado e contribuiria primordialmente para o florescimento da Religião Católica.
Ante o olhar maravilhado do venerável eclesiástico passou um desfile de guerreiros magníficos, alguns dos quais santos, que punham sua espada a serviço da Fé. Todavia, a esta cena gloriosa sucederam-se outras de desolação: o triste espetáculo das infidelidades desse povo predestinado, afundando no pecado e no esquecimento de Deus. E, enquanto imerso nessas cogitações oscilava entre o júbilo e o horror, outra voz, cheia de suavidade e doçura, sussurrou a seus ouvidos: “Não tenhas medo, porque Eu estou aqui, e vigio”.11
Remígio recobrou a calma. Agora podia caminhar sereno, certo de contar com o mais precioso auxílio.
A Virgem Santíssima, como Mãe bondosa, velaria pela jovem nação dos francos.
“É este o Reino dos Céus?”
Foi ainda sob o impacto dessa visão grandiosa que, na tarde do dia seguinte, Remígio avançou em cortejo pelas ruas de Reims, conduzindo pela mão o rei Clóvis, rumo à catedral. O prédio, muito menor e mais simples, comparado ao atual, fora ornado de cortinas brancas e iluminado por milhares de círios aromáticos, como símbolo da beleza espiritual da Mãe Igreja que nesse dia acolhia os francos como filhos.
“Todo o templo do batistério estava impregnado de um odor divino e Deus cumulou os assistentes de tal graça que eles se sentiam transportados em meio aos perfumes do Paraíso”.12 O próprio Clóvis, deslumbrado ante o esplendor da decoração e dos cânticos, detevese na soleira do recinto sagrado e perguntou a Remígio: “É este o Reino dos Céus que tu me prometes? — Não, mas é o começo do caminho que a ele conduz”13, respondeu o Bispo.
A cerimônia transcorreu com a maior solenidade possível. Nela, três mil francos, sem contar as mulheres e as crianças, receberam o Batismo junto com o Rei. Entre eles estavam sua irmã, a princesa Albofleda, e o pequeno Thierry, nascido do primeiro matrimônio de Clóvis.
Como Simeão, Remígio por fim podia cantar: “Agora, Senhor, deixai o vosso servo ir em paz...” (Lc 2, 29).
Nasce uma nova nação
A vontade de Deus era, porém, de que ele continuasse ainda por muitos anos seu labor apostólico na Gália. Contando agora com a proteção do rei, Remígio podia dedicar-se a erradicar a idolatria, anunciando por toda parte o Evangelho de Cristo. Todos quantos dele se aproximavam saíam beneficiados: os pagãos se convertiam, os cristãos recebiam o pão da doutrina, os hereges abjuravam seus erros, os Bispos sentiam-se animados a seguir seu exemplo.
Nos últimos anos de sua vida, quis o Senhor adornar com a coroa do sofrimento aquela fronte venerável, já nimbada de glória: numerosas doenças enfraqueceram seu corpo, sem lograr, contudo, abater-lhe o ânimo ou amortecer sua caridade. Finalmente Remígio rendeu sua alma a Deus em 530, aos 93 anos de idade e 70 de ministério episcopal.
No decorrer dos séculos, sua figura, longe de se evanescer nas brumas do passado, pareceu tomar maior realce e revelar a verdadeira envergadura de seu espírito. Por sua fidelidade ao chamado de Deus, São Remígio tornou-se profeta de uma nova era e patriarca de uma nação católica à qual permanece vinculado para sempre, como mediador das graças que do Céu baixam sobre ela.
1WEISS, Juan Bautista. Historia Universal. Barcelona: La Educación, 1928, v.IV, p.354. Sobre o quadro de decadência do império romano na época, ver também BORDONOVE, Georges. Clovis et les Mérovingiens. Paris: Pygmalion, 1988, p.30.
2 WEISS, op.cit., p.352.
3 SÃO GREGÓRIO DE TOURS. Histoire des francs. Paris: Les Belles Lettres, 1963, v.I, p.121.
4 MGH. Epistolæ Merovingici et Karoloni aevi, I, 113, apud KURTH, Godefroid. Clovis. Paris: Jules Taillandier, 1978, p.212-213.
5 KURTH, op. cit., p.276.
6 SÃO GREGÓRIO DE TOURS, op. cit., p.119.
7 Idem, p.120.
8 FREDEGAIRE, III, 21, apud KURTH, op. cit., p.297.
9 SÃO GREGÓRIO DE TOURS, op. cit., p.120.
10 BERNET, Anne. Clotilde, épouse de Clóvis. Paris: Pygmalion, 2006, p.148.
11 Idem, p.150.
12 SÃO GREGÓRIO DE TOURS, op. cit., p.120.

13 HINCMAR, Victa sancti Remigii, apud KURTH, op. cit., p.310.
Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA

Canonizado em 3 de abril, São José de Anchieta reúne em sua personalidade inúmeras qualidades próprias à grande missão a que estava destinado. Aliou grandes virtudes a relevantes talentos naturais como mestre, gramático e artista. Ensinou aos índios os ofícios de pedreiro, carpinteiro e ferreiro, além de ajudá-los como enfermeiro. Seu ardor apostólico lhe valeu o elogio de “zeloso salvador 1 das almas”, feito pelo Beato Inácio de Azevedo, seu contemporâneo. No entanto, seu mais famoso título é o de “Apóstolo do Brasil”, dado pelo Administrador Apostólico Bartolomeu Simões Pereira, Prelado do Rio de Janeiro, em sua homilia durante as cerimônias fúnebres do Santo.
Um dos mais conhecidos milagres
Os relatos de sua vida são ricos em milagres, alguns dos quais bem conhecidos, como a ressurreição do índio Diogo. Este nativo morreu na vila de Santos, na casa do nobre Domingos Dias, e todos o tinham por católico. Algo surpreendente se passou no velório: o corpo do Diogo se moveu, causando grande espanto entre os presentes. Aproxima-se então Grácia Rodrigues, a senhora da casa e uma das testemunhas que prestaram juramento a respeito da veracidade do fato, e o índio lhe pede para chamar o padre Anchieta, a fim de ser batizado. Segundo ele, o Santo viera-lhe ao encontro, mandando que retornasse à vida.
Todos responderam ser impossível, pois o sacerdote se encontrava em São Vicente. Replicou Diogo dizendo estar o santo a apenas duas léguas de distância, perto de um riacho. Apesar de perplexos, alguns foram rapidamente ao local, encontrando Anchieta já a caminho. Quando chegou, o missionário ordenou ao índio que dissesse em público o motivo de sua ressurreição.
Então ele passou a narrar que os portugueses o haviam instruído na Fé cristã, sem contudo batizá-lo. Ele pensou não ser necessário o Batismo, sendo suficiente levar uma vida correta. Entre as abundantes lágrimas dos presentes, o Santo batiza-o e diz ter sido bem empregado todo o esforço de sua vida apenas para salvar esta alma.
Título singular recebido em Coimbra
Além de fatos extraordinários como esse, há aspectos menos conhecidos desta grande personalidade, como o de ser hábil poeta, cujas obras, feitas nas circunstâncias mais difíceis, manifestam o inegável talento dessa alma inocente. Qualidade essa favorecida pela formação recebida em sua juventude.
Nascido a 19 de março de 1534, em San Cristóbal de La Laguna, na ilha de Tenerife, uma das principais do famoso arquipélago das Canárias, José de Anchieta em sua primeira infância recebeu a formação dos padres dominicanos na cidade natal. Com 14 anos, embarcou para Portugal, ingressando no prestigioso e recém-formado Real Colégio das Artes, em Coimbra, orgulho do Rei Dom João III, que não poupou meios financeiros para dotá-lo dos melhores professores da Europa.
O jovem José aí se distinguiu por sua habilidade na língua latina e a facilidade em compor versos. Durante esses anos de estudos, Anchieta foi cognominado pelos amigos e professores de “Canário de Coimbra”,2 em alusão ao melodioso canto desse pássaro e ao arquipélago de sua proveniência. Mal sabia ele o quanto esse dom lhe seria um útil instrumento de evangelização no longínquo Brasil...
Antes mesmo de se tornar religioso, José consagrou sua virgindade a Nossa Senhora na Catedral de Coimbra. Posteriormente, em 1551, entraria para a Companhia de Jesus, que havia recebido a aprovação pontifícia em 1540.
Devido a problemas de saúde e seu ardente desejo apostólico, os médicos consideravam o clima brasileiro propício à sua saúde. Assim, contando apenas 19 anos de idade, chegou ele ao Novo Continente, ao qual consagraria os 44 anos restantes de sua vida.
Todos corriam para a catequese
Ao se defrontar com a realidade do Brasil, Anchieta soube se fazer pequeno com os pequenos, para assim torná-los grandes na ordem espiritual. O Canário de Coimbra, que compunha poemas latinos em estilo clássico com toda facilidade, agora se empenha em aprender a língua nativa, o que consegue em poucos meses. Escreveria ele uma gramática tupi, facilitando o trabalho dos demais missionários.
Diversas vezes em suas cartas, o Santo se refere à candura dos índios e ao modo admirativo com que ouviam as pregações. Anchieta ganhara o coração deste povo com uma catequese simples e direta.
Empenhou-se ele em escrever versos, que logo se transformaram em cantos populares na boca dos índios, transmitindo a verdade da Fé de forma inocente. Mais bonitos ainda eram os versos declamados nas peças teatrais. Anchieta não só redigia os textos, mas montava o cenário e treinava os atores, sem negligenciar os mínimos detalhes, para que a população assistisse com agrado à catequese. Nas representações teatrais, todos acorriam à Igreja, deixando as aldeias vazias. Desta forma, o Santo fazia com que os espíritos daqueles novos católicos se elevassem contemplando as maravilhas da Fé.
Entre as mais famosas peças encontra-se a de São Lourenço, provavelmente apresentada em Niterói, a 10 de agosto de 1583, na qual figuram Anjos, demônios, imperadores romanos, São Lourenço, São Sebastião — padroeiro do Rio de Janeiro —, e personagens como o Temor de Deus e o Amor a Deus. Os assistentes ficavam na ponta dos pés de entusiasmo, tudo sendo interpretado pelos próprios nativos.
Podemos imaginar a reação do auditório ao ouvir as seguintes palavras pronunciadas em língua tupi pelo Anjo da Guarda, logo após aprisionar os demônios: “Alegrai-vos, / filhos meus, por mim. / Aqui estou para vos proteger. / Vim do Céu / para junto de vós / a ajudar-vos sempre. / Iluminando esta aldeia / junto de vós estou. / Não me afastarei daqui. / De custodiar a aldeia / encarregou-me Nosso Senhor”.3
O enorme esforço para a realização de obras desse porte, com os parcos recursos disponíveis, era recompensado pelos frutos espirituais colhidos naquelas almas sedentas de Deus.
Versos que se tornavam o encanto dos índios
Os cânticos com rimas improvisadas eram muito do agrado dos indígenas. E ainda hoje, no imenso Brasil, em algumas regiões se observa a herança desse costume em canções populares.
Esta forma de cântico requer destreza de pensamento, a qual nunca faltou ao Canário de Coimbra. Acompanhando os gostos daquelas almas, Anchieta escrevia versos que se tornavam o encanto dos índios.
Um bom exemplo desse tipo de literatura encontramos na poesia composta em honra de Santa Inês, em simples quadras rimadas, que mostram a candura de sua alma:
“Cordeirinha linda, / como folga o povo, / porque vossa vinda / lhe dá lume novo. / Cordeirinha santa, / de Iesu querida, / vossa santa vinda / o diabo espanta. / Por isso vos canta, / com prazer, o povo, / porque vossa vinda / lhe dá lume novo”.4
As encenações teatrais, os poemas, as cantigas, tudo tinha como objetivo a glória de Deus e o bem das almas. São José de Anchieta elevava os índios de sua vida banal para os grandiosos panoramas da fé. Em suas cartas, mais de uma vez declara que essas pobres almas muitas vezes se adiantavam na prática da Fé Católica aos seus colonizadores. Eram as graças dispensadas pela Divina Providência a esta nação nascida sob o signo da Cruz de Cristo estampada nas naus de Cabral.
O eficaz apostolado realizado por Anchieta defluía de sua santidade. Eram justamente a vida ilibada do apóstolo e a sabedoria de suas palavras que moviam os índios à conversão, como atesta este bonito fato narrado por Pero Rodrigues, contemporâneo do Santo: “Ouvindo-o um dia pregar, uma mulher simples, com muita devoção, usou desta semelhança: ‘o Espírito Santo põe na boca do padre o que há de dizer, assim como a pomba na boca do filhote o que há de comer’”.5
Cativo na “cova dos leões”
Podemos pensar ter São José de Anchieta escrito seu mais belo poema em um momento de reflexão e de calma. Mas não foi assim.
Os calvinistas de origem francesa estabelecidos no Rio de Janeiro, em 1555, haviam feito acordo com os ferozes tamoios contra os portugueses estabelecidos ao sul. E para evitar ataques que poderiam causar pavorosos estragos tanto entre os portugueses como entre os índios católicos, procurou-se chegar a um armistício com os tamoios. A fim de garantir as negociações de paz, ofereceram-se como reféns o padre Manuel da Nóbrega acompanhado por José de Anchieta, que nessa época ainda não era sacerdote, mas já se tornara modelo de virtude que inspirava respeito e admiração até nos inimigos.
Para tal, a 7 de maio de 1563, desembarcam os dois religiosos em Iperoig, atual Ubatuba. Entre as ameaças que sofreram, conta-se uma ocorrida na véspera da Solenidade de Corpus Christi, no dia 9 de junho. Enquanto passeavam pela praia, o padre Nóbrega e Anchieta avistaram no horizonte uma pequena embarcação suspeita e correram para alertar o cacique Pindobuçu, que atuava como seu protetor, mas não o encontraram.
Quando os malfeitores, liderados pelo índio Paranapuçu, desembarcaram com intenção de matar os religiosos, se depararam com eles rezando de joelhos diante de uma imagem de Nossa Senhora e desistiram de seu intento. Paranapuçu confessaria mais tarde que seu coração se transformou ao ver os missionários e perdeu completamente a força diante deles.
Pouco depois, em 21 de junho, o padre Nóbrega teve que retornar a São Vicente, a fim de adiantar as negociações de paz e Anchieta permaneceu sozinho por mais três meses no cativeiro como um Daniel na cova dos leões, amansando-lhes os corações.
Puro de corpo e livre no espírito
Enganar-nos-emos se pensarmos que o cativeiro de São José de Anchieta e a perspectiva de uma morte violenta a qualquer momento fossem para ele causa de temor e angústia. Pelo contrário, ele estava sempre disposto a entregar de bom grado sua vida e regar as terras brasileiras com seu sangue se o sacrifício servisse para obter almas cristãs que servissem Nosso Senhor.
O próprio padre Nóbrega se lamenta por ter deixado Anchieta sozinho, sabendo que a qualquer desentendimento entre as partes do armistício seria o suficiente para que o Santo perdesse a vida. Numa das cartas que o padre Nóbrega dirigiu ao Santo, assim se expressou: “Irmão, se ainda estais vivo...”.6 E estava! Vivo para Deus, pois a cada dia vencia uma batalha mais terrível.
Anchieta havia consagrado sua pureza à Virgem Santíssima e queria preservá-la intacta a todo custo. Consideremos, entretanto, a situação em que ele se encontrava durante o cativeiro e as provocações a que se expunha a cada momento. Certa noite estava rezando diante de um crucifixo. Aproximou-se, então, uma índia com intenções bem definidas e encontrou Anchieta de joelhos, imóvel. Chamou-lhe pelo nome, mas ele não respondeu. Depois de muito insistir, ela diz: “Estás vivo, ou morto?”. E o santo respondeu com voz firme: “Estou morto...”. Estava, de fato, morto para o pecado e vivo para Deus. A resposta foi pronunciada com tanta seriedade que a índia fugiu, gritando pela aldeia: “O Deus deste abaré [padre em língua tupi] me persegue e me quer matar”.7
O mais belo dos poemas do Santo
Mas o fator decisivo para manter sua integridade encontra-se na devoção a Nossa Senhora. Foi justamente neste cativeiro, correndo riscos físicos e espirituais, que o Canário de Coimbra escreveu seu mais belo canto: o Poema à Virgem.
São José de Anchieta prometeu à Mãe de Deus compor um poema em sua honra, caso sua alma saísse incólume de todos os perigos morais. E enquanto seu corpo era cativo dos tamoios, sua alma voava livre na contemplação da Rainha dos Céus.
Nas palavras do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, “ele soube encontrar acentos próprios, para louvar a mais elevada das criaturas, Aquela que, cantada pelos profetas já antes de seu nascimento, viu-se chamar Bem-Aventurada por todas as gerações que Lhe sucederam”.8
Sobre a areia úmida da praia, traçava cuidadosamente os versos de seu poema em língua latina. Contam os índios que, enquanto ele escrevia, uma graciosa ave lhe pousava nos ombros como a inspirar-lhe a composição. Teve de memorizar os quase 5.800 versos, compostos ao longo de quatro meses, pois ali não havia tinta nem papel. Somente depois de liberto, Anchieta conseguiu transcrevê-los.
O epílogo deste poema é belíssimo e mostra a alma já vitoriosa de Anchieta: “Eis os versos que outrora, ó Mãe Santíssima, / Te prometi em voto, / vendo-me cercado de feros inimigos, / pobre refém, tratava as suspiradas pazes, / tua graça me acolheu / em teu materno manto / e teu véu me velou intactos corpo e alma. / A inspiração do Céu, / eu muitas vezes desejei penar / e cruelmente expirar desejei em duros ferros. / Mas sofreram merecida repulsa meus desejos: / só a heróis / compete tanta glória”.9
A devoção de São José de Anchieta a Nossa Senhora, tão filialmente refletida naqueles versos escritos na praia, mais do que nas areias, ficou gravada no coração do Brasil e de filhos que se tornaram profundamente marianos. Sem dúvida, o mais belo canto do Canário de Coimbra foi ter ensinado a devoção a Maria Santíssima ao povo brasileiro.
1 AZEVEDO, SJ, Inácio de, apud VICE-POSTULAÇÃO DO V. P. ANCHIETA. Vida Ilustrada do V P. . José de Anchieta, da Companhia de Jesus. Apóstolo do Brasil. 3.ed. Rio de Janeiro: Aparecida, 1939, p.112.
2 VICE-POSTULAÇÃO DO V. P. ANCHIETA, op. cit., p.13.
3 SÃO JOSÉ DE ANCHIETA. São Lourenço, apud THOMAZ, Joaquim. Anchieta. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1981, p.122-123.
4 SÃO JOSÉ DE ANCHIETA. A Santa Inês, apud: MAIA, SJ, Pedro Américo. José de Anchieta, o apóstolo do Brasil. São Paulo: FTD, 1997, p.45.
5 RODRIGUES, Pero. Vida do Padre José de Anchieta. L.I, c.5.
6 NÓBREGA, SJ, Manuel da. Carta, apud VIOTTI, SJ, Hélio Abranches. Anchieta: o apóstolo do Brasil. 2.ed. São Paulo: Loyola, 1980, p.101.
7 ASV. Cong. Rit. Anchieta, n.306,296-297, apud VIOTTI, op. cit., p.100.
8 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Discurso na Assembleia Nacional Constituinte sobre o padre Anchieta, seção de 17 de março de 1934. In: Opera Omnia. Reedição de escritos, pronunciamentos e obras. São Paulo: Retornarei, 2009, v.II, p.62.
9 SÃO JOSÉ DE ANCHIETA. De Beata Virgine Dei Matre Maria, v.5.777-5786, apud VIOTTI, op. cit., p.102.


Thiago de Oliveira Geraldo. Revista Arautos do Evangelho jun 2014

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

São Lourenço, Mártir

Colocado sobre uma grelha e assado vivo, São Lourenço passou para a História como exemplo para os séculos futuros…
Faremos alguns comentários, com base num texto da obra de Rohrbacher “A vida dos santos”, a respeito de São Lourenço, Mártir.
A perseguição de Valeriano intensificou-se sobremaneira no ano de 258. O Papa São Sisto foi preso com alguns membros do seu clero, quando estava no cemitério de Calisto para celebrar os Santos Mistérios. Quando o levavam ao suplício, Lourenço, o primeiro dos diáconos da Igreja Romana, seguia-o chorando e dizendo: “Aonde ides, pai, sem vosso filho? Aonde ides, Santo Pontífice, sem vosso Diácono? Não estais acostumado a oferecer o sacrifício sem ministro. No que vos desagradei? Experimentai se sou digno da escolha que fizestes de mim, para me confiar a dispensa do Sangue de Nosso Senhor.” Sisto respondeu-lhe: “Não sou eu que te deixo, meu filho, mas um combate maior te está reservado. Poupam-nos, a nós velhos, mas tu me seguirás dentro de três dias.”
Entretanto, o prefeito de Roma, julgando que os cristãos tinham grandes tesouros escondidos e querendo disso certificar-se, mandou chamar Lourenço, que como primeiro Diácono da Igreja Romana era custódio. Pediu-lhe que lhe entregasse os tesouros dos cristãos e Lourenço respondeu-lhe que lhe entregaria, após fazer o cômputo total do que possuíam. Reuniu todos os pobres e doentes de Roma, mostrando-os ao prefeito como únicos tesouros e os maiores da Igreja. Os pobres eram ouro, as virgens e viúvas, as pérolas e demais pedras preciosas. Furioso, o prefeito ordenou a morte do Diácono, mas exigiu que fosse lenta e cruel. Despiram-no e deitaram-no sobre uma grelha, tendo embaixo brasas semiacesas. Os que assistiam ao suplício viram o rosto do mártir rodeado de esplendor extraordinário. Depois de muito tempo, disse o supliciado ao algoz: “Fazei-me virar. Já estou bastante assado desse lado.” Depois que o viraram, disse ainda: “Está assado, podeis comer.” Olhando então ao céu, rogou a Deus pela conversão de Roma e expirou. Senadores, convertidos pelo exemplo de sua constância, carregaram-lhe o corpo nas costas e o enterraram no Campo Verano, perto de Tivoli, numa gruta.
O sacrifício de um mártir
Há um grande número de dados preciosos nesse texto. O primeiro deles é o diálogo de São Lourenço com o Papa São Sisto. O santo sacrifício da Missa é a repetição incruenta do Santo Sacrifício da Cruz. De sorte que oferecer o Sacrifício da Cruz e oferecer o sacrifício da Missa é uma mesma coisa. O mártir, por outro lado, quando se oferece em holocausto, de algum modo oferece um sacrifício que é o dele e, sem renovar o Sacrifício da Cruz, entretanto imita a Nosso Senhor Jesus Cristo, que se imolou a Si próprio. Há, portanto, um conjunto de correlações entre o Sacrifício do Calvário, a Missa e o martírio. E foi em torno dessas correlações que girou o diálogo, entre todos admirável, do Papa São Sisto com seu Diácono.
O Papa foi preso e conduzido para a morte. E o Diácono dele, São Lourenço, lhe dizia: “Vós oferecestes tantas vezes o sacrifício comigo — era o papel do Diácono ajudar o Papa na celebração da Missa. Agora, vós não o quereis oferecer? Ireis me deixar nesta Terra, no momento em que vosso sacrifício vai ser feito? É como que a vossa Missa. Eu não sou vosso Diácono? Levai-me para eu ser morto convosco; uma vez que eu vos servi a vida inteira ao pé do altar, quero servir-vos também ao pé da morte.”
Depois dessa maravilha de diálogo, São Sisto profetizou: “Eu vou ter uma morte suave em comparação com a tua. Os moços vão ser menos poupados do que nós, velhos. Daqui a três dias chegará tua ocasião e serás morto.”
Prenúncio do vínculo feudal
Realmente, essa fidelidade de São Lourenço a São Sisto traz consigo um primeiro lampejo de Idade Média. Trata-se de uma fidelidade que gira em torno de relações de caráter eclesiástico, mas é uma fidelidade feudal. O servidor se une àquele a quem serve, por um vínculo muito maior do que um contrato de locação de serviço; é um vínculo de amor e de dedicação de toda a alma, de consagração da vida inteira, de tal maneira que ele sente que não tem razão de existir a não ser em função daquele a quem serve. Na força desse vínculo vemos prenunciado o feudalismo, em que há os vínculos de fidelidade, já então de ordem temporal, mas concebidos religiosamente, porque a fidelidade é uma virtude religiosa, ainda quando praticada no âmbito temporal.
Nesse vínculo que ligava o Diácono ao Papa, vemos desabrochar a alma feudal, feita do senso do serviço, do senso da alienação e do senso de honra, pois aquele que serve coloca a sua honra em servir de fato àquele a quem se vinculou. Vemos nisso uma admirável alienação, o contrário da desalienação miserável que os revolucionários desejam. E um antessabor da Idade Média, onde as articulações das pessoas que constituíam a sociedade eram todas na base de uma alienação, de uma entrega, de uma proteção. Todo o perfume da Idade Média começa a evolar-se nessa lealdade, nessa dedicação, nesse senso de honra, nessa entrega, nessa alienação de São Lourenço para com o Papa São Sisto.
Os tesouros da Igreja...
De outro lado, temos o episódio admirável com os pobres.
Tendo ouvido dizer que os cristãos eram riquíssimos, o prefeito mandou chamar São Lourenço, ao qual, de acordo com a organização da Igreja naquele tempo, como Diácono, cabia a guarda dos objetos que constituíam o tesouro da Igreja romana. Pobre tesouro primitivo: alguns objetos doados pela nobreza romana, ou pelas pessoas ricas de
Roma, para o culto. Era uma coisa que não tinha comparação com os tesouros hodiernos da Igreja.
Exigiu, então, que São Lourenço os entregasse. O santo Diácono disse-lhe: “Não tem dúvida. Eu vou trazê-los. Preciso de certo tempo para reuni-los todos para ver quantos são; depois eu os trago.” O prefeito respondeu: “Está bem. Então faça isso.”
No dia marcado aparece grande número de pobres de Roma, viúvas, estropiados, aos quais os romanos pagãos tinham um desprezo soberano; o pouco-caso dos romanos em relação ao pobre era uma coisa incomparável. São Lourenço afirmou: “Aqui estão os tesouros da Igreja.” É uma admirável lição de espírito sobrenatural.
Por que o pobre é um tesouro? Antes de tudo, porque ele é homem, é cristão, batizado, filho da Igreja Católica. E o que vale no homem não é o que ele tem, sabe, pode ou faz; mas sim o fato de ele ser, acima de tudo, uma criatura de Deus. Em segundo lugar, que ele foi remido pelo Sangue infinitamente precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo. Em terceiro lugar, que ele custou as lágrimas indizivelmente preciosas de Nossa Senhora. Esses títulos fazem de qualquer homem, mesmo que seja um molambo, um verdadeiro tesouro, porque Nosso Senhor Jesus Cristo ter-se-ia encarnado e morrido na Cruz ainda que fosse só por causa dele. Ora, duas quantidades iguais a uma terceira são iguais entre si. Se aquele homem vale o Sangue de Cristo, como o Sangue de Cristo tem um valor infinito, aquele homem tem de algum modo um valor infinito. Então, por ser homem, por ser filho da Igreja, um pobre tem um valor incomensurável. Mas ele tem um valor ainda maior, não simplesmente pelo fato de ser homem, mas de ser pobre. Não no sentido revolucionário de que só o pobre tem valor. Aos olhos de Deus, há uma série de predicados humanos, até opostos entre si, se bem que não contraditórios, os quais tornam o homem digno de um amor especial de Deus, debaixo de certo título.
O sofrimento: uma forma de predileção!
Por exemplo, “simples de espírito”, no sentido corrente, atual da expressão — não no sentido antigo — quer dizer pessoas pouco inteligentes. Deus ama os simples de espírito de um modo especial; os ama na sua fragilidade porque são desnudados intelectualmente dos recursos necessários para viver, e a Providência Divina pousa sobre eles e os protege. Isso não quer dizer que Deus não ame o sábio. O fato de Deus amar com uma proteção especial aquele que é carente do ponto de vista intelectual não exclui que Ele, por outro título, ame imensamente um São Tomás de Aquino, ou Nossa Senhora, cujo conhecimento de todas as coisas deixava o de São Tomás de Aquino mais longe do que o de São Tomás dista de nós.
São títulos diversos, segundo os quais Deus ama cada coisa. De certa forma, isso ocorre com o homem que se encanta com a rosa, a rainha das flores, porque ela se abre lindíssima e se mostra no seu esplendor. Entretanto, o homem não se maravilha com a violeta pela razão oposta? Porque ela se esconde, é apagada, delicada, pequenina. Dizer que Deus ama o pobre não significa que Ele não ama o rico. Na pobreza há um título especial para o Criador amar quem é pobre. E qual é esse título?
Esse título é: Deus ama os que sofrem; bem entendido, os que padecem com resignação, em união com Ele; o sofrimento é uma prova de predileção. De maneira que quem vê um pobre porque sofre, vê no pobre um tesouro. O que significa que se eu devo amar a pobreza de um pobre, o pobre também precisa amar sua pobreza. É evidente.
Isso não quer dizer que o pobre não deva trabalhar, para deixar de ser pobre. Mas enquanto não consegue sair da pobreza, ele precisa, ao mesmo tempo, ver nela um sofrimento, mas deve carregá-la com resignação. E nós, vendo um pobre, devemos lamentar que ele seja pobre e, na medida em que podemos e tem propósito, precisamos ajudá-lo; mas devemos dar graças a Deus que não só criou os ricos, mas também os pobres. Porque há uma excelência especial da alma humana na aceitação da pobreza.
É como, por exemplo, a doença. Não se pode imaginar a que grau de degradação teria descido o mundo se não houvesse doenças. Que cúmulo de imoralidades haveria na Terra, se elas não existissem! A Igreja é quem mais faz para acabar com as doenças, mas Ela dá graças a Deus por haver doenças invencíveis, porque é necessário para o homem que haja doenças. Assim, com esse equilíbrio muito grande das coisas, pode-se e deve-se dizer que o pobre, a viúva, o órfão, são verdadeiros tesouros reais dentro da Igreja Católica. São Lourenço deu uma admirável lição ao prefeito de Roma.
Lição para todos os séculos
A última lição ele a deu para todos os séculos: foi o seu martírio. Não se pode compreender sem um milagre, mas um milagre de primeira classe, que um homem aguente o que ele suportou. São Lourenço foi colocado sobre uma grelha, debaixo da qual foram postas brasas. E ele foi assando aos poucos. Podemos imaginar o que representa a dor de ser assado por essa forma.
E São Lourenço, com placidez e o rosto translúcido de alegria, quando percebeu que uma parte de seu corpo estava queimada — é um outro milagre ele não ter morrido com isso —, disse: “Um lado está assado, podem assar o outro lado.” Ele foi virado e na hora de expirar pediu a conversão de Roma; e foi atendido. Vários senadores que assistiram o seu martírio carregaram o seu corpo até a sepultura. Quer dizer, ele, um mero Diácono da Igreja, que vivia como perseguido nas catacumbas, é carregado por componentes do mais alto órgão legislativo da Terra naquele tempo, que era o Senado romano, levado aos ombros por aqueles que ele converteu com seu sofrimento.
Qual o resultado da humildade?
Isso foi o resultado de sua humildade. No Magnificat, disse Nossa Senhora: “Deposuit potentes de sede, et exaltavit humiles — Deus destituiu de suas cátedras os poderosos e exaltou aqueles que são humildes.” Vimos o que aconteceu com São Lourenço. Quem hoje houve falar do Imperador Valeriano? Está desfeito em poeira, apontado ao horror de todos os séculos, quando não, no esquecimento.
Um dos mais célebres palácios do mundo comemora a glória de São Lourenço: o Escorial, construído por Felipe II. Era festa de São Lourenço e Felipe II teria contra os protestantes franceses uma batalha muito árdua. Então, o rei propôs a Deus que ele faria construir uma Basílica magnífica em louvor de São Lourenço, se ganhasse aquela batalha. Ele desbaratou os hereges e mandou construir uma grande obra de arte, o Escorial, que tem exatamente a forma de uma grelha, para celebrar o instrumento do martírio de São Lourenço. E todos os turistas e peregrinos do mundo inteiro, que vão ao Escorial, ficam sabendo das glórias de São Lourenço. Sem falar, naturalmente, no culto que lhe presta a Igreja Universal.
O mártir sacrossanto está no mais alto do Céu, louvado por Nossa Senhora, pelos anjos, objeto de predileção de Deus; até o fim do mundo se celebrará a memória dele e por toda a eternidade os anjos vão cantar sua glória no Paraíso.
E os poderosos, que eram filhos da iniquidade e se orgulhavam do seu poder, foram jogados no chão. Valeriano onde estará?  

Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferência de 9/8/1969

sábado, 30 de março de 2013

São João Maria Vianney,modelo para os sacerdotes


Homem pobre e pouco inteligente, São João Maria Vianney tornou-se um exemplo da Onipotência Divina pela santidade de sua vida e eficácia de sua ação.

A vida de São João Maria Vianney, um dos maiores santos do século XIX, apresenta muitos aspectos passíveis de comentários.
Ele foi, nas primeiras décadas do século XIX, um seminarista muito pobre e, além disso, de inteligência notavelmente pequena. Precisou fazer seus estudos de seminário com um esforço extraordinário, e, durante algum tempo, até duvidou-se da sua vocação sacerdotal, por causa dessa insuficiência de inteligência. Formou-se a duras penas — pode-se dizer que ele conseguiu o diploma de fim de curso de seminário apenas no limite mínimo da suficiência — e, por ser um homem tão apagado, de tão poucos predicados naturais, foi encaminhado pelo seu Bispo para um vilarejo minúsculo do Sul da França: a aldeiazinha de Ars.
Ali começou então a sua atuação sacerdotal, que encheu de luz a Europa inteira e depois se propagou para o mundo novo; posteriormente, ele foi proclamado modelo e patrono do clero.
Modelo de sacerdote
O que distinguia esse santo?
Embora não tivesse nenhuma das qualidades naturais para exercer um sacerdócio extraordinário, ele, entretanto, foi um sacerdote magnífico, um apóstolo estupendo, um confessor dotado de raríssimo discernimento, um pregador que exercia profunda influência sobre as almas e, acima de tudo, com um título que é a arquitetura de todo o resto: foi o próprio modelo de sacerdote.
Qual era a razão da eficácia do seu apostolado?
Como bem disse Santa Teresinha do Menino Jesus, para o amor, nada é impossível, e quem verdadeiramente ama a Deus Nosso Senhor e a Nossa Senhora obtém os meios para fazer aquilo a que a Providência Divina o chama.
Um ensinamento dotado de potência
Ele era um pregador extraordinário. Estudava os seus sermões, procurava prepará-los com cuidado. Não subia às altas regiões da Teologia, mas suas homilias cuidavam das noções catequéticas comuns com as quais um sacerdote instrui o povo. Entretanto, o santo Cura d’Ars ensinava com tanta unção, compenetração, Fé e amor que tudo quanto ele dizia se tornava atraente. E muitas vezes, tendo ele voz fraca — naquela época em que não havia microfones —, não conseguia se fazer ouvir pelas multidões que ficavam acumuladas na porta do templo e até do lado de fora. Mas, só de vê-lo e de escutar uma ou outra frase que ele pronunciava, as pessoas se convertiam.
Deus num homem
Dom Chautard, na “Alma de Todo Apostolado”, conta esse fato característico:
Curioso pela fama de São João Maria Vianney, um advogado de Paris foi fazer uma visita à cidadezinha de Ars para conhecê-lo. Quando o advogado voltou a Paris, perguntaram-lhe:
— O que o senhor viu lá em Ars?
Ele deu esta resposta, que é a maior glória que um homem pode ter:
— Eu vi Deus num homem. Quer dizer, notava-se que Deus estava nele.
Era só ele começar a falar, que as almas se comoviam e se modificavam; as conversões que ele fazia eram espantosas e numerosíssimas.
Pergunta Dom Chautard: Por que o Cura d’Ars conseguia converter, sendo pouco dotado intelectualmente, enquanto outros padres tão inteligentes muitas vezes não convertem ninguém? E responde: Ele tinha uma grande vida de pensamento, de meditação, uma intensa vida interior. E porque tinha essa vida interior, ele estava imbuído e compenetrado das doutrinas que ensinava. E quando ele falava, as pessoas tinham a sensação de ter um contato vivo com as verdades das quais ele era o arauto.
Ele possuía a unção, o carisma da pregação, e Ars se tornou um centro de peregrinação: à semelhança do advogado há pouco mencionado, pessoas de toda a França, e também de outras regiões da Europa, iam a Ars a fim de ver e ouvir esse sacerdote.
Verdadeiro mártir do confessionário
Confessionário utilizado por São João Maria
Além disso, ele foi um verdadeiro mártir do confessionário, onde permanecia horas inteiras ouvindo confissões. Podemos imaginar o que representa para um padre ficar sentado numa verdadeira cabinezinha de escuridão, a ouvir os pecados das pessoas e dar-lhes os conselhos, durante horas e horas. Que tremenda penitência isto representa!
São João Maria Vianney era um sacerdote que seguia o conselho dado por Santo Afonso de Ligório: ouvia cada confissão sem pressa, como se tivesse só aquela pessoa para ser atendida, e lutava corpo a corpo com os pecados daquele indivíduo.
Ele aconselhava, insistia; e quando a pessoa não tinha o propósito sério e verdadeiro de se emendar de seus pecados, ele negava a absolvição.
Isso chegava a tal ponto, que havia paroquianos que iam confessar-se noutras paróquias, para obter absolvição. Ele dizia: “Se outros padres querem lhes mandar para o Inferno... Eu sou seu pároco, e não lhes dou a absolvição.”
Após um dia inteiro na igreja, começava a batalha noturna com o demônio
Interior da casa onde viveu São João Maria Vianney
Este padre extraordinário passava o dia inteiro na igreja: no púlpito, no confessionário, no altar. Poder-se-ia pensar que, quando ele ia à noite para casa, gozaria de um bom repouso. Entretanto, aí começava uma das mais estranhas facetas da vida dele: era a batalha noturna com o demônio.
Contam os biógrafos de São João Batista Vianney que ele teve, certa vez, um sonho no qual se viu julgado por Deus, e o demônio dizer contra ele: “É preciso castigá-lo, porque em tal ocasião ele estava muito cansado e, passando perto de uma cerca, comeu dois cachos de uvas.” De fato, ele estava fugindo do serviço militar, porque Napoleão obrigava os seminaristas a servir na guerra. E o demônio acrescentou: “Ladrão! Comeu dois cachos de uvas, deve ser punido!”
E São João Maria Vianney respondeu: “Tu mentes, ladrão não sou, porque eu deixei em tal local o dinheiro correspondente ao preço dos cachos de uvas, para que o dono, quando passasse por lá, o pegasse.”
E quando vinha confessar-se uma alma particularmente dominada pelo demônio, este começava a atormentar São João Maria Vianney na noite anterior. Em certa ocasião, ateou fogo em sua cama, tendo uma parte do colchão ficado toda tisnada pelas chamas. Ele, felizmente, não se feriu. O demônio o odiava porque sentia que uma de suas vítimas lhe seria arrancada pelo santo.
O santo Cura d’Ars fazia penitências, se flagelava, rezava por aquelas almas, para conseguir depois que suas palavras fossem portadoras das graças necessárias para operar as conversões delas. Além disso, levou uma vida de jejum intenso, e fez de seu confessionário um longo martírio de sua existência.
Atribuía seus milagres a Santa Filomena
Para acentuar ainda mais o seu apostolado, a Providência deu-lhe o dom dos milagres.
Na igreja dele havia uma relíquia insigne de Santa Filomena, mártir. E antes de fazer algum milagre, ele dizia: “Rezemos a Santa Filomena!” E quando o milagre era realizado, afirmava ter sido Santa Filomena que o fizera, para não tocar a ele a graça e a glória de ter operado o milagre.
Revelando o passado miraculosamente
Encerro recordando um fato extraordinário, contado por uma penitente dele.
Uma moça foi confessar-se e São João Maria Vianney disse para ela:
— Minha filha, você se lembra de que esteve em tal ocasião num baile?
Podemos imaginar a sensação dela.
E continuou ele:
— Lembra-se de que, em certo momento, entrou na sala de baile um rapaz muito bem apessoado, elegante, correto, e dançou com várias moças?
— Sim, lembro-me.
— Lembra-se de que você teve muita vontade de que ele dançasse consigo?
— Lembro-me.
— Lembra-se de que o rapaz não o fez, e por isso você olhou para ele com uma espécie de tristeza? E, na hora de ele sair da sala, fitando incidentemente os pés dele, notou uma luz azul que lhe saía dos pés?
— Lembro-me.
— Aquele homem era o demônio, que tomou a forma humana e dançou neste baile com várias moças. Ele não lhe pediu para dançar porque você é Filha de Maria e estava com a Medalha Milagrosa no peito.
Ele estava revelando um passado que não podia conhecer; logo, isso não podia deixar de ser verdade. Tratava-se uma revelação espantosa.
Pode-se imaginar a atmosfera criada na pequena igreja de Ars quando os peregrinos saíam, uns convertidos, outros com seu passado desvendado, todos regenerados e cantando louvores a São João Maria Vianney.  
Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferências de10/7/1968, 22/5/1976, 6/10/1990