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domingo, 29 de março de 2015

São José Cafasso

Dom Bosco tentava descrever aos meninos do Oratório um de seus sonhos, no qual lhe aparecera São 1 Domingos Sávio, mostrando-lhe o Paraíso:
— Que belo estava ele! Parecia um... um... Anjo!
O Santo Fundador havia interrogado seu discípulo, já na glória, acerca de sua obra.
— Quanto ao passado — respondeu ele —, muito já foi feito por tua Congregação. Olha aquele número incontável de jovens.
— Sim, parecem bem contentes! — comentou Dom Bosco.
— Todos eles foram salesianos. Portanto, foram salvos por ti ou por teus sacerdotes e clérigos, ou ainda por outros que encaminhaste nas vias de sua vocação.
Grande glória é ter contribuído para a salvação de tantas almas! Entretanto, poderia também contemplar com gáudio a legião dos bem-aventurados da família salesiana um varão, a respeito do qual afirmou São João Bosco: “se fiz algo de bom, o devo a este digno eclesiástico, em cujas mãos depositei todas as deliberações, estudos e ações da minha vida”.2
Quem será este? Deixemos que Dom Bosco mesmo no-lo apresente.
Uma amizade que se estreitaria ao longo dos anos
Agitado como um formigueiro encontrava-se o pequeno vilarejo de Murialdo, pertencente a Castelnuovo, no Piemonte: era a festa da Maternidade de Maria, do ano 1827. Enquanto alguns terminavam a arrumação da igreja e os preparativos para a Santa Missa, outros participavam, na praça, dos entretidos e inocentes jogos comemorativos.
Um rapaz de 16 anos, contudo, permanecia afastado daquela movimentação e atraiu a atenção de um menino do povo, de apenas 12 anos. Pela batina percebia-se ser um seminarista, “pequeno na estatura, olhos cintilantes, ar afável, rosto angelical”.3 Cheio de vivacidade e fascinado por tal figura, o jovenzinho resolveu aproximar-se para fazer-lhe um convite:

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

São João Bosco

Com profunda admiração pela obra salesiana, Dr. Plinio evoca o grande segredo da educação que Dom Bosco dispensava a seus birichini, os meninos pobres dos bairros de Turim: freqüência dos sacramentos e uma assídua assistência à Missa; e para sua congregação sobreviver às investidas do laicismo, a destemida e ágil astúcia dos santos...
 No dia 31 de janeiro celebra-se a memória de São João Bosco, fundador dos Salesianos e extraordinário apóstolo da juventude. A fim de nos unirmos a essa comemoração, será oportuno considerarmos algumas notas a respeito de sua obra evangelizadora e de suas idéias pedagógicas.
Influência da “Mamma” Margarida
É indiscutível que a personalidade da mãe de Dom Bosco influiu em sua formação. Essa mulher, viúva aos 29 anos, marcou profundamente a alma de seus três filhos. Era pouco instruída, mas dotada de raro bom senso. A retidão de seu julgamento, uma grande piedade e não menos devotamento, aliados a uma firmeza viril, dela fizeram a educadora exemplar.
O trabalho era obrigação constante em sua casa. Margarida sujeitava seus filhos a todas as atividades domésticas e dos campos. Desde a aurora, no verão, e ainda antes, no inverno, as crianças iniciavam o dia pela oração. “A vida é muito curta, dizia a mãe, para dela perdermos a melhor parte”. A fadiga não era considerada, as refeições permaneceram sempre de uma extrema frugalidade. À noite dormia-se no chão. Quando mais tarde João for para o seminário, levará o cobertor prescrito. Mas nas férias a mãe o fará guardar cuidadosamente, considerando essa doçura inútil e prejudicial.
Convém frisar que a família de São João Bosco vivia numa fria região do norte da Itália, e essa mãe exemplar não hesitava em acostumar suas crianças aos rigores do clima adverso.
Preparava, assim, seus filhos, para a vida, de acordo com o que afirmava: “Somos soldados de Cristo sempre em armas, sempre em presença do inimigo, e é preciso vencer”.
Temos aqui a descrição da mulher forte do Evangelho — que levanta cedo para iniciar seus afazeres domésticos, cumprindo-os com exatidão — cujo preço é tão valioso que se faz necessário ir até os confins do universo para encontrar algo comparável a ela.
Mentalidade oposta à de certo ideal contemporâneo
Vemos, por outro lado, uma mentalidade profundamente diferente daquela que propugnam certos espíritos contemporâneos, para os quais a pessoa que padece fome e frio não é capaz de cultivar a vida espiritual. Segundo tal concepção, importa primeiro dar comida, cama e boa coberta, para só depois se falar em espiritualidade. Portanto, o começo da atividade apostólica é necessariamente uma ação de caráter material; portanto, para converter o mundo moderno importa, antes de tudo, eliminar o subdesenvolvimento. E por causa disso, em última análise, a luta contra o subdesenvolvimento deve ser uma finalidade específica da Igreja...
Ora, o exemplo da Mamma Margherita nos mostra o contrário. Ela e sua família residem numa casa tão pobre que as pessoas não têm cama: dormem no chão, sem cobertores suficientes, nem mesmo para os piores dias de inverno. Como vimos, Dom Bosco levou uma coberta para o seminário, pois o regulamento o exigia. Mas, quando retornava para passar as férias em casa, sua mãe o mandava guardar, considerando uma “doçura” supérflua.
Refeições frugais, trabalhos constantes. Propriamente uma vida pobre, porém santificada pelo espírito de renúncia e de sacrifício, pelas práticas de piedade e pela oração, considerada a “melhor parte” daquela sua penosa existência. Foi nesse árduo quotidiano, ungido pela virtude, que se formou um homem de físico forte e resistente para toda espécie de labuta, como foi Dom Bosco.
Esse aspecto da formação do Santo nos faz compreender como é quase um embuste pensar que as condições cômodas da vida são indispensáveis para o êxito do apostolado. Não são. E dir-seia mais: uma certa austeridade, sim, é necessária para educar as almas na virtude e na piedade. E essa formação deveria ser dada a toda juventude, de todas as classes e condições sociais.
Aliás, conservou-se por longo tempo na Europa, especialmente nas famílias de alta graduação, essa forma de educar os filhos numa vida rude. Lembro-me, por exemplo, de ter lido a biografia de um nobre francês que morava em Londres, num castelo junto ao rio Tamisa. Ora, o despertar matutino desse príncipe e de seus irmãos não era outro senão este: acordavam e se jogavam pela janela do quarto nas águas frias do rio que corria embaixo...
Somos levados a crer que, se a civilização hodierna não tivesse abandonado essa formativa austeridade, muita decadência teria sido evitada, e talvez o mundo conhecesse muitos outros santos como Dom Bosco.
Ação intelectual, mais valiosa que a assistencial
Prossegue a nota biográfica:
Apesar de muito trabalho, o estabelecimento das duas congregações religiosas, a ereção de igrejas, a fundação de numerosos patronatos e a preparação de missões longínquas, Dom Bosco consagrava boa parte de seus dias e de suas noites a escrever. Com a pena, tanto quanto com a palavra, ele sabia servir a Igreja, combater o erro e reconfortar as almas. Homem de seu tempo, observou a importância desse novo gigante moderno, a imprensa. Sua pena agiu durante quarenta e cinco anos, produzindo obras de acordo com as necessidades de sua época.
O Protestantismo lançava rudes assaltos à Igreja no norte da Itália. À propaganda protestante pela brochura, D. Bosco opôs as “Leituras Católicas”. Em 1883 respondeu ao “Amigo do Lar”, que os protestantes distribuíam a granel, com o primeiro almanaque da Europa.
Aparece-nos aqui o senso da atualidade no espírito de Dom Bosco. Não era um santo que vivia nas nuvens, pois nestas não vivem os santos. Na realidade, Dom Bosco era um homem ciente dos problemas de seu tempo, conhecia os adversários da Igreja na sua época e os combatia, tanto através dos seus escritos quanto por suas realizações apostólicas. E nisso ele nos deu outro exemplo.
Com efeito, fala-se muito da necessidade de se promover obras católicas e pouco a respeito de se escrever livros católicos. Por quê? Porque se dá mais importância ao econômico do que ao espiritual. Ora, o livro se dirige ao espiritual, enquanto a obra se destina ao econômico.
Não houve homem mais compenetrado da necessidade de obras católicas do que Dom Bosco. Entretanto, quando se examina melhor sua atuação, percebe-se ter sido mais escritor do que um empreendedor de obras. É a prova de que no pensamento desse imenso paladino da Igreja, a formação moral valia mais do que a assistencial.
Admirável continuidade de uma ordem religiosa
São João Bosco enfrentou incríveis dificuldades para levar a cabo seus intentos. O ano de 1876 foi um dos mais dolorosos para ele. Os ministros piemonteses, já em guerra contra o Papa, procuravam pegar em falta o santo fundador, a quem acusavam de manter uma correspondência secreta com Pio IX e os bispos. Multiplicavam as buscas em sua casa e queriam a qualquer preço encontrar sinais de uma conspiração.
Um dia, Dom Bosco procurou o Conde de Cavour, então primeiro-ministro, que várias vezes lhe testemunhara simpatia, e declarou-lhe sua intenção de descarregar em suas mãos o cuidado de todos os órfãos de sua instituição. Essa solução inesperada fez o ministro, se não terminar as perseguições, pelo menos fazê-las mais encobertas.
Ou seja, passaram a incomodar tanto a Dom Bosco que este procurou o ministro e lhe disse: “Vou soltar os meninos todos na rua. É o que você quer?”
O ministro recuou.
Esse fato me traz à lembrança outro episódio, bem mais recente, ocorrido numa instituição salesiana em São Paulo, e que nos mostra a admirável continuidade existente nas ordens religiosas. Deu-se num período de nossa história em que se estabeleciam leis a granel, muitas das quais nem sequer passavam pela aprovação parlamentar. Por essa época, certo dia se apresentou no Liceu Coração de Jesus — o colégio salesiano que funciona ao lado da igreja de mesmo nome — um desses inspetores pedantes, enviado para examinar possíveis irregularidades. Durante a inspeção, encontrou no canto da grande cozinha uma calça que o cozinheiro havia lavado e ali deixara para secar. Ele chamou o padre responsável pelo estabelecimento e disse:
— Bem, lavar roupa em cozinha configura uma infração ao parágrafo tanto do artigo tanto da lei tal. De acordo com o regulamento, o colégio que o infringe deve ser fechado. Portanto, decretarei o fechamento do Liceu Coração de Jesus.
O padre respondeu:
— Ah, o senhor quer fechar? Pois não. Dê-nos um documento por escrito, e eu imediatamente solto todas as crianças na rua. Depois o senhor explica à cidade de São Paulo que essas crianças estão na imoralidade, morrendo debaixo de ônibus e automóveis, passando fome e vergonha, simplesmente porque havia um par de calças secando no canto de uma cozinha. É isto que o senhor quer?
O inspetor que, não é juízo temerário supor, esperava um generoso “argumento” para não fechar o colégio, ficou desarmado e sem graça. Desconversou, fez algumas observações de estilo e logo se despedia...
O segredo da disciplina de São João Bosco
Continua a biografia:
O fato seguinte é relatado como um dos mais característicos dos resultados dos métodos do grande santo.
Um ministro da rainha da Inglaterra, visitando o Oratório de São Francisco de Sales, em Turim, foi introduzido numa grande sala onde estudavam quinhentos jovens.
Ele não pôde deixar de se admirar dessa multidão de escolares observando um rigoroso silêncio, embora ninguém os vigiasse. Sua admiração foi ainda maior quando soube que durante o ano inteiro não se havia a lamentar uma única palavra de dissipação, nem mesmo uma única ocasião de punir ou de ameaçar punição.
— Como é possível obter um tal silêncio, uma disciplina assim perfeita? — indagou ele. E voltando-se para seu secretário, ordenou que anotasse a resposta dada.
— Senhor — respondeu o superior do estabelecimento —, os meios que usamos não podem ser empregados em vosso país.
— Por quê? — pergunta o ministro.
— Porque são segredos revelados somente aos católicos.
Esplêndida resposta.
— E quais são esses segredos?
— A confissão e a comunhão freqüentes. Missa todos os dias e bem assistida.
— Tendes razão — disse o ministro. Faltam-nos tais meios de educação. Mas não há outros?
— Se não nos servimos desses elementos que a religião nos fornece, é preciso recorrer à ameaça e ao castigo.
Calou-se o ministro inglês, embora garantindo que iria repetir o que aprendera.
Devemos imaginar a cena, passada numa época em que a Inglaterra se encontrava no auge de sua irradiação política e cultural, e quando os ministros ingleses eram sempre gentlemen pertencentes à aristocracia britânica, trajados com o requinte da moda vigente, pois a opinião pública exigia dos ministros da coroa que fossem verdadeiros modelos de imponência, distinção e elegância.
Acontece, porém, que muitos ingleses ainda nutriam certo preconceito contra o mundo latino, julgando-o inferior e distante da perfeita limpeza, puritana e protestante, do reino britânico.
E esse ministro inglês visita o oratório de São João Bosco na Itália daquele tempo, encontrando ali meninos que seriam ótimas pessoas, mas talvez menos asseados do que o lorde gostaria. Imaginemos esse aristocrata que se apresenta com ar enfatuado, amabilidade superficial, ruminando prevenções contra o clero católico e é recebido por um padre de Dom Bosco. Sacerdote naturalmente digno, composto, nem um pouco intimidado, porque um homem de verdadeira vida interior não se intimida com valores materiais: libra esterlina, limpeza, bonita gravata, tais coisas não impressionam o varão de autêntica virtude. Além disso, sutil como costuma ser um italiano.
Aparece o ministro com pouco caso e, de repente, o religioso salesiano lhe arma uma “cilada”, na qual o dignitário britânico cai por inteiro, com todos os seus requintes e suas elegâncias. Calou-se e garantiu que levaria o ensinamento para seu país...
Era mais um triunfo do grande São João Bosco. Que este interceda por nós, junto ao trono de Maria Auxiliadora, da qual foi um modelar devoto.

Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferência em 30/1/1967

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

São Domingos Sávio

A boa formação de uma criança e de um adolescente deve proporcionar-lhes um equilibrado e sadio impulso para a maturidade. Sobretudo, para alcançarem o ideal de perfeição moral a que todo homem é chamado. Como a seguir veremos, luminoso exemplo dessa educação bem assimilada encontramos em São Domingos Sávio, discípulo predileto do grande São João Bosco.
Comentários de Plinio Correa de Oliveira a respeito de São Domingos Sávio, discípulo de São  João Bosco, evocando não tanto seus traços biográficos, quanto ressaltando sua fisionomia  moral.
Obra-prima da educação salesiana
Faleceu ele antes de seu mestre, aos 11 anos de idade,  e foi considerado a obra-prima da educação dada pelo  célebre apóstolo da juventude. Menino eminentemente  piedoso, exímio cumpridor dos seus deveres, conservou  sempre uma castidade exemplar, tendo sido proclamado  pelo Papa Pio XI como o padroeiro da pureza, depois de  São Luís Gonzaga.
Essas reflexões se prendem a uma recordação pessoal,  que me parece oportuno registrar.
Há alguns anos, a convite do Arcebispo de Mariana,  Dom Helvécio Gomes de Oliveira, desloquei-me até essa  histórica cidade de Minas para fazer uma conferência sobre São Domingos Sávio. Após o almoço, disse ao reitor  do Colégio salesiano onde a sessão se realizaria à tarde: — Peço que o senhor me consiga uma biografia de São  Domingos, pois apesar de sabê-lo canonizado, ignoro os  pormenores de sua vida.
Com muita solicitude ele me procurou uma biografia  do Santo, porém bastante resumida. Comecei a lê-la e me lembro que o biógrafo acentuava diversas qualidades comuns aos bons meninos. Assim, São Domingos Sávio era  muito devoto, obediente aos seus superiores, de modo especial a São João Bosco, além de fazer apostolado junto a  seus colegas, sendo um exemplo de zelo pelas almas.
 Os birichini de São João Bosco
Contudo, pensei: “Infelizmente, com esses dados, não me é possível proferir uma conferência que não seja uma repetição de tantas outras realizadas ou preparadas, a  respeito de vários bem-aventurados...”. Com efeito, naquela época encontrava-se certos formulários para sermão ou exposição de vidas de santos, que diziam: “São  tal, mudando a data e o nome, serve para tais e tais santos”.
Ora, ao ler o opúsculo que o reitor me conseguira,  percebi que escapara ao biógrafo o traço mais marcante  e acentuadamente contra-revolucionário da vida de São  Domingos Sávio, que, creio eu, indicava o “segredo” de  sua santidade.
Para que esse traço fique bem explicitado, importa considerarmos o fato de que nosso santo viveu em meados do século XIX, um período em que a Revolução atingia um auge, e o espírito revolucionário, portanto, lograva grande concessão da parte dos adolescentes que principiavam a frequentar escolas. 
De um lado. De outro, temos que São João Bosco lecionava para os birichini, apelativo dado na região de Turim aos meninos de famílias modestas. Nesse sentido, é esplêndida a vocação dos salesianos: ensinar sobretudo para as classes populares, instruindo-lhes nos misteres profissionais em estabelecimentos para essa finalidade. Eram meninos com grande vitalidade e efervescência, mas tendentes a travessuras e à falta de seriedade (a qual, aliás, se alastrara  por todas as camadas sociais).
Admirável apóstolo da seriedade
Nesses ambientes São Domingos Sávio mostrou-se um admirável apóstolo  da seriedade, manifestando uma sabedoria superior à existente em meninos de sua geração. E na medida  própria à mentalidade de uma criança, possuía uma compreensão invulgar de tudo quanto deveria fazer. De  maneira que não praticava uma ação  nem dizia uma palavra que não revelassem uma reflexão séria — nas proporções de um menino, insisto — baseada na fé  e profundamente sobrenatural. Por isso ele difundia em torno de si uma atmosfera  de compostura, de seriedade,  de  calma,  sem  fazer  com  que  os  meninos  deixassem de ser  autênticas  crianças. De outro lado, proporcionava-lhes assim um meio eficaz de se oporem à mania do brinca-brinca, da falta de educação, da  ausência de cerimônia e boas maneiras.
“Morte ao pecado mortal”
Essa característica de São Domingos Sávio se faz notar num episódio de sua vida, do qual tomei conhecimento quando li outra biografia dele, escrita pelo próprio São João Bosco. Este escreveu:
Domingos veio ver-me no dia anterior ao início da novena da Imaculada Conceição, em 1854, e teve comigo o seguinte diálogo. Disse ele:
— Eu sei que a Virgem concede grande número de graças a quem faz bem suas novenas.
— E tu o que queres fazer nesta novena, em honra da Virgem?
— Quisera pedir muitas coisas.
— Quais, por exemplo?
— Antes de tudo quero fazer uma confissão geral de minha vida, para ter bem preparada a minha alma. Depois procurarei cumprir exatamente as florzinhas que cada dia da novena se darão nas boas noites.
“Florzinhas” (fioretti em italiano) significavam pequenos propósitos a praticar, recomendados na “boa noite”,  gênero de alocução famosa que Dom Bosco dirigia aos  seus alunos. Consistia geralmente de breves comentários  de algum fato do dia, ocorrido no interior ou fora do colégio. Continua a narração, com a pergunta de São João  Bosco:
— E não tens mais nada?
— Sim, eu tenho uma coisa: quero declarar morte ao pecado mortal.
— E o que mais?
— Quero pedir muito, muito à Santíssima Virgem e ao Senhor que me mandem antes a morte do que deixar-me cair no pecado venial contra a modéstia.
Ou seja, contra a virtude da castidade. E São João  Bosco acrescenta:
“Deu-me então um papelzinho em que ele tinha escrito esse propósito e manteve suas promessas porque a Santíssima Virgem o ajudava. São Domingos Sávio tinha, nessa ocasião, doze anos de idade.
Ressalta-se, assim, na estrutura de alma de uma criança, o traço distintivo de São Domingos: extraordinariamente sério, consequente, lógico em tudo. Ao mesmo  tempo, alegre, de espírito sadio e maduro.
Reflexão ratificada pelos devotos de São Domingos
Dando-me  conta  desse  cunho  característico  de  São  Domingos Sávio, comecei a minha conferência em Mariana dizendo que me achava diante de todo o corpo docente de um colégio salesiano, numa sessão que se realizava sob a presidência de um Arcebispo também salesiano e, portanto, exporia minha impressão pessoal, submetendo-a ao juízo deles. Acrescentei que a leitura de uma vida de São Domingos Sávio deixara em meu espírito essa  idéia: merecia ele ser chamado perfeitamente de apóstolo da pureza das crianças, mas deveria também ser denominado seu apóstolo da seriedade.
Desenvolvi o tema, mostrando a importância do papel da seriedade para se alcançar a perfeição espiritual: não basta ser sério para ser santo, porém não se pode ser santo sem ser sério.
Tão logo enunciei a tese de que São Domingos era o modelo da seriedade entre as crianças, houve um aplauso geral iniciado pelo Arcebispo e todos os professores, seguido naturalmente pelo público. Naquela época, São Domingos Sávio estava sob o foco das atenções, pois era recém-canonizado e os salesianos difundiam muito a devoção a ele. Sua vida, portanto, era bem conhecida de seus  irmãos de vocação e devotos. A ratificação daquela tese concedida por esse corpo docente salesiano, com tal ênfase, demonstrava-me a veracidade da minha observação.
Como vivemos num tempo em que a falta de seriedade se torna cada vez mais aguda e crítica, parece-me de importância capital rogarmos a São Domingos Sávio que seja nosso padroeiro para a seriedade, e nos alcance do Sagrado Coração de Jesus, pelas mãos de Maria Santíssima, uma perfeita prática dessa virtude da qual ele é um excelso modelo.

 Plinio Correa de Oliveira Extraído de conferências em 9/3/1971 e 9/3/1973

domingo, 30 de junho de 2013

Dom Luís Guanella

A espiritualidade de Dom Luís Guanella baseava-se na compreensão do Evangelho como a história de amor de um pai para com seus filhos: Deus cuida de cada um, especialmente dos mais débeis e necessitados.
 Na tarde de 15 de março de 2002, um jovem americano, William Glisson, patinava sem capacete em alta velocidade por uma rua de Springfield, em Filadélfia, quando sofreu uma queda violenta, com consequências gravíssimas devido a um forte traumatismo craniano.
Levado ao hospital em estado de coma, foi submetido a várias intervenções cirúrgicas nos dias subsequentes. Entretanto, sua situação se agravava cada vez mais, restando-lhe poucas esperanças de sobreviver, na melhor das hipóteses, com sequelas bem desafortunadas.
Quatro dias depois do acidente, na solenidade de São José, a Dra. Noreen M. Yoder, amiga da família, entregou à mãe de William duas relíquias do Beato Fundador da ordem religiosa à qual pertencia o hospital onde trabalhava, recomendando-lhe recorrer a ele para obter a cura do rapaz. A piedosa senhora prendeu uma das relíquias no pulso do filho e reteve consigo a outra, para pedir ao Bem-aventurado o milagre. Logo se formou uma cadeia de orações nessa intenção.
Contra todas as expectativas médicas, o jovem começou a reagir e vinte dias depois recebeu alta, apenas com a prescrição de um programa de reeducação funcional neuromotora. Oito meses após o acidente, já inteiramente restabelecido, voltou a trabalhar como carpinteiro na empresa do pai.
Tal milagre, realizado por intermédio do Beato, permitiu satisfazer a última exigência de seu processo de canonização. E será ele elevado à honra dos altares, no rol dos santos da Igreja Católica, no dia 23 deste mês, na Praça de São Pedro, em Roma.
Quem é este intercessor? Luís Antonio Guanella Bianchi, fundador da Congregação das Filhas de Santa Maria da Providência e dos Servos da Caridade, também conhecidos como guanellianos.
Equilíbrio entre firmeza e doçura
Nascido em 19 de dezembro de 1842, na aldeia alpina de Fraciscio di Campodolcino, Luís foi o nono dos treze filhos de uma família montanhesa dotada de sólidos princípios cristãos.
O pai, Lorenzo di Tomaso Guanella, corpulento, robusto e de rija personalidade, inspirava confiança pela sua simples presença. Assim o descreverá o filho, em sua Autobiografia: “Esbanjava saúde e seu caráter era firme e decidido, à semelhança do monte Calcagnolo, logo acima de Fraciscio”.1
A mãe, Maria Antonieta Bianchi, piedosa e dedicada ao trabalho, como o marido, contrastava com este por sua notável doçura de trato. A seu respeito escreveu o padre Luís Guanella: “O peso da autoridade paterna, no tocante aos filhos, era contrabalançado, providencialmente, pela mãe [...] uma mulher criativa e muito amorosa; um tesouro da Providência!”.2
Entre os irmãos, todos se relacionavam bem. Mas Catarina, apenas um ano mais velha, foi sua predileta. Ainda crianças, conversavam sobre as peripécias dos santos e aprenderam a ver nos pobres a figura de Jesus. Perto de sua casa, havia uma rocha com cavidades que pareciam panelas. Ali, as inocentes crianças misturavam água e terra, e mexiam aquela mescla dizendo: “Quando formos adultos, faremos assim a sopa dos pobres”.3
Sinais precoces da vocação
Desde muito cedo, numerosos indícios, premonições e acontecimentos extraordinários iam indicando ao pequeno Luís as vias traçadas para ele pela Providência Divina.
O primeiro desses fatos ocorreu tendo ele apenas seis anos de idade, na festa de São João Batista. Encontrava-se na Praça da Matriz de Campodolcino, junto com o tio e o cunhado, quando este último deu-lhe de presente um saquinho de diavoletti, deliciosas balas de menta, justamente na hora de soar o sino para a Missa.
Não querendo entrar na igreja com os doces na mão, foi escondê-los num monte de lenha, onde estariam a salvo da cobiça de outra criança. Nesse momento, ouviu palmas e viu junto à porta da Prefeitura um velhinho que o fitava. O santo o descreve na mesma Autobiografia: “Era franzino, de cabelos brancos, rosto moreno; trajava calças curtas, as meias eram de lã não tingida, seu rosto amável como que implorava aqueles doces”.4 Com medo, escondeu as balas e, quando se voltou para olhar, o homem havia desaparecido...
Aquela imagem nunca mais se apagou de sua mente. Ela sempre vai retornar “quando do encontro com outros velhinhos, suplicando por um pouco de bem e de doçura ao término da vida”.5
Outro fato marcante aconteceu no dia de sua Primeira Comunhão, aos nove anos. Por ser Quinta-Feira Santa, não houve festa e, regressando a casa, mandaram-no cuidar das ovelhas, como em qualquer dia comum. Ainda tocado pela graça, sentou-se em um dos gramados da colina Motto, parecido a um sofá, onde costumava descansar enquanto pastava o rebanho, e pôs-se a rezar a Nossa Senhora, agradecendo-Lhe a ventura de haver recebido Jesus em seu coração.
Sentia-se tomado por uma suave doçura que o impelia a fazer generosos bons propósitos. Contudo, a certa altura caiu no sono com seu livrinho de orações nas mãos e foi acordado por uma voz feminina que o chamava pelo nome. Não vendo ninguém ao redor, julgou tratar-se de um sonho. Retomou a leitura e adormeceu novamente.
Mais uma vez, o fato se repetiu. E, como aconteceu com Samuel (cf. II Sm 3, 8), ainda houve uma terceira vez, na qual a voz se fez ouvir mais forte e nítida: “Luís, Luís”. Nesse momento, narra o santo, “eis que vejo uma Senhora estendendo seu braço direito como a indicar alguma coisa. Ela me disse: ‘Quando você for adulto, fará tudo isso em prol dos pobres’. E como num telão, vi tudo o que deveria fazer”.6
Forjando o temperamento
Aos doze anos Luís recebeu uma bolsa de estudos e matriculou-se no Colégio Gálio, em Como. Para esse pastorzinho acostumado às liberdades do campo e aos grandiosos panoramas alpinos, não faltaram sofrimentos na adaptação à rígida disciplina escolar. O colégio lhe parecia uma prisão. Não obstante, isso o ajudou a dominar seu caráter enérgico, por vezes impulsivo e irascível, e a manifestar os aspectos amáveis, expansivos e afetuosos do seu temperamento, herdados da mãe.
Fortalecido pela frequência aos Sacramentos e sua ardorosa devoção a Maria, ali cultivou os germens da vocação, manteve-se firme em seus princípios e inabalável no grande apreço às virtudes da castidade e da modéstia, apesar dos ventos revolucionários e liberais que sopravam na Itália e no mundo.
Após seis anos de colégio, ingressou no seminário diocesano Santo Abôndio, onde ficou ainda mais vincada a vocação específica que a Providência lhe dera desde a infância. Ao retornar, durante as férias, à sua aldeia natal, empenhava-se em ajudar os pobres e enfermos da região, sobretudo os mais desamparados.
“Uma espada de fogo no ministério santo”
Em um ambiente de ressentimento e raiva, marcado pelas profanações de igrejas realizadas em Como pelos seguidores de Garibaldi, Luís foi ordenado presbítero, em 26 de maio de 1866, por Dom Bernardino Frascolla, Bispo de Foggia.
Naquele dia, com a alma transbordante de júbilo, o novo sacerdote fez uma promessa a Deus e a seus irmãos: “Quero ser uma espada de fogo no ministério santo!”.7 Com semelhante propósito, explica um dos seus biógrafos, “o jovem demonstrara capacidade de sonhar e de ‘almejar coisas grandiosas’; desposar a causa dos mais pobres, priorizando o amor a Deus e aos irmãos”.8
Celebrou sua primeira Missa em Prosto, onde havia servido como diácono, na solenidade de Corpus Christi, e ali permaneceu cerca de um ano como vigário.
Nomeado pároco de Savogno, valeu-se de seu diploma de mestre para ali abrir uma escola, que logo se encheu de alunos. Dedicou-se, então, com grande entusiasmo ao apostolado com os mais pobres durante oito anos. Dava formação religiosa a pessoas de todas as idades, convidando-as a se unirem ao Santo Padre e alertando-as a respeito das novas doutrinas da época, hostis à Igreja. Por isso e, sobretudo, pela publicação de um livreto intitulado Saggio di ammonimenti, contendo tais ensinamentos, acabou sendo fichado pela autoridade civil como “elemento perigoso”. Sua escola foi fechada e ele viu-se forçado a sair da diocese.
Três anos de “aprendizagem” com Dom Bosco
Atraído pela pessoa de São João Bosco, optou por se dirigir a Turim. Ali passou três anos (1875-1878) em “aprendizagem”, como diria depois, seguindo os passos do fundador dos salesianos no caminho da santidade e colaborando com sua obra pedagógica em favor da juventude. Nesta mesma ocasião, conheceu a obra caritativa de São José de Cottolengo, a qual também deixou profundas impressões em sua alma.
Contudo, tinha muitas dúvidas e inquietações. Estaria seguindo o caminho para o qual se sentia chamado? Onde ficava a realização de tudo quanto vira no dia de sua Primeira Comunhão? Em seu coração continuava a soar a voz da Providência, incitando-o a fundar uma instituição própria, para o que muito colaborou todo esse tempo de provações e experiência.
Convocado por seu Bispo, regressou à Diocese de Como. Sair de Turim, separar-se dos salesianos e principalmente de Dom Bosco, foi-lhe muito doloroso. “Não senti tamanha dor nem mesmo quando faleceram meus pais, tendo-os em meus braços” 9, afirma em sua Autobiografia.
Primeira casa da Divina Providência
Na paróquia de Traona, para onde foi enviado em 1878, com a missão de ajudar o pároco enfermo, tentou transformar um antigo convento em escola para jovens pobres aspirantes ao sacerdócio, no estilo salesiano. Entretanto, era ainda considerado um “padre sob suspeita” e não conseguiu a necessária autorização do poder civil.
O Bispo transferiu-o, em 1881, para Olmo, paróquia confinada entre altas montanhas, onde talvez pudesse ficar livre da desconfiança de exercer “perigosas influências” contra o governo. Ali, sentia-se exilado e abandonado por Deus, vendo impossível a realização de seu chamado.
Poucos meses depois, recebeu ordem de ir para Pianello, onde haveriam de cessar essas provações. Encontrou ali um orfanato e um asilo fundados por seu predecessor recém-falecido, o padre Carlos Coppini, postos sob os cuidados de algumas jovens aspirantes à vida religiosa. Foi a partir deste empreendimento que se originou, em 1886, sua primeira fundação, a Congregação das Filhas de Santa Maria da Providência, contando com a valiosa colaboração da Madre Marcelina Bosatta e de sua irmã, a Beata Clara Bosatta.
Sempre dócil à vontade divina, dizia Dom Guanella: “O segredo da perfeição é fazer a vontade de Deus”.10 Abriu por fim, em Como, a primeira Casa da Divina Providência — mesmo nome utilizado por São José de Cottolengo —, com o objetivo de atender os pobres e necessitados. A instituição começou a crescer e não faltaram generosos benfeitores nem almas dispostas a se dedicarem àquela obra de caridade.
Numa viagem a Turim, pediu orientação a Dom Bosco sobre seu desejo de fundar também um instituto masculino. Este lhe mostrou a conveniência de tal empresa e nasceu, assim, sob as bênçãos do Arcebispo de Milão, Beato André Carlos Ferrari — que até 1874 fora Bispo de Como — a Congregação dos Servos da Caridade.
Erigida a obra canonicamente, com a colaboração dos padres Aurélio Bacciarini e Leonardo Mazzucchi, no dia 24 de março de 1908, chegou o momento tão longamente aguardado: Dom Guanella e um pequeno grupo de sacerdotes emitiram diante do sacrário os votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência.
Chamados a pertencer à família divina
A espiritualidade do santo fundador baseava-se na compreensão do Evangelho como a história de amor de um progenitor para com seus filhos: Deus é Pai de todos, e Pai Providente, que cuida de cada um, especialmente dos mais débeis e necessitados.
Por meio de Jesus Cristo, todos são chamados a fazer parte da família divina. E nela merecem especial ajuda as pessoas mais necessitadas, como os anciãos abandonados, os órfãos, os enfermos terminais desenganados, ou os deficientes físicos e psíquicos.
Resumia ele a formação a ser dada dentro dessa família divina com o lema “Pão e Senhor”.11 O “Pão” seria o desenvolvimento integral da pessoa: físico, intelectual, psíquico e social. E por “Senhor” entendia o atendimento das “necessidades mais profundas da alma humana, chamada a descobrir sua plenitude na vida de fé, esperança e caridade”.12
Nessa família destaca-se a indispensável figura da Mãe, que encaminha todos a Cristo. Passava ele horas diante da imagem da Nossa Senhora da Divina Providência. Nunca duvidava da intercessão d’Aquela que lhe mostrara em sua infância a envergadura de sua obra: “Ficai perto de Maria e procedei com segurança”13, recomendava a seus discípulos.
Mais necessário é morrer bem...
Depois de passar inúmeras vicissitudes e provas, Dom Guanella viu, no fim de sua existência, sua obra expandir-se por quatro continentes. Convencido de que os homens são meros instrumentos, pois “è Dio che fa” — quem faz é Deus —, o fundador estimulava o ardor missionário dos seus filhos e filhas dizendo-lhes: “Vossa pátria é o mundo”.14 Ele próprio acompanhou a fundação de novas casas em outros países, como a dos Estados Unidos, em 1912.
 A obra guanelliana contou com valiosos apoios, inclusive do Papa São Pio X, que distinguia o fundador com sua amizade. Ele mesmo lhe propôs a fundação, perto do Vaticano, da Paróquia de São José al Trionfale, hoje basílica menor, com uma casa assistencial para auxiliar as famílias que ali viviam em tugúrios.
Em meio a tantas atividades, ainda encontrou tempo para escrever numerosas obras de formação cristã, além de mais de três mil cartas nas quais transparecem suas virtudes, seu senso profético e seu particular amor aos pobres e abandonados.
Um de seus últimos empreendimentos, e talvez o mais popular, foi a Pia União do Trânsito de São José, erigida em 1913, para a assistência aos moribundos. “Existe uma necessidade de viver bem”, dizia ele, “mas mais necessário é morrer bem. Uma boa morte é tudo, especialmente na atualidade, quando as pessoas só pensam nas coisas materiais e em divertir-se, rejeitando a eternidade”.15
Coroando uma vida santa, essa boa morte chegou também para Dom Guanella, em 24 de outubro de 1915, aos 73 anos de idade. Possa sua elevação à honra dos altares desvelar ao mundo de hoje, tão confiante em si mesmo, o segredo de sua santidade como modelo a ser seguido: abandonar-se nas mãos da Providência Divina, certo de que, por mais que os homens atuem, “è Dio che fa”!
 1DOM LUíS GUANELLA. Autobiografia, apud CARRERA, Mario (Org.). Bem-aventurado Luís Guanella. São Paulo: Paulinas, 2007, p.71.
2 Idem, p.71-72.
3 Idem, p.74.
4Idem, p.59.
5CARRERA, op. cit., p.60.
6DOM LUíS GUANELLA. Autobiografia, apud
7CARRERA, op. cit., p.62.
8Idem, p.103.
9CARRERA, op. cit., p.103. Idem, p.117.
10 Idem, p.128.
11 MINETTI, SdC, Nino. Beato Luís Guanella. In: MARTíNEZ PUCHE,OP, José A. (Org.) Nuevo Año Cristiano. 4.ed. Madrid: Edibesa, 2003, v.X, p.571.
12 Idem, ibidem.
13 AMARAL, Victor Vinícius M. Frase do Fundador. In: Efatá. Informativo do Aspirantado Guanelliano. Porto Alegre. Ano IV. N.27 (Maio, 2011); p.5.
14 MINETTI, op.cit., p.571572.

15 CARRO CELADA, José Antonio. Beato Luís Guanella. In: ECHEVERRíA, Lamberto de, LLORCA, Bernardino, REPETTO BETES, José Luís. (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2006, v.X, p.659.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Santa Maria Mazzarello

“Tome conta dessas meninas”
Na comunidade fundada pela jovem Maria Mazzarello, São João Bosco discerniu o começo do ramo feminino que a Virgem lhe pedira há tantos anos em sonho.
São conhecidos os sonhos místicos e proféticos de Dom Bosco. Este, talvez, menos que os outros. Vejamos como o próprio santo o narra:
“Um bom dia, eu atravessava a praça Vittorio, em Turim. De repente me vi cercado por um pequeno exército de meninas que cantavam, gritavam, com suas vozinhas agudas. Apenas me viram, voaram em torno de mim e clamaram: ‘Viva Dom Bosco! [...] Encarregue-se também de nós! Não vê que estamos abandonadas?’ — ‘Outro terá que ocupar-se de vocês: eu estou sobrecarregado com tantos meninos!’ [...] Mas, enquanto elas insistiam, apareceu-me uma Senhora nobre, com o rosto resplandecente como o Sol, e me disse: ‘Cuida delas por mim. São minhas filhas’” 1.
Passou-se o tempo e Dom Bosco parecia ter se esquecido deste sonho. Na realidade, ele não escondia seu pouco entusiasmo diante da idéia de fundar um ramo feminino de sua congregação. Em junho de 1866, o padre João  Batista Lemoyne, diretor do colégio de Lanzo, recordou ao santo a possibilidade de uma fundação feminina, na qual freiras fizessem pelas meninas o mesmo que os sacerdotes faziam pelos meninos. Ele pensou um pouco e disse: “Sim. Isso também será feito. Mas não já. Um pouco mais tarde” 2.
Para esta realização, a Providência pôs no caminho de Dom Bosco uma jovem de escol: Maria Domenica Mazzarello.
“Sem Jesus, eu não saberia viver”
Nascida em Mornese, aldeia alpina do Alto Monferrato, em 9 de maio  de 1837, Maria pertencia a uma família pobre, e teve uma infância aldeã como a de seu fundador. Desde muito jovem, trabalhava com diligência nas vinhas e nos campos, sempre se destacando por sua humildade, recato e candura.
Rezava muito. No catecismo era a primeira aluna. Fizera sua Primeira Comunhão aos 10 anos e, desde então, comungava todos os dias, o que não era nada comum naquela época. Levantava-se antes do amanhecer e saía apressadamente rumo à igreja, às vezes caminhando na neve.
“Sem Jesus, eu não saberia viver”, dizia ela.
Uma epidemia mudou sua vida
Quando tinha 23 anos de idade, a Providência provou sua dedicação. Uma epidemia de tifo negro assolou a vila de Mornese. Todos fugiam das famílias infectadas. Uma dessas era a de seu tio Orestes Mazzarello: ele, sua esposa e seus filhos, todos vitimados pela terrível peste, não tinham quem os ajudasse.
O diretor espiritual de Maria, padre Domenico Pasquale Pestarino, pediu-lhe fazer esse ato de caridade. Ela teve medo, mas, ao mesmo tempo, em sua alma algo a chamava a se sacrificar pelos outros para estar mais unida ao Senhor.
Partiu, pois, para a casa do tio e, em uma semana, a ordem voltou àquele lar. Até os enfermos mais graves começaram a se recuperar. Maria, porém, contraiu a doença e seu estado se agravou a ponto de ela se recusar a tomar remédios. Esperava apenas que Deus viria levá-la ao Paraíso.
Enganava-se! Mesmo sem ajuda de medicamentos, recuperou a saúde e levantou-se disposta a retomar a vida anterior. Porém, a enfermidade lhe minara as forças. Não conseguia trabalhar no campo como antes. Precisava arranjar outra ocupação. Que faria? Casar-se? Não se sentia chamada.
Aparecem as primeiras meninas
Com esta inquietação na alma, caminhava certo dia pela colina de Borgo Alto — onde então não existia construção nenhuma — quando viu diante de si um grande edifício com muitas meninas brincando e correndo num pátio. Assustada, esfregou os olhos e ouviu nitidamente estas palavras: “Tome conta destas meninas” 3.
Maria relatou ao padre Pestarino o que acontecera. Este lhe disse que era pura imaginação e recomendou-lhe esquecer a visão e não contá-la a ninguém. Ela obedeceu, mas algo ficou em seu interior.
A jovem Maria e sua amiga Petronila — também de sobrenome Mazzarello, embora não fossem parentes — estavam inscritas na Pia União das Filhas de Maria Imaculada, na época já muito difundida na Itália.
Maria revelou à amiga sua intenção de montar uma oficina de costura para ensinar às meninas pobres esse ofício. As misteriosas palavras ouvidas na colina de Borgo Alto levavam-na a procurar as crianças das quais teria de “tomar conta”. Explicou, pois, a Petronila que seu desejo era, além de ensinar-lhes a profissão, falar-lhes de Deus. E convidou-a a se juntar a ela nesse nobre desígnio.
Petronila aceitou o convite e as duas se instalaram numa pequena sala aonde iam diariamente dez meninas para aprender corte e costura. Eram as mais pobres. As duas jovens guiavam suas mãozinhas desajeitadas nos tecidos e máquinas, e ao mesmo tempo orientavam para Deus seus infantis corações.
Nasce uma pequena comunidade
Não foi fácil o início. Além de enfrentarem dificuldades com suas famílias, tiveram de arrostar a ironia dos aldeões. Viram-se forçadas a mudar de local várias vezes. Passavam pelos mesmos dissabores que seu fundador, ainda desconhecido delas, passara em Turim.
Numa noite do inverno de 1863,  bateram à porta das Mazzarello duas pequeninas com olhos arregalados de susto. Eram órfãs de mãe, e seu pai, vendedor ambulante, pedia às caridosas moças que as acolhessem enquanto ele viajava. Maria e Petronila conseguiram dos vizinhos uma cama e um pouco de fubá, para aumentar a polenta, e deram-lhes hospedagem.
A notícia se espalhou com rapidez. Chegava ajuda de todas as partes: lenha, cobertores, farinha e fubá. Antes da primavera, já eram sete as meninas para as quais as duas jovens se faziam de mães. O padre Pestarino as incentivava, dizendo que Deus é quem lhes mandava essas pequenas criaturas necessitadas.
Logo duas outras moças da Pia União das Filhas de Maria ofereceram-se para ajudar nos trabalhos da casa. Consultado, o padre Pestarino aquiesceu e elas formaram uma pequena comunidade: as “Quatro Filhas”, como eram chamadas na aldeia.
Elas queriam fazer o bem a todas as meninas do lugar. Nos dias santos e domingos, reuniam as crianças e as levavam à igreja. Depois promoviam alegres passeios e inventavam todo tipo de jogos para entretê-las. Faziam por elas o mesmo que Dom Bosco fazia pelos meninos. Sem elas saberem, nascia, assim, uma espécie de “oratório festivo” feminino.
Primeiro encontro com o fundador
O padre Pestarino fez uma visita a Dom Bosco, no Oratório de Valdocco, ficou encantado com tudo quanto viu e pediu para ingressar na Congregação Salesiana. Dom Bosco aceitou, mas determinou que continuasse em Mornesse, como diretor das “Quatro Filhas”. O santo discernia nessa pequena comunidade o começo do ramo feminino que a Virgem lhe pedira há tantos anos em sonho.
Por meio do padre Pestarino, Dom Bosco enviou, naquela ocasião, um bilhete às “Filhas da Imaculada” de Mornese, incentivando-as e comunicando-lhes que logo iria visitá-las. Ainda sem conhecer seu santo fundador, elas oscularam o bilhete como uma relíquia.
O dia 7 de outubro de 1864 marcou profundamente a vida de Maria Mazzarello: foi seu primeiro encontro com Dom Bosco. A população o recebeu com banda de música, aplausos, ruas adornadas de flores e bandeiras. Era amável, alegre, amigo das crianças e dos pobres. Todos o tratavam como um homem de Deus. Queria o povo construir na colina de Borgo Alto um colégio, para os padres Salesianos. Dom Bosco aprovou a idéia e prometeu mandar dois ou três de seus melhores sacerdotes.
Maria ficou cheia de admiração ao ouvir o primeiro sermão do santo. Durante os cinco dias que ele permaneceu em Mornese, ela não perdeu nenhuma das suas homilias ou as conversinhas de “Boa noite” aos jovens. “Dom Bosco é um santo: eu o sinto. E aos santos não se pode perder nenhuma palavra” 4 — disse ela.
Surge uma nova Congregação
No ano seguinte, Maria e suas companheiras instalaram-se numa casa melhor, perto da paróquia, onde continuaram levando vida comunitária sob o nome de “Filhas da Imaculada”.
Dom Bosco retornou a Mornese em 1867, para inaugurar a capela  do novo colégio. Permaneceu quatro dias na vila e fez uma conferência ao pequeno grupo de moças. Dois anos depois, enviou a Maria e Petronila um caderninho escrito de próprio punho, contendo um regulamento para elas e as meninas. Perdeu-se esse manuscrito, mas Irmã Petronila se recordava de que nele o santo lhes dava os seguintes conselhos: procurar viver habitualmente na presença de Deus; rezar freqüentemente orações jaculatórias; agir com doçura, paciência, amabilidade; assistir com dedicação as meninas, mantê-las sempre ocupadas e incutir-lhes uma vida de piedade simples, sincera e espontânea.
Em 1870, voltou Dom Bosco a Mornese para ver de perto a vida das “Filhas”. Queria examinar o efeito de seu “caderninho”. Mostrou-se plenamente satisfeito!
Diante de tal realidade, no ano seguinte, Dom Bosco reuniu o Capítulo da Congregação e pediu o parecer de cada um sobre a fundação do ramo feminino. Todos se manifestaram favoráveis.
Dom Bosco determinou, então, que as “Filhas da Imaculada” se transferissem para o prédio do colégio recém-construído e aí levassem vida comunitária sob a direção do padre Pestarino. Este aceitou prontamente a incumbência, mas estava preocupado porque o povo de Mornese tinha construído o colégio para a educação dos meninos... e talvez não concordasse com essa mudança.
Em junho desse mesmo ano, Dom Bosco foi a Roma e expôs seu projeto a Pio IX que, depois de pensar alguns dias, lhe disse: “Seu desígnio parece-me ser segundo Deus. Acho que essas irmãs devem ter como fim principal a instrução e a educação das meninas, tal como os salesianos fazem com os meninos. Dependam do senhor e de seus sucessores” 5.
Em janeiro de 1872, as “Filhas” se reuniram em capítulo e elegeram sua primeira superiora: Maria Mazzarello. Julgando-se indigna, ela procurou esquivar-se, mas o padre Pestarino levou o caso a Dom Bosco e este, conhecendo a virtude e a capacidade da eleita, confirmou-a na delicada função.
Oito meses mais tarde, na festa de Nossa Senhora das Neves, em presença de Dom Giuseppe Maria Sciandra, bispo de Ácqui, e de Dom Bosco, realizou-se a primeira tomada de hábito, de quinze jovens. Estava fundada a nova congregação, que Dom Bosco batizou em termos proféticos: “Usareis o nome que há muito o meu coração vos reserva: Filhas de Maria Auxiliadora. Por vosso intermédio Nossa Senhora quer ir em auxílio das meninas pobres. Sois pobres e pouco numerosas. Mas haveis de ter tantas alunas que não sabereis mais onde as meter...” 6.
Começo cheio de dificuldades
Como receava o padre Pestarino, os habitantes de Mornese sentiram-se traídos quando as moças ocuparam o colégio de Borgo Alto. Dom Bosco havia prometido enviar sacerdotes para cuidar dos meninos! — argumentavam eles.
Foi num clima de incompreensão e quase hostilidade que as Filhas de Maria Auxiliadora iniciaram sua vida religiosa. Ninguém mais queria ajudá-las. A pobreza ultrapassava os limites da miséria. Faltavam-lhes mesmo os mais elementares gêneros alimentícios. Muitas irmãs descansavam com a cabeça apoiada em um toco de madeira enrolado em farrapos. Os poucos travesseiros de que dispunham eram usados pelas meninas. Nessas condições, Maria sempre encorajava as irmãs: “Estamos nas mãos de Deus. Vamos receber tudo: injúrias, caçoadas e até fome, com muito amor. Quando Ele quiser, as coisas mudarão” 7.
Dois anos depois, faleceu a Irmã Maria Poggio. Passara tanta fome e frio no último inverno que partira em silêncio. O povo de Mornese comoveu-se ao ver nos funerais as jovens religiosas esqueléticas, vestidas de hábito, rezando o rosário. Desde então, nunca mais faltou fubá para a polenta nem farinha para o pão no convento de Borgo Alto.
E tornara-se realidade a visão que tivera Maria, tantos anos antes, naquela colina.
Consolidação e expansão da Congregação
Em 1874, Dom Bosco foi a Mornese e decidiu enviar várias religiosas para fundar casas em outras cidades da Itália. E reuniu a comunidade para eleger a Superiora Geral da Ordem. Todos os votos, menos um — o seu próprio — recaíram sobre Maria Mazzarello. Dom Bosco, sorrindo, lhe disse que era a voz de Deus.
Partiram três irmãs para abrir um oratório e escola em Vallecrosia. Mais tarde seguiram sete para Turim. Logo outras chegaram a Billa, Alassio, Lu Monferrato, Lanzo Turinese, Séstri Levante.
Em 1877, Dom Bosco as convidou a ser missionárias na América do Sul, para onde seguiriam alguns sacerdotes salesianos. Madre Mazzarello enviou seis filhas, escolhidas entre várias outras desejosas de partir. Logo que recebeu notícias de sua chegada ao campo de missão, escreveu-lhes uma longa carta, na qual “conversava” com cada uma como se as sentisse bem perto de si. Nas últimas linhas, lhes dizia: “Minhas filhas, recomendo-lhes que se queiram muito bem, que tenham paciência umas com as outras, que se perdoem mutuamente os pequenos defeitos, coisas inevitáveis. Cuidem bem da própria saúde. Coragem, boas e queridas irmãs!” 8.
Em pouco tempo, as Filhas de Maria Auxiliadora constituíam uma grande família espalhada por várias partes do mundo.
Morte prematura
O fato de tornar-se Superiora Geral não fez Madre Mazzarello abandonar os pequenos serviços. Cuidava das meninas e das freiras como uma verdadeira mãe.
Mas sua saúde começou a declinar. Caminhava com dificuldade e, à noite, esquentava na cozinha um tijolo para com seu calor aliviar um pouco as fortes moléstias que sentia no lado direito do tronco. Oferecera-se como vítima expiatória e a Providência parecia tê-la aceitado.
Em 1881, estando em Saint-Cyr, na França, o médico diagnosticou uma pleurisia em estado muito avançado. Naquele tempo, o tratamento era feito à base de ventosas que, em 40 dias,  transformaram suas costas numa ferida. De nada reclamava e só dava bons exemplos às suas irmãs de religião.
O médico deu-lhe dois meses de vida, e ela decidiu voltar para Nizza Monferrato, para onde se tinha trasladado anos antes a Casa-Mãe da Congregação. Ali expirou em 14 de  maio de 1881. Suas últimas palavras às suas filhas, que choravam, foram: “Adeus! Até o Céu...” Com apenas 44  anos de vida, foi um exemplo de humildade e santidade, zelo apostólico e pureza virginal.
Pio XI a beatificou em 1939 e Pio  XII a canonizou em 1951. Seu corpo,  incorrupto, foi trasladado para um altar da grandiosa Basílica de Maria Auxiliadora, em Turim.

1) Apud AÑO CRISTIANO, vol. V – Mayo. Madrid: B.A.C., 2004. p. 313.
2) BOSCO, Terésio. Dom Bosco. 6 ed. São Paulo: Editora Salesiana, 2002. pp. 418-419. Mazzarello. 5 ed. São Paulo: Editora Salesiana Dom Bosco, 1997. p. 9. São Paulo: Editora Salesiana, 2002. p. 423.
3) BOSCO, Terésio. Maria Domingas
4) BOSCO, Terésio. Dom Bosco. 6 ed. 
5) Idem. p. 426.
6) BOSCO Henri; VON MATT, Leonard. Dom Bosco. Trad. Zita Givoni Garcia. Porto: Edições Salesianas, s/d. p. 169.
7) BOSCO, Terésio. Maria Domingas Mazzarello. 5 ed. São Paulo: Editora Salesiana Dom Bosco, 1997. p. 18.
8) Idem, p. 29. do Evangelho