Páginas

Mostrando postagens com marcador Cluny. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cluny. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 16 de março de 2017

Santo Odon

A Idade Média, com suas catedrais, castelos, universidades e outras instituições, causa admiração até entre os não católicos. O espírito dessa época histórica nasceu de Cluny, uma pujante Abadia que teve Santo Odon como primeiro abade. Graças à sabedoria deste grande santo, Cluny pôde influenciar toda a Europa. Vejamos os comentários de Plinio Corrêa de Oliveira.
No dia 18 de novembro comemora-se a festa de Santo Odon. Na “Vida dos Santos”, de Omer Englebert1, encontramos a seguinte síntese biográfica deste santo abade de Cluny:
Graças a Santo Odon, a influência de Cluny espargiu-se por toda a Cristandade
Odon era filho de fidalgos que viviam na Alsácia, os quais atribuíam seu nascimento à intercessão milagrosa de São Martinho. Foi mandado ainda criança para a corte de Fulk, o Bom, Conde de Anjou, e mais tarde passou para a de Guilherme, Duque de Aquitânia. Aos 16 anos foi acometido de dores de cabeça, que só foram curadas quando o jovem ingressou no cabido de São Martinho, em Tours. Dedicou-se durante vários anos ao estudo dos clássicos e dos Santos Padres, seguindo em Paris, em 901, os cursos de Filosofia de Remígio de Auxèrre. Aplicou-se também profundamente ao estudo da Poesia e da Música, as quais cultivou durante toda a vida. Após ter sido cantor do cabido e de ter escrito várias obras, Odon ingressou no mosteiro beneditino de Baume-les-Messieurs, na Borgonha, mudando depois para Cluny, quando da fundação desse mosteiro, onde foi nomeado abade. As escolas que ele criou em Cluny atraíram em breve tudo quanto havia de mais nobre no Ocidente. Era costume dizer-se que um príncipe, no palácio de seu pai, não recebia educação mais apurada que os alunos de Cluny. Graças ao santo abade, a influência da abadia espalhou-se por toda a Cristandade. Os Papas a ele recorriam em suas dificuldades, e os príncipes chamavam-no para reformar os mosteiros em seus estados.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Santo Odilon

Através da vocação, Deus traça para cada um dos seus filhos uma via específica de santificação e dá aptidões naturais e sobrenaturais que favorecem o cumprimento desse chamado individual e irrepetível. Mas Ele também os convida a colocar esses dons, de uma ou outra forma, a serviço da Igreja e do próximo.
Em uma de suas epístolas, o Apóstolo São Pedro exorta: “Cada um ponha ao serviço dos outros o dom que recebeu, como bons dispenseiros da multiforme graça de Deus. Se alguém fala, fale com palavras de Deus; se alguém exerce um ministério, exerça-o como em virtude do poder que Deus lhe dá, para que em todas as coisas seja Deus honrado por Jesus Cristo” (I Pd 4, 10-11).
Analisando a trajetória duas vezes milenar da Santa Igreja Católica, comprovamos como a Providência costuma escolher algumas almas às quais chama para a realização de missões de singular importância. Elas não realizam a própria vocação no âmbito de suas relações, mas sua ação é destinada a atingir um campo mais amplo, e não raras vezes a Igreja no seu conjunto.
São pessoas providenciais, escolhidas para desempenhar um papel proeminente e assim apontar para seus contemporâneos os desígnios divinos. Assistidas por luzes sobrenaturais, elas compreendem com particular acuidade os erros difundidos em sua época, discernem as armadilhas do mal e as necessidades dos bons, apontando os rumos a seguir para se obter a expansão do Reino de Deus. Como corolário, são em muitos casos agraciadas com notáveis qualidades humanas, condizentes com a missão recebida.
Neste artigo contemplaremos um desses vultos da História da Igreja: Santo Odilon, abade de Cluny. Entretanto, para melhor apreciar sua obra e de seus monges será necessário analisar a difícil conjuntura dos dias nos quais ele viveu.
O mundo imerso no caos
As vicissitudes que ameaçavam o Ocidente nos séculos IX e X davam margem a enormes incógnitas e não menores apreensões. Com a desagregação do império carolíngio e a intensificação das investidas bárbaras, a sociedade ficara enfraquecida e minada em seus fundamentos.
Tomadas de insegurança e pavor, as populações procuravam refúgio junto aos senhores feudais, homens de armas que se comprometiam a protegê-las dos perigos em troca de seus serviços. Em sua maioria, porém, embora professassem a Fé Cristã, estavam eles longe de ostentar uma conduta moral conforme as exigências do Batismo. Valendo-se sem escrúpulos das possibilidades geradas pela anarquia para expandir os seus domínios, protelavam indefinidamente rivalidades sangrentas.
No âmbito religioso, os motivos para se temer não eram menos graves: a intromissão dos soberanos nas nomeações eclesiásticas, unida ao relaxamento de costumes dos clérigos, abriram as portas da Sagrada Hierarquia a candidatos pouco dignos, que não tardaram a se envolver em tramas políticas e ambições mundanas, e a dar largas às suas paixões desordenadas. O problema viria a assumir grandes proporções, culminando na célebre Querela das Investiduras.
Faltava à Europa uma força capaz de fazer frente aos erros disseminados, tanto na esfera temporal quanto na espiritual. Para surpresa de todos, essa força ergueu-se no silêncio de um claustro, onde monges pobres, obedientes e castos iniciaram uma ousada obra renovadora. Como filhos exemplares da Igreja, que “encarna o único elemento de estabilidade num Ocidente desorientado”,1 eles “dão um passo avante e, se se quiser, iniciam uma reviravolta no monaquismo ocidental, aproximando-se cada vez mais do povo e preocupando-se não apenas com sua própria santificação, mas também com a reforma moral do mundo cristão”.2
Cluny e seus santos abades
A Borgonha, linda região vinícola localizada no centro-leste da França, abriga ainda em nossos dias a pequenina cidade de Cluny, onde, no ano de 910, o duque Guilherme, o Piedoso, doou um terreno a São Bernon, o qual desejava iniciar ali uma comunidade monástica sob a regra de São Bento.
“Há locais abençoados por uma predestinação que ninguém pode prever e cujos segredos Deus reservou apenas para Si. Cluny é um desses lugares”.3 Segundo as aparências, a nova fundação seria apenas um mosteiro a mais, como tantos outros edificados na mesma época. Contudo, quando suas paredes de estilo românico passaram a abrigar as jovens vocações que logo vieram pedir admissão, foi possível notar que um élan de fervor distinguia esses homens de Deus.
De fato, os monges cluniacenses compreenderam a necessidade de iniciar uma obra que primasse pela máxima fidelidade aos preceitos da vida religiosa. Com grande entusiasmo dedicaram-se à oração, ao trabalho, ao estudo, às obras de caridade e, sobretudo, ao ofício litúrgico, podendo-se afirmar que “a vida em Cluny foi a vida beneditina total”.4
Digno de nota era seu amor à Santa Missa, que os levou a promover diariamente celebrações ininterruptas desde o amanhecer até o meio-dia, e a assídua recepção da Eucaristia por parte de todos os monges. O segredo do dinamismo de Cluny vem sendo questionado há séculos, mas podemos atribuir a esses dois fatores a razão mais profunda da força que a abadia veio a adquirir.
Cumpre recordar ainda que durante dois séculos o mosteiro teve à frente grandes abades, verdadeiras figuras de proa que souberam delinear e conduzir com sabedoria o novo estilo de consagração a Deus. Os governos de São Bernon, Santo Odon, São Maïeul, Santo Odilon e São Hugo deram um amplo reconhecimento a Cluny, o que levou incontáveis mosteiros a se unirem a ele, a ponto de contar com quase 1.500 unidades filiadas, esparsas pela Europa.
“A expansão de Cluny deve-se à qualidade monástica de algumas personalidades eminentes que estiveram à sua frente e puderam, desde as origens, liderar a comunidade realmente desejosa de reforma. Acrescente-se a isso a superioridade dos estatutos bem definidos, a brilhante organização de orientação internacional e a posição central no coração do Ocidente latino”.5
Santo Odilon, o quarto dos abades a merecer a glória dos altares, é o que parece melhor sintetizar o espírito da mítica instituição, tendo sido chamado de “Arcanjo dos monges”6 por São Fulberto, Bispo de Chartres, seu amigo e admirador.
Curado pela Santíssima Virgem
Nasceu ele na Auvérnia, por volta do ano de 962, numa família de elevada linhagem e ascendência principesca pelo lado materno. No entanto, o nascimento ilustre não livrou o bebê das desditas deste vale de lágrimas: terceiro filho de Béraud, Conde de Mercœur, e da não menos nobre Gerberge, foi ele vítima de uma grave doença que o deixou paralítico. A duras penas conseguia mexer as mãozinhas e os pés.
Todavia, um alto desígnio pairava sobre aquele menino. Estava ainda nos primeiros anos de sua infância quando, durante uma viagem, a família o deixou junto às bagagens, diante de uma igreja dedicada à Virgem Maria, enquanto se reabastecia de víveres. Nessa ocasião, sentindo uma misteriosa inspiração para entrar no recinto sagrado, ele arrastou-se como podia até a porta e, com comovedora pertinácia, conseguiu chegar ao altar dedicado à Rainha dos Céus. Ali agarrou-se à toalha que o cobria, na tentativa de ficar de pé, e, de repente, eis que sentiu penetrar em si uma força miraculosa. Estava curado!
Esse prodígio foi o início de um relacionamento entranhado e filial com a Mãe de Deus, que perdurou por toda a sua vida. Mais tarde, quiçá para confirmar sua gratidão, consagrou-se a Ela como escravo, cingindo o pescoço com uma corda, cuja ponta depositou aos pés de uma imagem de Maria, recitando uma piedosa fórmula de oferecimento. “A partir desse instante” — comenta Dom Jacques Hourlier —, “Odilon não é mais homem livre: ele acabava de ‘dar-se’ a Nossa Senhora, como outrora tantos outros alienavam sua liberdade nas mãos de um senhor”.7 Adiantava assim, de algum modo, a escravidão de amor a Nossa Senhora ensinada séculos depois por São Luís Maria Grignion de Montfort.
Sua frágil saúde não lhe permitiu seguir a carreira das armas, como era costume entre os nobres da época. Ingressou, então, na ilustre escola de Saint-Julien de Brioude, de cujo capítulo se tornou cônego. Porém, um encontro fortuito com São Maïeul, abade de Cluny, determinaria seu destino: seria monge naquela abadia. Deus abençoou desde o primeiro momento esse feliz encontro e uma profunda amizade os uniu para a vida e para a morte. O jovem Odilon, de apenas 26 anos, inclinava-se como um filho ante a venerável figura do abade octogenário, de quem se tornou discípulo.
Monge de eminente santidade
Ao ingressar no noviciado, o único desejo de Odilon era dedicar-se por completo à vida contemplativa. Seus anseios foram coroados com as bênçãos da Providência, pois não havia naquela casa de oração monge mais humilde do que ele, mais afeito aos trabalhos árduos, aos sacrifícios penosos, à prece e ao recolhimento com maior compenetração. Quem dele se aproximava, mesmo sem dirigir-lhe qualquer palavra, logo se sentia convidado a crescer no amor a Deus.
A alma desse despretensioso cluniacense parecia ter sido modelada desde o nascimento de acordo com os preceitos da regra, e nela reluzia todo o ideal beneditino. Seus irmãos de hábito, admirados e felizes pelo privilégio de gozarem de sua companhia, eram unânimes em reconhecer nele a perfeição da vida monástica.
Essa opinião era compartilhada por São Maïeul, que o elegeu para seu sucessor. Quando este faleceu, no ano de 994, a pesada cruz do governo da abadia recaiu sobre os jovens ombros de Odilon.
Santo Odilon, segundo um discípulo e contemporâneo
Os estudiosos da vida de Santo Odilon acabam recorrendo, cedo ou tarde, à pluma do monge Jotsald,8 seu contemporâneo, discípulo e biógrafo. Sensível à riqueza da personalidade de seu superior, deixou-nos preciosos relatos.
Odilon tinha passo grave e voz admirável. Exprimia-se bem e só de vê-lo se sentia alegria. Seu rosto angelical, a serenidade do olhar, seus movimentos, gestos e postura exprimiam retidão e pureza. As simples dobras de suas vestes manifestavam sua alta dignidade, bem como o respeito para consigo e para com os outros. Havia nele algo de luminoso que convidava a imitá-lo e a venerá-lo. A luz da graça presente em seu interior reluzia em sua fisionomia, fazendo transparecer sua bela alma.
Era de talhe mediano e porte elegante. Seu rosto exprimia, ao mesmo tempo, autoridade e benevolência. Com os mansos e humildes era gentil e afável; com os orgulhosos e maus, contudo, se tornava terrível, a ponto de estes quase não poderem fixar-lhe o olhar. Sua magreza acentuava-lhe o vigor e, mais tarde, a palidez não lhe tirou o frescor de sua nobre distinção. De toda a sua pessoa emanava uma espécie de gravidade e de paz.
Quando guardava o silêncio, era com o Senhor que se entretinha; quando falava, seu tema era o Senhor. “Examinando seus sermões e muitas de suas cartas, sente-se ali como o sabor de doces e saborosíssimos favos, o aroma da prudente eloquência, e o encanto da amenidade e da graça”.9
Espelho de virtudes para toda a sociedade
O período de seu governo foi extenso: 55 anos. Um fenômeno curioso verificou-se tanto nessas décadas quanto na administração dos outros abades. Por um lado, os poderes temporais desgastavam-se em lutas intestinas. De outro lado, Cluny ia conquistando as almas pela prática da caridade cristã; nos mosteiros cluniacenses reinavam a paz e a ordem, todos ali se entregavam a fecundos trabalhos, imitando o exemplo de dedicação dado por Odilon. O contraste entre essas duas situações atraía, naturalmente, as esperanças dos habitantes para o santo abade e seus filhos espirituais, e estes nunca os decepcionavam
Quando os aflitos, ou mesmo os desesperados de suas causas, já não tinham a quem recorrer, bastava bater às portas da abadia para receber um sábio conselho; os famintos ganhavam uma porção do alimento que muitas vezes os livrava da morte; os enfermos tinham tratamento e hospedagem garantida; e os mortos se beneficiavam com as Missas e preces oferecidas em sufrágio de suas almas. Graças a este zelo de Odilon deu-se origem na Igreja a Comemoração dos Fiéis Defuntos, a 2 de novembro. De dentro das muralhas desses mosteiros forjou-se uma nova era histórica, que impediu a desagregação total do Ocidente.
Sua figura venerável mostrou ser a santidade a solução para os graves problemas da sociedade. No decorrer do tempo, os soberanos foram se apercebendo desta verdade e passaram a se abeberar na fonte de sua sabedoria. Pode-se dizer que Santo Odilon está ligado a todas as grandes questões de seu tempo e influenciou, direta ou indiretamente, as principais decisões então tomadas, tanto na Santa Sé como nos reinos cristãos.
A consumação de uma santa carreira
O falecimento do abade é descrito com piedosa unção por Jotsald. Narra ele que, mesmo sentindo-se enfraquecido, o ancião de 87 anos empreendeu em outubro de 1048 uma viagem até o mosteiro de Souvigny, onde, apesar da crescente debilidade, continuou exercendo suas funções com perfeição.
No último dia desse ano, sua saúde dava mostras de estar chegando ao fim. Mesmo já prostrado no leito, pediu para ser conduzido até a igreja, a fim de recitar Vésperas com a comunidade, e ainda encontrou alento para entoar os Salmos. O santo abade avançava de encontro à morte com sua natural e nobre firmeza. Horas depois, na madrugada de 1º de janeiro de 1049 entregava sua alma a Deus. “Sem estremecimento, sem agonia, seus olhos se fecharam docemente e ele adormeceu na paz”.10
1DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos tempos bárbaros. São Paulo: Quadrante, 1991, p.439.
2GARCÍA-VILLOSLADA, SJ, Ricardo. Historia de la Iglesia Católica. Edad Media: La Cristiandad en el mundo europeo y feudal. 6.ed. Madrid: BAC, 1999, v.II, p.243.
3JARDET, Pierre. Saint Odilon, abbé de Cluny. Sa vie, son temps, ses œuvres. Lyon: Emmanuel Vitte, 1898, p.51.
4 DANIEL-ROPS, op. cit., p.592.
5 HALLINGER, Cassio. Cluny. VI - Cause dell’ascesa e della decandenza. In: PIZZARDO, Guiseppe et al. (Dir.). Enciclopedia Cattolica. Città del Vaticano: Ente per L ’Enciclopedia Cattolica e per il Libro Cattolico, 1949, v.III, col.1890.
6GARCÍA-VILLOSLADA, op. cit., p.242.
7HOURLIER, OSB, Jacques. Saint Odilon, abbé de Cluny. In: Revue d’Histoire Ecclésiastique. Louvain. Fasc. 40 (1964); p.31.
8JOTSALD. De vita et virtutibus Sancti Odilonis abbatis. L.I, c.2-6: ML 142, 899-901.
9Idem, c.6, 901.
10 JARDET, op. cit., p.751-752.

Irmã Carmela Werner Ferreira, EP Revista Arautos do Evangelho jan 2014

sábado, 2 de novembro de 2013

Santo Odon, abade

O iniciador de Cluny
Tudo nele tinha proporções admiráveis: sua influência, sua virtude, sua energia. No silêncio dos mosteiros por ele dirigidos germinou uma das surpreendentes transformações acontecidas na História: o surgimento da Europa Cristã medieval.
A notícia teve o efeito de uma explosão... Um mensageiro acabava de chegar ao mosteiro de Fleury, na França, anunciando a nomeação de um novo abade, o qual já estava a caminho e em poucos dias se apresentaria para tomar posse de seu cargo.
Qual a razão desta súbita mudança?
Os monges se reuniram apressadamente, na sala capitular, para tomar conhecimento de todos os detalhes. A indignação ferveu e contagiou os espíritos. Após um exaltado debate, decidiram rejeitar o novo abade e impedir sua entrada na casa. Afinal, argumentavam eles, segundo antigos privilégios ainda em vigor, seu mosteiro não podia ser governado pelo abade de outra casa religiosa.
Por mais incrível que pareça, situações semelhantes não eram tão raras nessa época: estamos em pleno século X, o “século de ferro”. O poder civil interferia abusivamente na vida religiosa; o caos reinava em toda a Europa; guerras e incursões de bárbaros devastavam regiões inteiras, e a disciplina eclesiástica estava longe de ser a ideal...
Triunfo da mansidão
Mas voltemos ao mosteiro de Fleury, cujos monges não se limitaram a fazer declarações retóricas, para defender seus “direitos”. Esquecendo a mansidão evangélica, da qual deveriam dar exemplo, armaram-se de espadas e capacetes, dispostos a barrar a entrada ao novo abade. Entretanto, para não começar as hostilidades sem a costumeira declaração de guerra, enviaram-lhe um mensageiro com a incumbência de perguntar-lhe qual era o objetivo de sua vinda e adverti-lo de que não seria bem recebido.
A resposta de Santo Odon alarmou ainda mais os espíritos: “Venho em missão de paz, não farei mal a ninguém, cuidarei apenas de reformar a vida monástica dessa abadia”. Reformar a vida monástica... Era justamente isso que aqueles monges relaxados não queriam! Mantiveram-se, pois, determinados a não aceitar inovações. Enviaram novos mensageiros, avisando que, se o abade cruzasse os umbrais do mosteiro, corria sério risco de vida.
A ameaça surtiu efeito nos quatro bispos que acompanhavam Santo Odon: estes o aconselharam a desistir de seus projetos e regressar tranquilo à abadia de Cluny.
O Santo, porém, consciente de sua missão e dos benefícios que a reforma da vida religiosa traria para a Igreja e a Civilização Cristã, não titubeou. Montou num burro e, sozinho, dirigiu-se para o mosteiro rebelde. Vendo-o aproximar-se, os monges foram ao seu encontro, dispostos a expulsá-lo. Santo Odon desceu da montaria e saudou aqueles homens enfurecidos:
— A paz esteja convosco, meus irmãos caríssimos.
A serenidade do homem de Deus, a dignidade de seu porte, a paz que emanava dele e a doçura transbordante de suas palavras desarmaram, num instante, os temores e ódios alimentados por aqueles pobres monges em seus corações. E, um por um, vieram todos prostrar-se aos pés do Santo, pedir-lhe perdão, reconhece-lo como seu pai e superior, e rogar- lhe o favor de conduzi-los pelas vias da virtude.
A primeira batalha estava ganha. Pouco a pouco, o exemplo de sua vida, a mansidão de seu trato e suas doces exortações permitiram que a graça de Deus fosse realizando a reforma do mosteiro de Fleury, com a implantação da regra de São Bento.
Mas este foi apenas um dos episódios da imensa obra empreendida por Santo Odon. Enquanto o continente europeu se afundava no caos, dilacerado por guerras e pelas incursões devastadoras dos bárbaros normandos, e a civilização ocidental corria o risco de desaparecer, germinava no silêncio contemplativo do mosteiro de Cluny, em meio aos esplendores da Liturgia e do canto do Ofício Divino, a Europa Cristã medieval, uma das transformações mais surpreendentes que a História já tenha conhecido. Esta é fruto da reforma de Cluny, iniciada por Santo Odon e levada avante por seus sucessores, todos eles santos de altar, ao longo dos dois séculos seguintes.
Quem era, afinal, Odon?
Oferecido a São Martinho
Nasceu ele em 879, na região do Maine, na França. Seu pai, Abbon — homem de fé, de nobre família e conceituado jurista —, não tendo até então nenhum filho, pediu a Jesus Menino, numa noite de Natal, que, pelos méritos de seu nascimento e pela fecundidade de sua virginal Mãe, lhe concedesse a graça de ter um descendente. Sua oração foi atendida, apesar de sua esposa ser já de idade avançada. Certo dia, vendo o filhinho no berço, tomou-o nos braços e o ofereceu a São Martinho de Tours. Mas não contou a ninguém que, na qualidade de pai, havia feito esse voto.
Tão logo o menino atingiu a idade adequada, Abbon o confiou aos cuidados de um sacerdote, para dar-lhe instrução e formação cristã. Pouco tempo depois, porém, arrependeu-se do oferecimento feito a São Martinho e, em vez de encaminhar o filho para o serviço da Igreja, entregou-o a Guilherme, Duque da Aquitânia, para este o iniciar na carreira das armas.
No ambiente mundano da corte ducal, Odon esqueceu rapidamente o que tinha aprendido em seus primeiros anos. Não pensava mais senão no jogo, na caça e nos exercícios militares, deixando de lado as orações quotidianas e outros atos de devoção. No entanto, Deus não lhe permitiu sentir gosto nesses divertimentos vãos. Pelo contrário, quanto mais se engolfava neles, mais sentia o seu gosto amargo, uma tristeza e melancolia cuja causa não conseguia descobrir. Ao mesmo tempo, era atemorizado por sonhos que lhe representavam os perigos de uma vida solta e desregrada.
Em meio a essa perturbação interior na qual se encontrava, recorreu à Santíssima Virgem. Numa noite de Natal, pediu-Lhe que tivesse pena dele e o conduzisse pelas vias retas da santidade. Tinha então dezesseis anos. Na manhã seguinte, ele foi acometido por uma dor de cabeça tão forte que mal conseguia manter-se de pé e julgou ter chegado a hora de sua morte. Essa doença durou três anos, até o dia em que seu pai lhe revelou o voto feito quando ele era ainda criança. Odon ratificou pessoalmente aquele oferecimento e logo recobrou a saúde. Retirou-se em seguida para Tours, onde se dedicou ao serviço de Deus, na igreja de São Martinho.
Germina a vocação monástica
Começou então para esse jovem de 19 anos uma vida de oração e de estudos. Passava boa parte do tempo em leituras, e Virgílio era um de seus autores preferidos. Certo dia, tendo visto, num sonho, um vaso antigo, muito belo por fora, mas cheio de serpentes, compreendeu que deveria deixar de lado os clássicos pagãos e aplicar-se ao conhecimento da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja.
Nessa nova etapa de sua vida, leu a regra de São Bento e decidiu pô-la em prática, segundo as possibilidades de seu estado, abraçando uma vida de penitência. Como eram numerosas as peregrinações a São Martinho de Tours, muitas personalidades se dirigiam a Odon, para lhe pedir conselho. Não havia quem dele se aproximasse sem ser tocado, no fundo do coração, por suas palavras repletas de doçura divina. Com a leitura dos Padres da Igreja e da regra de São Bento, Odon começou a acalentar o desejo de abraçar a vida monástica. Pôs-se, então, à procura de algum mosteiro em condições de recebê-lo. Tarefa nada fácil naquela conturbada época. Havia sessenta anos que as guerras civis e as devastações dos piratas normandos arruinavam o país, obrigando os monges a abandonar seus monastérios, em busca de lugares seguros.
Discípulo de São Bernon
Tomando conhecimento da existência do mosteiro de Baume, cujo abade era São Bernon, para lá se dirigiu Odon, então com trinta anos de idade. Levou consigo seus preciosos livros, cerca de cem, um verdadeiro tesouro naquela época de barbárie. Por sua ciência, foi-lhe dado o encargo de cuidar da escola do mosteiro.
Os inícios de sua vida monástica não foram pacíficos. Alguns monges de vida pouco exemplar procuravam afastá-lo do reto caminho, ora procurando envolvê-lo em críticas ao abade, ora fazendo-lhe graves recriminações e, até mesmo, insultando-o. Sua arma, nessas contendas, era a paciência, com a qual procurava apaziguar de todas as formas esses seus irmãos.
O abade Bernon não tardou em discernir o grande futuro desse seu jovem discípulo e o convenceu a receber a ordenação sacerdotal. Depois, vendo aproximar-se o fim de sua santa vida, quis que ele fosse seu sucessor no governo do mosteiro de Baume. Porém, os monges lhe recusaram obediência. Bernon confiou-lhe então o cuidado das abadias de Cluny, de Massay e de Bourdieux.
Abade de Cluny
Santo Odon estabeleceu-se em Cluny, como abade, aos 48 anos de idade. A partir desse momento, o mosteiro começou a distinguir-se de todos os outros pela observância da regra de São Bento, a emulação de virtude entre os monges, o estudo da religião e a caridade para com os pobres, aos quais o novo abade dava esmolas em abundância, sem se preocupar com o dia seguinte. Sobretudo no período da Quaresma, ele era especialmente pródigo com os necessitados, chegando a distribuir alimentos a mais de sete mil pobres.
As virtudes de Santo Odon atraíram para Cluny grande número de homens, tanto leigos como clérigos, muitos deles de elevada condição, e até mesmo bispos deixaram suas dioceses para ali viverem como simples monges. Muitos outros mosteiros submeteram-se à autoridade desse grande reformador da vida monástica, dando assim origem à célebre Congregação de Cluny, que tanta influência exerceu na Europa Cristã, nos séculos posteriores. Vinculado diretamente ao Papa e livre de ingerências do poder temporal, Santo Odon foi o primeiro de uma sucessão ininterrupta de abades santos que durante duzentos anos governaram a nova instituição religiosa, difundindo o bom odor de Nosso Senhor Jesus Cristo por todo o Ocidente cristão.
Devido ao grande aumento do número de monges, tornou-se necessário ampliar as instalações de Cluny e edificar uma nova igreja. Concluída a construção, o abade convidou todos os bispos da região e numerosos dignitários locais para a cerimônia de dedicação. No dia da festa, uma surpresa embaraçosa: os víveres existentes no mosteiro não eram suficientes para acolher tanta gente... Ante o espanto de todos, um feroz javali aproximou-se do edifício e deixou-se apanhar sem dificuldade, contribuindo assim com sua saborosa carne para a refeição oferecida aos convidados.
Um ponto particularmente importante da reforma introduzida por Santo Odon era a regra do silêncio nas horas estipuladas. Um pequeno episódio mostra como os monges cluniacenses a cumpriam com inteira exatidão, mesmo quando estavam fora do mosteiro: certa noite, para não falar numa hora em que a regra prescrevia silêncio absoluto, um deles preferiu deixar um ladrão roubar-lhe o cavalo. Praticou um ato de virtude e não sofreu prejuízo, pois, na manhã seguinte, o ladrão foi encontrado imóvel, montado no cavalo, perto do local do roubo. Era o filho de um moleiro do mosteiro. Conduziram-no então a Santo Odon e este, em vez de castigá-lo com a merecida pena de prisão, mandou dar-lhe cinco moedas de prata, em pagamento do “trabalho de guardar o cavalo” durante toda a noite. E deixou o jovem ir em paz.
Por três vezes os Papas chamaram Santo Odon a Roma, para reconciliar dois inimigos mortais, que viviam em guerra constante — Alberico, patrício romano, e Hugo, rei da Itália — e reformar diversos mosteiros, entre os quais o de São Paulo Extramuros.
Numa dessas viagens, certo homem, impressionado pela santidade que reluzia no rosto do santo abade, prostrou-se a seus pés, implorando-lhe para ser admitido como monge. Mas era um ladrão famoso... não podia ser recebido. Ele, porém, insistiu, argumentando que sua salvação eterna corria sério risco e Santo Odon teria de prestar contas da alma dele a Deus. O Santo então o enviou para Cluny. Esse “bom ladrão” converteu-se num dos mais zelosos religiosos da comunidade. E morreu algum tempo depois, em odor de santidade.
Santo Odon, além de grande escritor, foi considerado o maior músico do décimo século e influenciou profundamente o canto litúrgico de seu tempo. Neste grande santo, afirmam seus biógrafos, tudo tinha proporções surpreendentes: sua influência, sua virtude, sua energia.
Última peregrinação ao túmulo de São Martinho
Ao chegar ao fim de sua longa vida, Santo Odon havia acolhido sob sua paternal autoridade os principais mosteiros da Itália e do território francês, restaurando em todos eles a observância primitiva da regra de São Bento. Por ocasião de sua terceira estadia em Roma, uma doença grave lhe anunciou a proximidade da morte. Pediu então a São Martinho que lhe obtivesse a graça de visitar ainda uma última vez seu túmulo. Sua oração foi atendida: curou-se e logo se pôs a caminho de Tours, onde chegou a tempo de participar da festa de seu santo patrono. Três dias depois, voltou a cair enfermo e entregou a alma a Deus nos braços de seu discípulo Théotolon, Arcebispo de Tours, a 18 de novembro de 942.






sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Santo Odilon

Como o modo de andar ou de falar de uma pessoa pode demonstrar a santidade de sua alma.
Cada época histórica possui grandes homens característicos. Santo Odilon o foi para a Idade Média: grandioso no sentido verdadeiro da palavra.
Apesar de possuir grande valor pessoal, o que sobretudo transparecia em nosso santo eram as graças sobrenaturais — incomparavelmente mais preciosas do que qualquer valor pessoal — que adornavam sua alma.
Sua personalidade tinha tal amplitude harmônica de aspectos, como não se encontra nos grandes homens do tempo da Revolução.
O modo de andar
Passemos a comentar trechos de sua vida, retirados de uma ficha biográfica: “Comecemos por seus méritos menores. E digamos que esse homem tinha um andar grave, uma voz admirável, ele falava bem. Era uma alegria vê-lo.”
Ao descrever o porte e o modo de ser do santo, o autor ressalta mais os sinais da virtude do que a virtude propriamente dita.
O modo de andar das pessoas as define muito, e por causa disso o biógrafo, contemporâneo de Santo Odilon, julgou que deveria começar a descrevê-lo pelo passo. O que é um passo grave? É um passo firme, varonil, de alguém que, ainda que não tenha diante de si obstáculos visíveis, anda vencendo. É um passo cheio de consequências e de ponderação.
Compostura respeitosa
“Cada um de seus movimentos exprimia honestidade. Sua fisionomia era angélica e seu olhar sereno.”
Honestidade, no francês antigo, significava compostura. Un honnête homme significava um homem muito composto, muito digno. Vê-se, então, que todo o modo de ser de Santo Odilon era cheio de compostura e de dignidade.
É preciso ressaltar também que na Idade Média o conceito de anjo não era o desse tipo de anjinho gorduchinho, com ares de irresponsável. Não seria um elogio dizer para alguém que ele tem aquela carinha. A ideia que o medieval fazia dos anjos era a que está expressa nos vitrais medievais: os grandes heróis do Céu; príncipes na presença do Altíssimo.
Percebe-se, assim, o que o autor quer dizer quando afirma que “sua fisionomia era angélica”. Este era Santo Odilon, que grande figura!
Continua a ficha:
“Cada dobra de seu hábito sacerdotal apresentava dignidade e mostrava o respeito que ele tinha por si mesmo e pelos outros.”
Santo Odilon sabia que era a “alma” do grande movimento de Cluny, o qual, por sua vez, era a “alma” irradiante da Idade Média.
A verdadeira humildade consiste em respeitar-se a si próprio como deve ser respeitado.
Sabendo ser Superior de uma Ordem religiosa, homem sagrado por Deus, ele se respeitava enormemente. Vemos que o porte desse varão de Deus era, ao mesmo tempo, principescamente angélico e cheio de humildade.
Alma luminosa
Continua a narração:
“Ele trazia consigo qualquer coisa de luminoso, que convidava a imitá-lo e venerá-lo. A luz da graça, que estava nele, brilhava, por assim dizer, no exterior, e manifestava a qualidade de sua alma.”
O autor soube fixar essa luminosidade que havia em Santo Odilon, a qual nota-se em tantos santos. Ela é algo difícil de descrever, pois trata-se de uma luminosidade do olhar e de algo que paira em torno da personalidade.
Assim como há algo que distingue um homem morto daquele que apenas dorme, há também uma luz na fisionomia do santo, a qual o distingue de quem não o é.
“Seu rosto exprimia a uma vez a autoridade e a benevolência.”
O autor acentua muito bem os contrastes: autoridade e benevolência.
Imaginemos um claustro medieval, repleto de ogivas, e Santo Odilon andando sozinho. Ao longe, um noviço o vê e se ajoelha, Santo Odilon passa e o abençoa.
É bem o contrário daquilo que a Revolução procura incutir nas mentalidades: quem tem autoridade é uma espécie de fera que subiu e, quando encontra a oportunidade de pisar nos outros, fica contentíssima, como quem diz: “Eu apanhei até subir; agora desconto nos que estão embaixo.”
Uma concepção da autoridade não pode ser mais ordinária do que essa.
Pelo contrário, a autoridade existe para fazer o bem. Sua missão é cumprir a benevolência. Benevolência quer dizer querer o bem dos outros.
“Para os bons, ele se mostrava risonho e acolhedor, mas, para os orgulhosos e rebeldes, se tornava tão terrível que era difícil conseguirem fitar seu olhar.”
Que verdadeira maravilha! Eu tenho entusiasmo por essa arma do homem que é o olhar. Quão poucos homens a possuem! O autor dessa ficha soube ver o olhar terrível de Santo Odilon. Isso é admirável! Terrível como um exército em ordem de batalha!
“Seus olhos brilhavam com brilho singular: eram olhos acostumados às lágrimas.”
Como o mundo moderno não compreende mais isso! O mundo moderno só gosta dos olhos habituados a rir; olhos estultos e néscios, os quais só dizem o que sente o egoísmo. O mundo antigo compreendia qual era o valor dos olhos habituados a chorar pelas coisas santas. Chorar pela Paixão de Nosso Senhor, chorar pelos pecados, pelos outros e por si. O pranto sagrado transforma o interior do olhar e o faz luminoso como uma linda rosácea banhada pelos raios do sol.
 “Mesmo em viagem, Santo Odilon trazia sempre um livro nas mãos. Enquanto viajava a cavalo, sua alma refazia as forças através da leitura.”
Não entendamos isso à maneira moderna, onde o indivíduo tira do bolso um livrinho e lê comodamente. Devemos pensar que os livros do tempo de Santo Odilon eram in-fólios, pesadões, feitos em pergaminho.
Apesar disso ele tinha sempre um livro consigo. Quer dizer, ele aproveitava todos os pequenos interstícios para ler alguma coisa e assim desenvolver seu espírito na meditação das coisas celestes.
Ademais, a locomoção não era como hoje em dia! Viajava-se a cavalo ou a burro. E as estradas, como eram? As mais precárias possíveis. As menores distâncias eram transpostas em longos períodos.
Imaginemos, então, que cena pitoresca: o cavalo trotando e Santo Odilon com uma das mãos na rédea e com a outra segurando um pergaminho escrito com umas letras enormes; ele enrola a folha que terminou de ler, pensa um pouco, coloca essa folha num saco, e tira outra página. O animal andando em meio de precipícios, onde Santo Odilon para e pede o auxílio do Anjo da Guarda! “Gloria tibi, Domine”... E continuava.
Autoridade e benevolência, virtudes indissociáveis
“Santo Odilon difundia a caridade fraterna por sua própria feição, antes de ensiná-la. E ele a ensinava, sobretudo por seus atos. “Amando seus irmãos com o interno calor de sua alma, o santo queria engrandecer a cada um deles, e levá-los ao amor de Deus. Jamais desprezava ou rejeitava pessoa alguma; por sua caridade — verdadeiramente divina — ele convidava a todo o mundo, sem nenhuma reserva, a aproveitar de sua indulgência, pois aquele que é verdadeiramente grande arde nesse desejo de amar o próximo.”
Cluny
Santo Odilon foi abade de Cluny numa época em que a íntima conjugação das instituições temporais e espirituais fazia de um abade um personagem de grande importância. E, tomando em consideração que Cluny representava a maior abadia francesa do tempo, ser seu abade significava ser um dos homens mais consideráveis da estrutura política e social da Idade Média.
Ademais, o mosteiro de Cluny possuía os direitos feudais sobre grande quantidade de terras, e isso dava a Santo Odilon não só o poder espiritual, mas também o material. Ele, por sua reputação pessoal, pelo prestígio de sua santidade e cultura, estava elevado muito acima de seus contemporâneos.
Esse homem, tão insigne por uma porção de circunstâncias, sabia, entretanto, ser muito paterno para com os monges colocados sob a sua jurisdição.
Então, o biógrafo mostra como ele se aproximava de cada um com afeto, entrando em seus problemas pessoais para resolvê-los, e fazendo junto a cada um o papel de Bom Pastor.
Continua a ficha:
“Pois, como é natural, quanto mais alto é um homem, tanto maior é a caridade que ele tem para com os seus irmãos.”
Segundo o espírito que sopra no mundo depois do Protestantismo e da Revolução Francesa, tem-se a errada ideia de que quanto mais um homem é elevado, mais ele despreza os que estão abaixo de si; o superior vê no inferior um concorrente, o qual quer subir e necessita ser espancado para não ter êxito; o inferior, por sua vez, vê no superior um tirano que está lhe explorando e precisa ser derrubado. Desse modo, em qualquer lugar onde haja um degrau hierárquico, há uma luta entre superior e inferior.
Na história de Santo Odilon vemos o contrário. Quanto mais elevado está um homem, mais ele deve tender à bondade, à proteção dos inferiores e a exercer uma autoridade benfazeja.
Onde está o fundamento da ideia de autoridade, como ela era exercida por Santo Odilon?
Cluny
São Tomás de Aquino explica, esplendidamente, que o superior está para com o inferior como uma imagem de Deus. Quer dizer, ele deve proteger o menor, orientá-lo, guiá-lo, à semelhança de como Deus protege todas as suas criaturas.
Na ordem estabelecida por Deus, os anjos são desiguais, o superior guia o inferior.
Isso se verifica também no mundo humano. Os mais eminentes — por seu poder, talento ou autoridade — devem representar a Deus junto aos que estão abaixo de si e fazer-lhes bem.
Segundo essa consideração, quanto mais alta é a autoridade de alguém, maior é a responsabilidade que ele tem de fazer bem aos outros.
Por isso os súditos devem amar especialmente suas autoridades e querer bem aos que estão constituídos numa dignidade especial.
Este é o princípio que rege a Santa Igreja Católica. Por exemplo, numa paróquia, não é razoável que um fiel ame o seu Vigário e espere dele toda proteção e apoio? Mas, o fiel deve amar ainda mais ao Bispo. E, por isso, não há motivos para esperar maior bondade do Bispo do que do Vigário? E o Papa, não deve ser ainda mais venerado? E não há também motivos para esperar mais indulgência dele do que do Prelado?
A “poluição” do mundo moderno
Essas são considerações que nos descansam da brutalidade de todos os dias!
Não é verdadeiro que nos despolui pensar nisso?
Quando leio nos jornais matérias referentes à poluição em nossas cidades, tenho vontade de dizer: “Vocês não percebem que o que mais polui o mundo contemporâneo é o homem contemporâneo? Não há chaminé que polua mais do que a Revolução!” A verdadeira despoluição se daria quando tivéssemos na terra verdadeiros “Santos Odilons”...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

São Mayeul e a confiança cega


Se, como diz a máxima, a justiça é cega, mais ainda o deve ser a nossa confiança em Deus. Quando nos exercitamos nessa virtude, praticando-a de modo humilde e irrestrito, acumulamos um inimaginável tesouro de misericórdia e recompensas celestiais. É a lição que se extrai da admirável vida de São Mayeul, abade de Cluny, o mosteiro-pilastra da Cristandade medieval.
Célebre na Idade Média e nos séculos sucessivos, pela impregnação do espírito católico que ela promoveu na cultura e civilização européias, a Abadia de Cluny foi igualmente um celeiro de Santos. Entre eles, São Mayeul, abade cuja biografia podemos ler no Pe. Rohrbacher.
Humildade, obediência e dom dos milagres
São Mayeul de Cluny, nasceu na Provença, pelo ano de 906. Foucher, seu pai, era da primeira nobreza, e tão rico que doou àquele mosteiro vinte terras com as igrejas a que pertenciam. São Mayeul era ainda jovem quando perdeu pai e mãe, e suas propriedades haviam sido devastadas por invasores bárbaros, obrigando-o a abandonar a região e se retirar para Mâcon. Ali foi recebido por um parente seu, e colocado entre os cônegos da diocese. Pouco depois se dirigiu a Lyon, onde estudou as artes liberais e a filosofia. De regresso, foi promovido a arcediácono, dignidade na qual se destacou por sua caridade para com os pobres e na instrução de outros clérigos.
Sua reputação tornou-se tal que, tendo vagado o arcebispado de Besançon, foi eleito, com consentimento do clero e do povo. Porém, recusou-se a assumir o cargo, e concebeu mesmo a idéia de deixar o mundo. Como o mosteiro de Cluny estivesse nas vizinhanças de Mâcon, Mayeul abraçou a vida monástica nessa comunidade, em 943.
Não se distinguiu senão pelas virtudes, sobretudo a obediência e a humildade. Seis anos após a entrada de Mayeul no mosteiro, o santo Abade Aymard, sentindo-se velho e cego, e temendo que as enfermidades fossem causa de relaxamento na observância da regra, declarou-o abade, com o consentimento de toda a comunidade. Após a morte do venerável Aymard, em 965, Mayeul governou sozinho a abadia durante perto de 30 anos. Aliava à doutrina grande facilidade de falar, e escutavam-no com prazer quando proferia um discurso de moral. Muitos ricos e poderosos, tocados pelas suas exortações, abraçaram a vida monástica e aumentaram consideravelmente a comunidade de Cluny. Mayeul procurava sempre o recolhimento, mesmo nas viagens, e orava com tal compunção que, não raro, encontravam a terra regada de lágrimas.
Também tinha o dom dos milagres. Indo, por devoção, visitar a Igreja de Nossa Senhora de Puy-en-Velay, entre os muitos pobres que lhe pediam esmolas, um cego disse ter tido a revelação de São Pedro que recuperaria a vista, se lavasse os olhos com a água onde São Mayeul houvesse lavado as mãos. O abade despediu-o com forte reprimenda, e, sabendo que ele pedira tal água aos domésticos, proibiu-lhes  terminantemente de fazê-lo. O cego não se desencorajou. Após ser despedido várias vezes, esperou o abade à beira do caminho, tomou o cavalo pela brida, e jurou não largá- lo antes de obter o que pedia.
Para que não fosse possível uma escusa, trazia água num vaso pendente do pescoço. O santo compadeceu-se, desceu do cavalo, benzeu a água segundo o costume da Igreja, fez o sinal da Cruz sobre os olhos do cego, depois, com os assistentes, se pôs de joelhos e orou à Santíssima Virgem. Antes de se levantar, o cego recuperara a vista...
Admirado pelos bárbaros
Em 973, São Mayeul regressava de Roma, acompanhado de grande número de homens de vários países, que se criam seguros na companhia de um santo. Mas, na passagem dos Alpes, foram atacados pelos sarracenos de Freysinet, que colocaram todos a ferros. O santo abade, cheio de aflição, pediu a Deus que ninguém morresse e foi atendido. Como alguns mouros zombassem da religião cristã, São Mayeul começou a mostrar-lhes com fortes razões a segurança da nossa religião e a falsidade da deles. Isto os irritou a tal ponto, que lhe algemaram os pés e o encerraram numa horrível gruta. Neste local, tendo o santo encontrado ao seu lado a obra atribuída a São Jerônimo, o “Tratado da Assunção da Virgem Santa”, pediu à Mãe de Deus que lhe fosse ainda concedido celebrar esta festa com os cristãos. Estavam a 23 de julho. Milagrosamente viu-se livre das algemas e os infiéis, estupefatos, passaram a tratá-lo com respeito. Permitiram que escrevesse a Cluny para obter seu resgate e de seus companheiros, e restituíram os víveres que haviam guardado como despojos de guerra.
Enquanto a quantia exigida não chegava, aumentou a devoção dos bárbaros pelo abade. Como este não estivesse habituado aos seus alimentos, preparavam um pão especialmente para ele. Certa vez, querendo polir um bastão, um sarraceno colocou o pé sobre a Bíblia que Mayeul trazia sempre consigo. O santo deixou escapar um gemido e o soldado foi pronta e severamente repreendido pelos companheiros. No mesmo dia este sarraceno, entrando numa briga, teve cortado o pé com que pisara a Sagrada Escritura.
Vindo enfim o resgate, São Mayeul foi libertado e celebrou a festa da Assunção entre os seus, como pedira. Os sarracenos de Freysinet não tardaram a ser completamente batidos por tropas cristãs, o que foi considerado como uma punição divina pelo aprisionamento do santo abade.
Em 994, quarenta e um anos depois de sua fecunda existência como superior de Cluny, consagrada à virtude e ao zelo pela disciplina monástica, São Mayeul passou ao repouso do Senhor, cheio de anos e méritos. Sua sepultura, em Souvigni, ficou célebre por tão grande números de milagres, que Pedro, o venerável, não receou dizer que, depois de Nossa Senhora, não há outro santo na Europa que mais milagres operou.
A Providência orienta as diversas formas de santidade
Por esses interessantes traços biográficos, percebemos como Deus via cada alma de acordo com uma orientação própria, correspondente aos desígnios d’Ele de dispô-las no universo de maneira ordenada e sábia, segundo formas diversas de santidade.
Então, para determinado tipo de alma está destinado um tipo de graça, e há uma conduta especial da Providência ajustada a ela, orientando os acontecimentos terrenos, produzindo-os, permitindo outros, de maneira que tais almas sejam fiéis a essas graças e realizem a forma de santidade à qual foram chamadas.
Isso se aplica de modo esplêndido no que diz respeito a São Mayeul.
Antes de tudo, é interessante observar como as pessoas daquele tempo procuravam viajar junto com os homens tidos por santos, certos de se verem mais protegidas do que se andassem sozinhas. É uma atitude que revela o espírito de fé do qual estavam animadas.
Porém, viajaram com este santo e na aparência Deus os iludiu, pois todos caíram presos nas mãos dos sarracenos. Portanto, a confiança depositada no santo parecia objeto de uma severa e amarga desilusão.
Ora, o que aconteceu?
São Mayeul, cheio de aflição, pediu a Deus que ninguém morresse, e foi atendido. Um outro santo qualquer poderia desejar o contrário, e rogar a Deus que, naquele momento, concedesse a todos a palma do martírio, ou pelo menos não pedir a vida para todos. Ficaria quieto, entregando nas mãos de Deus o destino deles, como aprouvesse à sua infinita sabedoria. Seriam modos diversos pelos quais as almas santas, sob influxos diversos da graça, respondem de maneiras distintas em semelhantes situações.
Confiança absoluta no auxílio divino
No caso de São Mayeul deu-se como o narrado, e ele foi atendido. Ninguém morreu, e a confiança que tinham depositado em Deus na pessoa dele foi, portanto, justificada. E o foi por uma espécie de superabundância, porque não só não morreram, como presenciaram uma série de maravilhas as quais terão feito imenso bem para as almas deles.
Em primeiro lugar, tiveram a graça de privar com um santo. Deus, na aparência de lhes tirar algo, de fato lhes concedeu mais do que imaginavam, ao contrário do que faz o demônio: quando este nos promete algo, é exatamente o de que nos irá privar. Nosso Senhor age de modo inverso, e não nos nega aquilo que nos prometera. De sorte que cabe a nós nutrirmos uma inteira confiança na misericórdia divina, pois acabará nos proporcionando o que parecia nos ter subtraído.
Assim, também aparentemente, Ele punha aqueles homens em risco de vida. De fato, Ele lhes deu a vida e muito mais do que esta, oferecendo-lhes preciosíssimos dons espirituais.
Analisemos um pouco estes dons.
Eles viram o santo entrar em discussão com os hereges e presenciaram a glória da religião manifestar-se pelo fato de os sarracenos não serem capazes de discutir e se irritarem. Constataram, por esta forma, a força dos argumentos da religião verdadeira.
Mais ainda. Viram o santo sofrer uma prisão injusta, ser algemado e duramente tratado por causa da defesa que fez da doutrina católica. Mas, testemunharam também esse outro lado da glória divina, que é o fato de o santo, depois de ler o “Tratado da Assunção da Virgem Santa”, ter feito um pedido e ser atendido milagrosamente. Quer dizer, foi libertado, as algemas se quebraram e os muçulmanos ficaram estarrecidos diante do ocorrido. Portanto, trata-se de uma insigne graça concedida por Deus a esses homens...
Ademais, puderam perceber como seus captores se tomaram de respeito para com o santo no qual não acreditavam, tributando-lhe toda espécie de atenções. E mediram a envergadura da intervenção de Deus, ao ser cortado o pé de um homem que tinha desprezado a Bíblia. E auferiram a maldade humana quando, apesar disto, os sarracenos não se converteram. Enfim, contemplaram o que consideraram um castigo divino pela prisão do santo, ou seja, a derrota das tropas de seus perseguidores.
De maneira que, tendo posto a sua confiança em São Mayeul, foram atendidos com uma verdadeira superabundância, e esse fato ficou registrado na História. Quase mil anos depois de ocorrido, pessoas de um país e de uma cidade que eles não sabiam poder existir, recordam com devoção e enlevo esse episódio.
Percebemos, portanto, quanto de bom e edificante resultou dessas peripécias de São Mayeul, na aparência ruins, fadadas ao insucesso e próprias a induzir as almas a não confiarem na Providência Divina.
Porém, a verdadeira lição a se tirar é o oposto: cumpre confiar sempre no socorro do Céu. E com um requinte.Diz-se que a justiça é cega; pois muito mais o deve ser a confiança. A Providência espera que confiemos contra todas as evidências, contra todas as aparências, conservando-nos fiéis apesar de todas as circunstâncias em contrário. Quando a pessoa passa longo tempo se exercitando nessa confiança irrestrita, acumula para si um inimaginável tesouro de misericórdia e recompensa.
O êxito através de aparentes abandonos
Peçamos, pois, a Nosso Senhor Jesus Cristo, pelos rogos de sua Mãe Santíssima e de São Mayeul, essa confiança cega que resiste a todas as evidências no sentido contrário, para a solução dos nossos problemas interiores, para obtermos misericórdia quanto aos nossos pecados e defeitos, e para alcançarmos a graça de progredirmos na santidade, em meio aos torvelinhos mais estranhos e às vezes mais lamentáveis da vida espiritual.
Confiar, confiar, confiar sempre, lembrando o que dizia São Francisco Xavier: o pior do pecado não é a falta cometida, e sim que a alma perca a confiança depois do pecado e continue a cair. Se o pecador não perder a confiança depois do pecado e confiar, mais dia menos dia ser-lhe-á dada a misericórdia.
Igual confiança devemos manter nas vicissitudes da nossa vida quotidiana, nas nossas dificuldades de apostolado, etc. E a esse propósito, convém considerarmos o seguinte. Segundo uma falsa filosofia do sucesso, tudo aquilo que fazemos tem de dar resultados visíveis e palpáveis, e todo insucesso nos deixa perplexos, não deveria existir e indica que Deus nos abandonou. Então, se tentamos, por exemplo, fundar uma escola e esta se fecha, significa que não a devíamos ter aberto. Deus nos abandonou. E assim por diante.
Ora, compreendamos que Deus nunca opera deste modo. Ele nos reserva o êxito através de muitos aparentes abandonos, ou através de muitas catástrofes reais, que resultarão depois na vitória. E é essa aceitação das catástrofes intermediárias que nos proporciona o resultado pleno que devemos desejar. Às vezes empreendemos algo e logo sobrevêm os reveses, não aquilo que esperávamos. Depois percebemos que Nossa Senhora nos obteve coisa incomparavelmente melhor do que a almejada por nós. Dessa maneira, nunca acontece de uma confiança não ser atendida nem coroada de êxito, embora por vezes de um modo que supera as próprias exigências e pedidos da mais afetuosa e humilde confiança. Portanto, esperar contra toda esperança, eis a fidelidade perfeita nessa virtude, a qual notamos naqueles homens que acompanharam São Mayeul.
Peçamos então ao santo abade de Cluny, alcance-nos a graça de aplicarmos essa lição nos episódios de nossa vida, discernindo a mão de Deus a nos guiar através dos túneis e precipícios mais desconcertantes, e a providência de Nossa Senhora pairando sobre nós, para nos dar sempre incomparavelmente mais do que desejamos. Amém.